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quarta-feira, 12 de junho de 2013

Os 10 de Junho: Dias dos sonhos não cumpridos

 
Os 10 de Junho: Dias dos sonhos não cumpridos
 
Um sonho é um sonho, quer dizer, é mesmo um sonho, aquela coisa que nós pensamos e não pensamos enquanto dormimos e não dormimos. Um sonho é isso. Pelo sonho é que vamos desejando e pela realidade é que vamos sabendo que aquela realidade desejada foi toda ela só e apenas sonho e que nem sequer uma nesga, uma nesguinha, daquilo que se desejou enquanto se sonhava, daquele castelo que se construiu enquanto dormindo ou não pensámos, nem uma pedrinha desse desejado castelos temos na nossa mão ao acordar.
 
Triste, muito triste, é extremamente frustrante  o sonho não cumprido: funciona assim como o suplício de Tântalo; tanto sonhámos, tanto desejámos, tão perto estivemos e quando vamos agarrar numa pequenina parte desse nosso sonho ele desaparece, simplesmente, esvai-se como a água de Tântalo, ou regressa ao fundo da encosta como a pedra de Sísifo.
 
Claro que ninguém nos «manda» sonhar com impossíveis e normalmente apenas se sonha com coisas impossíveis, deseja-se aquilo que se não tem e nem se pode ter. A maior parte das vezes, pelo menos. Um sonho para valer como sonho pensa logo em grande, não se detém naquelas coisinhas que estão ao acesso ou próximas  do real, quer dizer, não se sonha com aquilo que se pode ter, mesmo hipoteticamente.
 
«O meu sonho sempre foi ter um carro destes!» pode o mais elementar «sonhador» afirmar como sendo um sonho cumprido, mas é claro que isso é uma auto-aldrabice- pública. O que ele sempre sonhou foi ter uma frota de carros de alta cilindrada, trocar de carro como quem troca de camisa, um para as primeiras horas da manhã e outro até ao meio dia e levar o resto do dia nesta giga joga. Quando se sonha sonha-se em grande ou sempre em «maior» do que os alegados sonhos cumpridos.
 
Claro que faz falta sonhar, desejar o impossível e obter aquela fatia de possível que o destino nos vai fornecendo a conta gotas. Ao fim de um tempo e se olharmos para trás, com olhos de ver, veremos que aquele sonho que tínhamos há vinte anos atrás afinal está completo, ou pelo menos em parte está a preencher-se...por vezes pena é que a esperança de vida não aumente até aos 500 anos para podermos assim reparar que aquele fatia de sonho que tivemos até aos cem anos está quase, quase a cumprir-se...falta só um niquinho.
 
Hoje e numa altura em que é bom recordar-se que falta cumprir-se Portugal, pelo menos desde que o Fernando Pessoa levantou essa constatação, será bom tentar-se pelo menos aferir um pouco daquilo que entendemos ser a ideia do Portugal cumprido, feito, acabado, realizado.
 
E meus amigos e leitores: é melhor nem entrarmos por essa via...deixemos correr as ideias, os sonhos, os desejos, a nossa incompletude a completar-se. Temos uma governação que não vale a ponta de um chavelho e acho que nunca tivemos uma capaz ao longo dos séculos.
 
Destino? Não acredito muito...mas aceito plenamente que o nosso destino tem uma forte componente religiosa: sumariamente contentamo-nos sempre descontentes com aquilo que vida nos dá.

quinta-feira, 2 de maio de 2013

COLUNA UM - Daniel Teixeira - A inolvidável leveza de se ser

 
 
COLUNA UM - Daniel Teixeira - A inolvidável leveza de se ser 
 
Algumas pessoas, não muitas, têm-se-me queixado (delicadamente) que eu escrevo e falo de uma forma muito complexa, que devia ser mais acessível naquilo que escrevo e digo, enfim...que deveria esforçar-me por ser menos eu sendo mais eu para o outro.
 
Este problema, se é que é um problema, tem atravessado gerações: sabemos que uma coisa e outra têm os seus inconvenientes, ou seja, dar às pessoas aquilo que elas querem esmagando ou pelo menos flectindo aquilo que somos ou mantermo-nos como somos esperando que as pessoas nos entendam abrange todos os sectores da sociedade.
 
Eu próprio me queixo do mesmo, por vezes: a enormidade de siglas por exemplo que são familiares a algumas pessoas que são ditas com naturalidade e presteza e que eu tenho dificuldade em entender desde logo e peço explicação será um caso. Exemplo fraco, eu sei, mas não deixa de ser um exemplo.
 
Eu ainda não consegui aprender as siglas que referem os diversos Estados do Brasil e eles são uma remessa deles assim como não percebo peva da distribuição geográfica e horária actual no Brasil: deveriam os Brasileiros tornar-se mais acessíveis para mim, por exemplo (e para mais gente ao que sei) traduzindo desde logo para palavras correntes aquilo que querem dizer com DF (esta eu sei, Distrito Federal!) ou com a divisão territorial Região Norte, Região Nordeste, Região Centro Oeste, Região Sudeste e Região Sul ? (cabulei isto tudo, esclareço).
 
O exemplo pode não ser o melhor mas dá uma ideia das diferenças de terminologia que são necessárias...porque são necessárias! E não há outra forma de dizer as coisas sem deixar de as dizer ou sem ter de se fazer uma detalhada exposição sobre o que nós chamamos de «explicar o funcionamento do relógio quando se perguntam as horas».
 
A minha vida tem-se debatido com esse problema ao longo dos tempos uma vez que tenho trabalhado não pouco amiúde no jornalismo: deve-se «dar» às pessoas aquilo que elas querem ou antes deve-se exercer uma função didáctica (com que direito e com que delegação ou autoridade pudemos perguntar...).
 
Bem, não será esse o caso que devemos colocar em cima da mesa para discussão: qualquer diálogo se faz entre pessoas que forçosamente são diferentes, mesmo que as afinidades possam existir em campos específicos. A moldagem dos discursos faz-se nesse mesmo diálogo, nessa interacção e nem sempre resulta, todos sabemos.
 
Os ensinos sobre saúde e prevenção da doença, por exemplo, e para falar num campo que conheço também relativamente bem têm sérias possibilidades de cair em saco roto...umas vezes por desfasamento que não é de ordem verbal, mas sim da ordem dos costumes.
 
A unidade das linguagens é impossível de ser realizada e aliás é também isso que faz a riqueza dos movimentos linguísticos: características específicas devem ser mantidas, na minha modesta opinião:
 
Quem não percebe esta comovente história CAIPIRA do nosso amigo Acas?
 
Antônio Carlos Affonso dos Santos. - ACAS, o Caipira Urbano.
 
Das veiz eu gosto de apreciá as natureza!
 
 Das veiz eu gosto de apreciá as natureza! Nóis que é da roça, muitas das veiz adivinha se vai chovê; se o sór vai saí; se o vento é de chuva ô de tempestade; quar é a hora de prantá o arrois, o mío ô o fejão. Nóis sabe. E num é que ninguém ensinô nóis não; - só se for Deus.
 
Mais, na natureza tem os outro ser vivente que nóis arrespeita. Tem as borboleta que enfeita as mata ( eu aprecio por demais uma borboleta chamada «dama da noite» que tem deiz veiz o tamanho das outra, toda azur, e que só sai no poente do sór, bem no lusco-fusco). Gosto dos passarim tamém; inda mais se fôr bunito e subé cantá. Mais os outro bicho muitas das veiz nóis mata pra cumê. Eu só nunquinha que tinha pensado nas inteligença dos bicho, inté que eu mêmo vi com meus óio, que a terra há de cumê.
 
Num domingo com sór de estralá mamona, eu tava na rede da varanda dando um cochilo. Acordei com um bem-te-vi cantando ali no balaustre, numa lunjura de uma braça. Na varanda tinha um trem véio que a muié dexô ali pra numseioquê. Em riba duma mesa, tinha um vidro branco que eu achava que era remédio. O vidro de boca estreita tava pela metade de água (parece que a muié colocava flôr nele, como se fosse vaso).
 
O bem-te-vi viu o vidro e ficô rodano em vorta. Deu uma ô duas bicada no vidro duro; dispois subiu no gargalo e enfiô o bico: a água tava muito embaxo. Tentiô, pelejo, umas deiz veiz.
 
Desacorçoado ele vuô, foi embora. Pensei que ele tinha desistido, quar o quê! Ele vortô cuma pedrinha no bico, subiu no gargalo e jogô a pedra lá dentro e azulô, foi embora. Mais ele vortô mais deiz, vinte, trinta veiz., e cada veiz tacava a pedrinha lá dentro. Eu cansei de vê aquilo e dormi, tarveis uma meia hora.
 
Quando acordei, vi o vidro que tava com pedra até o pescoço. Ao lado do vidro, o bem-te-vi com a famía ( uma fema e dois fióte). Um de cada veiz subia no gargalo do vidro e tomava água à vontade.
 
Das veiz eu penso os home são anssim tamém. A diferença é que muitos deis adesiste de carregá pedra, mêmo que isso seja bão pra famía e pra si própio.
 
 Pois, digo eu (Daniel) agora, no que se refere à lingua e às linguagens: «muitos deis adesiste de carregá pedra, mêmo que isso seja bão pra famía e pra si própio.»
 
Daniel Teixeira

terça-feira, 23 de abril de 2013

Jornal Raizonline nº 184 de 20 de Agosto de 2012 - COLUNA UM - Daniel Teixeira - As minhas memórias mais próximas (V) - Os bolos da Dª Maria Teresa

 
 
Jornal Raizonline nº 184 de 20 de Agosto de 2012 - COLUNA UM - Daniel Teixeira - As minhas memórias mais próximas (V) - Os bolos da Dª Maria Teresa

Por vezes fico com um ar de surpresa em relação a mim mesmo no que se refere a recordações e ao processo de selecção que a minha mente vai buscar como elemento que ela considera relevante e despoletador da recordação de um dado facto ou conjunto de factos.
 
Acho, usando um pouco do meu raciocínio (nada disto pretende ser  válido em termos científicos e nunca li isto em lado nenhum que me lembre) que a mente usa cábulas, daquelas que se usavam na escola (quem era cábula é claro) que dão início ao desenrolar consequente da mensagem arquivada na nossa mente.

Pois, (nunca cabulei, asseguro) há dias, estava eu em conversa com pessoas do meu bairro e veio à tona da conversa a Dª Maria Teresa. Fiquei surpreso, como já dei a entender acima, pelo que acho preocupante a rapidez da minha resposta no seu conteúdo: «Verdade, era uma excelente senhora...e sabia fazer bolos muito bem.»: acho que deveria ter  referido antes aquilo que mais choca nesta história, é que morreu praticamente no anonimato.
 
A D. Maria Teresa quase que terá nascido para a doçaria caseira e como tinha pouco ou quase nada que fazer dedicou-se a fundo sendo uma verdadeira e nossa muito solidária expert desde que começámos a conhecê-la: fomos vizinhos, casas lado a lado, e praticamente tinha uma fabricação continuada para consumo próprio e das amigas e vizinhas, o que muito nos alegrava, sobretudo a nós crianças e jovens.

Solteirona, coisa que não se dizia, em princípio deveria ser «Menina Maria Teresa» como é uso, mas foi nominalmente sempre «dona». A história tem aspectos bons e aspectos menos bons: ficou a cuidar da mãe, que enviuvou cedo e a Dona Maria Teresa também não deve ter feito grandes esforços para constituir família mesmo anos depois após o falecimento da mãe. Talvez considerasse que já que era tarde, talvez estivesse solidificada na vida a sós, enfim...também ninguém é obrigado a casar e a constituir família.

Beata, tal como se dizia também, passava uma parte substancial do seu tempo na Igreja e em conversas com amigas igualmente «beatas»: um irmão dela, comerciante, apoiou-a sempre financeiramente e embora nunca me tenha preocupado em saber isso, o seu comércio teria sido familiar com o falecido pai, sendo o contributo dele também uma parte daquilo que supostamente seria também propriedade dela.
 
O irmão faleceu muitos anos depois, teria ela já cerca de 60 anos e a D. Maria Teresa ficou resumida em termos financeiros a uma reforma curta: os bolos começaram a rarear nessa altura.
 
O processo de queda financeira não acabou só com os bolos, praticamente acabou com tudo, acabou com ela também muito mais que o percurso normal da idade. Afundou-se, mais em termos anímicos do que em termos físicos...

Havia um sistema de comunicação entre as nossas casas: subir até à altura do muro de divisão nos quintais geminados e um outro composto de pancadas na parede, na zona da cozinha e no corredor, em que se procurava saber se ela estava bem ou não: se respondesse aos chamamentos ou ao sistema de toques nas paredes estava tudo certo, quando isso não acontecia tínhamos uma chave da casa dela: primeiro ia a minha mãe, nestes casos; a D. Maria Teresa era extremamente pudica e mesmo quando a encontrava caída sem se conseguir levantar e não tinha forças para o fazer, primeiro compunha-lhe a roupa e só depois vinha buscar ajuda.
 
Durou talvez cinco anos esta situação: depois acamou e foi para um lar. Fomos informados do seu falecimento por acaso, no dia em que lha íamos fazer a visita semanal, já tinham passado vários dias...
  
 Daniel Teixeira
 
 

quinta-feira, 18 de abril de 2013

Verdade ou mentira? - COLUNA UM - Daniel Teixeira

 
 
COLUNA UM - Daniel Teixeira -  Verdade ou mentira?
 
 Falar verdade segundo o nosso amigo Aristóteles é, sumariamente «dizer daquilo que é, que é e daquilo que não é que não é». Assim segundo este velho mas sempre actual filósofo, não se trata apenas de afirmar pela positiva mas também de afirmar pela negativa, ou seja, dizer também do que não é que não é.
 
Quando se fala a verdade, normalmente e no entendimento comum, é falar / dizer «apenas» a primeira parte do exigido, esquecendo-se muitas vezes, o «dever» de afirmar pela negativa.
 
Dizer o «Rei vai nu» não chega, portanto, também seria necessário dizer, caso fosse outro o caso, que o Rei não vai bem vestido, por exemplo, caso o dito rei trajasse um hábito que não fosse próprio da sua condição, por exemplo, isto entendendo, que a sua posição requeria um trajar diferente daquele que ele levasse.
 
Talvez 90% das verdades que se dizem, neste mundo, numas contas muito sumárias, sejam verdades ditas no primeiro sentido: a verdade afirmativa. Utilizam-se os outros 10% também normalmente para fazer critica política, esgotando-os quase sempre. Não fica margem para mais...
 
No entanto esta segunda forma de dizer a verdade, negando uma outra «verdade» ou dizendo simplesmente daquilo que não é que não é, seria, na minha opinião a forma mais interessante de dizer a verdade. Uma parte dos 90% de verdades ditas, uma parte grande, são cobertas pelas afirmação da evidência. Assim é como dizer verdades de nada...é como «encher pneus».
 
A nossa sociedade em qualquer parte do mundo precisa de mais verdades que contestem e de menos verdades que digam o evidente, aquilo que toda a gente sabe, aquilo que toda a gente vê. «O Rei vai nu», dito por uma criança, teve apenas o condão de dizer aquilo que todos viam.
 
A  piada da afirmação / constatação do miúdo é que a verdade «submetida» ao politicamente correcto ou à crença se libertou. Mais nada...
 
No caso da cultura e da arte também precisamos mais de afirmações pela negativa...dizer por exemplo que muita «poesia» que anda por aí por essa Net não é poesia, que muitos escritos são meros exercícios de lustração egocêntrica.
 
Enquanto a percentagem de verdades ditas pela forma da contestação não subir percentualmente de forma sensível não saímos mesmo da cepa torta.
 
Sejamos tolerantes com todos sim mas sejamos amigos  de todos também não enganando o próximo com a nossa «verdade» politicamente correcta...
 
  Daniel Teixeira
 
 

terça-feira, 9 de abril de 2013

Coluna Um - Há problemas na divulgação da ideia de comunidade de língua portuguesa?

 
 
Coluna Um
 
 
Há problemas na divulgação da ideia de comunidade de língua portuguesa?
 
Daniel Teixeira
 
A Comunidade dos países de língua portuguesa (CPLP) parte de uma ideia difusa que nem sempre e nem por todos é possível acompanhar: uns porque não chegam lá, à ideia, outros porque não podem (dada a sua formação) e outros porque não querem, chegar a essa ideia.
 
Contudo ela é simples, em si, como ideia mas vale a pena darmos aqui aquela ideia que nós temos dessa mesma ideia, pelo que comecemos pela história. Pessoalmente nunca fui um adepto muito convicto da ideologia que foi defendida em várias matizes de que existia, da parte dos portugueses, um dom especial que os levava a conseguir um relacionamento privilegiado com outras raças e culturas.
 
Povo com uma tradição cultural estreita, com sangue elitista (azul, terra tenente, e residualmente burguesmente industrial) eram de rejeitar desde logo as ideias peregrinas de que essa potencialidade de relacionamento privilegiado se encontrava em cada pessoa, em cada um de nós.
 
A conhecida Junta do Ultramar tem nos seus arquivos excelentes trabalhos teóricos (e práticos) de alguns cientistas sociais que, procurando justificações para o lançamento dessa ideia do «dom» relacional, procuravam, num arroubo que se queria de realista, encontrar a origem desse «dom» não no factor cultural, mas sim no factor acultural: ou seja, para esses teóricos (Jorge Dias à cabeça) a nossa vantagem no relacionamento com os outros povos advinha antes da nossa ignorância e do estado imberbe dos nossos sistemas de exploração económica, que, no seu conjunto, se constituíam como factores de convergência relacional perante os povos colonizados e logo igualmente - ou num outro grau próximo - pouco desenvolvidos.
 
A ideia teve o seu cheque mais notável em acontecimentos que muitos preferem esquecer, ao lançar-se uma colonização, nomeadamente em Angola, baseada nestes princípios: como os portugueses eram ignorantes e pouco formados em termos tecnológicos nada melhor que colocá-los na mesma situação dos povos indígenas onde alegadamente eles funcionariam como um elemento catalisador dado o diferencial, mesmo mínimo, entre estes e os locais.
 
O processo, que é sempre pouco referido, teve pelo menos o mérito - e que me perdoem os descendentes desta muito sofrida operação - de mostrar que afinal não eram os povos indígenas que exploravam inconvenientemente as suas parcelas agrícolas - que eram a base da sua economia - mas sim que o problema ia para além disso o que no fundo se pode traduzir no chavão mais conhecido da economia: falta de estruturas.
 
A chamada «inteligência» portuguesa estava mais interessada no acantonamento junto das Cortes do que em produzir ou fomentar a produção. A atracção pelo Estado protector (e pouco exigente em termos de retorno), alimentado bastamente antes pelas caravelas vivia ainda esse período em termos ideológicos e foi vivendo assim (e de certa forma vai ainda vivendo assim).

Resultado disso, mesmo nos tempos mais recentes, já nos finais do Sec. XX, a exploração de mão de obra foi sempre intensiva, o investimento em tecnologias quase nulo e compreende-se não se compreendendo a falta de visão estratégica do pelo menos imberbe empresariado: uma máquina custava mais que manter os trabalhadores que ela iria substituir, daí a manutenção de uma política de exploração da mão de obra barata.
 
Nestes termos, o colonialismo português não foi nem melhor nem pior que os outros, na sua prática diária, mas teve a seu favor - se quisermos considerar assim - o facto de, em termos numéricos de população colonizadora, nunca ter tido bases para se alicerçar numa autonomia solidária entre «iguais» bastando-se a si mesma.

A negociação com os autóctones (mão de obra ainda mais barata) impôs-se desde sempre e as potencialidades em termos militares nunca conseguiram implantar um colonialismo «puro e duro». Outras fossem as circunstâncias e outro galo não cantaria agora na CPLP.

Mas, e regressando ao presente, estas condições sociais acabaram por fomentar todo um conjunto de factores interligados entre os quais vamos agora referir a miscenização (termo ingrato, mas cientificamente correcto). Ora a miscenização por muito desagradável que possa parecer a afirmação, processa-se entre o povo e constrói laços de afinidade suficientemente distanciados das elites que lhe permitem um regime de vivência autónomo.

Assim, é nas bases da sociedade, quer dizer, nas classes menos favorecidas que se desenvolve o sentimento de igualdade (ou de desigualdade menor) apesar das exclamações à boleia das classes mais favorecidas.

A recente guerra do Alecrim e da Manjerona ortográfica é disso um exemplo claro (ao lado de outras com a mesma base): a chamada «intelectualidade» elitista comunga dos mesmos princípios que temos vindo a referir; não lhe restando, como factor de diferenciação interventiva senão a defesa da tradição que os alimentou e alimenta à sombra de uma ainda farta bananeira estatal e mecenária (não confundir com mercenária) estão contra a abolição do «p» e do «v» e contra o acrescento do «a» e do «b».

Mas quem se preocupa com estas vozes ainda não sabe (infelizmente) que elas não chegam ao céu da realidade do dia a dia.
 
 
 

sexta-feira, 5 de abril de 2013

COLUNA UM - A violência nas escolas e os massacres

 
 
COLUNA UM -  A violência nas escolas e os massacres
 
 
Todos, ou quase todos, andámos na Escola e todos sabemos melhor ou pior aquilo que o tradicionalmente chamado de sadismo infantil pode produzir. O assunto anda muito mal estudado, e mesmo a nível da psicologia publicada a situação, sendo de alguma forma clara, acaba por ficar escondida dada a delicadeza do tema. Ninguém está interessado em mostrar a jovens em formação psíco - social aquilo que eles mesmos fazem (quando fazem) ou aquilo que eles mesmo não fazendo têm ou podem ter vontade de fazer .
 
A minha escola, contudo, foi antes da escola e depois da escola, como com toda a gente. A maior parte das pessoas não liga uma coisa à outra e até por comodismo psicológico prefere estabelecer a existência de dois ou diversos compartimentos estanques: antes da escola e depois da escola, vida familiar e vida escolar, vida na escola e vida fora da escola, etc.
 
A institucionalização que a Escola apresenta e fomenta sempre foi um problema muito mal digerido na sua compreensão: sejam elas instituições totais, quer dizer instituições onde as pessoas passam a esmagadora parte da sua vida ou uma parte substancial dela com contacto ou não com a sociedade á sua volta, seja ela a micro - sociedade local, seja ela a sociedade em geral, sejam elas ainda instituições às quais se adere voluntariamente ainda que com algum grau de obrigação, caso das escolas de escolaridade dita obrigatória, do serviço militar obrigatório, etc.
 
A utilização de uma lógica de grupo não espontaneamente constituída, a variedade dos graus de formação social e capacidades económicas e intelectuais diferenciadas, é tudo agrupado num conjunto de regras gerais, tipo lógica de código penal, em que sumariamente se diz, ainda que de forma indirecta, as sacramentais iniciais frases do penalismo:«Aquele que...fizer isto ou aquilo...incorre nisto ou naquilo».
 
Para uma criança, ou para um jovem, é, por vezes difícil entender muita coisa, nomeadamente quando se trata de regras com algum grau de preventivismo: por exemplo não se pode ir à casa de banho das meninas, mesmo que ela esteja vazia e se deixe um colega à porta prevenindo, estando a casa de banho dos meninos com enorme fila e apertando a fisiologia em extremo incontível.
 
Claro que a ideia é não romper o princípio, manter a privacidade de um sexo e outro, mas para quem tem de fazer o que quer que seja nas calças e sujeitar-se á chacota posteriormente a norma é nitidamente absurda, naquelas condições. São inúmeros os exemplos daquilo que se pode compreender metendo-nos agora dentro da nossa mente que também já foi infantil e juvenil. Ficamos com a ideia, para esta crónica, de que há coisas que se entendem numa leitura mas não se entendem (compreendem) numa outra leitura.
 
Os fenómenos actuais que se relacionam com a violência juvenil, seja ela nas escolas ou fora delas, nascem onde calha, ou seja, nascem consoante a ocasião, e muito pouco têm a ver com a escola em si senão pelo facto de aí poder haver uma maior regulamentação evidente e por aí se passar, de forma concentrada, socialmente, um largo tempo de vida, acrescido na sua potencialidade de captação pelas limitações do espaço, pela uniformidade relativa do ambiente, pelo número de potencialidades do acontecer.
 
Se alguma vez fossem feitas as contas, e hoje fazem-se estatísticas para quase tudo, seria interessante saber-se a quantidade de eventos diferenciados e uniformizados acontecidos em ambiente escolar em comparação com aqueles que têm lugar fora do ambiente escolar. Só como exemplo, e porque me veio à ideia, num estudo americano (são sempre os americanos) num outro campo, chegou-se à conclusão que os enfermeiros (os questionados, cerca de 900) são distraídos da actividade que executam entre 4 e 6 vezes em média e que o leque de distracções dessa sua actividade abrange 11 itens.
 
Ora, continhas destas nunca foram feitas nem nas escolas nem nos miúdos (sejam eles mesmo miúdos ou menos miúdos) e o curioso deste estudo que falei sobre os enfermeiros é que ele foi feito a partir da altura em que os enfermeiros começaram a estar sujeitos também ao conceito do erro médico (de enfermagem, neste caso). Ou seja, foi feito porque começaram a entrar em jogo indemnizações, entidades publicas e privadas, seguradoras, etc.
 
Quanto à violência nas escolas, nada estando feito e ninguém se interessando por isso, assistimos com alguma frequência a verdadeiros massacres incompreendidos, a chantagens (bullyng) entre alunos, a pressões das mais diversas ordens, a violência física, a violações, etc.
 
Ora o mundo parece que acorda para a novidade cada vez que uma destas coisas é conhecida ou mais tragicamente acontece, quando deveria procurar conhecer o que está por detrás dos fenómenos. Uma Universidade, todas as Universidades, reforçam as medidas de segurança depois que um trágico caso acontece, mas em termos de inteligência, quer dizer, de informação, o que fazem. Nada, que eu saiba...
 
São capazes até de ser injustos em procedimentos, penso que é o próximo passo dentro desta lógica que tem mais de repressiva do que de preventiva, ao ponto de construírem bases de dados de alunos - problema, fazerem circular entre si essa informação, quando nada garante que cesteiro que faz um cesto faça um cento, apesar do ditado popular, anexando assim ao sistema de informação geral (social) aquilo que se manifesta em ambiente escolar em circunstâncias bem específicas e por razões igualmente específicas quantas vezes.
 
Tenho lido sobre violência nas escolas desde há muitos anos, pelo menos dez, e tenho visto que as soluções apontadas para resolução de problemas não são razões estudadas: na maior parte dos casos fazem-se experiências, como é o caso do aluno moderador que não será difícil confundir com o aluno «bufo» em terminologia escolar.
 
Ir à fonte dos problemas, poucas pessoas querem, até mesmo os pais e suas associações muitas vezes primam pela envolvência emocional desviando desde logo a possibilidade de uma análise cuidada dos factos.
 
Não digo que a violência nas escolas (até mesmo contra professores) ou que os massacres escolares que vimos a saber periodicamente estejam inteiramente dependentes e sejam resolúveis na sua incidência através desses estudos que qualquer ser racional hoje sente a falta.
 
Mas era bom ter uma ideia, quanto mais não fosse uma ideia, daquilo que se passa realmente nestas mentes sem ser a tradicional resposta desculpa do ambiente familiar (quando é mesmo desculpa pilatiana), da sociedade (esse saco enorme), da Net, da televisão, dos jogos de computador ou de qualquer outra coisa.
 
Tal como estamos, nada feito!!
 
Daniel Teixeira 
 
Publicado pela primeira vez no Jornal Raizonline nº13 de Março de 2009
 

terça-feira, 5 de março de 2013

COLUNA UM - Sobre a Especificidade e a Globalização.

 
 
COLUNA UM - Sobre a Especificidade e a Globalização.
 
 O Acas, (a seguir nesta coluna), fez o favor de responder ao meu convite para que nos falasse sobre o que é ser-se caipira, o que sente, vive e motiva um caipira que o faz ficar caipira.
Em certo sentido tentei que ele me explicasse as razões de fundo do seu orgulho em afirmar-se caipira.  Nunca pretendi como parecerá evidente, ver no caipira um ser estranho a este mundo de modernidade, a este mundo de nivelamento cultural e linguístico, enfim ao mundo em que vivemos.
 
Isto apesar de alguma simplificação comparada (comparamos sempre tudo com tudo) nos levar facilmente a pensar que o caipira é o mesmo que o nosso habitante do interior português, o agricultor de antigamente a soldo dos latifundiários (tipo criado de servir como braço de trabalho e as mulheres também como serviçais) ou da pequena agricultura de sobrevivência, onde existia (e existe) uma relação com fortes laivos de feudalismo - normalmente traduzidos pelo termo compadrio - onde acontecem, nestes tempos de democracia (pelo menos virtual) algumas cumplicidades entre poderosos e «ex-criados» que ultrapassam pelo absurdo tudo aquilo que um defensor da «luta de classes» julgaria possível.
 
Os exemplos mediáticos nesta nossa terra são muitos e podemos falar de Felgueiras, Adelino Ferreira Torres, Alberto João Jardim e todo um manancial que por uma razão ou outra pouco conhecido do grande público é.
 
Mas existem outras relações de solidariedade entre pessoas de classes e condições económicas mais ou menos diferenciadas que não se ficam pela cumplicidade «malandra» e são antes resultantes do respeito mútuo por regras de convivência seculares que não são forçosamente resultado de outras imposições senão as que resultam de uma vivência e de uma história comuns.
 
Afinal, tudo depende dos homens, tudo depende das pessoas. Tudo depende de casos concretos, tudo depende da especificidade que se tem em análise.
 
Numa altura em que todos os povos - e neste momento os mais reparados são os europeus entre os quais neste caso se acentuam os portugueses - são englobados na ideia da mundialização do pensar, num momento em que as próprias tecnologias nos empurram para procedimentos comuns, nivelados, em que o ser «normal» obedece quase a um figurino que se pretende que seja tão único quanto é possível, a afirmação das identidades torna-se trabalho de muito poucos e resistência passiva de muitos.
 
Em certo sentido condenada pela história em andamento a especificidade e a defesa dela começou de forma mais evidente a ser «limada» nos seus pontos mais fracos e o hábito, a cultura, o falar local são seguramente pontos fracos em qualquer sociedade que ficarão como motivo folclórico para turista ver como vai acontecendo todos os dias desde há muito tempo com os povos todos.
 
Teremos nós culpa disso, ou seja, teremos nós achado que era pouco significante que o índio brasileiro, o africano tribal, o ilhéu de Dobu se «civilizassem» à nossa maneira e estaremos nós agora a «pagar» pela nossa desatenção no passado ? Não sei se as coisas não seriam sempre assim qualquer que fosse a nossa atitude...porque de uma forma ou de outra ela aí está e veio para ficar: a globalização cilindrará pura e simplesmente tudo aquilo que destoe do pensar que se vai tornando cada vez mais comum a um maior número.
 
Estamos pois condenados a não ser diferentes e a sermos menos nós - e que não se entendam estas palavras como sendo uma manifestação de derrotismo. É antes a constatação de uma realidade que todos sabemos ser demasiado real.
 
Os portugueses que lêem o Acas quando ele se refere a Portugal, quando ele refere as grandes vantagens de se estar na União Europeia, quando ele fala daquilo que se diz pelo menos em certos estratos da população brasileira sobre a riqueza e a fortuna de se estar na U. Europeia e sobre aquilo que é Portugal actualmente, os portugueses sabem que a imagem que de nós se cria não correspondendo de todo à realidade mas também têm de saber que é assim que as ideias se implantam: manda primeiro o imaginário o manto da ilusão e mostra-se a realidade por si mesma depois. É um processo imparável e infalível...

   Daniel Teixeira
Janeiro de 2009

Afinal em Portugal não estamos assim tão mal...

 
 
Afinal em Portugal não estamos assim tão mal...
 
no que se refere à mortalidade perinatal.
 
A Euro Peristat, de cujo Comité Científico faz parte o representante português Prof. Henrique Barros do Serviço de Higiene e Epidemiologia da Faculdade de Medicina do Porto, reportando-se a dados recolhidos para o ano de 2004, divulgou recentemente o seu relatório no que se refere a dados sobre as percentagens de mortalidade perinatal na sua relação com o número de nascimentos em cada um dos 25 países da Comunidade Europeia mais a Noruega em 2004.
 
Nesse relatório, que não deixa de ser curioso nas suas dramáticas conclusões, pode verificar-se um realinhamento no ranking dos países com maior ou menor taxa de mortalidade perinatal que não encontra correspondência com a imagem normalmente construída sobre o bem estar e os cuidados de saúde a nível europeu e que diferencia em quase todos os sectores os países mais ricos e os países mais pobres dentro desta mesma Comunidade Europeia (mais a então candidata à adesão Noruega).
 
Assim, Portugal, com 3.8 mortes perinatais por cada 1.000 nascimentos encontra-se em igualdade estatística (neste plano) com a Hungria, um ponto abaixo da Austria (com 3.7), da Alemanha com 3.5, da Finlândia com 3.3, da Espanha com 3.2 (havendo aqui que referenciar que este país aparece estatisticamente separado entre Espanha com 3.2 e Valência com 4.3 o que no globo dá aproximadamente 3.5), a Suécia aparece com 3.1 assim como o Luxemburgo e a Eslováquia, com a melhor performance de todos os 26 países estudados, contabiliza 2.6 mortes perinatais por cada mil nascimentos.
 
O estranho, sem deixar de ser significativo de alguma coisa (redireccionamento diferenciado de recursos na saúde, por exemplo ) é que abaixo de Portugal, com valores que vão dos 3.9 mortes perinatais da República Checa aos 9.1 da França (10.7 na parte ultramarina), vamos encontrar neste intervalo países como a Bélgica, a Dinamarca, a Estónia, a Irlanda, a Grécia, a Itália, a Letónia, a Lituânia, a Hungria, a Holanda, a Polónia, a Eslovénia, o Reino Unido, que se encontra dividido dente Inglaterra e País de Gales com 5.7, a Escócia com 6.7 e a Irlanda do Norte com 6.3 e por fim, na lista, a Noruega com 4,5.
 
Embora o critério para a definição de morte perinatal varie nalguns casos no limiar da sua definição com «aborto espontâneo» entre «0» (Espanha e Luxemburgo) e 500 grs de peso do feto e o tempo de gestação (22 semanas a 28 semanas - Portugal adopta as 24 semanas de gestação) os números apresentados no relatório da Euro Peristat não deixam de demonstrar que o factor do acompanhamento da grávida durante a gestação é um factor que merece uma maior atenção quer das entidades de saúde quer como preocupação das próprias populações nuns países mais que noutros não dependendo exclusivamente dos meios colocados à disposição das populações a sua utilização ou frequência.
 
Outros factores não deixarão de ter a sua influência nestes números, factores estes que seria interessante escalpelizar uma vez que as estatísticas atravessam os factores religiosos (comparando Espanha com a Irlanda, por exemplo) e são aparentemente independentes do factor migratório (embora a Inglaterra e a França tenham números elevados vamos encontrar o Luxemburgo com um número relativamente baixo de mortes perinatais tal como a Alemanha).
 
Daniel Teixeira

Janeiro de 2009

segunda-feira, 4 de março de 2013

Sociedades e micro problemas

 
 
Sociedades e micro problemas

 Por Daniel Teixeira
 

Ao longo da minha formação pessoal fui confrontado com a necessidade de conhecer as formas de formação das sociedades para entender melhor esta em que vivemos.
 
A antropologia cultural (aquela que não aldraba) é um dos domínios onde me movimento relativamente bem na medida em que tenho feito bastantes leituras sobre o tema e embora se dê presentemente pouca relevância a estes conhecimentos é por exemplo interessante saber-se que uma parte das concepções de hoje vêm de trabalhos realizados séculos atrás e que uma parte substancial da nossa organização social e económica, cuja origem se atribui ao ontem ou ante ontem tem na verdade muitos séculos de treino histórico.

Aliás um dos problemas grandes das sociedades actuais é por vezes não terem presente as suas origens de forma a saberem aquilo que podem implantar com maior certeza de vingar e poderem também acautelar substancialmente mais aquilo que é relativamente recente em termos de formulação para que essa força enorme que é a cultura social dos povos não venha a confrontar-se com contradições cujo alcance e objectivo não entende.

Na minha vida profissional, como jornalista, embora trabalhe pró bono, ou seja, é uma profissão por vocação mais do que uma profissão no sentido de se executar trabalho remunerado, tenho encontrado em muitos campos, de forma por mim percebida desde logo e outras vezes de forma quase automática, aplicação para muitos conceitos, filosofias, ideologias, teorias e aspectos científicos conhecidos desde longa data e conhecidos de longa ou fresca data por mim que estou convencido que me levam a melhor gerir os interesses e conceitos aparentemente contraditórios com os quais me defronto.

Trabalhando com um jornal online que pretende inserir-se no âmbito da diversidade cultural que é própria da CPLP (Países de Língua Oficial Portuguesa) não é difícil entender-se que para conjugar num campo uniforme uma diversidade geograficamente, economicamente e socialmente tão distribuída é preciso um pouco mais do que a simples boa vontade.

Temos, nós, portugueses europeus e / ou assemelhados, o triste hábito, por vezes, de nos alcandorar como fonte única e genuína da cultura portuguesa e admitirmos com alguma dificuldade a variância da sua complexidade universalista. Temos sempre mais facilidade em aceitar aquilo que «deixámos» por esse mundo fora do que temos facilidade em aceitar aquilo que «recebemos» e os exemplos são tantos que seria preciso um suplemento bem paginado para as descrever com alguma extensão aceitável.

Como exemplo, não partilho do princípio que as coisas se impõem por decreto, naquele sentido em que se contraria através de decreto (forma formal) aquilo que são os movimentos das sociedades. Partilho sim, de uma ideia com conotações um pouco esquisitas e geralmente muito pouco seguida que é o esclarecimento, o convencimento, a função pedagógica.

Se eventualmente se consegue que um decreto (visto neste sentido da sua inadaptabilidade) resulte, em grande parte ele terá pouca duração, ou haverá uma forma de contorno do mesmo que levará à sua inutilidade pelo menos parcial. Não sou contudo avesso a junções que sejam resumos unificadores escritos (em forma de decreto que seja) daquilo que já existe ou que através de uma análise se aponta como direccionado para um dado caminho.

Será a título de exemplo só o caso do Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa que tanta celeuma levanta e levantaria sempre qualquer que fosse a sua forma e o conteúdo escolhido. Um acordo deste género, por menos relevante que seja no seu impacto com o mundo da lusofonia (esse mundo porque é real vai continuar o seu caminho com acordo ou sem acordo) sendo um instrumento unificador de uma língua dada (neste caso o português) é um mero instrumento técnico destinado a conjugar princípios que levem a que se construa uma melhor comunicação, isto sabendo-se que a língua tem essa função, a de comunicar.

Para quem não tem presente, as regras gramaticais de todas as línguas foram desenhadas pelo uso e unificadas para fins pedagógicos, ou seja, como instrumentos de ensino da língua. Curiosamente os primeiros gramáticos foram músicos, não porque para isso estivessem particularmente vocacionados, mas porque a metodologia da pauta (baseada em tons) era a que mais se aproximava da sua primeira componente, a fonética.

Ora – e avançando – no que se refere a um ambiente ideal para que língua portuguesa tivesse uma plataforma ideal para se encontrar pacificamente necessário seria que as condições económicas, sociais e políticas deste largo espectro fossem convergentes em mais aspectos do que aqueles em que o são.
 
Tal sendo impossível – as sociedade existem e movem-se para além deste (para elas simples / básico) facto da língua portuguesa – trata-se assim de arranjar uma plataforma mínima de convergência que acabe afinal por ser uma média abstractamente considerada das diversas diversidades linguísticas, económicas, sociais e culturais.

Ora tendo eu oportunidade de estar pelo menos minimamente informado das realidades dos diversos países que falam melhor ou pior o português, também tenho de ter em atenção as necessidades próprias das suas próprias evoluções.

Só como exemplo complementar, fala-se agora muito dos trabalhadores das diversas organizações de ajuda internacional, algumas vezes referidas como Ong’s mas também como organizações Institucionais relacionadas quer com a ONU quer com as suas sub - organizações dela dependentes directamente ou por ela comparticipadas.
 
Esses trabalhadores dessas organizações têm sido vítimas, mais nestes últimos anos do que em períodos anteriores, de violência que algumas vezes acaba na morte de alguns deles em zonas inclusivamente consideradas de pouco risco.

Pois bem, embora não descure a gravidade da situação e das outras componentes culturais em jogo, tenho sempre pensado que é devido a dificuldades de comunicação que algumas destas coisas acontecem, isto sem fazer referência àqueles trabalhadores que exercem a sua actividade em zonas de risco e guerra, onde os acontecimentos a terem lugar, são quase um acontecimento com graus de probabilidade de ter lugar acrescidos porque neste caso não se vive em campo diplomático mas sim no campo do braço armado da diplomacia que é a guerra.

Mas como disse as sociedades, por mais diversificadas que sejam, têm alguns pontos comuns: se em Moçambique se queimaram, por exemplo, trabalhadores de uma Ong que distribuía redes de mosquiteiro contra a malária, porque alegadamente, e no entender popular, eles difundiam a malária, ao mesmo tempo – e tenho de falar de novo de Moçambique – nas zonas urbanas, os centros de tratamento e aconselhamento de doentes com HIV / Sida têm tido dificuldade em implantar-se porque são rejeitados pelas populações circunvizinhas.

Nada que não tenha acontecido aqui em Portugal, não de uma forma tão exuberante, em termos de movimentações populares e de gravidade, mas de facto durante os meus tempos de jornalismo escrito, tendo seguido uma parte desses processos encontrei em muita respostas que recebia a mesma questão de rejeição.
 
Em entrevistas, que efectuei várias, ao Dr. João Goulão, então Director da Delegação do Instituto da Droga e da Toxicodependência no Algarve e agora Presidente do mesmo Instituto (IDT) a nível nacional o problema era o mesmo ainda que mais polidamente discutido. A vizinhança dos postos de toma de metadona não agradava…e não agrada.

Ora, as sociedades são organizadas de forma diversa, têm condições económicas e sociais diferentes, mas os problemas podem ser os mesmos ou parecidos. E é esta plataforma aqui mostrada na sua forma negativa que existe também na sua forma positiva e o caso que referi acima do Acordo Ortográfico é de certa forma um exemplo de existem seguramente pontos de acordo que é possível explorar e que existem pontos de desacordo que pode ser possível gerir.

Assim, por mais diferentes que sejam os graus de potencialidade económica, a diferenciação social e cultural há pontos de convergência que «apenas» é preciso detectar.

Já no que se refere a tecnologias, parece-me evidente que as sociedades se concentram naquelas soluções que mais ao seu alcance estão e quando refiro alcance não me limito a frisar o seu aspecto do custo financeiro. Claude Levy Strauss num dos seus paradigmáticos livros, Tristes Trópicos, faz uma abordagem com de cerca de 50 anos de distanciamento e refere factos que para mim me parecem de todo absurdos terem tido lugar: uma parte substancial dos índios Tupi (etnia índia dominante no Brasil) foram contemplados com apetrechos técnicos e tecnológicos nos anos 30/40 que para eles não tinham nenhum significado, desde cafeteiras a máquinas de costura.

Ora passados esses cerca de 50 anos o antropólogo vai encontrar aquilo que seria desde logo expectável, quase nada, materiais enferrujados (nomeadamente cafeteiras de café) que teve de negociar para obter e peças soltas de outros objectos cuja origem era já difícil detectar. Assim, parece-me claro que se as tecnologias evoluem, existem estádios para que elas sejam aplicadas.
 
Só como exemplo desta disparidade o ferro de engomar eléctrico doméstico foi inventado (1882) antes da generalização pelo menos mínima do fornecimento da energia eléctrica em meios urbanos desenvolvidos. Posteriormente a electrificação, pelo menos em Portugal, só foi considerada próxima da totalidade de cobertura nacional nos anos 90 do sec. passado. Assim, e pegando nesta história e aplicando-a à língua portuguesa nos seus diversos aspectos, temos mais de 100 anos de «ferro eléctrico» verbal entre o seu aparecimento e a sua implantação mais próxima da sua universalidade.

Ora tão importante para mim como conhecer as evoluções técnicas é saber se elas são convenientemente empregues e nestes dois casos referidos logo acima parece-me que pelo menos num caso tanto o ovo como a galinha não nasceram simplesmente no caso dos Tupi e não nasceram pela ordem devida no caso do ferro de engomar. Acabaram por nascer mais tarde pela ordem possível.
 
Ora há que diferenciar entre língua portuguesa e «linguarice aguda» e se estivermos atentos, iremos descobrir que uma parte substancial das formulações do português dito erudito não tem quem se sirva delas por razões diversas que normalmente se agrupam sob o termo de analfabetismo de função e que não dependem por vezes exclusivamente da qualificação académica e da falta dela. Dependem da sua adaptabilidade às situações vividas quer a nível pessoal quer a nível profissional quer a nível institucional quer a nível mais geral da sociedade.

Quem não tiver, para este campo, isto presente, e há muitos radicais tanto para cá como para lá dos Oceanos…poderá ser em termos opinativos apelidado de «analfabeto» temporal.

sábado, 2 de março de 2013

COLUNA UM - Daniel Teixeira - Dia da Poesia ou Dia dos Poetas

 
 
Dia da Poesia ou Dia dos Poetas.
 
Aparentemente uma coisa e outra deveriam querer dizer o mesmo ou quase, pelo menos...De facto sem poetas não há poesia (ou há?) e sem Poesia não há poetas (ou há?).
 
Pois, sem querer ser complicadinho confesso que não entendo muito bem porque se chama a este Dia (21 de Março) de Dia da Poesia e não se chama antes Dia dos Poetas. Na verdade, a
 
Poesia, sendo uma coisa abstracta, sem definição concreta, apenas encontra definição pelo menos mais concreta e definida quando é feita, quando é realizada...por poetas, é claro.
 
Aliás, talvez 100% dos Poetas ao considerarem-se Poetas admitem que fazem Poesia, ou que pelo menos pensam que fazem Poesia, o que já não é mau de todo. Por isso a minha contribuição para este Dia é que ele trate de fazer-se dele mesmo o Dia dos Poetas.
 
Poderemos assim celebrar o homem (o ser humano, nada de machismos aqui)  no exercício da sua Arte e não como fazemos agora celebrar a Arte sem sujeito.
 
Talvez eu esteja um pouco influenciado pelos acontecimentos do presente e em função deles me tenha relembrado hoje daquilo que sempre considerei ser uma incongruência mas, e por isso, numa altura em que jogam bombas no Médio Oriente, em que se matam pessoas - todas inocentes porque ninguém merece ser morto por nada deste Mundo ou mesmo do outro - deveríamos dizer que o que mata e faz  morrer é a Guerra e não as pessoas que fazem a guerra.
 
A Poesia, quando feita pelos Poetas, como é claro, deve também reflectir sobre este mundo conturbado em que vivemos, em que praticamente muita pouca gente se entende entre si e onde há gente que não utiliza a poética arte do diálogo para resolver problemas.
 
Se entendermos este Mundo como uma casa grande, composta de muitas famílias, estaremos dentro desta linha de raciocínio a legitimar a violência doméstica - e que violência meu deus...que reprovamos abertamente todos os dias, por exemplo.
 
Por isso o Poeta é mesmo mais alto e a Poesia é aquilo que ele consegue que seja e não aquilo que ele gostaria que fosse. Esta parte do gostar, quer dizer a diferença entre o possível e o desejado é a parte utópica do Poeta e da Poesia que ele mesmo faz e que encontra sempre lugar dentro do coração, da alma, do sentir do Poeta.
 
Ser Poeta, pois, é estar mais além e estar aqui. Sem se estar aqui, neste Mundo que nos desilude um pouco ou muito todos os dias é andar evadido, e isso, fugir ou alhear-se das coisas, das coisas importantes que mexem no Homem e no Mundo onde ele vive não é francamente Poesia...Aliás acho, mesmo, que vendo estas coisas estou a ser Poeta.
 
 Daniel Teixeira

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

Quem somos nós, afinal!?

 
 Quem somos nós, afinal!?
 
 
Tenho-me deparado nestes últimos tempos com alguns trabalhos, que vou lendo por essa Net fora, onde a pergunta - pelo menos implícita - que surge é a já velha questão «netística» de se saber se as pessoas na Net são reais ou são diferentes da sua realidade.
 
Pessoalmente, e apesar de já ter entrado algumas vezes na discussão do tema, acho que essa pergunta é, pelo menos parcialmente, uma falsa questão, quando colocada exclusivamente no âmbito do raciocínio sobre a Net. Na verdade nunca ninguém é, de uma forma estável e estática, ou duradoura, da forma que o outro desejaria e idealiza em termos comportamentais na Net ou fora dela.
 
Todos flutuamos em termos de «humor», quase todos temos problemas e alegrias que condicionam os nossos comportamentos e as nossas apreciações, quase todos somos um pouco aquilo que somos e um pouco aquilo que não somos, com Net ou sem ela. Isto no que se refere a comportamentos, a formas de agir, a atitudes que se tomam.
 
Amos Oz, um escritor israelita, define, por outras vias e com uma outra gravidade esta situação com o seu tema a mulher à janela. Nenhuma delas, Israelita ou Palestiniana sabe concretamente o que a outra pensa, quais os seus problemas pessoais, as razões de uma estar bem ou mal disposta, enfim, não existe qualquer informação trocada entre elas, só podem imaginar-se...
 
O problema pode ser colocado em qualquer circunstância e em qualquer meio, e tendo como exemplo o referido acima sobre Amos Oz, trata-se de saber se o comportamento ou a atitude de uma dada pessoa entra dentro de um padrão que se considera aceitável. Quer dizer, se esse comportamento não sai, para mais ou para menos, de um espaço que a nossa mente calcula razoável.
 
A ideia que se pretende e que na Net não se consegue obter senão após um lapso de tempo maior do que na vida real, é esta acima referida certeza relativa de uma regularidade comportamental que só se consegue através da solidificação da nossa ideia, da nossa opinião e aqui entram em linha de conta outros factores que já foram aflorados acima : na verdade, e sumarizando e muito, até que ponto o outro imaginado do lado de lá não corresponde a um modelo que nós mesmos temos criado dentro de nós!?
 
Quer dizer, até que ponto a ideia que fazemos e vamos fazendo do outro não é para nós aquela que nós consideramos razoável e / ou desejável e / ou possível dessa mesma pessoa tendo como «modelo» um modelo ou um conjunto de modelos que recolhemos em meio múltiplo e armazenámos na nossa mente?
 
A questão tem tantas variáveis como variável é o mundo pessoal e colectivo de cada um e o problema maior não está no resumo em si, na necessidade que se tem de se fazer esse resumo unificador, de classificar o outro dentro de um padrão. O problema está, a meu ver, em saber-se que dada a  escassez de meios que a Net proporciona para conhecimento do outro, seria bom que o nível de exigência sobre o conhecimento do outro tivesse isso em consideração: quer dizer, e sumarizando e regressando a Amos Oz de novo, quanto menor é a informação maior terá de ser a nossa construção dessa mesma informação de forma a conseguir-se um perfil que se adapte, pelo menos minimamente, a uma ideia razoável que seja aceite como suficiente pela nossa necessidade de conhecer o outro, em nós.
 
A Net tem, incontestavelmente os seus limites, mas como temos ido vendo esses limites existem um pouco por todo o lado: a questão está em reconhecer a existência desses mesmo limites, em aceitar que não temos nunca a informação toda sobre o outro (nem seria próprio, diga-se, e nem seria possível, também).
 
Este blogue, como aliás qualquer meio de difusão sério e que prime pela honestidade e pela imparcialidade é um meio de conhecimento do outro. Não se trata como é evidente de saber tudo sobre o outro - já vimos que tal seria impróprio e impossível - mas no plano cultural pessoalmente, eu, todos os dias, a todos os momentos, vou sabendo coisas novas, expurgando alguma ideias menos verdadeiras que a minha envolvência criou em mim, afinando outras, breve, com o tempo sinto que vamos melhorando todos com o conhecimento que vamos tendo uns dos outros.
 
Podia apresentar exemplos, muitos mesmo, de evolução na compreensão mútua neste nosso mundo que tem por meio comum de contacto uma linguagem, assim como podia apresentar muitas afirmações e atitudes que só serviriam para demonstrar que ainda há muitas pedras no meio dos nossos caminhos a contornar.
 
Há neste nosso meio - e voltando a Amos Oz - muitos homens e muitas mulheres à janela. Uma coisa teremos de ter contudo como certa, é que existem agora muito menos homens e mulheres à janela do que havia logo que iniciámos a nossa actividade aqui no blogue.
 
Serão poucos / as ou muitos /as, isso ninguém sabe, mas qualquer que seja o resultado, numericamente significativo sempre, foi a Net, sim a Net (!), que nos aproximou.

COLUNA UM - Daniel Teixeira
 
 

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Coluna Um - Os períodos eleitorais - Por Daniel Teixeira

 
 
Coluna Um - Os períodos eleitorais - Por Daniel Teixeira
 
Os períodos eleitorais são para mim um verdadeiro paradoxo quando atingem aquela febre que já se vai tornando habitual nas suas pontas finais. Penso, por aquilo que leio e ouço que o fenómeno é geral, que existe em todos os países, mas não deixa de ser curioso que o processo tenha sido adoptado nos mais diversos quadrantes, também um pouco resultado do facto das campanhas terem períodos determinados no tempo, com princípio, meio e fim.
 
É no fim, quer dizer nos últimos meses antes das ditas eleições e nos últimos dias antes da sua realização que os ânimos aquecem, quer por necessidade de dar resposta aos chamados adversários ou por iniciativa própria que os diversos intervenientes no jogo ajustam o vocabulário, aumentam o volume da sua voz e utilizam os meios que julgam necessários para conquistar pontos aos adversários, baseados em análises resultantes de sondagens, em criteriosos estudos que dividem o eleitorado em faixas etárias, faixas de género, faixas de condição económica, faixas de intenção de voto, de utilidades de voto, enfim, a terminologia daria para encher pelo menos algumas páginas.
 
Faz-me sempre lembrar os jogos de futebol em que uma equipa, que em 90 minutos de jogo não consegue meter um golo na baliza adversária, protesta, pede cartão amarelo, reclama contra as lesões dos adversários que por princípio são sempre fingidas. nesta perspectiva, nos minutos finais e em que o outro, o adversário, aproveita o tempo para fazer as substituições que não fez porque não achou necessário mas que agora já acha que são necessárias ao cair do pano, faz uma falta ou outra desnecessária, enfim, empatam-se as coisas na perspectiva de um e aceleram-se as coisas nesses tais minutos finais na perspectiva de outros.
 
Um governo, ou qualquer órgão institucional eleito tem pelo menos 4 anos para mostrar aquilo que vale e se vale alguma coisa, as oposições têm também 4 anos pelo menos para mostrar aquilo que acham que o outro não vale, mas tudo se resume (dizer resumir é excessivo) aos tais minutos finais (que podem ser duas semanas, dois meses).
 
O matraquear ou metralhar do pobre eleitor é um verdadeiro abuso e tudo se conjuga para que as ideias mais ou menos guardadas durante os tais de 4 anos (ex.) sofram uma reviravolta ou se mantenham sem reviravolta, consoante os interesses e os intervenientes. «Descobrem-se» nestes períodos os mais diversos escândalos, sejam eles financeiros sejam eles políticos ou mesmo de outras índoles e no final, quer dizer, no dia das eleições, no dia do depósito efectivo do cartãozinho na urna, pelo menos uma percentagem razoável dos eleitores vota. não com a consciência, mas com a percepção algo abstracta de que o seu voto vai no caminho certo ou é «dado» a quem de facto o merece.
 
Já se tem assistido a verdadeiras reviravoltas no último minuto, como aconteceu na primeira eleição de Zapatero em Espanha, em que o elemento despoletador da reviravolta foi um trágico ataque terrorista e já aconteceu o inverso em França em que os distúrbios nos bairros periféricos de Paris acabaram por contribuir para eleição do então Ministro do Interior, agora Presidente Sarkosy.

Afinal será que o eleitorado anda mesmo às aranhas ou que não sabe analisar os comportamentos a longo ou a médio prazo e formar opinião ou será que tem a opinião tão frágil que um único acontecimento faz virar a balança do seu pensamento, que os últimos minutos são determinantes para a formação e consolidação dessa mesma opinião, ou será simplesmente, o mais provável na minha opinião, que o eleitorado, de uma forma geral, precisa que lhe digam mesmo de uma forma explícita em quem deve votar?

O facto de se fazerem grandes obras, de se inaugurarem outras grandes ou pequenas, até por várias vezes como já tem acontecido, terá de ser assim tão determinante para a formação de uma opinião de voto?

Afinal o resultado do voto, até que as coisas mudem, o que não convém absolutamente nada diga-se (incomoda-me verdadeiramente os países que andam em eleições quase mensais) o resultado desse voto não é para durar os tais exemplares 4 anos e não deveria ser estudado durante os anteriores 4 anos todos e não nos últimos 4 minutos da partida?

É dificil pensar em termos de estabilidade para se fazer alguma coisa quando, por exemplo em Portugal se sabe que os Presidentes da República são eleitos por um mais um mandatos, que os governos andam sempre vai não vai sem saber se ficam se vão embora, se as Câmaras Municipais, depois de atravessado um período de longas (e quase eternas) repetições eleitorais, têm ultimamente mudado globalmente a um ritmo acelerado, que as administrações dos Institutos Públicos mudam de acordo com a camisola governamental eleita, que existem milhares de cargos de nomeação que caem ou não caem depois das eleições e que, como se tudo isto não bastasse ainda se dá os tradicionais 100 dias de período de habituação aos lugares a este pessoal todo fora as alterações pontuais que se vão fazendo periodicamente.

Temos depois a também tradicional distribuição dos jobs for the boys que leva eternidades a assentar, que roda e volta a rodar consoante a adaptação de a, b, ou c para o lugar para onde foi nomeado.

Enfim é um rol quase interminável que leva a esta sensação de inconstância, de fragilidade estrutural, de trabalho de cada um por si (e para si) que os eleitores portugueses vão sufragar neste ano que corre muitos deles instavelmente durante os últimos minutos do jogo.

O Churchil dizia que a democracia era o pior dos sistemas políticos excluindo todos os outros: agora que só localizadamente existem outros sistemas talvez seja bom aperfeiçoar esta mesma coisa porque assim é mesmo desesperante.
 
 

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Coluna Um - A culpa é do branco

 
 
Coluna Um -  A culpa é do branco
 
Há dias, durante a visita do Primeiro Ministro Inglês a Brasília, o Presidente Lula da Silva afirmou sucintamente que a presente crise económica é resultado da actuação de indivíduos «brancos, louros e de olhos azuis», numa referência que todos entendemos estar o mesmo Lula a dizer que os países pobres (em princípio não brancos) estavam a sofrer aquilo que outros tinham fabricado, e que essas pessoas apareciam antes pelo Brasil e por outros países «julgando e dizendo que sabiam tudo».
 
É um facto que, de uma forma geral, a crise actual, resultando sobretudo de especulações financeiras subidas além do chinelo da razoabilidade, tem o seu alicerce nos países ocidentais normalmente considerados ricos e sobretudo, na medida da sua importância em termos económicos, o seu efeito é proporcional à sua capacidade financeira. Quanto maior a nau maior a tormenta e neste caso concreto maior ondulação produz a grandeza dessa nau agora sem rumo nem remos.
 
Esta coisa da moeda é algo de extraordinariamente simples na sua origem: a moeda resulta das transacções de mercadoria (para as quais se estipula um dado valor) evitando-se assim o tradicional sistema da troca directa, ainda em uso nas comunidades rurais, por exemplo, em que se paga com ovos, por exemplo, o café.
 
O intermediário capital, neste sistema, contudo, ganha vida própria, desliga-se da sua realidade de base, joga com os tempos, com remunerações para aplicação, é aplicado com remuneração, ou seja, procura reproduzir-se: quem tem mil euros disponíveis, por exemplo, entrega-os a um banco, que por sua vez o remunera numa dada percentagem e, por estranho que pareça, dizem os financeiros, esses mesmo mil euros na sua rotação podem atingir cerca de 100 voltas, ou seja, podem «transformar-se» em 100 mil euros, dos quais 99 mil são em parte substancial virtuais.
 
E digo que são em parte virtuais, estes 99 mil euros e não na totalidade, porque uma parte dessa virtualidade acaba por agregar-se a realidades e acaba por fazer parte dessa mesma realidade. Vejamos - e peço desculpa por ser tão primário no raciocínio mas não sei trabalhar de outra forma - vamos supor que nessa rotação uma parte fomenta uma actividade produtiva (ou outra complementar) e o milagre da multiplicação dos pães está feito.
 
Os mil euros iniciais, que resultavam de uma realidade, são assim acrescidos na sua realidade com mais mil, ou dois mil, ou dez mil, ou 99 mil, segundo esta lógica. É claro que isso implica um processo de rotação progressiva: não se trata de dar 100 voltas ao dinheiro e voltar a receber os mesmos mil euros. Isso seria absurdo, como é claro, e mais resultado dava tê-lo a abobrar nos cofres (não pagando remuneração nenhuma).
 
Ora visto isto, vamos aos senhores da pele branca, cabelos louros e olhos azuis: o que esse senhores fizeram foi simplesmente furar o sistema, não integrando nos tais mil euros o bastante de realidade que lhe desse um suporte aceitável.
 
Pelas minhas contas feitas assim aqui em casa, e dado o buraco que as coisas estão a apresentar, e tomando como exemplo um caso que dá brado aqui em Portugal, o famoso caso do Banco Português de Negócios (e do Banco Privado Português numa escala mais pequena em valores), o primeiro (BPN) de uma necessidade de solvabilidade (diferença entre a realidade e a virtualidade) de 450 mil euros, passou a 750 mil numa semana e a três mil milhões em dois meses.

O que é que isto quer dizer? Que inicialmente estava descoberta (dada a pressão dos pedidos de retorno dos depositantes) uma soma de 450 mil euros e que essa soma evoluiu para 3 mil milhões de euros. Fazendo umas contas ao contrário, e se entendermos que o dinheiro inicial dos depósitos, rodou 100 vezes (o que é elogioso porque a média da rotação é de 40, 50 vezes) isso quer dizer que foi incorporado no processo uma irrealidade (ou uma virtualidade pura) de 3 mil milhões de euros menos 1%, ou seja, 2.700 milhões de euros.

Se quisermos ser mais correctos podemos dizer que tendo rodado a média (40/50 vezes) a percentagem de virtualidade se reduz a metade e que em vez de haver um virtual puro de 2.700 milhões de euros há um virtual puro de 2.400 milhões de euros, sendo que o real de partida (depósitos) será no primeiro caso de 300 milhões de euros e de 600 milhões de euros no segundo caso.

Ou seja, em qualquer dos casos, em vez do milagre da multiplicação dos pães assiste-se ao milagre da microscopização dos pães: os iniciais mil euros com que começamos as nossas contas «valem» agora 1% ou 2% de si mesmos, ou seja, 10 ou 20 euros, tendo levado assim uma «dentada» de 990 euros ou 980,00 euros.

É claro que os senhores de olhos azuis não conseguiriam fazer isso se não contassem com a tradicional sofreguidão dos aplicadores de capitais entre os quais se encontram muitas instituições públicas (aqui em Portugal o Fundo da Segurança Social do Estado tinha num destes bancos 450 milhões de euros aplicados, que ao que parece levantou a tempo).

Por outro lado uma parte substancial das empresas públicas, e privadas, com capitais a disponibilizar por períodos curtos ou longos segundo as capitalizações (lucros) e os investimentos terão de vir um dia à luz do dia, e para já a recente redução dos lucros apresentados na sua maioria resulta da perda de capitais investidos em larga percentagem e numa parte bem mais pequena das reduções da procura e da disponibilidade financeira das famílias.
 
Por outro lado, essas aplicações estão a contar como capital (património) pelo valor corrente do mercado que ninguém sabe onde vai parar em termos de descida daqui a dias ou meses.

Ora, numa altura em que se pode considerar que os implicados nesta mega fraude varrem muitos quadrantes, de forma activa ou passiva (a este passivo eu chamo ganância e / ou ignorância) é muito cedo para andar a deitar todas as culpas sobre o branco, embora fique sempre bem o apelo à unidade, isto porque amanhã ou depois vai ficar-se a saber que a culpa é do branco, do preto, do amarelo e das mais cores que se forem arranjando.

Até aqueles (brancos, pretos, amarelos, etc.) que nada têm, ou que têm muito pouco, têm culpa porque deixaram nas mãos de meia dúzia de parolos a gestão dos seus destinos.
 

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Coluna Um - Inversões e marcha atrás

 
 
Coluna Um -  Inversões e marcha atrás
 
 Em tempo de crise económica e social as questões que levantamos não aparecem como se tivessem estado escondidas atrás de uma pedra durante o tempo das vacas confortadas.
 
Estiveram, essas mesmas questões, antes, envolvidas no tal de manto diáfano da fantasia em que fomos vivendo através do desviante e silenciador massacre das propagandas privadas e oficiais, que através da insistência da sua própria lógica e desenvolvimento, fizeram até com que essas questões tivessem passado para uma outra dimensão quase extraterrestre.
 
Não há muitos anos, fazendo uma viagem à terra dos meus avós e meus bisavós, uma triste terra, é um facto, onde se aplicava integralmente desde havia muitos anos antes o ditado popular que «a agricultura era a arte de empobrecer alegremente», um técnico, que estava comigo presente na altura segredou-me perante a descoladora imagem de uma população envelhecida que apesar de tudo continuava a insistir em cavar terras e a plantar alguns pés de trigo, cevada, couves e batatas, que ele, se tivesse meios e poderes, pagava àquela gente para se ir embora «para ter uma vida condigna».
 
Relembrando o passado e recolhendo na memória dos outros, o passar de cavalo para burro aplicava-se ali integralmente; de duas vacas, seis ovelhas, dois cavalos e uma égua trinta anos antes, um dos presentes na pequena conferência da semi-taberna estava naquela altura na posse de dois velhos burros cujos potenciais compradores, em caso de necessidade, seriam apenas e só os indivíduos de etnia cigana se ele os encontrasse e se eles estivessem nessa disposição.
 
O pão caseiro, de uma excelência de forno de estevas e loendros, saindo a respirar como gente da boca do seu mundo, era já, naquela altura (cerca de vinte anos) batido aos pontos económicos pelo pão de padaria industrial e era fácil fazer as contas: cerca de 5 vezes mais caro - mesmo não contabilizando todos os factores -. O pão verdadeiramente caseiro estava ali também a despedir-se deste mundo na altura em que lá estivemos.
 
Veio depois o plantio dos infalíveis eucaliptos, ditos de crescimento rápido e a vivência das miseráveis reformas de toda aquela gente. Desapareceu um mundo, ali, em várias fases, mas sem outras opções de sobrevida. Uma forma de ver vencida pela roda trituradora do alegado progresso. Falta saber se foi mesmo um progresso...

Na situação em que estamos penso que não haverá grandes dúvidas de que eucaliptos não dão de comer a ninguém, salvo a meia dúzia de pessoas e durante períodos limitados de tempo. Dão de comer sim aos grandes industriais, às suas grandes empresas que investem na bolsa ou noutros locais menos conhecidos e que agora estão cai não cai no domínio da intervenção económica estatizante.

Pode assim fazer-se um balanço, ainda que os indicadores não sejam todos favoráveis à tese de que «antes era melhor». Não era, de facto, melhor trabalhar de sol a sol, com meios técnicos rudimentares, envelhecendo prematuramente, não tendo condições de apoio à saúde, trabalhar para o boneco, praticamente, porque o resultado económico obtido era inferior ao esforço e aos meios envolvidos, não era melhor. Só que agora é ainda pior...

Aqui em Portugal 150 milhões de euros dão para alargar o período de benefício do subsídio de desemprego, mais 150 milhões de euros dão para reduzir temporariamente para metade uma parte substancial dos pagamentos mensais de quem comprou casa a crédito (sob garantia hipotecária antes e agora). Isso soma 300 milhões de euros.

Só para alegadamente garantir os depósitos de um banco que só não se chama de falido porque ainda ninguém se lembrou disso foram dados, pelo Estado, 750 milhões de euros. Para um outro, que segundo alguns é um caso de polícia, já se vai perto, com as novas exigências de reequilíbrio, dos 300 mil milhões de euros (não são 300 milhões, são 300 mil milhões, repete-se).
 
Isto numa altura em que o Governo Alemão já mandou às urtigas este tipo de apoios e em que a França se debate com forte contestação social que pode resultar no habitual. Entretanto em Espanha vai fervendo em fogo lento...
 
Fazendo contas simples, toda essa massaroca, cerca de 400 mil milhões de euros, davam para aumentar a garantia do benefício do subsídio de desemprego mais dez anos, garantindo ao mesmo tempo alguma confiança social, dava para reduzir as prestações de pagamento de casas à banca em período de carência durante outros dez anos, contribuindo para descomprimir os gastos no consumo corrente, fomentando e reforçando empresas e credibilizando a hipótese da retoma, e, de uma forma ou de outra, o retorno seria certo e seguro (o dinheiro ironicamente já é desde logo também deles). E alinda sobrava algum pois que 300 milhões vezes dez dá 300 mil milhões e estamos a falar de um plafond concedido e a conceder de 400 mil milhões.
 
E isto retornaria, todo este dinheiro retornaria, porque os desempregados arranjariam emprego ou reformavam-se sem andarem por aí a viver de forma pouco digna nalguns casos (a maioria), revoltados, fervendo ainda em águas mansas e os proprietários de casas compradas nestas condições acabariam por ter de resolver a situação logo que pudessem.

Ora, também, reactivar algumas actividades que têm substância de desenvolvimento e de produção efectiva e outras que estejam relacionadas com actividade verdadeiramente produtiva é trabalho que deve preocupar qualquer pessoa que tenha alguma altura de testa.
Mas não...arranja-se dinheiro ou crédito para fazer grandes investimentos que bem poderiam esperar, pressiona-se a banca para conceder crédito às pequenas e médias empresas de vida periclitante, como se a banca estivesse em condições de andar a fornecer dinheiro sem garantias efectivas de retorno sob risco de piorar ainda mais a sua situação e entrar mais no ciclo vicioso da intervenção estatal.

Ora, dentro daquilo que foi jogado fora, incluindo as oportunidades de aplicar melhor os fundos que já não voltam, e repetindo parte do sermão aos peixes do Padre António Vieira, o que terão até agora feito os homens senão manter no mar aquilo que eventualmente tem hipóteses de ser reactivado e de fomentar o encaminhamento da resolução de situações?
Que tem feito esse tal de aparelho de estado para ver estas coisas? Por onde anda a razão mais simples que qualquer um usa no dia a dia ao ir buscar coisas que por pequenas desvantagens relativas em relação ao novo colocou na prateleira/armazém para resolver agora temporariamente os inconvenientes da falência da sua máquina nova?

Esta gente não pensa ?? Não sabe pensar?? Não consegue pensar!!???
 
 

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

COLUNA UM - A violência nas escolas e os massacres

 
 
COLUNA UM -  A violência nas escolas e os massacres
 
 
Todos, ou quase todos, andámos na Escola e todos sabemos melhor ou pior aquilo que o tradicionalmente chamado de sadismo infantil pode produzir. O assunto anda muito mal estudado, e mesmo a nível da psicologia publicada a situação, sendo de alguma forma clara, acaba por ficar escondida dada a delicadeza do tema. Ninguém está interessado em mostrar a jovens em formação psíco - social aquilo que eles mesmos fazem (quando fazem) ou aquilo que eles mesmo não fazendo têm ou podem ter vontade de fazer .
 
A minha escola, contudo, foi antes da escola e depois da escola, como com toda a gente. A maior parte das pessoas não liga uma coisa à outra e até por comodismo psicológico prefere estabelecer a existência de dois ou diversos compartimentos estanques: antes da escola e depois da escola, vida familiar e vida escolar, vida na escola e vida fora da escola, etc.
 
A institucionalização que a Escola apresenta e fomenta sempre foi um problema muito mal digerido na sua compreensão: sejam elas instituições totais, quer dizer instituições onde as pessoas passam a esmagadora parte da sua vida ou uma parte substancial dela com contacto ou não com a sociedade á sua volta, seja ela a micro - sociedade local, seja ela a sociedade em geral, sejam elas ainda instituições às quais se adere voluntariamente ainda que com algum grau de obrigação, caso das escolas de escolaridade dita obrigatória, do serviço militar obrigatório, etc.
 
A utilização de uma lógica de grupo não espontaneamente constituída, a variedade dos graus de formação social e capacidades económicas e intelectuais diferenciadas, é tudo agrupado num conjunto de regras gerais, tipo lógica de código penal, em que sumariamente se diz, ainda que de forma indirecta, as sacramentais iniciais frases do penalismo:«Aquele que...fizer isto ou aquilo...incorre nisto ou naquilo».
 
Para uma criança, ou para um jovem, é, por vezes difícil entender muita coisa, nomeadamente quando se trata de regras com algum grau de preventivismo: por exemplo não se pode ir à casa de banho das meninas, mesmo que ela esteja vazia e se deixe um colega à porta prevenindo, estando a casa de banho dos meninos com enorme fila e apertando a fisiologia em extremo incontível.
 
Claro que a ideia é não romper o princípio, manter a privacidade de um sexo e outro, mas para quem tem de fazer o que quer que seja nas calças e sujeitar-se á chacota posteriormente a norma é nitidamente absurda, naquelas condições. São inúmeros os exemplos daquilo que se pode compreender metendo-nos agora dentro da nossa mente que também já foi infantil e juvenil. Ficamos com a ideia, para esta crónica, de que há coisas que se entendem numa leitura mas não se entendem (compreendem) numa outra leitura.
 
Os fenómenos actuais que se relacionam com a violência juvenil, seja ela nas escolas ou fora delas, nascem onde calha, ou seja, nascem consoante a ocasião, e muito pouco têm a ver com a escola em si senão pelo facto de aí poder haver uma maior regulamentação evidente e por aí se passar, de forma concentrada, socialmente, um largo tempo de vida, acrescido na sua
potencialidade de captação pelas limitações do espaço, pela uniformidade relativa do ambiente, pelo número de potencialidades do acontecer.
 
Se alguma vez fossem feitas as contas, e hoje fazem-se estatísticas para quase tudo, seria interessante saber-se a quantidade de eventos diferenciados e uniformizados acontecidos em ambiente escolar em comparação com aqueles que têm lugar fora do ambiente escolar. Só como
exemplo, e porque me veio à ideia, num estudo americano (são sempre os americanos) num outro campo, chegou-se à conclusão que os enfermeiros (os questionados, cerca de 900) são distraídos da actividade que executam entre 4 e 6 vezes em média e que o leque de distracções dessa sua actividade abrange 11 itens.
 
Ora, continhas destas nunca foram feitas nem nas escolas nem nos miúdos (sejam eles mesmo miúdos ou menos miúdos) e o curioso deste estudo que falei sobre os enfermeiros é que ele foi feito a partir da altura em que os enfermeiros começaram a estar sujeitos também ao conceito do erro médico (de enfermagem, neste caso). Ou seja, foi feito porque começaram a entrar em jogo indemnizações, entidades publicas e privadas, seguradoras, etc.
 
Quanto à violência nas escolas, nada estando feito e ninguém se interessando por isso, assistimos com alguma frequência a verdadeiros massacres incompreendidos, a chantagens (bullyng) entre alunos, a pressões das mais diversas ordens, a violência física, a violações, etc.
 
Ora o mundo parece que acorda para a novidade cada vez que uma destas coisas é conhecida ou mais tragicamente acontece, quando deveria procurar conhecer o que está por detrás dos fenómenos. Uma Universidade, todas as Universidades, reforçam as medidas de segurança depois que um trágico caso acontece, mas em termos de inteligência, quer dizer, de informação, o que fazem. Nada, que eu saiba...
 
São capazes até de ser injustos em procedimentos, penso que é o próximo passo dentro desta lógica que tem mais de repressiva do que de preventiva, ao ponto de construírem bases de dados de alunos - problema, fazerem circular entre si essa informação, quando nada garante que cesteiro que faz um cesto faça um cento, apesar do ditado popular, anexando assim ao sistema de informação geral (social) aquilo que se manifesta em ambiente escolar em circunstâncias bem específicas e por razões igualmente específicas quantas vezes.
 
Tenho lido sobre violência nas escolas desde há muitos anos, pelo menos dez, e tenho visto que as soluções apontadas para resolução de problemas não são razões estudadas: na maior parte dos casos fazem-se experiências, como é o caso do aluno moderador que não será difícil confundir com o aluno «bufo» em terminologia escolar.
 
 Ir à fonte dos problemas, poucas pessoas querem, até mesmo os pais e suas associações muitas vezes primam pela envolvência emocional desviando desde logo a possibilidade de uma análise cuidada dos factos.
 
Não digo que a violência nas escolas (até mesmo contra professores) ou que os massacres escolares que vimos a saber periodicamente estejam inteiramente dependentes e sejam resolúveis na sua incidência através desses estudos que qualquer ser racional hoje sente a falta.
 
Mas era bom ter uma ideia, quanto mais não fosse uma ideia, daquilo que se passa realmente nestas mentes sem ser a tradicional resposta desculpa do ambiente familiar (quando é mesmo desculpa pilatiana), da sociedade (esse saco enorme), da Net, da televisão, dos jogos de computador ou de qualquer outra coisa.
 
Tal como estamos, nada feito!!
 
Daniel Teixeira