terça-feira, 21 de maio de 2013

Ver e ouvir - Crónica de Daniel Teixeira


Ver e ouvir - Crónica de Daniel Teixeira
 

Eu sei que não é muito próprio estar sentado num café, ou em qualquer lugar, e ouvir a conversa que se passa entre os habitantes da mesa ao lado. Deve-se fazer ouvidos de mercador, de um mercador de silêncios, deve-se fazer de conta que não se ouve, mas ouve-se na mesma e as palavras ditas logo ali ao lado entram-nos pelo espírito dentro, sentam-se na cadeira da nossa existência e lá conquistam o seu lugar cativo.

Em certo sentido acabamos por fazer parte da conversa que se passa ao nosso lado, se disso não formos distraídos por outras coisas que consideramos mais importantes, emitimos interiormente aprovação ou desaprovação sobre aquilo que é narrado e criamos a nossa opinião. De meros ouvintes, consoante o teor e o interesse da conversa, passamos a ser actores nela, só que seremos sempre actores passivos. Ou pelo menos é desejável que assim seja...

Não se tendo passado num café o que vou contar a seguir, quero mostrar como é fácil, por vezes, passar-se de espectador a actor e em certo sentido apropriarmo-nos do próprio palco.
 

Cinema de Santo António em Faro (Já demolido)


Vem-me à memória agora um filme do Joselito «Coração de Ouro» que eu vi no defunto Cinema de Santo António, em Faro, que apresentava uma cena em que o na altura jovem Joselito vinha, já noite, após ser abandonada à sua sorte ao que me lembro, de uma travessia longa de dias de um território deserto, tropeçando com o cansaço, cheio de sede e fome e encontrou um cowboy que à volta de uma fogueira assava no espeto aquilo que parecia ser um coelho. 
 
Era pouco falador o cowboy e respondeu com um resmungo às boas noites do miúdo (acho que em termos cinematográficos ele representou um miúdo até aos vinte e tal anos) e o Coração de Ouro acabou por se sentar no chão perto dele e ficar a olhar com a pouca água que deveria ter no corpo a escorrer pela boca. Os minutos passaram-se e o cowboy não desatava nem comida nem água para o quase prostrado Joselito que de vista turvada já só via coelhos flamejantes a correr pela pradaria.

Demorou tempo, o cowboy estava numa de brincadeira, talvez testando a resistência do ocasional colega até que este lhe pedisse alguma coisa: água e comida (um pouco daquele coelho assado que estava logo ali, de preferência). E o Joselito, de cara esmolar mas em dizer palavra, olhava para o cantil e para o coelho que rodava no espeto, seguia milímetro a milímetro o percurso da faca do cowboy que com minúcia retirava finas fatias de carne e as levava à boca, mastigava-as, engolia, bebia um gole de água e ainda por cima fazia estalar a língua de prazer.

Esta comovente e sádica cena deixou o público de lágrimas nos olhos por muito tempo. Até que um habitante da plateia, não se contendo mais, se levantou e em voz bem alta, implorando e vociferando soltou um sonoro: «Dá comida ao miúdo, meu grande c...».
 


 
Claro que o drama joselitiano continuou só na tela: ninguém mais se interessou por ela; o homem, o actor do momento, o homem da hora, estava na plateia, logo ali, recebia até aplausos, embora houvesse no ar uma grande sensação de gozo.

Os verdadeiros actores estavam agora todos na plateia e o drama passou a comédia num ápice. E eu vi, naquela noite, aqui em Faro, em dois minutos as Origens da Comédia enquanto que Nietzsche teve de fazer um livro de razoável volume para descrever as Origens da Tragédia.

E o Joselito poderia ter tragicamente baqueado ali, logo nas nossas costas, à vontade do realizador que isso passou a ser indiferente.

Daniel Teixeira

Crónica

As outras figuras típicas


As outras figuras típicas

Há dias, bastantes, passei por um blogue de Coimbra e acabei por me deter um pouco mais: o meu objectivo era encontrar figuras típicas algarvias e entre elas o Gaiana e outros, que fizeram parte da história da cidade de Faro. Fui ter a Coimbra chamado por uma imagem na google e por ali fiquei preso durante o tempo necessário pela reflexão do titular do Blogue «Questões Nacionais», Luís Fernandes.

O chavão de que as palavras são como as cerejas aplica-se usualmente nestes casos, mas o texto do Luís Fernandes chamou-me a atenção para uma outra perspectiva daquilo que faz entrar dadas pessoas dentro da denominação de «figuras típicas» sem que o sejam de facto, não porque não façam parte do ambiente citadino, não porque por exclusão de partes as tenhamos de englobar nesta denominação, mas porque, «simplesmente» não são figuras naquele sentido activo do termo, não sobressaem, não se fazem notar. E é disso que o Luís Fernandes fala e cuja dissertação eu vou aproveitar.

Relata o autor dois casos que são interessantes, dentro desta semi - trágica situação que é a vida em sociedade. Vou ser um pouco mais longo do que previ ao começar este texto mas interessa referir que este autor no seu blogue analisa o número de visitas ao seu Blogue de acordo com estes eventos que noticia, tentando demonstar uma plausível tese, de que «aqueles que da lei da sombra se não libertam em vida acabam por libertar-se dela após a sua morte.»

Cito

a) (...) Há um ano, na data de 26 de junho, faleceu o Luís Miguel, mais conhecido entre nós por «Aspirante» – o Luís tinha 40 anos quando num estúpido acidente adormeceu na berma do Mondego e, segundo o pai Max, veio a cair no rio. Era tratado pela alcunha de «Aspirante» precisamente porque fora a patente que tivera enquanto cumprira o serviço Militar.

Enquanto decorria o tempo de tropa viera a sofrer um grave desastre, em que faleceu um seu amigo. Pelos danos causados, nunca mais recuperaria o senso. Durante muitos anos vagueou pela cidade. Aparentemente, não desencadeava exteriorizações de extraordinário afeto. Parecia ser apenas mais um personagem que deambulava pelas ruas estreitas e largas do casco urbano de uma cidade velha.

Quando, nessa altura, escrevi a crónica a anunciar o seu precoce desaparecimento, para além de ter recebido mais de uma vintena de comentários dolorosos e a lamentar a sua morte, só nesse dia tive 8438 visitas aos textos que reportavam a sua passagem entre nós – a média diária de visitantes assinalados anda por volta de 500.

b) (...) Há dias escrevi sobre a morte súbita do Adelino Paixão, noticiada pelo jornal Diário as Beiras - o Paixão, tal como o Luís Miguel, era mais uma figura típica da Baixa que, também na aparência, poucos lhe ligavam. Nesse dia, abruptamente, o blogue disparou também o contador de visitas.

(Fim de citação)

A reflexão do autor sobre este facto estende-se por planos que agora aqui não cabem, tal como a nossa atitude perante o outro (o ignorado) e a nossa visão no outro (ignorado) daquilo que nós poderiamos ser e não somos, pelo que aconselho vivamente uma leitura do texto completo aqui .

Ora bem, e regressando ao fulcro da minha questão, eu fiz uma pesquisa, sobre as figuras típicas e encontrei referências a algumas que andaram aqui por Faro, tal como o Gaiana, O Menino Chico, O Tóki. Contudo não encontrei uma única referência ao «Marrequinho da Chaveca».

Certo que ele faleceu cedo, para quem tem memória dele eu teria talvez os meus dez anos ou pouco mais ou pouco menos. Não era, por aquilo que me fui lembrando uma figura extremamente popular, mas andava por aí, pela cidade.

Depois soube-se do seu falecimento em cirunstâncias horrorosas, num daqueles crimes que agora são juridicamente apelidados de horrendos. Apareceu na Chaveca (arredores de Faro) onde vivia numa ruína enforcado numa árvore, enfiado dentro de uma saca de juta, assassinado provavelmente por alguma «brincadeira» daquelas que por vezes são notícias nos jornais quando se trata de dementes ou pessoas com poucas capacidades.

Não foi morto (enforcado) e colocado dentro da saca: foi enforcado dentro da saca. Nunca se soube quem terá (terão) sido o (s) assassino(s) e duvido que naquela altura houvesse grande preocupação das entidades responsáveis para levar longe o inquérito. Afinal sempre era um «zé ninguém»...

E por aqui me quedo com uma reflexão sobre as reflexões do eu e do outro e do outro de nós mesmos: o que levou ao anonimato quase total do «Marrequinho da Chaveca»? Enquanto viveu muitos reparam nele, não era uma daquelas personagens descritas acima pelo Luís Fernandes.

Faleceu em circunstâncias marcantes. Não vi quem falasse nele. Talvez, penso eu,  porque o mais marcante na vida dele tenha sido a forma como morreu.

Paz à sua alma...

Bom filme na Esplanada de S. Luís (anos 60)

 

Bom filme na Esplanada de S. Luís (anos 60)

Ao ver uma imagem da Antiga Esplanada do Cinema de S. Luís em Faro, mais tarde substituída por um conjunto de imóveis, lembrei-me (em alturas da Grândola, Vila Morena) que tinha eu aulas com o Zeca Afonso, na Escola Industrial e Comercial de Faro, quando entre as conversas que se iam tendo ele anunciou que ia passar nessa Esplanada (estávamos em meia estação, Junho ou Julho) o Filme «A Ilha Nua».

Fiz uma recolha sobre este filme, que já tinha procurado há meses sem o conseguir encontrar (faltava-me o nome do realizador - o japonês Kaneto Shindô) e abaixo deixo essa nota com link para o vídeo com o filme completo, mas antes gostaria de referir como foi recebido esse filme pela «crítica» farense.

Quem vive ou viveu em Faro sabe que havia uma clientela constante no (s) cinemas. Os dois que havia eram do mesmo proprietário, salvo erro Castello Lopes gerida pelo saudoso poeta e senhor da cultura farense Marques da Silva (Marmelada).

Assim essa clientela «certa» ia ver tudo o que era filme (ainda fiz isso uns quantos anos também) uma vez que a televisão era ainda rara, os programas eram pouco atractivos, enfim... e o Cinema (como local) era um excelente meio de convívio: antes dos filmes, nos intervalos e depois dos filmes.

Pois bem, os «intelectuais» bebiam o filme como mandava a praxe (mesmo que não gostassem) e os habitués protestavam contra o dito. Bem, de esclarecer que a história era interessante e já a conto lá mais para a frente, mas o filme tinha um problema que era a ausência de diálogos, ou seja, era um filme em que a única coisa que se ouvia era o ruído de fundo: do mar, do chocalhar dos baldes, do barco, enfim, os dois personagens, marido e mulher, não diziam uma palavra entre si. Dedicavam-se à sua faina por inteiro.

Ora a faina era plantar arroz numa ilhota (nua - daí o nome do filme) que não tinha água. Esta era transportada em baldes dentro de um bote, retirada nos baldes e levada a regar os pés de arroz que se estendiam por uma encosta. Todo o filme retratava isso, o dia a dia do casal, que não fazia mais nada de manhã à noite. Salvo erro nem se vê eles a comer...mas aqui passo à visão do filme.

A parte «moral» tinha lugar no fim, em que o marido ia entregar uma parte do arroz colhido ao proprietário da Ilha. O que eu me lembro bem de ter notado é que as pessoas não protestavam (aquelas que protestavam) contra a lentidão e as repetições das cenas, mas sim pelo filme não ter «palavras = diálogos».

Aconselho este filme, tendo em atenção saber-se que o cinema japonês desde há muitos anos (este filme é dos anos 60) dá cartas em termos de qualidade e inovação.

Daniel Teixeira

«A Ilha Nua», do cineasta japonês Kaneto Shindô.

O filme apresenta a rotina de uma família de pescadores que habita uma das ilhas do oeste do Japão, lugar de belas paisagens e também de desafios para a sobrevivência da família como a escassez de água e alimentos.

Apresentando nuances de documentário, “A Ilha Nua” apresenta uma poesia visual da vida do homem simples em meio às adversidades da natureza, tudo isso junto com uma trilha incidental que ganha destaque devido à ausência de qualquer diálogo no filme.

“A Ilha Nua” venceu o Festival de Moscou e foi candidato ao BAFTA, maior prêmio do cinema inglês. É um clássico do cinema japonês feito pelo diretor de “Onibaba, A Mulher Diabo”, que marcou toda uma geração de cinemaníacos no início dos anos 60.
 
 
 

Filme completo aqui (1h 36 m)
 

segunda-feira, 20 de maio de 2013

Boleias iniciadas em direcção a França

 
Boleias iniciadas em direcção a França
 
A boleia pela Espanha e em direcção a França, começou bem, logo ali nos arredores de Fuentes de Oñoro até Ciudad Rodrigo, que era a zona onde mais se temia uma acção inconveniente dos carabineiros espanhóis, que era o recambio para Portugal, dada a proximidade relativa com a fronteira portuguesa.
 
Na nossa mente colocava-se bem forte a ideia de que a acção dos carabineiros ali caso nos vissem seria a de nos levar em jeep até à fronteira de Vale Formoso, relativamente próxima, e lá entregar-nos sumariamente aos seus colegas portugueses (na altura Guarda Fiscal) pouco se importando eles com aquilo que nos sucederia a seguir.
 
E este «a seguir» não era simplesmente uma presença num tribunal qualquer, mas sim num tribunal militar ao qual não foi nunca aconselhável a ninguém estar presente na altura (e nem agora, embora as razões e as situações possam ser diferentes).
 
Apesar da tranquilização psicológica obtida após um copo de bagaço (isto às seis da manhã, sensivelmente) fornecida pela pequena comerciante fronteiriça espanhola para onde estava direccionado marcar o ponto, a altura e a relativa gravidade da situação não era muito propícia a tranquilizações verbais e felizmente não chegámos a ter de testar a força do argumento da senhora e ainda bem.
 
«Se têm Bilhete de Identidade não têm problemas com os carabineiros!» foi o que ela nos disse. E passámos perto do quartel deles (tínhamos mesmo de passar pois não havia outro caminho) e não vimos vivalma nem de sentinela.
Estava um frio de rachar, é um facto, pouco propício a patrulhamentos de rotina, mas só ficámos mais tranquilos quando nos fizemos à estrada propriamente dita, a pé, claro, distanciando-nos progressivamente do bordejar fronteiriço português.
 
A fama dos carabineiros não era muito favorável a votos de confiança e havia até uma certa mitologia que os conseguia colocar degraus acima de alguma brutalidade conhecida das nossas forças da ordem, o que pode parecer difícil de aceitar para quem viveu neste período e teve de se confrontar com os «nossos», mas era mesmo assim.
 
Aquele chapéu com três bicos que eles usam ou usavam faz lembrar terrores quase medievais e mais proximamente agora as tropas napoleónicas bem menos temporalmente medievalizadas.
 
Não eram uma polícia simpática mesmo que se rissem ruidosamente como os vimos fazer depois já mais à frente dentro de Espanha e é preciso não esquecer que era também para nós de difícil compreensão aquele acordo de «deixar passar os portugueses» quando a Espanha vivia no nosso período salazarista em pleno período franquista.
 
Felizmente ao fim de cerca de dez minutos foi-nos fornecido um transporte até Ciudad Rodrigo para chegarmos depois de autocarro a Salamanca, onde tínhamos um outro ponto de encontro. Um emigrante português, sozinho no carro, tinha vindo rezar a Fátima e teria passado em Vilar Formoso e acedeu a levar-nos aqueles poucos quilómetros.
 
Posso parecer mal agradecido, mas o meu compatriota conduzia mal como tudo e apesar de alguns sustos e comparando abstractamente achámos menor o risco de ir com ele no carro do que tropeçar com a temida Guarda Civil, mesmo que ela se tenha mostrado inocente para nós até ao final do nosso percurso.
 
Em Salamanca era suposto termos um guia que nos levaria pelo menos até Madrid, mas embora não fosse já calculado por nós não nos surpreendeu que esse nosso guia tivesse mais que fazer nesse dia, tinha um espectáculo algures por ali e não lhe dava mesmo jeito nenhum foi o que nos disse.
 
Mas fez o mapa do nosso percurso e disse-nos então que a boleia era um meio eficaz de transporte aconselhando no entanto a que nos separássemos uma vez que é difícil encontrar boleia tripla. Assim e a partir de Salamanca foi cada um por si, no melhor sentido, ficando o primeiro e o segundo a chegar a Irun de esperar pelos restantes.
 
Aqui também nada disto aconteceu, não por falta de vontade de cada um de nós, mas acabámos por nos reunir já em França e ainda bem que essa foi a solução mais lógica como alternativa porque o último a chegar levou quase uma semana a bater-nos à porta.
 
Nada de mau lhe tinha acontecido mas tinha tido dificuldades em arranjar boleias: dormia em pensões rascas, sem serviço de despertar e tinha vindo quase directamente das «saias» da mãe que, segundo nos disse, por vezes lhe levava o pequeno almoço à cama.
 
Era, para ele, muito difícil acordar a horas convenientes para apanhar boleia, a preferência e o uso começava logo de manhã cedo, pelo que ele secava nas estradas muitas vezes quase até ao anoitecer para conseguir dar um «salto» de poucos quilómetros.
 
Eu, quando cheguei ao país basco, comecei a encontrar grande dificuldade em obter boleia.
 
Estávamos num período de grande actividade dos independentistas bascos o que era também patente pelo elevado número de tropa com que se tropeçava quase a cada passo.
 
Percorri quase toda a Espanha sem ter visto mais que o normal de soldados (espanhóis, neste caso) mas no País Basco eram como cogumelos: como gozo ficou-me na memória que tendo ido a um urinol público nele estive eu e três soldados durante aqueles curtos minutos.
 
Depois de ter dado a vez a um colega japonês na única boleia com um só lugar que nos apareceu era já quase noite e quando estava já a poucos quilómetros da fronteira Espanha - França, resolvi optar por um táxi e isto porque a moeda portuguesa na altura ainda valia qualquer coisa e as pesetas estavam fracas.
 
Em boa hora o fiz, embora a intenção primeira não fosse essa: conversando com o taxista sobre como passar para «o outro lado» ele mesmo me pôs logo à vontade e prontificou-se a fazer também isso o que afinal até era fácil.
 
Ele mesmo falou com os guardas espanhóis naquela que foi a primeira vez em Espanha que tive de mostrar o Bilhete de Identidade, e eles foram lá dentro ver talvez a questão dos mandatos de captura, mas sobre mim não havia notícias, como a continuidade mostrou.
 
Nem boa viagem me desejaram o que já não aconteceu no posto de França logo a seguir onde até fizeram o cumprimento habitual, tipo continência militar e me trataram sempre como senhor.
 
Dei as indicações que me pediram, era preciso ter uma morada algures em França que fosse ponto de referência e passaram-me então aquilo que se chamava de salvo-conduto que dava para atravessar toda a França sem problemas. Tinha validade de um mês mas depois tinha de ir à Prefeitura (Governo Civil lá do país) para tratar da efectivação da papelada.
 
E foi assim...
 
 

O «meu» Espaldão ou Carreira de tiro em Faro

 
O «meu» Espaldão ou Carreira de tiro em Faro
 
Começando pelo princípio e porque o nome não é do conhecimento comum vai aqui uma ajuda da Wikipédia:
 
«Em arquitetura militar, um espaldão é um anteparo de uma trincheira ou fortificação, servindo para proteger a artilharia e a guarnição que lá se encontra. Um espaldão pode ser feito de alvenaria, terra, sacos de areia, betão ou outros materiais. Também são utilizados espaldões nas carreiras de tiro, com intuito de evitar que balas perdidas saiam para o seu exterior.»
 
Isto da cultura é uma coisa interessante. Aqui em Faro sempre se denominou de «espaldão» todo o conjunto de terreno que abrigava a carreira de tiro onde o regimento de Faro fazia os seus exercícios de tiro.
 
Pois pelo que se lê acima, um «espaldão» é exclusivamente a barreira «que evita que as balas perdidas saiam para o exterior», ou seja, e vendo a foto, o «espaldão» de Faro está situado na parte inferior esquerda e é um simples (mas enorme) monte de areia que tinha por função sofrer o impacto das balas e permitir que elas por ali ficassem.
 
A carreira de tiro, propriamente dita é que deve ter a denominação que é dada a todo o espaço, incluindo o tal espaldão, as fossas para os colocadores de alvos que se vêm nitidamente no enfiamento directo paralelas entre si e perpendiculares ao espaldão , e as barreiras/suporte de arma de atiradores, que conforme se pode ver estão distanciadas perpendicularmente às fossas dos alvos com distanciamentos entre si para tiro a 50 metros, 100 metros, etc. tal como fosse da praxe na altura.
 
Pois bem, as fossas dos alvos permitiam que os soldados que os colocavam se deslocassem para uma posição ou outra (mais distante ou menos distante) após cada sessão de execução de tiro. Era nessas fossas que o pessoal miúdo da altura brincava (fora dos períodos de tiro, como será claro).
 
Antes de falar num episódio interessante que teve lugar devido à existência destas fossas laterais ao espaldão, gostaria de acrescentar que os cartuchos dos disparos eram por princípio recolhidos pelos próprios atiradores para voltarem ao quartel e serem então enviadas para a fábrica de material de guerra para recarregamento.
 
Lembro-me bem da ordem que era dada «Aos alvos!», altura em que o pessoal arrancava da sua posição para recolher os cartuchos e isto depois de ser assegurado que não estava mais ninguém em posição de tiro: não era preciso estar a disparar (o que acabava com um «Alto!»), bastava não estar de pé, e era feita uma verificação sumária de que todos já tinham consumido os seus cartuchos.
 
Neste espaldão, onde as balas ficavam incrustadas, de metal, como é claro, era permitido que as pessoas as recolhessem. Muito particularmente o «trabalho» estava quase em exclusivo destinado a pessoas de etnia cigana ou eles tinham-no reservado para si e não me lembro de ter por lá visto outras pessoas.
 
Não sei o que eles faziam com esses bocados de metal, amarrotado, mas não me parece que o fossem vender ao quartel. Na verdade era de toda a conveniência manter o espaldão o mais limpo possível de balas, na medida em que estas, apesar de ser remota a possibilidade, podiam servir de factores de ricochete das balas disparadas em doses maciças em dias de exercício.
 
Pois bem, e regressando às valas dos alvos, houve uma altura em que supostamente apareceu um fantasma à meia noite e às quartas feiras, se não estou enganado quanto ao dia da semana.
 
O fantasma da carreira de tiro correu de boca a orelha e eram diversas as interpretações sobre o perfil do mesmo (fantasma) seguindo o princípio do «fulano disse que era assim, porque beltrano lhe disse que sicrano bem viu, etc.».
 
Aparentemente este fantasma era tradicionalista, segundo os relatos, e não dispensava o lençol branco, e era este o único ponto mais comum. Mas havia mistério, de facto, porque o dito ser do «outro mundo» aparecia à flor do terreno caminhando (ou sobrevoando) o espaço entre as duas paredes das valas, que segundo me lembro tinham talvez entre 2,5 e 3m de profundidade.
 
Os mais científicos, pensando num gozo de alguém o que até fazia falta naquela altura, haver um gozo, diziam que era alguém com andas (como essas que se usam nos circos) que lhe alongavam as pernas e permitiam assim que ele parecesse cerca de 3 metros mais alto, tendo por ideia que ele andava dentro das fossas ou valas.
 
Essa ideia tinha base mas colidia com o acidentado do fundo das valas. Qualquer pessoa que se aventurasse a utilizar uma coisa dessas, ainda por cima com aquele tamanho, arriscava-se a dar um trambolhão ao tropeçar nas inúmeras pedras que o fundo das valas tinham, e presumivelmente a ver encarecer a sua brincadeira talvez com uma real passagem para o «outro mundo» mesmo.
 
A coisa tornou-se pública em Faro, sobretudo entre a malta jovem e foram cativados para a causa também alguns mais seniors, pelo que uma noite juntaram-se cerca de cinquenta a cem pessoas para «ir ver o fantasma».
 
Não estava previsto qualquer acto de violência contra a seguramente atormentada alma (colocava-se a hipótese de ser um soldado ali falecido por acidente) e bem esperámos mas nada. O pessoal bem gritava «ò fantasma está na hora!!ò fantasma está na hora!!» assim que bateu a meia noite, mas nada.
 
Foi uma verdadeira frustração e era uma das primeiras oportunidades da minha vida para ver um fantasma, ao «vivo» e depois disso nunca vi nenhum. Debandada geral. A partir daí nunca mais se ouviu falar no «fantasma da carreira de tiro» e os outros que foram sendo citados como frequentadores de outros pontos da cidade não tinham aquela carga emocional que aquele teve.
 
Tenho saudades dele...e lá para onde ele se tenha deslocado desejo-lhe as maiores felicidades embora tenha ficado muito ressentido.
 
 

O soldado e o engraxador

 
O soldado e o engraxador
 
Alcântara - Lisboa, onde eu vivi alguns anos, mantém ainda o largo que antecedia a linha férrea e que era, e deve ser ainda, extremamente movimentado sobretudo ao domingo de manhã.
 
Naquele tempo (anos 60/70) independentemente da sua profissão de origem quem queria fazer mais uns cobres, para alinhavar o dia ou a semana, pegava numa caixa de engraxador, fácil de fazer com uma caixa de sabão e meia dúzia de pregos, mais o material necessário para os sapatos, como será claro e plantava-se encostado a uma parede ou onde desse mais jeito.
 
Que eu me lembre havia à volta de uma vintena, pelo menos, de profissionais desta arte e apesar da concorrência ser forte não havia luta de preços, tanto custava engraxar aqui como ali, o preço era sempre o mesmo e não era muito elevado pelo que chegava a haver fila à frente de cada um destes biscateiros.
 
O forte da afluência de clientes era de pouca dura, talvez duas ou três horas no máximo, entre as 9 horas e o meio dia e embora o serviço não saísse prejudicado no seu cuidado, notava qualquer um que aquilo era chegar e embarcar e que «os caixas» não tinham mãos a medir.
 
Ora um dia, estava eu na fila e era o próximo e estava logo a seguir a um soldado fardado que tinha um saco na mão. As botas da tropa são enormes, como se sabe, e naquelas condições não havia tabela ao centímetros quadrado pelo que «o caixa» já havia um bom bocado que olhava de revés para o soldado.
 
Eram ambos moços novos, «caixa» e soldado mas eu já estava à espera que houvesse pelo menos alguma discussão, ou um acelerar exponencial do preço base de forma a que o soldado desistisse e tentasse procurar preço mais apetecível noutro lado.
 
Era um trabalho que não convinha ao engraxador porque enquanto engraxava um par de botas era bem capaz de engraxar três pares de sapatos.
 
Pois bem, não chegou a haver discussão de preço: o soldado quando chegou a vez dele puxou do saco um par de botas cheias de lama, que deveriam ter vindo directas de alguma instrução lamacenta, pintalgadas pelo cano acima e com as solas com uma camada razoável de crosta de terra endurecida.
 
O engraxador foi aos arames, recusou-se a fazer o trabalho, o soldado protestava que era a função dele engraxar pelo que tinha de fazer ficar a luzir as suas botas, enfim, houve troca de socos, apitos da polícia e um bom rebuliço naquele largo onde os frequentadores que ali cirandavam davam muito por uma boa cena de acção.
 
A actividade do engraxador era ilegal e com a chegada da polícia todos os seus colegas debandaram como ele, uma vez que a polícia tinha por hábito apreender as caixas e o dinheiro feito.
 
O soldado ficou com as botas na mesma e eu com os meus sapatinhos também. Nesse dia já não houve graxa para ninguém...

Missão possível

 
Missão possível
 
Uma manhã, mais propriamente de madrugada, recebi uma mensagem no meu telemóvel com um intrigante texto: «Tem missão. Recolher indicações no sitio do costume.»
 
Primeiro devo dizer que tenho tido sempre missões, sendo a mais importante agora procurar sobreviver no meio desta confusa amálgama de crises sucessivas e que para isso não preciso de recolher indicações em lado nenhum até porque não as há.
 
Embora não seja um ás no que respeita à resolução dos meus problemas normalmente faço esse exercício por mim mesmo e sem necessitar de indicações.
 
A mensagem veio ter ao meu telemóvel por engano no número, foi o que pensei ainda meio ensonado, lembrando-me de uma outra, também recente em que uma tal de Mikkas dizia precisar de vir tomar banho a minha casa porque o esquentador dela não funcionava.
 
Ora a Mikkas não apareceu (fosse ela quem fosse) e aquela missão anunciada devia pertencer à mesma família dos enganos. Voltei a dormir e quando chegou a hora vesti as minhas ainda existentes e parcas vestes e saí para tomar uma bica e comprar tabaco.
 
A senhora da tabacaria, sempre simpática, prestável ao extremo, contrariamente àquilo que era costume não me fez passar à frente na fila dos totolotos e embora andasse de um lado para o outro com o meu pedido maço de cigarros parecia estar a fazer tempo, manipulando o maço de cigarros entre os dedos como se estivesse a tomar-lhe o peso e o volume.
 
Assim que o espaço vazou, entregou-me o maço de cigarros e um envelope amarelo que tinha atrás do balcão dizendo-me «está aqui tudo e são três euros e setenta!» com uma expressão extremamente grave onde dificilmente se notavam os traços da sua costumaz simpatia que naquele dia foi ultrapassada por um pungente olhar quase lacrimejante.
 
Entendi que «aquilo» que ela mostrava na sua lastimante face estava relacionado com a minha ainda não acreditada missão. Logo ela tinha aberto o envelope, tinha lido o que lá estava e tinha pesado através disso a possibilidade de perder para sempre um cliente e fazer menos três euros e setenta de caixa diária.
 
Fiz-lhe pois um olhar tranquilizador e confiante, levantei o polegar em «ok» arrancando-lhe um sorriso forçado e enveredei em direcção à casa de banho do mercado para abrir o envelope longe de olhares indiscretos, sujeitando-me durante minutos a um cheiro terrível.
 
Acho que foi essa a parte mais difícil da minha anunciada missão, na qual começava já a acreditar. O resto foi praticamente um petisco. Segui à risca o que lá estava dito, fiz aquilo que tinha de fazer e ficou tudo bem.
 
Ainda hoje estou para saber quem me encomendou aquela missão e gostava mesmo de saber porque lá dizia que «o pagamento do serviço» seria efectuado dentro de quarenta e oito horas e já lá vai uma semana e nada.
 
 

Os Carvoeiros de Lisboa

 
Os Carvoeiros de Lisboa
 
Eu praticamente nasci ao lado de carvoarias aqui em Faro, não propriamente aquecido pelo calor das brasas, mas tinha um vizinho que era carvoeiro e que morava duas ou três portas ao lado da minha e que por sua vez tinha um armazém de carvão no Beco Ataíde de Oliveira, o senhor Faneca, onde eu ia comprar o carvão que fazia falta lá em casa e não era só em alturas específicas de churrascadas e coisas assim.
 
Tínhamos um forno na casa onde morávamos na altura e a minha mãe, montanheira de raiz, cozia muitas vezes o nosso próprio pão e por ausência de lenha usava carvão.
 
Para além disso havia os fogões a petróleo antes do gás se vulgarizar e o dito era também comprado maioritariamente na carvoaria. A mercearia da esquina também tinha petróleo à venda, num bidon encimado por aquelas bombas manuais, iguais àquelas que mediam o azeite, mas dava mais jeito comprar o carvão e o petróleo no mesmo sítio.
 
Bem, antes de avançar para Lisboa, é preciso fazer notar uma coisa que normalmente é pouco difundida: algumas pessoas, sobretudo relacionadas com a venda de material energético ou com ele relacionado ou com uma incorporação grande de energia no seu fabrico, viram os seus stocks valorizarem-se exponencialmente durante o período da 2ª guerra mundial e, em parte por via disso, penso, o senhor Faneca era considerado pelo menos remediado.
 
Tinha casa própria, o que era uma raridade naqueles tempos mas continuava com o seu carro de mula a vender carvão de porta em porta. O carvão tem pó, como se entende, e o pó é preto como se deve saber ou calcular, pelo que o senhor Faneca quando regressava a casa depois de um dia de vendas e negócios, todo enfarruscado, entrava pela porta do quintal, despiria logicamente a roupa de trabalho, lavava-se e só depois entrava em casa. Eu não assistia a essas operações, como será claro, mas passado algum tempo do seu regresso a casa ele aparecia ou à janela ou à porta da frente impecavelmente trajado o que fazia adivinhar o seu percurso anterior.
 
Nesse beco que falei atrás era o seu armazém, uma casarão enorme, com o carvão «arrumado» em monte para aí com três ou quatro metros de altura e uma base de pelo menos cem metros quadrados. Era onde uma senhora estava encarregada de tomar conta da loja e vender o carvão durante o dia. Aí só havia carvão e petróleo.
 
Por outras razões, compra de material de construção nomeadamente telhas e tijolos avulso, frequentava amiúde duas carvoarias que havia na Rua Cruz das Mestras, onde se comprava também gesso, cal viva, cimento, etc. Assim, carvoarias em Faro, na minha memória e posso falhar, tinham como função alternativa a venda de material de construção (cheguei a comprar também azulejos lá, daqueles brancos, para casas de banho como era uso na altura).
 
Ora quando fui fazer um «estágio» de alguns anos a Lisboa fui viver ma zona da Alcântara, mas parece-me que este fenómeno que vou relatar mais à frente é comum em toda aquela zona (vi - por alto - até Oeiras, acrescento).
 
O meu tio, já falecido, excelente homem e que gostava muito de mim, entendia que me devia ensinar a ser «homem». Ele era do Norte, não que isso seja uma qualquer marca distintiva, mas a confraternização, para ele, só episodicamente passava pela bica e pelo galão: o copo de vinho, salutarmente doseado, era o pretexto para dois dedos de conversa e como ele ele era fanático pelo Atlético (que ainda jogou contra o Farense na 2ª Divisão) e como aquele pessoal por ali andava quase todo pela mesma onda, eram horas de bate papo aos fins de semana com um ou dois copos de vinho, esclareço. Não me lembro de se ter passado disso...
 
Ora, onde é que nós (sim, eu também!) íamos beber os copos tertulianos? No Carvoeiro. Pois era isso, o que para alguns pode parecer normal, para mim, formado na escola da carvoaria complementada com materiais de construção, foi estranho.
 
Claro que os Carvoeiros tinham os sectores divididos: num lado carvão, noutro lado barricas de vinho. Mas ali não se ia à taberna (talvez fosse pejorativo, não sei), ia-se ao carvoeiro. Balcão de cimento e azulejo de tampo e cobertura e era assim.
 
Podia terminar aqui porque a história estaria contada, mas na pesquisa que fiz verifiquei que existem muitos restaurantes em Lisboa e arredores que têm o nome de Carvoeiro e não encontrei um só aqui no Algarve.
 
 

O soldado desconhecido

 
O soldado desconhecido
 
Naquele dia o Narciso chamou-me, ia eu passando em frente à Igreja dos Capuchos, em Faro, que estava de portas abertas o que era sinal de que havia lá um defunto a ser velado. Ele estava à porta da Igreja quando me viu e disse-me para ir ali «ver aquilo» e aquilo era um defunto no caixão vestido com um pijama de hospital.
 
Eu conhecia o moço, disse-me ele, mas eu não o consegui conhecer, não porque estivesse desfigurado mas porque não conhecia mesmo mas o Narciso insistiu que eu conhecia sim, que era um moço que morava para os lados do sítio do Escuro e que ajudava a Tia Adélia, a dona da taberna, a arrumar as grades das cervejas e noutros trabalhos mais pesados que ela já não podia fazer porque já era velhota, a Tia Adélia, e era viúva.
 
Eu praticamente nem conhecia também o Narciso, ele é que me conhecia a mim, pode parecer estranho mas é mesmo assim, ele falava-me sempre como se fossemos conhecidos de longa data e eu não me lembrava de alguma vez o ter encontrado senão num dia em que ele foi receber uma renda de uma casa ao escritório porque a gente tinha ficado encarregados de receber essa renda e naquele dia apareceu ele e não a mulher dele como era costume e ele então disse:
 
«Então és tu que estás aqui? Vê lá que a minha mulher nunca me disse que eras tu que aqui estavas!» e ficou muito admirado disso mas eu também não conhecia a mulher dele assim como ele pensava que eu a conhecia e nem ela me conhecia assim como ele pensava que ela me conhecia.
 
Só a conheci melhor depois, lá na Igreja, quando ela veio mas já vou a essa parte porque o Narciso estava revoltado com aquilo, achava que era uma vergonha e uma ofensa tratar assim um falecido, nem sequer lhe vestir uma roupa decente e deixá-lo ficar ali no caixão em pijama.
 
Eu também achei mal e perguntei se ele tinha falado com os homens da funerária e ele disse que sim, tinha ido lá, era ali perto, mas eles nem sequer tinham ido ainda ver o falecido porque andavam a tratar da papelada para o funeral porque era o primeiro da tarde logo às duas horas.
 
Havia ali uma sequência de coisas que faziam com que o moço estivesse naquele traje, em pijama, num caixão, pois tinha sido uma agência de Lisboa que o trouxera porque ele tinha falecido em Lisboa e depois tinha-o entregue verbalmente aos seus colegas aqui em Faro.
 
O moço tinha tido um AVC aqui em Faro mas tinha seguido de urgência para Lisboa, veio um helicóptero da Força Aérea e tudo, e levou-o mas lá também não tinham conseguido fazer nada e o moço tinha mesmo falecido.
 
E eu conhecia o moço sim, ele tinha estado na Guiné, na tropa, e veio um pouco passado, foi o que o Narciso me disse, pouco tempo depois de voltar a mulher separou-se dele e agora não tinha ninguém e por isso andava naquela miséria a ajudar a velhota da taberna e a receber uns trocados da velhota e de outros amigos que tinham pena dele e que o ajudavam também com dinheiro, com roupas, com comida, enfim, o pobre do moço estava uma desgraça e ainda por cima acabou por ter um AVC que é uma coisa para gente com mais idade, foi o que o Narciso disse.
 
Quando chegou a mulher dele ela também ficou escandalizada por ver o moço naquelas condições e disse ao marido, ao Narciso, para ir a casa buscar um fato que ele tinha mais ou menos o corpo do falecido e que o fato mesmo que ficasse largo ao moço não fazia mal, mas que assim ele já ficava composto, foi o que ela disse. E o Narciso foi então a casa e ela ainda lhe gritou para ele trazer o fato preto, que já lhe estava apertado a ele Narciso e que assim ficava tudo bem.
 
Foi então que ela olhou um pouco melhor para mim e me disse que me conhecia do escritório onde ia receber aquela renda porque o inquilino tinha ficado zangado com eles porque eles não lhe tinham feito as obras na casa como ele queria e «nem podia ser» disse ela, com aquela renda que ele pagava levavam dez anos para reaver a despesa e não dava mesmo e a coisa tinha ficado assim, ele ia pagar lá ao escritório e eles iam lá buscar todos os meses e ter casas antigas alugadas é uma chatice. Depois lembrou-se do moço, que estava no caixão e disse que ia ali comprar uma flores porque naquela rua havia uma casa que vendia flores para defuntos quase ali em frente e eu que ficasse ali para o moço não estar sozinho.
 
Veio o Narciso primeiro, antes dela ter regressado com as flores e trazia dois primos que eu, segundo ele, também conhecia bem, que andavam com ele nos viveiros de ameijoa há muitos anos e que por isso mesmo eu conhecia-os e eles conheciam-me bem também. Eram bons moços e eram primos dele e começaram então a tratar de vestir o falecido levando o caixão para a sacristia e vestiram-lhe então o fato, com uma camisa branca e uma gravata escura e então o moço ficou mesmo bem pois deram-lhe também um jeito ao cabelo e só ficou a faltar as flores que vieram logo a seguir.
 
A mulher do Narciso trazia uma coroa de flores bem grande, por isso demorara mais tempo, e dois ramos de flores, com papel prateado a fazer funil e perguntou-me se tinha vindo mais alguém ver o moço e eu disse que não, que tinha estado ali sozinho com ele e o marido, o Narciso, disse logo que a velhota da taberna não vinha porque desde que lhe falecera o marido não conseguia assistir a funerais mas que ele tinha dito para ela dizer aos amigos dele que ele estava ali e que eles vinham com certeza.
 
O funeral era às duas horas e mesmo passando a hora do almoço acabámos por ir comer umas sandes a um café e quando regressámos já estavam lá os homens da funerária que começaram então a arrumar algumas coisas e a colocar os metais de fecho e transporte no caixão.
 
Chegaram mais dois moços, amigos do Chiquinho, foi quando eu fiquei a a saber o nome dele mas o nome dele não era bem esse, o pessoal é que lhe chamava Chiquinho mas ele era Diogo Francisco e foi o senhor da funerária que teve de dizer ao Padre quando ele chegou o nome todo dele que ele escreveu num papelinho e meteu entre as folhas do livro de orações que trazia.
 
Só éramos sete entre aqueles que podiam ser considerados amigos do Chiquinho contando comigo mas estava o Padre e mais quatro homens da funerária e o Padre disse então uma missa curta porque agora é ao pé da campa que se faz a encomenda da alma, como se costuma dizer, e seguimos depois atrás do carro funerário para o cemitério da Esperança e eu como não trazia carro fui no carro de um dos primos do Narciso.
 
Logo ali à porta do Cemitério há sempre vendedores de flores e fomos todos comprar mais flores porque o moço merecia, era bom moço e trabalhador naquilo que podia embora fosse um desgraçado conforme disse a mulher do Narciso que depois chorou muito quando baixaram o caixão e começaram a tapar a cova.
 
 

Poesia zero

 
Poesia zero
 
O Sotero C., lá pelos idos de 70/80 arrancou grandes aplausos com o seu original poema avant garde que dizia mais ou menos assim verso a verso: zero, zero, zero, alternando o número de zeros extensos escritos verso a verso durante uns dez «versos» para culminar num apoteótico final ressaltando abaixo do espaçamento das linhas com um gritado (em letra maiúscula) «Zero à esquerda!»
 
A questão que me preocupou é que durante muito tempo fiquei sem saber se as pessoas aplaudiam o «poema» porque eram boas pessoas, se era porque tinham «pena» do poeta ou se o poema deveria mesmo ser considerado bom e eu fui o único a não o entender.
 
Encontrei este poeta depois de longas ausências e desencontros numa cama de hospital depois de ter sido atropelado numa daquelas escuras estradecas interiores no campo.
 
Levei-lhe aquelas coisas que normalmente se levam aos doentes, bolachas, sumos e deixei-lhe dois maços de cigarros escondidos a seu pedido no fundo da gaveta da mesa de metal que fazia de mesa de cabeceira. Conversámos um bocado, pouco porque ele estava nitidamente pouco compensado psicologicamente, mas tivemos ainda oportunidade de recordar o seu poema de tanto sucesso.
 
Com os olhos ainda semi -inchados das feridas e com um brilho quase lacrimejante lá me foi dizendo, um dia em que se sentia melhor, que tinha sido esse tempo do poema o seu maior momento de glória na vida que agora ali jazia vai não vai depois de ter andado quase na mesma durante muitos anos.
 
Tinha sido o seu grande tempo de auto-satisfação, o seu tempo de maior perenidade na sensação de valer alguma coisa, de sentir que a sua sempre pobre vida não era totalmente vã.
 
Viveu feliz enquanto durou o «sucesso» do poema entre os amigos, viveu feliz depois recordando o poema e os bons momentos do seu apogeu quando estava mais só ainda do que naquela cama de hospital e quando estava mais triste.
 
Trazia-o sempre na algibeira, cuidadosamente dactilografado, ocupando o meio de uma folha A4 e de quando em vez lia-o, disse-me.
E tudo isso para quê !? - perguntou enquanto me estendia a mão numa despedida que parecia não querer ainda que tivesse lugar. Recordando a efemeridade da vida e das coisas acrescentou: de tantos amigos e de tantos aplausos que tive resultou agora que foste tu o único a vir visitar-me.
 
E logo eu que fui também o único a «não compreender» o poema tal como ele o sabia desde sempre.
 
Este poema zero e este poeta zero foram ambos vivendo e faleceram à esquerda da virgula da vida. E tal como o poema, o destino dos dois estava escrito desde há muito na folha A4 que lhes coube.
 
Enquanto eu em saída deixava cair pelos corredores do Hospital algumas recordações dos momentos bons e menos bons, compreendi que nem sempre interessa aquilo que o poema diz mas sim aquilo que ele significa para nós.
 
Série: Crónicas de saudade

quinta-feira, 2 de maio de 2013

O doutor dos passarinhos - Conto de Daniel Teixeira

 
 
O doutor dos passarinhos
 
Conto de Daniel Teixeira
 
Ser médico (doutor) é uma profissão desejável quando se é criança. Talvez a maior parte dos inquiridos crianças queira ser médico quando for grande, isto a avaliar pelas respostas que se vêm normalmente quando se questionam crianças na televisão.
 
«O que é que queres ser quando fores grande!?» - Médico, ou médica, dependendo do género, mas o médico que eles idealizam (e ainda bem) é aquele médico que cura, aquele médico que repara convenientemente o ser humano, que mete o organismo todo na ordem, que imaginariamente na inocência infantil faz andar quem está entrevado, que salva as pessoas, ou seja, o médico milagreiro, o Sousa Martins das nossas inocências.
 
Ser um médico daqueles que não resolvem nada, que não têm contacto directo com as pessoas, que não fazem operações complicadas, que receitam comprimidos e nem sequer auscultam as pessoas, daqueles que atendem mal o pessoal de tão fartos estarem das frustrações das suas vidas , esses médicos não têm porta franqueada na imaginação infantil embora alguns já tenham por vezes alguma experiência negativa com a medicina sobretudo em vacinas (com enfermeiras) ou na extirpação de algum objecto estranho numa ferida em qualquer parte do corpo.
 
O acto médico, na imaginação das crianças, não dói, pois, é entusiasmante e até é engraçado quando o clínico deixa ouvir o aumentado pelo estetoscópio, deixa mexer no martelinho dos reflexos condicionados ou no esfignomanómetro. Benditas sejam as crianças por pensarem assim porque não admitem o aspecto falhado do médico, a impotência destes em face de certas situações, a necessidade de dar notícias tristes e por vezes de ter de viver com elas.
 
Por isso - eu enquanto fui doutor dos passarinhos - nunca dei uma notícia triste, nunca disse que o pardal que me tinham trazido tinha morrido, que outro, apesar dos meus esforços, tinha ficado de tal forma estropiado que as suas hipóteses de sobrevivência em meio livre eram remotas nem disse nunca que alguns já estavam mesmo mortos quando os trouxeram.
«Ainda respira, ainda respira!» - dizia eu perante os olhos muito grandes dos miúdos e das miúdas. «Não sentes o coração dele a bater?! - Porque bate levezinho, uma batida de passarinho, uma respiração de passarinho!» - na sua curta vida de passarinho acrescentava eu para mim.
 
E eram muitos os miúdos que me traziam pardais caídos dos ninhos, ou jogados pelos pais passarinhos depois de um cálculo errado sobre as suas potencialidades de voo, ou simplesmente porque tinha chegado a altura: nunca percebi muito bem como estas coisas se passam mas eu acho que os pais dos passarinhos têm um calendário e que não têm qualquer capacidade de avaliação das possibilidades de sobrevida dos filhos que empurram dos ninhos. São animais naquele plano mais inocente do seu estatuto, não raciocinam, não analisam, apenas contam os dias ou as semanas ou as luas.
 
Para as análises, para os raciocínios, já em situação traumática contudo, estava lá eu, o doutor dos passarinhos, como me chamavam. «Tratei» de perninhas partidas com talas de palito, fiz encaixes de asas a olho nu e apenas pelo princípio da simetria bilateral orgânica, dei comida moída a alguns infantes com uma seringa sem agulha (normalmente milho em pó) e tratei tudo aquilo que era tratável com os meus fracos meios caseiros.
 
E ganhei fama como doutor dos passarinhos porque o meu grau de sucesso era de cem por cento para os miúdos embora fosse a rasar a metade para mim. Lembro-me de um pássaro que ficou comigo vários dias, inchado sem eu saber desde logo porquê e que me olhava com uns olhos extremamente tristes, tão tristes que me lembravam os olhos do cherne do Alexandre O'Neill, os olhos tristes dos peixes todos, aquele nublado no cristalino que anuncia um adeus não dito, e pelo qual eu nada consegui fazer: não tinha ânus, vi depois, e fazer-lhe uma operação era quase impossível.
 
Disse-lhe, disse ao pássaro triste, que tinha de abri-lo naquela zona, que tinha de buscar com uma lupa aquilo que poderia ser a tripa que deitaria para fora, que deveria vazá-la com alguma pressão com duas mini espátulas de madeira, arriscando rebentar o tecido por não conhecer a sua resistência, e depois, se conseguisse tudo isso deveria colocá-la em aberto e esperar que as infecções não lhe tratassem da vida mais rápido do que eu poderia tratar-lhe da continuidade da vida.
 
Mas aqueles seus olhos tristes deram-me a coragem que precisava e estudei o caso, mas levei demasiado tempo a estudar a anatomia dos pássaros e aquilo que podia fazer porque entretanto ele acabou por morrer quando eu me preparava para fazer aquilo que tinha estudado.
 
Mas despediu-se de mim com aquele mesmo olhar triste, aquele olhar extremamente triste, deitando-se de costas por efeito da gravidade e deixando as suas duas perfeitas perninhas a tremelicar por segundos.
 
Foi, para mim, naquele curto tempo que esteve comigo um pássaro «consciente» de que nada eu poderia fazer mais por ele, tenho quase a certeza disso, eu tenho essa certeza. Ele foi bastante claro...
 
Para os miúdos, ele partiu mas não desta forma, da vida, mas sim da minha casa, da sacada de rés do chão onde os atendia, imitando eu com as mãos e os braços como o tinha posto a voar, dizendo-lhes que ele tinha voado até além, até ao pé daquele poste, que depois tinha voado mais um bocado e que se juntara ao bando que além estava, debicando migalhas. «Aquele mais gordo, aquele além!»
 
E os olhos dos miúdos respondiam-me com mais admiração ainda: eu era para eles sempre o tal idealizado doutor dos passarinhos, sempre sem falhas no meu percurso, aquilo que alguns deles queriam ser quando fossem grandes.
 
Por isso, estas coisas dos pássaros, ao nível a que eu trabalhava, ainda que por solicitação sazonal, tinha também como resultado o interesse desperto nas crianças pela salvação da vida selvagem citadina. E eu salvava pássaros e salvava-me a mim e às minhas recordações de infância no campo com fisga e ratoeiras.
 
Depois os miúdos foram crescendo e os que apareceram de novo dobraram uma esquina nas vidas e passaram a percorrer já outros caminhos. Os pássaros feridos trazidos foram rareando até acabarem. Desse tempo ficam as recordações e fica a minha convicção de que fiz sempre o meu melhor.
 
Mas fica também a certeza de que eu me sentiria ainda mais em dívida para com o mundo dos pássaros se aquele passarinho ao morrer não me tivesse «dito» que eu fosse esquecendo aquela parte da minha infância com fisgas e ratoeiras que ele naquele seu curto tempo de vida me ouviu tantas vezes repetir...

Aconteceu comigo, acreditem - Conto de Daniel Teixeira

 
 
Aconteceu comigo, acreditem
 
Conto de Daniel Teixeira

Eu não acredito em extraterrestres, quer dizer, não acredito que eles existam, ou acredito que se eles existem devem ter mais que fazer do que andar por aqui, pela terra, a incomodar o próximo e a aparecer sempre como incómodos.

Para além do mais e para isto também parte-se de um pressuposto que não tem qualquer base nem lógica nem ilógica: ou seja, eles são sempre mais inteligentes que nós, terráqueos, o que não sendo impossível ou até extremamente fácil nalguns casos conhecidos, não garante nem pode garantir que eles, a existirem, não estejam num estágio evolutivo anterior ao nosso, sejam sumariamente povos primitivos e que ainda nem sequer tenham descoberto a roda.

Mas e há sempre um «mas», o que aconteceu comigo deixou-me a pensar que pelo menos existe uma possibilidade, pequena que seja, que eles existam, tal como os figuramos. A menos que aquilo que eu vi seja resultado de uma alucinação, numa altura em que era bem possível eu ter essa alucinação. Mas vou começar pelo princípio...

Eu já ali estava naquele local havia dois dias e francamente não me estava a agradar muito a espera. Não eram só as serpentes, cascavéis na sua maioria, que por ali andavam e pouco tranquilo me deixavam apesar de todos os cuidados tomados, mas era também o tempo, o meu tempo, que estava a começar a esgotar-se.
 
Os meus clientes, posso chamar-lhes assim, não me tinham dado uma hora exacta de chegada e ainda tinham de alugar um avião, o único que havia nas redondezas. O velho Smith que eu conhecia bem era o dono da aeronave e francamente sempre me recusei a «ir dar uma voltinha» com ele porque o aparelho me parecia tudo menos seguro.

Aliás, o próprio Smith era pouco seguro: embebedava-se amiúde, discutia com a mulher, uma loura gorducha bem mais nova que ele, ela punha-o fora de casa, ele ia beber e dormir para o avião e chegava a levar nisso dois ou três dias.

O avião também parecia ter servido na segunda guerra mundial embora nunca tivesse saído daquele território e dos ares do Kansas. Era uma autêntica relíquia, pegava por fios, como se costuma dizer e era quase um milagre que as hélices começassem a funcionar à primeira ligação: havia sempre alguma coisa que falhava e lá saia o velho Smith da carlinga, enroscava dois ou três parafusos, ligava um ou dois fios e tentava de novo.

Por vezes resultava mesmo, outras vezes eu assistia a esta operação de novo e tantas vezes quantas as necessárias até que o pobre calhambeque aéreo se fizesse aos céus. Por mais de uma vez aterrara logo em seguida arrastando os gastos pneus na areia e estacando direito numa operação de equilíbrio quase misteriosa que o sorridente Smith atribuía à sua perícia.

Pois, e voltando a mim e à minha localização, quando se vai para o deserto, onde eu estava, as coisas que comemos e bebemos contam-se sempre pela metade para assegurar o caminho de regresso e eu ali estava, já com as rações praticamente no limite e sem grande vontade de estar a correr riscos e ultrapassar essa linha que não era uma meta de chegada mas que podia ser uma linha de partida para os domínios do criador.
 
Os meus clientes estavam atrasados, pensava eu, porque o avião ou o velho Smith estavam com problemas, o primeiro com problemas de mecânica ou o segundo com problemas com a Kate ou ambos, avião e Smith.
 
Eu em rigor deveria contar muito menos que a metade no consumo das rações para ali estar à espera deles. O jipe, o meu velho jipe, bom companheiro que nunca me tinha deixado ficar mal podia ter algum problema no caminho de regresso e por ali não havia mesmo nada senão areia, cactos e uma vegetação seca que lutava bravamente para conseguir sobreviver até à próxima enxurrada.

Depois, na sua grande parte partiam com a enxurrada e deixavam ficar as sementes para nova espera e novo suplício de quase um ano. Caramba, isto não é vida, não é mesmo vida que se leve, mesmo sendo uma planta, mas elas, as ervas rasteiras lá sabiam de si, disse para mim mesmo.
 
O que não era mesmo vida que se levasse era eu estar ali de plantão à espera de um pequeno avião, com dois ou três, «cientistas» – chamavam-se eles a eles mesmos – e «doidinhos» chamavas-lhe eu.

Semanas antes, nas minhas voltas pelo deserto, que adoro, tinha descoberto uma gruta nos únicos rochedos que por ali havia, rochedos rasteiros, quase cobertos de areia e dentro desses rochedos que afundavam pelo terreno adentro encontrara uma gruta com alguns símbolos, coisa a que não dei muita importância e acho que não era mesmo para dar importância.
 
Triângulos, linhas rectas, quadrados e várias figuras todas elas lineares estavam ali escritas na pedra, curiosamente todas bem desenhadas, como se tivessem sido feitas pacientemente com régua e esquadro. Tinham uma camada razoável de poeira em cima. Limpei tudo cuidadosamente, tirei fotos e fiquei de procurar pela Net o que poderia ser aquilo.
 
Não encontrei nada, mesmo nada parecido: os conjuntos estavam alinhados como se definissem direcções e havia alguns símbolos, igualmente rectilíneos que pareciam ser números, dentro e fora de alguns dos desenhos. Mas a perfeição do trabalho era enorme e quando passei as fotos para o computador vi que havia tonalidades, na sua maior parte arroxeadas, coisa que não tinha visto na escuridão da gruta e nem sequer me apareceram no reflexo do flash.
 
Resolvi meter na minha página na Net a perguntar se alguém sabia o que aquilo era ou queria dizer. Passados dias, talvez uma semana, recebo um email aflito de uns cientistas que me pediam para retirar aquilo da Net e responder ao seu email dando indicações sobre como me contactar.
 
Eram de Portland, no Maine, na ponta norte e a milhares de quilómetros dali os gajos e eu não me importei muito de lhes dar o meu número de telefone, eles é que pagavam. Telefonaram logo que receberam a mensagem, nem devem ter levado cinco minutos, queriam saber onde eu encontrara aquilo e disseram-me que queriam ir ver e que eu fizesse o preço para os guiar.

E eu fiz: estava a precisar de meter umas peças novas no jipe, dar uma revisão ao motor e substituir algumas peças e havia algum tempo que não me apareciam turistas desejosos de ver o nada que era aquela imensidão toda de terra, cactos, ervas e serpentes.

Mandaram-me um cheque com o valor dobrado sobre aquilo que eu pedi, disseram-me que eram estudiosos de fenómenos estranhos e que aquilo que tinham visto lhes parecia ser as coordenadas de veículos extraterrestres e que eu lhes mandasse as minhas coordenadas.
 
Mandei as minhas coordenadas terrestres (as extraterrestres eram com eles) e ficámos de nos encontrar naquele ponto onde eu estava havia dois dias tentando evitar ser mordido pelas serpentes e comendo conservas.
 
Tinha-lhes indicado o Smith que diga-se em abono da verdade era não só o dono do único avião que havia por ali como seria também o único que se meteria a voar por aqueles lados. Uma pane no avião pode dar para aterrar mas aterrar não é tudo num sítio onde não há nada.
 
Estava já a amanhecer no terceiro dia e quando eu me dispunha a começar a arranjar as coisas para me ir embora vejo um pontinho negro no céu. Fui buscar os binóculos e era de facto o velho Smith, ou o seu avião, se quisermos.
 
Azar o meu ter ido buscar os binóculos naquela altura e pôr-me a olhar para o ar sem ver onde metia os pés. A cascavel bem me avisou com os sinos de que estava ali mas eu só a ouvi depois de ela me ferrar os dentes na zona do tornozelo. Dei-lhe um tiro mas o mais importante não era a vingança, ali, o mais importante era eu ir injectar o soro antes que o veneno me tolhesse os movimentos.
 
Corri para o jipe, tratei de injectar o antiofídico, perdi o avião de vista e para quem não sabe um dos efeitos daquele soro, para além de nos salvar a vida quando não chegamos demasiado tarde é produzir um efeito alucinogéno.
 
Não era a primeira vez que tinha de me socorrer dele e sabia bem que iria ter visão turva, iria ver alguns fantasmas se calhar e provavelmente um oásis cheio de tamareiras.

Pois bem, é aqui que eu tenho de repetir que não acredito em extraterrestres mas o que eu vi pelo menos estranho foi. Efeito do soro ou não certo é que vi um projéctil com uma cauda de fumo enorme ir em direcção ao avião e que fracções de segundo depois este explodiu vermelho no ar.
 
O velho Smith deixava assim a loura Kate viúva, pelo que entendi, e os cientistas agora estavam também terrestremente mortos. Quando o efeito do soro passou tentei ir em direcção ao sítio onde vira cair os destroços, já relativamente próximo do local do meu acampamento.
 
Havia bocados de avião espalhados pelo solo numa extensão de um ou dois quilómetros, vistos assim a olho e como seria claro nem uma alma viva.
 
Os meus problemas passavam agora a ser três: dizer à Kate que o velho Smith tinha morrido, falar com a guarda e ter de explicar o que não convinha sobre os símbolos na gruta e saber se eu tinha mesmo visto um projéctil ir em direcção ao avião ou se fora efeito do soro. O que me fez maior confusão foi ter reparado que o jacto de fumo branco tinha partido ao longe sensivelmente do sítio onde eu encontrara a gruta com os símbolos.
 
De qualquer forma isso agora não interessava para nada, havia aquelas vidas a lamentar, o velhote até que era porreiro, os outros nem cheguei a conhecer mas devia ser boa gente também, fiz uma cruz como é uso no deserto com a adaga, fazendo tombar a parte superior do maior cacto que havia por ali próximo e meti-me a caminho.

 Daniel Teixeira

(Série fantástico)

O Natal do Mendigo - Conto de Daniel Teixeira

 
 
O Natal do Mendigo
 
Conto de Daniel Teixeira
 
 Tinha amealhado durante os últimos dias tudo aquilo que lhe fazia falta. Pouco a pouco, em caixotes de lixo, em sacos semi - despejados à porta das casas e na rua, nas calçadas ou nas sarjetas.
 
Por vezes encontram-se coisas com valor nas ruas. As pessoas são descuidadas, por vezes, nem sempre metem as coisas com cuidado nos bolsos e no silêncio da noite ou no ruído da cidade elas caem no solo e vão ficando, por ali, por vezes muito tempo.
 
Achava muitas coisas: relógios, envelhecidos pelo tempo que tinham passado nas calçadas, à chuva ou ao calor por vezes, velhos ornamentos, brincos, sobretudo, coisas de pouco valor, sempre, nunca lhe davam muito dinheiro por nada que encontrasse.
 
Em certo sentido ele pensava que se fosse ouro os outros pensavam que mesmo sabendo que era ouro, que o ouro que ele trazia valia menos que o outro ouro que as ourivesarias vendiam ou que o seu ouro não valia quase nada.
 
 Não se importava muito nem discutia com o senhor Armando aquilo que ele lhe pagava por aquilo que ele lhe levava: as coisas vinham sempre em mau estado e era ainda uma sorte para ele que ele quisesse ficar com elas e lhe desse algum dinheiro em troca. Recebia o que lhe davam, não protestava, nem tinha que protestar. Um mendigo não reclama, um mendigo pede, e as pessoas dão aquilo que podem ou querem.
 
Gostava de pensar que as pessoas davam tudo o que podiam. Era uma ideia que os seus amigos na sopa dos pobres por vezes gozavam e chegava a haver discussões sobre isso entre eles. «Dão o que querem!!» e «Alguns nunca dão nada», diziam. Não valia a pena - dizia - não vale a pena discutirem por causa disso, cada um pensa como quer.
 
Era a ideia que tinha da liberdade, era a sua liberdade. Ele conquistara-a, também, à sua maneira mas conquistara a sua liberdade. Ela não lhe caíra do céu. Fizera a tropa, na Guiné, mas não se deu muito bem com o clima e com as coisas que via e com as que ouvia. Não achava jeito as pessoas andarem a matar-se uns aos outros quando afinal o mundo é tão grande e há espaço para todos. E ainda sobra, sobra muito espaço mesmo.
 
E depois foram os amigos que foram morrendo, uns com tiros, outros com minas, outros que se mataram...não aguentavam mais. Aquilo era muito forte, para muitos foi mesmo muito forte.
 
Aquela incerteza de não se saber se era naquela dia ou não que iam lá ficar dá cabo das pessoas. E dera cabo dele, reconhecia. Fez a tropa toda, nunca levantou problemas lá, fazia o que o mandavam fazer, gostasse ou não.
 
Depois apareceu aquela miúda novinha, talvez para aí com catorze anos em frente à sua espingarda: os seus olhos tinham um branco muito branco à volta das pupilas quase apagadas.
 
Era cega, soube depois, mas disseram-lhe: «Dispara caraças, dispara» e ele disparou. Não gostou mesmo nada mas não disse nada também.
 
E era ela a sua companhia nesta noite da Natal, como todos os anos. Era a sua família. E tinha tudo preparado para ela também.
 
Dispôs um bocado de pano branco no chão a fazer de toalha, dispôs dois garfos de plástico que lavara na bica, mais um bocado de queijo que encontrara nas traseiras de um restaurante, duas pernas de frango assado, e ao centro o bolo, tinha um bolo de Natal, era um bolo rei. Comprava-o todos os anos.
 
Depois, passado um bom bocado acendeu a vela. Estava na hora, era sempre àquela hora que ela vinha, nunca se atrasava, e logo que acendeu a vela ela chegou.
 
Sangrava do peito, sangrava sempre, tinha ficado com essa marca no peito, e não saía mesmo, por mais que ele a quisesse lavar, por mais que ele tentasse estancar o sangue. Aquele sangue não se apagava e corria sempre, sempre, e era muito vermelho...muito vermelho mesmo.
 
Ela sentou-se no chão à sua frente e comeu um pouco do queijo, do frango e do bolo. Não disseram uma palavra. Ela nunca falava com ele, nunca lhe dizia nada. Depois, um pouco depois, cantaram como sempre faziam ao Menino Jesus:
 
«Alegrem-se o céu e a terra
 cantemos com alegria
 já nasceu o Deus Menino
 filho da Virgem Maria»
 
Daniel Teixeira

O Larussas - Conto / crónica de Daniel Teixeira

 
 
O Larussas
 
 Conto / crónica de Daniel Teixeira
 
 O Larussas foi um cão que eu tive e não tive, ao mesmo tempo. Rafeiro, arraçado de pequinois, tinha aquela facies que é própria desta raça, com os dentes inferiores sobressaídos e o focinho escorrido, com os olhos pequeninos numa angulação ligeiramente elevada: tinha mesmo uma percentagem genética larga de pekinois.
 
E eu gostava sobretudo de ouvir a minha mãe «conversando» com ele e gostava de ver o animal de língua de fora todo contente por ter alguém que «dialogava» com ele: e a minha mãe a dizer-lhe;
 
«Ah! Larussas, que feio tu és, nunca vi um cão tão feio!» e ele abanava a cauda como se entendesse naquelas palavras o contrário daquilo que elas queriam dizer e lá lhe punha as patas no colo, descia-as depois e dava uma voltinha ou duas, acabando por vezes por correr atrás da cauda.
 
Quando encontrava a minha mãe neste «diálogo» dizia-lhe brincando para não dizer isso ao animal porque ainda o traumatizava psicologicamente ao que ela respondia mais para mim do que para o cão, como será claro, que de facto ele era tão feio, tão feio que até se tornava bonito de feio que era.
 
Tenho a certeza que esta imagem me ficou gravada também porque o Larussas para mim foi um pequeno herói da sobrevivência. Levou talvez mais de um mês até ser admitido no círculo familiar, dormindo no degrau à porta da nossa casa e recebendo em duas tigelas comida e água.
 
Mas não largou, nunca largou, nunca se afastou. Os animais podem não pensar mas sentem e ele sentia que era ali que estava a sua casa, a sua nova casa. E ganhou-a, essa casa, esse lar, se quisermos, logo que o verão acabou e começaram a cair os primeiros pingos de chuva.
 
Fizemos-lhe uma cama numa casa de arrumação no nosso quintal que lhe serviu para sempre.
 
Nunca exigiu mais e tinha condições para «exigir» espontaneamente: o outro ficava em casa, era um cão de guarda, ao fim e ao cabo e ele quando chegava a sua hora sempre preferiu recolher-se à sua «casa».
 
Perdido ou abandonado apareceu um dia na companhia do nosso cão «oficial», um enorme Serra da Estrela e na altura não se colocou a questão de ter mais um animal em casa.
 
O título de sobrevivente que eu lhe dou não se deve só a esta sua persistência: na altura frequentávamos três casas na cidade de Faro, todas elas distantes entre si e quando se sentia sozinho, enquanto o outro ficava bem onde estava só ou acompanhado este tinha de ter gente nossa à vista, por isso era um caminhante nato. De patas pequenas fazia por vezes quilómetros para nos encontrar.
 
Um psicólogo francês disse há anos que se soubessem que ele psicanalisava cães seria motivo de gozo entre os colegas, mas eu não tenho problemas com isso: na minha opinião o pobre do animal ficou traumatizado por ter sido abandonado e a memória dos cães é enorme, muito maior que a nossa, disso não tenho dúvidas e acho que ele sentia que quando não havia gente da «família» perto dele isso era um mau sinal.
 
Deve ter ficado com essa «ideia» gravada, por isso nos procurava afanosamente todas as vezes que eram necessárias, percorrendo do Bom João à Penha e da Penha à Baixa e fazendo o percurso inverso quando necessário. Encontrei-o muitas vezes nesta sua andança, reconhecia-me, cumprimentava-me, mas faltava eu estar em casa, numa casa «nossa» e ele logo repartia.
 
Andava livremente, tinha uma capacidade para se desenrascar extraordinária, sabia tornear os enormes cães que se plantavam todas as manhãs na zona exterior dos talhos no Mercado antigo à espera de um osso, sabia que o território era deles e que com o seu corpinho as hipóteses de sair dali sem mazela eram curtas e por isso fazia o percurso para o Mercado por um lado e passava para o outro lado da rua na altura própria, regressando depois ao trilho passado o potencial perigo.
 
Já tive e não tive vários cães e nenhum deles foi admitido - se quisermos utilizar o termo - por mim. A minha vez de ter um cão «meu» nunca chegou porque o lugar esteve sempre ocupado por escolhas de outros familiares, mãe, pai, filha e os cães vadios que se escolheram a eles mesmos.
 
Mas o Larussas, talvez pelo seu espírito de luta e por eu ter pensado bastante nisso ficou marcado na minha memória por estas razões. Outros ficaram por outras.
 
Mas sempre admirei a persistência e a capacidade de sobreviver, a capacidade de se cair e de se reerguer, sempre e de novo, mesmo que tudo isso seja muito difícil.
 
E o Larussas foi sempre como uma árvore, penso que ele «pensava» que quando tivesse que morrer morria, como morreu, de pé.