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sexta-feira, 19 de junho de 2015

Joaquim de Fiore e August Comte


Joaquim de Fiore e August Comte

 Por: Daniel Teixeira

August Comte, foi um filósofo francês, e tendo em conta que a sua filosofia teve grande propagação e se transformou quase numa religião na América do Sul, este trabalho destina-se a oferecer mais uma possibilidade de se verificarem alguns pontos de convergência entre diversas concepções do mundo e do ser humano existentes entre a ontologia de Comte e a sua visão culta do acontecimento histórico, e, neste caso, as ideias do abade Joaquim de Fiore (c.1135-1202) e o seu pensamento messianista que se acredita ter sido o principal fundamentador da teoria sebastianista portuguesa.

A apresentação do messianismo, como manifestação de uma esperança em algo que resulta não do nosso esforço mas de algo que tem de acontecer, é feita simultaneamente e intercaladamente com a Teoria dos Três Estados de August Comte, cujos pontos de convergência com Fiore achamos importante realçar neste trabalho.

Não nos debruçamos sobre o Sebastianismo em si, que é uma sub - divisão localizada do messianismo mas deixamos algumas pistas para outros trabalhos sobre esta questão messiânica que desenvolveremos noutras oportunidades.

Joaquim de Fiore foi abade de um convento cisterciense na Calábria. Dividia a história em três fases sucessivas, ou, para falarmos na terminologia do autor, em três estados (status): o do Pai, o do Filho e o do Espírito Santo.

Para Fiore o estado do Pai iniciou-se com Adão, começou a frutificar em Abraão e terminou em Zacarias, o pai de S. João Batista. Caracteriza-se pela imposição rigorosa de mandamentos exteriores, à qual corresponde, da parte dos homens, o temor.

Em Comte, o seu Primeiro Estado, ou Estado Teológico é descrito assim: No estado teológico, o espírito humano, dirigindo essencialmente as suas investigações para a natureza intima dos seres, para as causas primeiras e finais de todos os efeitos que o afectam, numa palavra, para os conhecimentos absolutos, imagina os fenómenos como um produto da acção directa e contínua de agentes sobrenaturais mais ou menos numerosos, cuja intervenção arbitrária explica todas as anomalias aparentes do universo.

Para Joaquim de Fiore o estado do filho iniciou-se com Osias, rei de Judá (Sec.VII A.C.), começou a frutificar com Jesus e deverá terminar (deverá ter terminado) por volta de 1260. Caracteriza-se pela humildade do verbo encarnado, à qual corresponde, da parte dos homens, a obediência confiante a leis ainda não completamente interiorizadas.

Ou seja, o homem entrega-se ao seu «destino» e segue confiante as leis da natureza (e as suas) que não compreende mas atribui-lhes um valor ontológico e de verdade ou certeza.

Para Comte, o seu segundo (cronologicamente) Estado é o Estado metafísico: No estado metafísico, que, no fundo, não é mais do que uma simples modificação geral do primeiro, os agentes naturais são substituídos por forças abstractas, verdadeiras entidades (isto é, abstracções personificadas) inerentes aos diversos seres do mundo, e concebidos como capazes de engendrar por eles mesmos todos os fenómenos observados, cuja explicação consiste, então, em atribuir a cada um a entidade correspondente.

Para Fiore o seu Terceiro Estado é o estado do Espírito Santo: iniciou-se em S. Bento, começará a frutificar (terá começado a frutificar) por volta de 1260, e deverá terminar com a consumação dos séculos.

Caracteriza-se pelo amor e pela liberdade espiritual e as leis já não são impostas nem propostas, mas livremente aceites, amadas e vividas. Ou seja, e por outras palavras o homem interioriza as leis, assume-as como necessárias, mas como se depreende pelo termo «aceites» não as faz.

Em Comte o seu Terceiro Estado é o Estado positivo: No estado positivo, o espírito humano, reconhecendo a impossibilidade de obter noções absolutas, renuncia a procurar a origem e o destino do universo e a conhecer as causas íntimas dos fenómenos, para se consagrar unicamente á descoberta, pelo uso bem combinado do raciocínio e da observação, das suas leis efectivas, i.é., das suas relações invariáveis de sucessão e de semelhança.

A explicação dos factos, reduzida então aos seus limites reais, nada mais é, doravante, que a ligação estabelecida entre os diversos fenómenos particulares e alguns factos gerais cujo número tende, cada vez mais, a ser reduzido.

Ou seja, a descoberta, processando-se no campo fenoménico, naquilo que se reveste de realidade pela acção ou pelo acontecer, agrupa-se em leis gerais que se vão restringindo no número porque a «descoberta» se orienta, também (ou talvez só) para a simplificação do conhecer, liberto ainda à priori da necessidade de conhecer os princípios primeiros e no campo fenoménico liberto do conhecimento das causas que estão por detrás de cada fenómeno ou de vários fenómenos.

Tudo estaria bem se a amplitude do homem se não demonstrasse pelo abdicar de conhecer, o que em rigor levaria ao cultivo do desconhecer.

Como se vê (em Joaquim de Fiore) não se trata de uma sucessão de três estados rigorosamente demarcados, mas de três estados parcialmente coincidentes. O desenvolvimento da história é, em última análise, a obra de um único Deus Trino.

Fiore, exegeta, e de alguma forma cabalista, estabelece datações destinadas a encontrar coincidências ou estados anteriores e superiores em correlação, num sistema de plataformas numeradas.

Por sua vez os números de Fiore existem desde sempre (e serão para sempre) e fazem parte de uma organização da qual são meros elementos apontadores mas ao mesmo fazem parte da essência dos eventos. Quase que se pode dizer que sem eles não haverá evento dado que ao estabelecerem a datação a enquadram materialmente.

(...) Cada um destes três estados compõe-se de sete idades, analogamente aos seis dias da Criação seguidos do sábado, e aos sete dígitos sucessivamente abertos pelo Cordeiro do Apocalipse. A estrutura interna de cada uma das sete idades apresenta uma grande semelhança com a idade que lhe corresponde no estado anterior ou posterior. A cada personagem e a cada facto ocorrente no estado do Pai correspondem, nos dois estados seguintes, outra personagem e outro facto que representam o mesmo tipo.

A história repete-se, dentro de certo esquema cronológico, cada vez num plano superior. A repetição não é idêntica, como o imaginavam alguns pensadores da antiguidade, mas tipológica.

A figura de São Bento (480-547) não é idêntica á do Profeta Elias, (Sec. IX A.C.) mas a obra do abade de Monte Cassino (S. Bento) repete, num plano superior, a do ermitão do Monte Carmelo (Elias). Investigar essas analogias ou «concórdias» é, para Joaquim de Fiore, a grande incumbência do exegeta. Quem, munido desta chave, conseguir entrar na tipologia da Escritura Sagrada será também capaz de entender o profundo significado da história moderna.

Por outras palavras e através de um sistema previamente construído, ainda que não de todo conhecido (faltará a chave) o homem constata as coincidências temporais, resume estas e tem consciência que o «segredo» do conhecimento está numa hipotética chave ou combinação metodológica que doará o conhecimento da história moderna, entendida aqui como sendo o conhecimento absoluto de tudo o que irá acontecer, precisamente porque essa metodologia (chave) sendo a mesma que orientou o passado será a mesma que orientará o futuro, consciência que se tenha que o sistema funciona em plataformas que se repetem.

Breve, num e noutro caso, nos seus últimos estados, põe-se por exclusivo o problema do conhecimento e nunca o problema da acção (praxis) e a vida do homem, como ser componente da história.

Os dois Estados anteriores referem-se, de uma forma geral, à atitude do homem perante a natureza, a sua forma de compreensão dela e dos Deuses ou Deus que lhes está subjacente: no primeiro Estado desconhecido ou incompreendido, no segundo Estado personificado ou unificado numa ou em várias entidades e no terceiro Estado, predestinado em Fiore e resultante de uma impossibilidade de conhecimento constatada em Comte.

Enquanto que em Fiore o segredo do futuro pode ser conhecido (mas não transformado) em Comte o futuro pode apenas ser conhecido no campo restrito do acontecer, o que de alguma forma vem dar ao mesmo uma vez que um e outro sistemas não actuam sobre esse mesmo futuro.

Em qualquer um deles predomina pois o destino, o facto consumado desde o princípio dos tempos, e a margem de liberdade do ser humano restringe-se ao exercício de especulações inseridas em campos pré-delimitados (num caso por força das coisas e noutro caso por força de uma constatação dessa mesma força das coisas).

A acção humana, que pode existir dentro de um campo delimitado é de alguma forma serva dessa mesma condição.

Daniel Teixeira 





sábado, 21 de março de 2015

A imortalidade por correspondência - Por Daniel Teixeira


A imortalidade por correspondência

Por Daniel Teixeira

Debruçando-nos inicialmente sobre Camões que terá eventualmente sido o maior difusor português do conceito de que existe vida para além da morte, sabemos desde logo que este pequeno trabalho está direccionado para a interpretação de que ela, esta imortalidade, se manifesta de uma forma bem determinada: «aqueles que da Lei da Morte se libertam» ... e vivos memorialmente ficam.

Na verdade o autor Camões não pretendeu nem pretenderia lançar uma escada filosófica pitagórica ou outra que seria forçosamente anti-católica e severamente punida na altura em que o autor viveu.

Assim, a libertação da Lei da Morte faz-se, segundo este autor, da forma memorial, elegíaca ou não, ou seja, uma dada pessoa liberta-se desta inexorável lei através da memória que deixa de si e que as pessoas, a gente comum ou menos comum, guarda em si como património.

Montaigne, um dos meus pensadores favoritos, diz a dada altura das suas reflexões, que Deus nos deu, (na sua infinita sabedoria - será de crer que ele o tenha pensado embora não o tenha escrito) apenas uma forma de nascermos e milhares de formas de morrer.

Marco Aurélio, talvez o mais intelectual dos imperadores romanos (estóico) faz também ressaltar de uma outra forma a relatividade da importância da morte: apenas um grão de areia que cai do altar (da vida - deve entender-se).

Enquanto que em Montaigne se procura banalizar a morte - nesta nossa interpretação que não forçosamente na ideia do autor- apontando o imenso número de formas dela ter lugar, em Marco Aurélio faz-se ressaltar a relativamente pouca importância do viver humano, (no seu caso) no contexto da racionalidade estóica que neste autor se pode substituir à ideia de Universo ou de Natureza visto aqui de uma forma simplificada.

Um e outro, às suas duas maneiras, ao relativizarem o facto de se morrer e numa altura em que a memória dos povos tinha poucas possibilidades de se transmitir e permanecer, não deixaram de ficar na história em recuperação posterior às suas épocas de vida.

O mesmo Montaigne acima referido faz um longo elogio à memória e ao cavalo de Alexandre o Grande, interligando a construção do Império de Alexandre à posse e manuseio do seu cavalo (Bucéfalo).

Camões também se libertou da Lei da Morte e assim como aconteceu com Alexandre e o seu cavalo Bucéfalo agregou à sua memória o escravo Jau.
Não gostaria que fossem feitas comparações entre um cavalo por mais nobre e enobrecido que tenha sido (Alexandre construí-lhe um túmulo luxuoso) e um ser humano, embora a sociedade na altura não reconhecesse Jau como humano no sentido pleno por ser um escravo (logo uma coisa).

Ora, o que há de comum entre Bucéfalo, sobre cuja específica configuração existe uma relativamente extensa literatura e Jau?

Ninguém sabe ou ninguém se preocupou em descrever Jau, em criar uma imagem dele. Não se sabe como ele era realmente de forma ou caracterizado.

Nem sequer temos uma ideia da sua face e da sua constituição física. Diz-se dele ser da ilha de Java e, logo, um javanês será igual a todos os outros javaneses, assim sendo. Actualmente Java é a maior ilha do Arquipélago Indonésio onde se situa a capital Djacarta. Assim, Jau, seria, visto nos dias de hoje como sendo um indonésio, qualquer que seja a ideia que nós tenhamos da constituição física e facial de um indonésio.

Casimiro de Abreu, talvez dos poucos escritores que se debruçaram sobre Jau, na sua peça em um acto, desenvolve um pouco aquilo que foi Jau: um ser amante da sua terra (Java) e da sua família que teve um amor igualmente falecido tal como a bela Dinamene de Camões.

As referências de Camões atribuídas a Dinamene podem existir em diversos sonetos, dedicados a um amor perdido ou falecido, mas os estudiosos dividem-se entre Dinamene, Dona Catarina de Ataíde, Dama da Rainha, a qual é apontada como (pelo menos) musa do anagrama Natércia ao mesmo tempo que existem referências a um outro (ou ao mesmo) amor à Infanta D. Maria, irmão do Rei D. João III.

Para termos uma ideia de Jau em Casimiro de Abreu, cujo nome é aqui António, ele conta a Camões os seus amores.

ANTÓNIO (Jau)

Sim, sim; uma mulher eu amei muito.
Era tão bela! A mesma cor que tenho,
Ela tinha também; era de Java.
A infância ambos passamos sempre juntos
Brincando alegres pelos campos lindos.

Passaram-se os folguedos, e sozinhos
À fresca sombra dos gentis palmares
Que enfeitam a minha ilha tão formosa,
Mil falas de ternura lhe falava,
Mil esp'ranças risonhas eu nutria.

Era muito feliz o pobre escravo!

Depois… tão moça ela ainda finou-se!
O que eu chorei! E a dor pungente e amarga
Até à morte sentirei nesta alma
Que outro amor como aquele tão sincero…
Senhor, o pobre Jaú não terá nunca.

Mas o que fez Jau para merecer ser lembrado ainda hoje? De lembrar que Jau tem o seu nome numa rua em Lisboa, na zona de Alcântara / Stº Amaro assim como Luís Vaz de Camões.

Foi Jau um fiel servidor do vate, certo, esmolava para que este tivesse alimento e fosse vivendo aquela vida indigna para a qual foi votado no final da vida. Mas que seria da memória de Jau se antes ele, como tantos outros escravos, tivesse sido escravo de um ser normal e comum que da lei da morte se não tivesse libertado?

Camões sem Jau teria sempre escrito os Lusíadas, que foi afinal aquilo que da lei da morte o libertou e Jau sem Camões teria sido um desses inúmeros escravos dos quais não reza nem a história nem uma linha. Por outras palavras seria tão invisível à nossa memória de hoje como o foi enquanto mendigo.

De notar desde logo, no que se refere aos Lusíadas e a Camões e Jau que segundo a fabulação de Casimiro de Abreu o Javanês teria salvo os Lusíadas do fogo conforme veremos à frente.Portanto quando se diz atrás que Camões teria sempre escrito os Lusíadas, com Jau ou sem Jau, poderemos ainda aqui aceitar que sim, embora o autor brasileiro (C.A.) os tivesse colocado na eminência de se perderem não fora a acção de Jau.

Contudo, e voltando brevemente ao cavalo Bucéfalo, este está historicamente ligado, pelo menos lendariamente,(segundo Montaigne) à conquista do Império de Alexandre o Grande.

De Jau, não fora Casimiro de Abreu e mais algumas lendas que se recolhem, nada constaria de importante sobre a sua acção na escrita dos Lusíadas.

Assim e ainda Casimiro de Abreu:

CAMÕES

Eu à pátria sobreviver! Não quero.
Quem deste Portugal cantou as glórias
Não pode a Portugal na mesma lira
Desferir canto fúnebre saudoso.

Se a pátria é morta, hei-de morrer com ela.

Hei-de sim, hei-de sim, porque nesta alma
Era o afecto maior que ora existia.
Oh! que a mesma mortalha nos envolva;
E o canto d’alma apaixonado e terno,
Em que humilde exaltei a fama tua,
Que as chamas consumam; que hoje mesmo,
De Luís de Camões não tenha o mundo
Nem sequer uma prova de seus dias…
Bem poucos de prazer, de dor bastantes!

Queimem-se todos, queimem-se esses versos,
Desta alma parte, que escrevi mil vezes
Com pranto amargo deslizando em bagas.
Eia, coragem!

(Lança ao fogo alguns manuscritos e vai buscar os Lusíadas)

ANTÓNIO (Jau)

Os Lusíadas nunca!
Por quem sois, suspendei! sou que o peço:
Que não se queima assim num só momento
Dum poeta imortal a rica c’roa,
E o mais nobre brasão dum povo inteiro.

Oh!vou salvá-los.

Breve, Jau contribuiu para que fossem salvos os manuscritos de Camões, neste caso os Lusíadas, que noutros relatos constam como tendo sido igualmente salvos por Camões após um naufrágio no qual terá falecido Dinamene.

Camões pelo que escreveu teve e tem direito a estátuas, referências literárias e históricas constantes, enfim...Jau ganhou o direito a um nome de Rua em Lisboa, talvez mais, permito-me pensar, por uma questão de alicerçar materialmente a miséria do vate. Ainda aqui Jau se liberta da morte não se libertando de Camões. Tão escravo é memorialmente hoje como o foi durante a sua vida.

Sobre Dinamene existe referência escrita, aliás existem várias, mas dois sonetos referem expressamente o nome Dinamene:

Ah! minha Dinamene! Assim deixaste

Ah! minha Dinamene! Assim deixaste
Quem não deixara nunca de querer-te!
Ah! Ninfa minha, já não posso ver-te,
Tão asinha esta vida desprezaste!

Como já pera sempre te apartaste
De quem tão longe estava de perder-te?
Puderam estas ondas defender-te
Que não visses quem tanto magoaste?

Nem falar-te somente a dura Morte
Me deixou, que tão cedo o negro manto
Em teus olhos deitado consentiste!

Oh mar! oh céu! oh minha escura sorte!
Que pena sentirei que valha tanto,
Que inda tenha por pouco viver triste?

E este onde o nome aparece recortado por força da métrica:

Quando de minhas mágoas

Quando de minhas mágoas a comprida
Maginação os olhos me adormece,
Em sonhos aquela alma me aparece
Que pera mim foi sonho nesta vida.

Lá numa saudade, onde estendida
A vista pelo campo desfalece,
Corro pera ela; e ela então parece
Que mais de mim se alonga, compelida.

Brado: - Não me fujais, sombra benina!
Ela, os olhos em mim c'um brando pejo,
Como quem diz que já não pode ser,

Torna a fugir-me; e eu gritando: - Dina...
Antes que diga: - mene, acordo, e vejo
Que nem um breve engano posso ter.

E há ainda um outro que se diz referir-se a Dinamene, talvez o mais conhecido e repetido e estudado:

AlmA minha gentil, que te partiste

Alma minha gentil, que te partiste
Tão cedo desta vida descontente,
Repousa lá no Céu eternamente,
E viva eu cá na terra sempre triste.

Se lá no assento etéreo, onde subiste,
Memória desta vida se consente,
Não te esqueças daquele amor ardente
Que já nos olhos meus tão puro viste.

E se vires que pode merecer-te
Alguma cousa a dor que me ficou
Da mágoa, sem remédio, de perder-te,

Roga a Deus, que teus anos encurtou,
Que tão cedo de cá me leve a ver-te,
Quão cedo de meus olhos te levou.

Existem muito mais referências a amores idos em Camões mas alguns são de atribuição duvidosa a Dinamene, porque se podem muito bem referir aos seus alegados amores a Dona Catarina de Ataíde ou à Infanta D. Maria, irmã do Rei D. João III.

Como resumo temos neste pequeno esboço Camões, Jau, Dinamene, Dona Catarina de Ataíde e a Infanta D. Maria como entidades ligadas memorialmente à memória de Camões, sendo que Jau, Dona Catarina de Ataíde e D. Maria, irmã do Rei D. João III, por ele não são referidos de forma explícita e Jau, seguramente está ausente da poética de Camões.

E todos eles, com referência explícita ou sem ela, assim se libertaram da Lei da morte.





segunda-feira, 3 de junho de 2013

Sobre o Capote de Nicolai Gogol

 
Sobre o Capote de Nicolai Gogol
 
Texto / análise de Daniel Teixeira
 
Este conto / novela de Nicolai Gogol é um dos trabalhos que eu considero mais importante para uma análise deste escritor russo. De notar que não é minha pretensão ver Gogol exclusivamente por esta lupa / texto.
 
O motivo, ou os motivos, o enredo ou os enredos da novela são, em certo sentido insignificantes, como insignificante é toda a história realçando-se o dom pela escrita do autor e o seu sentido de composição e também o seu esforço para conseguir transformar uma história quase banal, repleta de banalidades, no sentido literário do termo que não tanto no sentido humano, numa história que acaba afinal por ser bem conseguida e acaba por alcançar os seus objectivos.
 
Aos objectivos da história iremos indo em frente dedicando desde já esta parte do nosso texto a um pequeno resumo inventariador daquilo que nos interessa.
 
Compreende-se logo o interesse do escritor em retirar toda a relevância ao protagonista da novela, começando desde o início com o episódio da escolha do seu nome pela sua mãe perante as sugestões calendarizadas dos padrinhos:
«— Que castigo! — disse a senhora. — Que nomes! Nunca ouvi coisa assim. Varada ou Varukh, ainda enfim, mas Triphilyi e Varakhasiy, não!
Passaram para outra página e encontraram Pavsikakhiy e Vakhtisyi. — Agora percebo — disse a velha senhora, — que isto é o destino. E uma vez que assim é, o melhor será dar-lhe o nome do pai. O nome do pai era Akakiy, portanto que o filho se chame também Akakiy.»
 
Realcemos:
 
1- a expressão da mãe de Akakiy: «Agora percebo, que isto é o destino!»
 
2- a utilização por Gogol do termo «velha senhora» (talvez um erro de escrita) a uma mãe que acabava de dar à luz,
 
3- a ausência de outra referência ao pai senão o seu cargo, sabendo-se assim também na mesma altura que quando do nascimento de Akakiy ela era viúva.
 
Nada se refere sobre a sua infância ou juventude e vamos encontrá-lo já na sua posição de «funcionário de posto estanque e vitalício.»
 
Feita referência a uma ofertada possibilidade de promoção na carreira que ele não consegue e/ou não quer gerir, realça-se a importância quer do seu amor pela actividade de copista quer da sua caligrafia. Este detalhe é retomado por Gogol no final da novela ao referir a caligrafia do seu substituto:
 
«Foi assim que souberam da morte de Akakiy Akakievitch na repartição, e no dia seguinte já outro funcionário estava sentado no seu lugar, com uma caligrafia de modo nenhum tão direita, mas mais inclinada e oblíqua.».
 
Assim Gogol não quer deixar de dar ao protagonista uma posição profissional auto-fixada como copista (trabalho seguramente de responsabilidade mas ao mesmo tempo insignificante em termos de envolvimento empreendedor).
 
Akakiy é um funcionário de baixo escalão «por destino» e também pelo destino que cumpre escrupulosamente e bem. Em suma trata-se de uma pessoa sem ambições e provavelmente sem saber o que isso significa, o que nos leva ao posterior «Estrangeiro» de Albert Camus.
 
A sua vida é quase mecanizada. De reparar a propósito no detalhe do seu mealheiro:
«Akakiy Akakievitch tinha o hábito de pôr, por cada rublo que gastava, uma pequena quantia numa caixinha fechada à chave e com uma fenda no cimo para se meter o dinheiro. Ao fim de cada meio ano contava o monte das moedas de cobre e trocava-as por prata. Já fazia isto há muito tempo e no decurso dos anos, o montante ultrapassara já os quarenta rublos.»
 
De notar o preciosismo contrastante da periodização da contagem e troca das moedas de cobre (ao fim de cada meio ano) por moedas de prata e que Gogol não refere moedas de prata mas sim prata.
 
E tanto assim é, a cultura do mecanismo e do hábito que quando forçado a mudar as suas rotinas cortando nos gastos para obter o dinheiro referente ao pagamento do capote:
«Para dizer a verdade, foi-lhe um pouco difícil no princípio adaptar-se a estas privações; mas por fim acostumou-se a elas e tudo correu sem sobressaltos.»
 
Em certo sentido Gogol acaba por compensar o seu «anti-herói» depois de anunciar a morte deste e tanto mais relevante será o diferencial no seu papel depois de morto quanto menos relevante ele for em vida do mesmo, é o princípio que poderemos retirar desta composição depois de integralmente lida a mesma.
 
Assim esta redução / vulgarização da vida do protagonista terá já engatilhado o seu ressurgimento, o que poderia acontecer em vida, note-se, nesta fase ainda embrionária da novela, despoletada neste caso através de um acontecimento marcante.
 
Os delírios de Akakiy Akakievitch na fase final da sua vida, escandalizando a senhoria do seu quarto que sempre respeitara, seriam uma boa altura para construir um personagem «vivo», como que ressurgido das cinzas. De notar que Gogol ele mesmo cria essa possibilidade de ressurgimento ou regeneração do personagem como podemos ler aqui e veremos igualmente mais à frente:
 
«A partir de então, a sua existência pareceu ficar de certa maneira, mais cheia, como se fosse casado, ou como se vivesse nele um outro homem qualquer, como se de facto não estivesse só e um amigo simpático tivesse consentido em percorrer com ele o caminho da vida, não sendo este amigo nada mais nada menos do que o capote com grosso forro e tecido forte que não se gasta.»
 
A sua insignificância intrínseca, é pois quebrada pelo capote, as injustiças que ele sofre em vida, e que sente mesmo como tal, como injustiças, têm todas lugar depois do roubo do seu capote.
 
São dois aspectos importantes a meu ver que são de realçar no significado que é dado ao capote: de um lado é um suplício e depois um desafio a sua aquisição, depois uma razão para o fazer viver sofrendo as privações para arranjar dinheiro para o comprar e alegrando-se até com a perspectiva de o vir a ter.
 
«Até se habituou a passar fome à noite, mas arranjou uma compensação para isso tratando-se, digamos assim, espiritualmente, tendo sempre em mente a ideia do seu futuro capote. A partir de então, a sua existência pareceu ficar de certa maneira, mais cheia, como se fosse casado, ou como se vivesse nele um outro homem qualquer, como se de facto não estivesse só e um amigo simpático tivesse consentido em percorrer com ele o caminho da vida, não sendo este amigo nada mais nada menos do que o capote com grosso forro e tecido forte que não se gasta. Tornou-se mais vivo, e mesmo o seu carácter tornou-se mais firme, como o de uma pessoa que já tomou uma decisão e estabeleceu um objectivo para si próprio. Da cara e da postura desapareceram-lhe a dúvida e a indecisão, todos os vestígios de hesitação e inconstância. Os seus olhos cintilavam e por vezes passavam-lhe pela cabeça as ideias mais ousadas e mais temerárias; por que não uma gola de pele de marta?»
 
Em certo sentido o papel da sua «esperança quase religiosa» configura-se no objectivo capote e enriquece-se nele. Este aspecto faz desde logo antever algum acontecimento funesto ao dito capote e na minha modesta opinião Gogol deveria ter-se ficado pela morte de Akakiy e não ter-lhe dado a vida imaginada que lhe dá depois. O fantástico russo um pouco usual em demasia é realmente a meu ver demasiado aqui. Kafka ou mesmo Camus teriam ficado neste ponto, a meu ver.
 
Mas Gogol não ficou por aqui e proporciona ao seu protagonista uma vingança e uma função reestruturadora do sistema. Esta parte, talvez a menos importante do conto novela tem o seu apogeu após o acontecido com a «personagem importante» a quem ele recorreu para tentar reaver o capote e que alegadamente terá estado na origem ainda que indirecta do seu deperecimento e falecimento.
 
De notar que a lenda do «justiceiro ladrão fantasma» de capotes desaparece neste momento, em que o ajuste de contas é feito com essa personagem importante mas que continua apesar disso no imaginário popular donde aliás é originária. Este ajuste de contas afinal não é mais que uma reprimenda, assustadora como cabe a um fantasma, mas não mais que isso.
 
Ora falámos de banalidades, de coisas que a meu ver qualquer um pode escrever...mas não escreveu. Falámos de Nicolau Gogol e porque não dizê-lo de um minimalismo temático que coloca todo o acento na habilidade / génio do autor para se tornar interessante.
 
A forma da escrita, dialogante com o leitor é quase epistolar, as imprecisões propositadas sobre locais ou datas procuram envolver o leitor num imaginário seu, as descrições de lugares estão agregadas a pessoas, a maior parte das descrições refere-se a personagens que interagem com o protagonista e o detalhe procura precisamente essas personagens: na verdade embora o capote seja um fulcro da história não se compreende bem uma descrição tão detalhada do alfaiate, por exemplo.
 
Por duas vezes são referidos guardas com alabarda, em dois momentos de desorientação do protagonista, uma quando ele fica a saber que tem de comprar um capote e outra quando este lhe é roubado.
 
O rapé é uma constante com demasiada relevância a meu ver no narrado (faz inclusivamente com que uma vez o ou um fantasma ladrão de capotes não seja preso) o que nos pode levar neste último caso para o universo pessoal de Gogol.
 
Uma boa história com história a mais é como eu leio este conto novela.
 
Daniel Teixeira
 
Leia o Capote de Gogol aqui em Luis Varela Pinto.