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terça-feira, 21 de maio de 2013

As outras figuras típicas


As outras figuras típicas

Há dias, bastantes, passei por um blogue de Coimbra e acabei por me deter um pouco mais: o meu objectivo era encontrar figuras típicas algarvias e entre elas o Gaiana e outros, que fizeram parte da história da cidade de Faro. Fui ter a Coimbra chamado por uma imagem na google e por ali fiquei preso durante o tempo necessário pela reflexão do titular do Blogue «Questões Nacionais», Luís Fernandes.

O chavão de que as palavras são como as cerejas aplica-se usualmente nestes casos, mas o texto do Luís Fernandes chamou-me a atenção para uma outra perspectiva daquilo que faz entrar dadas pessoas dentro da denominação de «figuras típicas» sem que o sejam de facto, não porque não façam parte do ambiente citadino, não porque por exclusão de partes as tenhamos de englobar nesta denominação, mas porque, «simplesmente» não são figuras naquele sentido activo do termo, não sobressaem, não se fazem notar. E é disso que o Luís Fernandes fala e cuja dissertação eu vou aproveitar.

Relata o autor dois casos que são interessantes, dentro desta semi - trágica situação que é a vida em sociedade. Vou ser um pouco mais longo do que previ ao começar este texto mas interessa referir que este autor no seu blogue analisa o número de visitas ao seu Blogue de acordo com estes eventos que noticia, tentando demonstar uma plausível tese, de que «aqueles que da lei da sombra se não libertam em vida acabam por libertar-se dela após a sua morte.»

Cito

a) (...) Há um ano, na data de 26 de junho, faleceu o Luís Miguel, mais conhecido entre nós por «Aspirante» – o Luís tinha 40 anos quando num estúpido acidente adormeceu na berma do Mondego e, segundo o pai Max, veio a cair no rio. Era tratado pela alcunha de «Aspirante» precisamente porque fora a patente que tivera enquanto cumprira o serviço Militar.

Enquanto decorria o tempo de tropa viera a sofrer um grave desastre, em que faleceu um seu amigo. Pelos danos causados, nunca mais recuperaria o senso. Durante muitos anos vagueou pela cidade. Aparentemente, não desencadeava exteriorizações de extraordinário afeto. Parecia ser apenas mais um personagem que deambulava pelas ruas estreitas e largas do casco urbano de uma cidade velha.

Quando, nessa altura, escrevi a crónica a anunciar o seu precoce desaparecimento, para além de ter recebido mais de uma vintena de comentários dolorosos e a lamentar a sua morte, só nesse dia tive 8438 visitas aos textos que reportavam a sua passagem entre nós – a média diária de visitantes assinalados anda por volta de 500.

b) (...) Há dias escrevi sobre a morte súbita do Adelino Paixão, noticiada pelo jornal Diário as Beiras - o Paixão, tal como o Luís Miguel, era mais uma figura típica da Baixa que, também na aparência, poucos lhe ligavam. Nesse dia, abruptamente, o blogue disparou também o contador de visitas.

(Fim de citação)

A reflexão do autor sobre este facto estende-se por planos que agora aqui não cabem, tal como a nossa atitude perante o outro (o ignorado) e a nossa visão no outro (ignorado) daquilo que nós poderiamos ser e não somos, pelo que aconselho vivamente uma leitura do texto completo aqui .

Ora bem, e regressando ao fulcro da minha questão, eu fiz uma pesquisa, sobre as figuras típicas e encontrei referências a algumas que andaram aqui por Faro, tal como o Gaiana, O Menino Chico, O Tóki. Contudo não encontrei uma única referência ao «Marrequinho da Chaveca».

Certo que ele faleceu cedo, para quem tem memória dele eu teria talvez os meus dez anos ou pouco mais ou pouco menos. Não era, por aquilo que me fui lembrando uma figura extremamente popular, mas andava por aí, pela cidade.

Depois soube-se do seu falecimento em cirunstâncias horrorosas, num daqueles crimes que agora são juridicamente apelidados de horrendos. Apareceu na Chaveca (arredores de Faro) onde vivia numa ruína enforcado numa árvore, enfiado dentro de uma saca de juta, assassinado provavelmente por alguma «brincadeira» daquelas que por vezes são notícias nos jornais quando se trata de dementes ou pessoas com poucas capacidades.

Não foi morto (enforcado) e colocado dentro da saca: foi enforcado dentro da saca. Nunca se soube quem terá (terão) sido o (s) assassino(s) e duvido que naquela altura houvesse grande preocupação das entidades responsáveis para levar longe o inquérito. Afinal sempre era um «zé ninguém»...

E por aqui me quedo com uma reflexão sobre as reflexões do eu e do outro e do outro de nós mesmos: o que levou ao anonimato quase total do «Marrequinho da Chaveca»? Enquanto viveu muitos reparam nele, não era uma daquelas personagens descritas acima pelo Luís Fernandes.

Faleceu em circunstâncias marcantes. Não vi quem falasse nele. Talvez, penso eu,  porque o mais marcante na vida dele tenha sido a forma como morreu.

Paz à sua alma...

Bom filme na Esplanada de S. Luís (anos 60)

 

Bom filme na Esplanada de S. Luís (anos 60)

Ao ver uma imagem da Antiga Esplanada do Cinema de S. Luís em Faro, mais tarde substituída por um conjunto de imóveis, lembrei-me (em alturas da Grândola, Vila Morena) que tinha eu aulas com o Zeca Afonso, na Escola Industrial e Comercial de Faro, quando entre as conversas que se iam tendo ele anunciou que ia passar nessa Esplanada (estávamos em meia estação, Junho ou Julho) o Filme «A Ilha Nua».

Fiz uma recolha sobre este filme, que já tinha procurado há meses sem o conseguir encontrar (faltava-me o nome do realizador - o japonês Kaneto Shindô) e abaixo deixo essa nota com link para o vídeo com o filme completo, mas antes gostaria de referir como foi recebido esse filme pela «crítica» farense.

Quem vive ou viveu em Faro sabe que havia uma clientela constante no (s) cinemas. Os dois que havia eram do mesmo proprietário, salvo erro Castello Lopes gerida pelo saudoso poeta e senhor da cultura farense Marques da Silva (Marmelada).

Assim essa clientela «certa» ia ver tudo o que era filme (ainda fiz isso uns quantos anos também) uma vez que a televisão era ainda rara, os programas eram pouco atractivos, enfim... e o Cinema (como local) era um excelente meio de convívio: antes dos filmes, nos intervalos e depois dos filmes.

Pois bem, os «intelectuais» bebiam o filme como mandava a praxe (mesmo que não gostassem) e os habitués protestavam contra o dito. Bem, de esclarecer que a história era interessante e já a conto lá mais para a frente, mas o filme tinha um problema que era a ausência de diálogos, ou seja, era um filme em que a única coisa que se ouvia era o ruído de fundo: do mar, do chocalhar dos baldes, do barco, enfim, os dois personagens, marido e mulher, não diziam uma palavra entre si. Dedicavam-se à sua faina por inteiro.

Ora a faina era plantar arroz numa ilhota (nua - daí o nome do filme) que não tinha água. Esta era transportada em baldes dentro de um bote, retirada nos baldes e levada a regar os pés de arroz que se estendiam por uma encosta. Todo o filme retratava isso, o dia a dia do casal, que não fazia mais nada de manhã à noite. Salvo erro nem se vê eles a comer...mas aqui passo à visão do filme.

A parte «moral» tinha lugar no fim, em que o marido ia entregar uma parte do arroz colhido ao proprietário da Ilha. O que eu me lembro bem de ter notado é que as pessoas não protestavam (aquelas que protestavam) contra a lentidão e as repetições das cenas, mas sim pelo filme não ter «palavras = diálogos».

Aconselho este filme, tendo em atenção saber-se que o cinema japonês desde há muitos anos (este filme é dos anos 60) dá cartas em termos de qualidade e inovação.

Daniel Teixeira

«A Ilha Nua», do cineasta japonês Kaneto Shindô.

O filme apresenta a rotina de uma família de pescadores que habita uma das ilhas do oeste do Japão, lugar de belas paisagens e também de desafios para a sobrevivência da família como a escassez de água e alimentos.

Apresentando nuances de documentário, “A Ilha Nua” apresenta uma poesia visual da vida do homem simples em meio às adversidades da natureza, tudo isso junto com uma trilha incidental que ganha destaque devido à ausência de qualquer diálogo no filme.

“A Ilha Nua” venceu o Festival de Moscou e foi candidato ao BAFTA, maior prêmio do cinema inglês. É um clássico do cinema japonês feito pelo diretor de “Onibaba, A Mulher Diabo”, que marcou toda uma geração de cinemaníacos no início dos anos 60.
 
 
 

Filme completo aqui (1h 36 m)
 

quinta-feira, 2 de maio de 2013

O Larussas - Conto / crónica de Daniel Teixeira

 
 
O Larussas
 
 Conto / crónica de Daniel Teixeira
 
 O Larussas foi um cão que eu tive e não tive, ao mesmo tempo. Rafeiro, arraçado de pequinois, tinha aquela facies que é própria desta raça, com os dentes inferiores sobressaídos e o focinho escorrido, com os olhos pequeninos numa angulação ligeiramente elevada: tinha mesmo uma percentagem genética larga de pekinois.
 
E eu gostava sobretudo de ouvir a minha mãe «conversando» com ele e gostava de ver o animal de língua de fora todo contente por ter alguém que «dialogava» com ele: e a minha mãe a dizer-lhe;
 
«Ah! Larussas, que feio tu és, nunca vi um cão tão feio!» e ele abanava a cauda como se entendesse naquelas palavras o contrário daquilo que elas queriam dizer e lá lhe punha as patas no colo, descia-as depois e dava uma voltinha ou duas, acabando por vezes por correr atrás da cauda.
 
Quando encontrava a minha mãe neste «diálogo» dizia-lhe brincando para não dizer isso ao animal porque ainda o traumatizava psicologicamente ao que ela respondia mais para mim do que para o cão, como será claro, que de facto ele era tão feio, tão feio que até se tornava bonito de feio que era.
 
Tenho a certeza que esta imagem me ficou gravada também porque o Larussas para mim foi um pequeno herói da sobrevivência. Levou talvez mais de um mês até ser admitido no círculo familiar, dormindo no degrau à porta da nossa casa e recebendo em duas tigelas comida e água.
 
Mas não largou, nunca largou, nunca se afastou. Os animais podem não pensar mas sentem e ele sentia que era ali que estava a sua casa, a sua nova casa. E ganhou-a, essa casa, esse lar, se quisermos, logo que o verão acabou e começaram a cair os primeiros pingos de chuva.
 
Fizemos-lhe uma cama numa casa de arrumação no nosso quintal que lhe serviu para sempre.
 
Nunca exigiu mais e tinha condições para «exigir» espontaneamente: o outro ficava em casa, era um cão de guarda, ao fim e ao cabo e ele quando chegava a sua hora sempre preferiu recolher-se à sua «casa».
 
Perdido ou abandonado apareceu um dia na companhia do nosso cão «oficial», um enorme Serra da Estrela e na altura não se colocou a questão de ter mais um animal em casa.
 
O título de sobrevivente que eu lhe dou não se deve só a esta sua persistência: na altura frequentávamos três casas na cidade de Faro, todas elas distantes entre si e quando se sentia sozinho, enquanto o outro ficava bem onde estava só ou acompanhado este tinha de ter gente nossa à vista, por isso era um caminhante nato. De patas pequenas fazia por vezes quilómetros para nos encontrar.
 
Um psicólogo francês disse há anos que se soubessem que ele psicanalisava cães seria motivo de gozo entre os colegas, mas eu não tenho problemas com isso: na minha opinião o pobre do animal ficou traumatizado por ter sido abandonado e a memória dos cães é enorme, muito maior que a nossa, disso não tenho dúvidas e acho que ele sentia que quando não havia gente da «família» perto dele isso era um mau sinal.
 
Deve ter ficado com essa «ideia» gravada, por isso nos procurava afanosamente todas as vezes que eram necessárias, percorrendo do Bom João à Penha e da Penha à Baixa e fazendo o percurso inverso quando necessário. Encontrei-o muitas vezes nesta sua andança, reconhecia-me, cumprimentava-me, mas faltava eu estar em casa, numa casa «nossa» e ele logo repartia.
 
Andava livremente, tinha uma capacidade para se desenrascar extraordinária, sabia tornear os enormes cães que se plantavam todas as manhãs na zona exterior dos talhos no Mercado antigo à espera de um osso, sabia que o território era deles e que com o seu corpinho as hipóteses de sair dali sem mazela eram curtas e por isso fazia o percurso para o Mercado por um lado e passava para o outro lado da rua na altura própria, regressando depois ao trilho passado o potencial perigo.
 
Já tive e não tive vários cães e nenhum deles foi admitido - se quisermos utilizar o termo - por mim. A minha vez de ter um cão «meu» nunca chegou porque o lugar esteve sempre ocupado por escolhas de outros familiares, mãe, pai, filha e os cães vadios que se escolheram a eles mesmos.
 
Mas o Larussas, talvez pelo seu espírito de luta e por eu ter pensado bastante nisso ficou marcado na minha memória por estas razões. Outros ficaram por outras.
 
Mas sempre admirei a persistência e a capacidade de sobreviver, a capacidade de se cair e de se reerguer, sempre e de novo, mesmo que tudo isso seja muito difícil.
 
E o Larussas foi sempre como uma árvore, penso que ele «pensava» que quando tivesse que morrer morria, como morreu, de pé.