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quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

A História Interminável do Diário de Irene III

A História Interminável do Diário de Irene III
 
Uma ideia mais explorada colocaria neste handicap de superficialidde do real em Irene o peso da sua necessidade de levar as coisas da sua vida por uma rama sempre conveniente. Possuidora de um nariz daqueles, feia em todo o seu conjunto, compreende-se (quem quiser compreender) a conveniência de se ser superficial e de cultivar a superficialidade mesmo que ela não tenha base de existência ou carne substancial onde se apoie.
 
Mas o "explorador" mais atento, como foi e é o meu caso, repara que a Irene - em certas afirmações que faz, já a partir da primeira metade do seu diário - não era de todo avessa a alguns vislumbres da crua realidade. Existe, de facto, nesta segunda metade do seu diário que diferenciei, da parte dela, um esforçado desejo - vincadamente expresso por vezes - de fazer com que a realidade da qual se vai apercebendo coincida com aquela que descreveu inicialmente.
 
Por outras palavras mais simples: a erupção da sua percepção da realidade leva-a a falsear a realidade que absorve mas não já de uma forma descuidada e sem regras como o fazia inicialmente : busca já a coerência narrativa com o já escrito o que me leva a pensar que a Irene se tenta segurar na ficção e que, de uma forma talvez não dirigida, que ela busca, ao fim e ao cabo, uma forma de encontrar um sentido nas coisas, mesmo que esse sentido seja o sentido possível e não o sentido exacto, mas de qualquer forma um sentido.
 
Ora esta constatação dupla fez com que eu mesmo procurasse em livros de geografia e depois de antroplogia e etnografia a Ilha dos Narigudos uma vez que ela representava para mim  não só um vislumbre da Irene na sua única acção opcional significativa que era do meu conhecimento.
 
Devo no entanto dizer desde já que a própria Irene depressa se apercebeu e anotou nas primeiras páginas do seu diário que afinal na Ilha dos Narigudos não havia narigudos naturais, isto é, que os seus habitantes, não tinham apêndices nasais como ela, mas sim que utilizavam uma máscara de nariz pontiagudo e que o tamanho do nariz era um sinal de estatuto social. O chefe da tribo, segundo Irene, colocava uma máscara, que utilizava sempre e não só em dias festivos, cujo nariz tinha (ainda segundo ela) o dobro do tamanho do seu.
 
Ora isto levará sempre a pensar que a Irene tinha tido por fito inicial encontrar na Ilha dos Narigudos pessoas como ela, com narizes enormes, e que, de uma forma que eu considero possível só nela (e em muito poucas mais pessoas) tinha partido fazendo milhares de quilómetros sem sequer ter uma noção exacta do sítio que ia visitar e sem avaliar da impossibilidade real de haver um local na terra onde só houvessem pessoas com narizes grandes.
 
Mas, regressando às suas primeiras páginas escritas para tentar dar uma ordem tão próximo da cronológica quanto possível a esta história de Irene, será sempre de nos  perguntarmos as razões que levaram Irene, uma sedentária por excelência e em tempo inteiro, a enveredar por um cruzeiro a uma ilha quase desconhecida e cujo alcance não era nada fácil, conforme veremos mais à frente. A sua ideia de encontrar pessoas com narizes grandes, na sua ignorância ingénua parece-me ser a razão mais correcta. Ao fim e ao cabo, caso tal fosse verdade, a Irene acabaria por sentir-se como que numa família agora que a sua família natural se resumia a ela e acabaria por integrar-se numa sociedade que absorvia a sua discriminante diferença tornando-a normal.
 
Mas, a Ilha dos Narigudos, para além do significado que a Irene lhe deu não é mais do que uma ilhota com pouco mais de uma centena de habitantes ainda vivendo em estado de primitividade e contém em si uma etnia ou nação próxima da extinção. O deus ou tótem desta ilha é o “Amazona Imperialis “, o papagaio imperial ou Sisserou, que, segundo os ornitólogos existe apenas nesta ilha e calcula-se que não haja mais deles do que 60 exemplares, todos em estado selvagem - como aliás os seus habitantes humanos - tendo em comum com eles, e com todos os papagaios, penso, um enorme bico onde está acoplado o nariz.
 
Este animal, o Sisserou, é considerado como um dos mais bonitos do mundo, com as suas asas raiadas de vermelho que podem atingir, de uma ponta à outra, mais de 75 cms; a cauda e o dorso são em verde brilhante e a cabeça é negra e tem olhos de rubi. O peito é arroxeado. Esta descrição é minha com base nas informações que recolhi, mas a Irene refere o Sisserou "como um passarouco giro" (sic), sem com isso fazer qualquer outra referência mais cuidada à beleza da ave ou qualquer ligação analógica ao facto de os habitantes da ilha venerarem os seus narizes.
 
Ora, para mim, e pela primeira recolha bibliográfica que fiz, pareceu-me evidente que havia uma relação entre o culto local dos grandes narizes e o Amazona Imperialis e não me enganei porque antropólogos e etnólogos que visitaram a ilha já tinham levantado essa hipótese desde o sec.XIX.
 
(Continua)
 

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

A História Interminável do Diário de Irene - II capitulo

Conforme disse acima eu não sabia que existia uma ilha com o nome de Ilha dos Narigudos e só tomei conhecimento da sua existência após o aparecimento do número desconhecido do Diário de Irene que chegou às minhas mãos. Como veio ele chegar às minhas mãos é coisa que prefiro não dizer desde já para preservar alguma ordem cronológica neste meu relato, mas devo dizer que procurei desde logo obter os restantes exemplares do Diário de Irene.

Tudo levava a pensar que os haveria: a Irene não iria começar um Diário apenas naquela altura, através do relato de uma viagem, e nem iria acabá-lo daquela forma, pensei. Porque...e isto ainda não vos disse, o volume que tinha nas minhas mãos dava-me a certeza de que pelo menos antes ela tinha escrito sobre si mesma, sobre a sua vida. Talvez lá estivesse uma colecção grande de desabafos, a sua verdadeira opinião sobre as pessoas e sobre si mesma, elementos sobre a sua intimidade e um rol de inevitáveis futilidades.

No plano da intimidade de Irene, se tivesse os almejados volumes na minha mão, não iria encontrar mais do que aquilo que encontrava neste volume que possuía, ou seja, nada de muito explícito porque a Irene escrevia para si mesma, para se ler ou relembrar coisas e factos passados, mas parecia ter aquele pudôr que é próprio de quem escreve sabendo que pode ser lido um dia ou uma vez.
 
Devo ainda confessar que o meu interesse, e razão porque trago aqui esta história, se deve a um conjunto de factos que irei desenvolvendo ao longo dela. Tinha alguma curiosidade em saber mais sobre a Irene mas não se tratava de mera coscuvilhice dado que nos conheciamos vagamente e ela para mim sempre tinha sido um mistério que seria interessante desvendar.

Feia e só, sem amores conhecidos ou possíveis - se quisermos - de corpo também feio, sem jeito, sem sombra de elegância, descuidada na sua aparência como se tivesse desistido de cuidar dela sem ter começado, o exemplar do Diário de Irene teve o efeito de aguçar a minha curiosidade. Como pensa alguém que nasce condenado à solidão (?) questionava-me eu. Como pensa e o que pensa alguém que é diferente devido a uma anomalia no nariz, coisa que não pode esconder ou disfarçar nem mesmo por meios técnicos elaborados como a operação plástica?

Quanto à parte do corpo, este estava mal divido: de pernas longas notava-se a desproporção com o tronco que parecia ao observador como que empurrado para cima. O pescoço, extremamente curto afundava-se ainda nessa sua mais curta parte quase fazendo a cabeça conviver com as espáduas à mesma altura.

A sua relativa magreza e o pouco peso não a faziam disfarçar em nada um andar desengonçado, de pontas de pés virados para fora como ponteiros de relógio nas dez para as duas. E depois era aquilo a que se chama vulgarmente uma casca vazia: dentro da sua caixa craniana, após curtos segundos de conversa, transparecia uma rede neuronal dispersa em leque largo como que tentando acompanhar em extensão um espaço que não conseguia preencher em concentração.

Mas, e voltando ao diário, eu achava (lido o volume) que não era certo que a Irene tivesse escrito após acabar aquele volume que me chegou às mãos. O final, embora não fosse esclarecedor, podia ter sido mesmo o final das confissões pessoais escritas de Irene, até mesmo por razões estranhas à sua inicial vontade: talvez por ter atingido a consciência da inutilidade prática daquilo que escrevia, talvez por ter mudado de tal forma a sua vida que um diário - normalmente conotado com a adolescência - não cabia nela ou por uma outra razão qualquer que representasse uma mudança substancial na sua forma de viver.

E digo isto desta forma porque eu, sabendo que a Irene estava condenada a viver só, sem amores, sem companhias senão as amigas de ocasião, ao mesmo tempo pensava que não era possível que tal acontecesse em definitivo, ou seja - e isto é bastante dificil de explicar - eu aceitava a fatalidade à posteriori mas não aceitava a fatalidade à priori.

Aceitava que ela vivesse toda a sua vida conservando o estigma da sua solidão e da sua feiúra mas não lhe  retirava a esperança de que as coisas mudassem enquanto ela fosse viva, embora me confrontasse com a quase imbecilidade dela e com a sua incapacidade de fazer algo ou querer algo que fizesse mudar as coisas a seu maior favor.

As descrições feitas pela Irene sobre a ilha são repetitivas e bastante influenciadas - pelo menos inicialmente e na quase totalidade da primeira parte do seu diário - por uma visão romântica, idílica directamente retirada não da sua imaginação mas das suas leituras côr de rosa e em certos aspectos teremos grande dificuldade em aceitar que ela retrate a realidade real, o palpável daquilo que viveu no episódio da Ilha dos Narigudos.

Por outro lado a sua falta de capacidade de análise faz-me sentir que as suas palavras são apenas um pobre guia quase cego que me conduz nesta minha demanda que vos vou descrevendo. Em rigor o diário de Irene não é um trabalho rico senão pelo facto de a retratar tal como ela era.

Possuidora de uma incapacidade de análise profunda às coisas, a Irene vivia numa superficialidade misturada com crenças absurdas que tomava como realidades e a análise da sua mente tornou-se para mim um objectivo tão importante quanto o são os indícios de uma realidade para mim diferente para onde ela aponta.

Porquê uma viagem às Caraíbas quando ela praticamente nunca tinha saído da nossa terra?
Porquê uma viagem à Ilha dos Narigudos como primeira opção? Exorcismo psicológico? Erro de informação? Desejo, puro e simples? E, por último, quem é de facto a Irene (!?) ou como são as pessoas que têm narizes enormes? Para tudo isto e muito mais eu queria e quero encontrar respostas...


A História Interminável do Diário de Irene

A História Interminável do Diário de Irene

Ela não era bonita, nunca tinha sido bonita, nunca seria bonita o que me leva à constatação de que há pessoas que nascem, crescem e morrem sem nunca serem bonitas. No caso dos homens o problema resolve-se, penso eu, corre por aí que as mulheres não se importam muito com essas coisas, mas no caso da Irene (ainda por cima se chamava Irene) ser feia era um traço que lhe tinha sido escrito em cima por algo que se pode chamar destino.

Mas tratava-se ainda, nesta altura que refiro, quando ela tinha cerca de trinta anos mais ou menos (não sou muito bom em datas) de pensar num percurso de feiúra ainda a percorrer. Qualquer mente, mesmo sem ser muito dotada para a imaginação sentia-se quase na obrigação de projectar para ela um percurso crescente de feiúra: era fatal, penso eu, que alguém não visse, desde a primeira vez que via a Irene que o que lhe restava a ela pela frente era ser precisamente igual à sua mãe, boa senhora, por sinal, conformada com a sua fatalidade.

Quando se olhava para a Irene via-se logo o realce em zoom e profundidade das rugas à volta dos olhos, o crescimento dos chamados papos, o encarquilhar lento mas irremediavelmente progressivo dos lábios, agora ainda relativamente carnudos, empurrados para dentro dela pela perca de alguns dentes (primeiro os sobressaídos da frente) e aligeirado o afundamento pela colocação de uma daquelas placas em prótese branquérrima, denunciando, não (!) clamando (!!) em voz alta desde logo a sua artificialidade.

Via-se perfeitamente que a placa descolaria do céu da boca quando ela se risse muito, coisa que fazia agora, rir sem complexos, e sabia-se que o queixo dela se afundaria cada vez mais, misturando-se com as rugas do pescoço (se engordasse talvez se misturasse com o papo) mas o que interessava era que por mais voltas que a sua fisionomia desse nunca ela ou outros veriam decrescer aquele nariz enorme, um autêntico triângulo bermudiano apontando para uma distância incalculada nos mares à sua frente, uma penca desproporcionada, uma verdadeira intrusão de um corpo num espaço roubado, um geométrico apêndice de arestas afiadas no perfil, uma agressiva e quase cortante intrusão no espaço vital de quem a visse de frente.

Pois...a Irene não tinha passado de beleza, não tinha presente de beleza e o futuro era ainda mais ameaçador para ela. Mas, e há sempre um mas que merece ser metido em altura oportuna, consta que constava que a Irene confidenciava repetidasmente às suas amigas, já trintona nesta altura em que escrevo, um segredo que era simultaneamente sentido como um chamamento: " Tenho de casar rapidamente!"- dizia - como que a constatar aquilo que eu tenho descrito atrás e acima. "Tenho de casar rapidamente, antes que a minha feiúra progrida ainda mais!"- era o qe a Irene queria dizer, digo eu.

Possibilidade de fazer plásticas não havia: a Irene era apenas e só economicamente remediada: tinham, ela e a mãe - o pai falecera oportunamente - algumas rendas de pequenas propriedades, de casas antigas, algum dinheirito a render, pouco, seguramente e trabalhar por conta de outrem não era tradição na família nem sequer sei que actividade poderia exercer a Irene porque nunca a essa ideia se dedicara e o tempo normal de começar estas coisas já tinha passado.

Não sei exactamente como tudo se passou antes, nem quais os preparativos que a Irene terá eventualmente feito e também não consta que tenha dado conta de alguns desses preparativos às amigas mais chegadas, mas o certo é que um dia a Irene foi num cruzeiro à Ilha dos Narigudos.

Eu calculo que possam os meus escassos leitores achar absurdo o rumo que esta história está a levar, mas confesso com toda a sinceridade que não acrescento nem deturpo nenhum ponto a esta história: nem eu mesmo sabia que havia uma Ilha dos Narigudos antes do amarelecido diário da Irene ter chegado às minhas mãos.

Um livrinho com cerca de 500 páginas, manuscrito numa letra extremamente feia, uma letra à Irene, ao fim e ao cabo. Mas o volume que me chegou, infelizmente, apenas abrange algum tempo do período seguinte à sua viagem à Ilha dos Narigudos o que me leva a fazer este reparo que se segue, não sem antes dizer que fiz todos os esforços para conseguir o volume ou volumes anteriores e mesmo posteriores se os houvesse, (os posteriores) e o que recebi não vinha numerado.

Pois bem... (início do reparo) tendo eu conhecido a Irene, a sua vida, por contactos relativamente próximos: éramos e somos, penso eu, pessoas da mesma geração, é na parte do seu diário, naquela parte que ela desenvolve e que me chegou às mãos, que é a parte da sua vida após o cruzeiro à Ilha dos Narigudos, que eu ponho a Irene a falar na primeira pessoa.

O que antecede este reparo foi obtido através de ilações deduzidas de algumas palavras escritas no seu diário misturadas com observações pessoais do nosso tempo de vida relativamente próxima. (Fim do reparo).

Entretanto, e isso soube-se como seria normal num pequeno meio como o nosso, a mãe da Irene faleceu no período que antecede imediatamente a viagem da Irene em cerca de três meses.

Sabe-se também que não foram tempos fáceis para a Irene encarar tão grande fatalidade: a sua vida com a sua mãe era talvez o elo mais sólido da sua vivência e as amizades que ela tinha nunca conseguiriam ajudar à necessária superação de tal perca.

( Continua )