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quinta-feira, 21 de maio de 2015

Eu e fulana - Conto (Humor) de Daniel Teixeira


Eu e fulana

Conto (Humor) de Daniel Teixeira

Este título precisa de ser explicado porque podem aparecer várias opiniões sobre o facto dele ser como é, o título. Quando se diz fulana (ou fulano) embora nunca se consiga esconder o factor depreciativo, pode estar a querer dizer-se que se trata de alguém cujo nome não queremos, por razões diversas, escrever por explicado explícito.

Numa conversa de rua, por exemplo, e quando vão passando diversas pessoas nas proximidades, pode-se utilizar o termo (fulana ou fulano) para esconder a identidade da pessoa de quem se está a falar, porque não é conveniente que essa identidade seja declarada, mesmo que não se saiba se as pessoas que vão passando à nossa volta estão (pela notoriedade dela) ou estariam (pelo teor da conversa) sim ou não interessadas em saber do que ou de quem se está a falar.

O meu caso, e isto desde logo porque não interessa muito estar a consumir tempo e espaço, é diferente: escrevi fulana porque a mulher (senhora) tinha (e deve ter ainda) um nome horrível.

A mulher do Afonso Henriques chamava-se Urraca e, com todo o respeito patriótico que me é exigido, devo dizer que eu não casava com uma mulher com um nome destes: eu sei que o amor é cego e etc. mas desculpem-me todas as Urracas deste mundo mas comigo não contem...nem as Urracas nem aquelas cujo nome seja igual à que eu agora chamo de fulana. E mais uns quantos nomes, mas isso agora não vem ao caso...

Por mais depreciativo que possa parecer, o termo fulana está milhas acima do nome daquela mulher (senhora). E a coisa era assim, avançando eu na descrição da minha relação com fulana.

Vivíamos próximo, numa daquelas ruas com casas térreas quase todas iguais e eu de vez em quando era solicitado pela Dª Fulana (é melhor meter maiúscula!) para desenrascar coisinhas daquelas que levam meses a ser resolvidas por um sempre assoberbado profissional de qualquer métier relacionado com a domus, desde o parafuso na fechadura até ao candelabro do sec. XVIII.

A coisa ia bem, razoavelmente bem: as solicitações da Dª Fulana, que só era Dona porque era de boas famílias mas que em teoria deveria ser Menina, embora fossem frequentes, essas solicitações, atingiam uma regularidade mensal por mim considerada razoável: uma média de dois parafusos e uma lâmpada chama por mês ou uma de casquilho grosso ocasionalmente, mas factores exteriores ao nosso relacionamento semi-profissional (sou amador, eu) vieram conturbar uma relação que tendia a estender-se até às nossas respectivas covas (a dela primeiro que a minha segundo a lei das probabilidades).

A Dª Fulana arranjou um namorado, um espertalhão, na minha opinião, que tinha como fito declarado na cara sugar-lhe os tostanitos e metê-la daí a anos num Lar da Misericórdia se não optasse por dar à sola quando a coisa estivesse mais para lá do que para cá.

Ora, a minha intimidade com a Dª Fulana (cujo nome real eu era obrigado a dizer pelo menos uma vez quando batia à sua porta), era daquelas intimidades tipo paternais.

Embora eu fosse (e sou) bastante mais novo que ela eu era o pai dela nas questões que metiam parafusos, porcas, lâmpadas, tomadas, peras e nalguns cuidados especiais quando começaram a aparecer na casa dela as novas tecnologias como o micro-ondas, o DVD, a televisão por cabo, etc.

Ora, nestas coisas, como o seu namoro, eu não deveria nunca meter a colher, e não meti e esse terá sido o meu grande erro. Ora o homem era o que era e ela era maior e vacinada e pergunto a qualquer leitor imparcial se eu não procedi bem...é claro que procedi! O homem não tinha fusíveis, nem termóstato, nem comando electrónico porque razão eu me deveria meter!?

Por outro lado, e já disse isto acima, o amor é louco e etc. e ela sabia ou deveria saber bem as linhas com que se cosia. Ser solteirona não é certificado universitário de imbecilidade para ninguém...

Como já devem ter calculado, o gajo, por artes e engenhos vários, foi-lhe sacando aos bochechos o dinheirinho que ela tinha no banco e pirou-se em seis meses e isto ao ponto dela nem sequer ter disponibilidade para comprar as lâmpadas e os parafusos que eu continuava a substituir-lhe em casa.

O micro-ondas deu o bafo, a televisão por cabo foi-lhe cortada, e lá tivemos de regressar ao velho sistema da antena no telhado com acesso a 4 canais com os riscos que isso voltou a comportar para mim obrigando-me a constantes subidas e descidas ao telhado para acertar a imagem.

Quando a coisa começou a tornar-se incomportável para mim (ela já me devia seis lâmpadas - três chama e três de casquilho grosso - uma antena nova e o preenchimento de uma declaração de IRS com multa) eu tive de lhe dizer:"Ó Dª Fulana!!! O barco vai titanicando e a este ritmo não há Céline Dion que nos safe!!" fui então surpreendido pela surpreendente resposta.

"A culpa é sua!! Você sabia muito bem que o fulano (chamava-se Góis!) me ia levar à penúria e não me avisou de nada!!"

Daniel Teixeira



Fotos e memória - Conto (Humor) de Daniel Teixeira


Fotos e memória

Conto (Humor) de Daniel Teixeira

Tenho-me dedicado tanto quanto posso a pesquisas na net sobre fotografias e como devem calcular encontro um pouco de tudo e mais do que aquele todo imaginável pelo naïfe que eu sou. Mas, sem entrar em desbragadas análises sobre o quase inalisável o que mais me tem chamado a atenção é o facto de se encontrarem muito poucas fotos comuns sobre gente comum, na net.

Tenho visto algumas páginas pessoais, daquelas mesmo pessoais, com poucos centenas de visitas nos contadores, mas mesmo nestes casos tenho encontrado algum desejo de ser mostrado o incomum naquelas pessoas que deveriam mostrar-se gente comum por serem gente comum.

Os meus primeiros encontros com gente comum que não quer ser comum ou que se não quer assumir como comum, vulgo vulgar, sem diferença, orgulhosa de ser como é e não orgulhosa por ter sido incomum num dado momento da sua vida, foi quando pesquisei páginas pessoais com fotos e verifiquei que uma série razoável de gente tinha fotos das suas viagens, às Caraíbas, por exemplo, ou outros destinos exóticos.

Dependendo das nacionalidades o exótico é aquilo que se não encontra na terra onde vivemos: um português, por exemplo, tira fotografias de neve e montanhas, posa alegremente ao lado de um professor de sky, assenta os pés em dois palitos nos quais se vê que ele mal se consegue manter direito, e enterra firme e profundamente na neve dois tacos agarrados como enxadas e sorri, meu deus, como ele ou ela sorriem para a foto, para o fotógrafo, para a máquina mas sobretudo estão, dentro deles a pensar como irão fazer roer de inveja os amigos quando mostrarem as fotos sem sequer calcularem que eles se estarão borrifando para o facto de eles terem estado 24 horas vezes não sei quantos na Sierra Nevada ou mesmo nos Alpes.

A foto é alegre, a alegria é pessoal e o desejo de ferir o próximo (o vizinho teso ou com menos posses) é evidente. Nada está escondido na manga...

No caso de um Norueguês, por exemplo, o exótico é andar entre biquinis, toplesses, e abundância de carne exposta, ver e fotografar uns quantos marmanjos e marmanjas, estas com as mamas à mostra, de preferência, tirar a inevitável foto com uma bebida colorida num bar todo em madeira com os troncos "rústicos" à mostra e dar um chocho para o fotógrafo guardar no negativo.

Em qualquer dos olhares, português ou norueguês, ou de qualquer nacionalidade, o que se lê entre linhas, é a expressão da necessidade de mostrar ao próximo vizinho quanto felizes foram as férias, mesmo que se subentenda por vezes que a fominha passada fora das fotos foi enorme ou que mesmo os cartões de crédito levarão eternidades a ser saldados.

Gente comum não há, nunca há gente comum: quando um indivíduo, munido da sua indispensável máquina de chapear, vai ao Tibete, por exemplo, tem forçosamente de arranjar um monge, uma peregrinação, uma referência ainda que remota ao Lama do sítio, um mosteiro alcandorado nas montanhas, ou mesmo um animal daqueles que parecem camelos e se babam aos litros e quilos para a fotografia e para o fotógrafo.

O pobre e vulgar cidadão, com preocupações com o fisco ou mesmo sem possibilidades de ter essas preocupações não aparece senão quando calha em fundo de ecrã: e no entanto há tanta gente comum, tanta, tanta que são mesmo mais do que os Lamas, os professores de sky, ou as floridas havaianas.

Cheguei pois à conclusão que é impossível arranjar gente comum fotografada: gente mesmo comum. Uma simples velhinha a troco de muita insistência ou mesmo por biscate exibe o abundante relevo das rugas, esboça um sorriso talvez por gozo interior e mostra uma catrefa de dentes em falta ou simplesmente apodrecidos.

Não há, de facto gente comum senão aquela que é obrigada ou sente que é simpático mostrar o comum da sua vida ou vivência.

Uma mocinha, atingida a maior idade, não se importa absolutamente nada que a fotografem com os trajes da região (que ela vai buscar à arca a casa porque no dia a dia anda de mini saia) e com um pouco de insistência ou nenhuma mostra uma fatia da perna para decorar e dar mais interesse ao traje.

Os "profissionais" da "gente comum", esses, vão a África, arranjam pela agência uma festa tribal que pagam entre todos e batem fotografias de gente comum toda coloridamente besuntada com lama colada ao corpo, empunhando ameaçadoras lanças cuja ponta nem cortaria manteiga, e aparecem adornados com máscaras o mais mal feitas possível e alegadamente retalhadas directamente em troncos de árvore mas que alimentam a pequena indústria carpinteira local.

Mas, um dia, se Deus quiser, ainda verei na net fotos de gente mesmo comum.

Daniel Teixeira



O drama verde de Roberta - Conto (Humor) de Daniel Teixeira


O drama verde de Roberta

Conto (Humor) de Daniel Teixeira

Uma vez que me parece que gostam de histórias aqui vai uma que não é especialmente de Natal embora se passe também no Natal. O ano, como todos sabem, tem 365/366 dias, dentro dos quais está compreendido o período de Natal e esta história passa-se durante todos os ainda curtos anos de vida desta menina de que eu vos vou falar.

Exactamente quantos Natais se tinham passado na vida desta menina na altura em que me contaram a história não sei exactamente, mas, para jogar pelo seguro, vou escrever que se tinham passado à volta de dez anos (dá para menos e dá para mais nesta proximidade decadal).

Pois bem, a Roberta; um nome como outro qualquer mas com conotações especiais neste caso porque o seu pai se chamava Roberto o que faz pressupor ao mais imparcial observador e desde logo uma razoável dose de egocentrismo da parte do pai, tinha, a Roberta, filha do senhor Roberto e da senhora Maria das Dores ( aqui começo a ter a impressão que a escolha do nome Roberta como opção não foi de todo infeliz ) tinha, esta menina um problema familiarmente grave que se resumia - "resumia" para nós que não vivemos o problema - ao facto de ela não gostar de ervilhas.

Nada de grave (!!), dirão e com bastante razão porque não conhecem o resto da história. Na verdade existem milhares ou pelo menos centenas de substitutos para a ervilha e está provado que se pode viver perfeitamente sem comer ervilhas.

Mas os pais da Roberta gostavam de ervilhas e tinham a certeza de que a Roberta também gostava de ervilhas.

Ela, por simpatia e para não desgostar os ainda não muito velhos pais, nada dizia. O drama para a Roberta corria numa frequência considerada razoável numa família normal, arranjando ela as desculpas usuais para se escapar da mesa em dia de ervilhas.

Deveria ter dito que não gostava de ervilhas, é certo, mas quantos de nós não gostamos de uma dada coisa e, por delicadeza ou para não ferir sentimentos, e quando se trata de comida, somos até capazes dessa hipocrisia suprema que é dizer que essa coisa de que não gostamos (ou que odiamos mesmo ) e que somos obrigados a comer em casa de amigos "estava óptima" etc. etc. e que, para não dar muita pomada, afirmamos que com um bocadinho mais de noz moscada ainda ficava melhor?!

O cúmulo, que é o que algumas mulheres sobretudo, mas mulheres ou homens, sem coração, fazem, é segredar ainda a super hipócrita frase: " tens de me dar a receita!!" O ser humano é verdadeiramente esquisito, digo-vos eu, mas isso pode ser dito por qualquer um de nós e não implica qualquer esforço suplementar.

Pois bem, o rame rame sacrificial da Roberta foi cortado por um acontecimento inesperado por ela mas há muito desejado secretamente tanto pela sua mãe como pelo seu pai.

Houve, um dia, um saldo extraordinário numa grande cadeia de supermercados e os pais da Roberta resolveram atacar a arca congeladora preenchendo-a de sacos de quilo de ervilhas (congeladas como não podia deixar de ser ).

A Roberta assistiu ao transporte de cerca de 100 kilos de ervilhas do carro para a arca com um sorriso nos lábios ( era boa mocinha, a Roberta ), ajudou inclusivamente ao descarregamento e era ver as suas mãozinhas enternecidas, enrubescidas e enregeladas pelo contacto com o plástico trazerem os sacos e virem colocá-los alinhados dentro da arca.

Ao mesmo tempo um observador mais atento ( que neste caso foi o narrador da história ) poderia ver as lágrimas brotarem dos seus lindos olhos azuis e correr-lhe pela face.

Mas sem um sinal sequer de contrariedade ou de revolta. Amor de filho é assim. Ao deitar deu o usual beijo aos pais e eles nem se aperceberam que ela nessa noite se chegava mais a eles no abraço, e que ela lhes acarinhava docemente o cabelo, fazendo correr as suas mãozinhas pelos fios onde ia depositando grossos bagos de lágrimas.

E, sem dizer mais nada, durante a noite abandonou o lar.

Tinha então cerca de doze anos a Roberta e os pais nunca mais souberam nada dela. Nem um telefonema, nem uma carta, apesar da pobre e dolorida mãe quase sempre ir apanhar o carteiro na estrada tanta era a sua esperança...

A história é um pouco mais triste ainda porque o Roberto e a Dona Maria das Dores nunca mais entraram no quarto da Roberta e, carinhosamente ( como só os pais sabem fazer ), com os olhos vermelhos de tanto chorar todos os dias tanto tempo, serviam sempre um prato que colocavam no lugar que antes a Roberta ocupava na mesa.

Com alguma frequência eram ervilhas...

Daniel Teixeira




segunda-feira, 3 de junho de 2013

O passeio

 
O passeio
 
As coisas estavam a correr bem, pelo menos era assim que eu pensava e tudo levava a crer que nada de mau poderia acontecer.
 
O Fernando ia à frente, fazendo de batedor, a seu gosto e com algum prazer apesar do potencial perigo. O resto do pessoal vinha todo em fila indiana atrás de mim e eu por meu lado tentava seguir os sinais das pisadas das botas grossas do Fernando.
 
Era um hábito dele, andar sempre de botas tipo tropa, quase, se descontarmos uns cordões de aperto coloridos e em fiapos que ele se recusava a trocar por outros novos sob argumento de que aqueles lhe davam sorte.
 
Mas não era por causa dos cordões das botas do Fernando e por causa da sua fé neles que eu achava que se tudo tinha corrido bem até ali, tudo correria bem dali para a frente.
 
No bar da vilória onde tínhamos estado antes dissemos que queríamos ir por aquele caminho para a casa que tinha sido da mãe da Ilda, recentemente falecida, e aí foi- nos dito que talvez não fosse boa ideia.
 
Um velhote com cara de patriarca destacou-se na cadeira de uma mesa e de voz um pouco pastosa disse-nos que os caçadores furtivos espalhavam ratoeiras para caça grossa em locais que só eles conheciam e que por vezes perdiam os traços das suas sinalizações pelo que havia ratoeiras perdidas espalhadas um pouco por todo o lado.
 
Chamou um indivíduo fardado, de chapéu com insígnias que apresentou como sendo o seu filho mais novo, guarda florestal, e disse que ele tinha deixado lá um pé, pois quando chegara ao hospital já nada havia a fazer senão acabar de cortar.
 
Como se pensasse que nós duvidávamos, e acertou, obrigou o moço, relativamente novo, a levantar a bainha esquerda das calças que mostrou então uma prótese, articulada um pouco acima do tornozelo.
 
Lamentámos o sucedido e agradecemos o aviso e dissemos que iríamos tomar cuidados. O velhote voltou-se então para a Ilda e disse-lhe:
 
«Você não se lembra de mim, mas eu era grande amigo do seu pai e da sua mãe. Eram boa gente, os dois, não desfazendo dos presentes. Você tem quase a mesma cara dela!»
 
Uma parte de nós, mesmo confrontados com a prótese, que podia resultar de um qualquer outro tipo de acidente também, e com as palavras simpáticas do velhote para com a Ilda, achámos que aquilo das ratoeiras podia ser uma das usuais conversas que eram abundantes em meios pequenos quando se tratava de tentar assustar o citadino.
 
Mesmo assim quando saímos e pelo sim pelo não o Fernando ofereceu-se logo para fazer de batedor.
 
Já tínhamos estado na casa que era agora da Ilda havia uma semana, mas nessa altura tínhamos ido pela estrada. Ficámos de tal forma entusiasmados com aquele quase palacete e pelo enorme terreno circundante, bordejado por um lago que acabámos por aproveitar a primeira oportunidade para nos juntarmos num pequeno grupo de seis amigos para passarmos lá uma parte das férias. Quase todos trabalhávamos ou estudávamos e eram mesmo férias.
Só a Ilda tinha acabado o curso e procurava emprego e o João não precisava de trabalhar mesmo: limitava-se a tocar guitarra dias inteiros e a ir ao banco buscar a mesada que o pai lhe dava.
 
Na vila onde tínhamos ouvido os tais maus augúrios tinha-mo-nos separado e a Helena tinha seguido com o jeep carregado de víveres. Ela tinha dificuldade em andar tanto tempo a pé porque era um pouco gordinha, um pouco ou muito, é tudo uma questão de perspectiva. Mas era uma alegria de moça e aceitara bem a ideia de ser ela a ir pela estrada.
 
Caminhávamos silenciosamente e o final daquele passeio que depois se foi transformando em provação estava cada vez mais ao alcance. Faltavam para aí uns dois ou três quilómetros, não mais, pelas minhas contas era isso.
 
Tínhamos de chegar antes do anoitecer e a tarde já ia avançada mas estava tudo certo em termos de cálculos.
 
Se anoitecesse antes de chegarmos ao nosso destino tínhamos mesmo de parar e fazer o resto do percurso no dia seguinte, ou arriscar-mo-nos a caminhar sem claridade o que era um grande transtorno para além de poder ser perigoso sobretudo depois da conversinha que tínhamos ouvido no Bar.
 
Tinha tudo sido calculado para dar certo e a nossa passada era bem cadenciada: sobretudo da parte das duas moças, a Ilda e a Cristina, ouviam-se umas reclamações do género «ainda falta muito?» ou «nunca mais chegamos!» e mais uns suspiros fundos, tudo coisas sem importância e que eram afinal esperadas.
 
O outro companheiro que seguia comigo atrás e eu não dávamos sinal de fraqueza e aproveitávamos os desabafos das miúdas para as encorajar embora se pudesse notar pelo nosso andar arrastado que nós também estávamos já a precisar de encorajamento.
 
O azar aconteceu um quilómetro ou dois depois da vila, quando já tínhamos entrado na mata mais fechada e quando estávamos para aí a quilómetro e meio do nosso destino... deparámo-nos com o «nosso batedor» Fernando encostado a uma árvore e fazendo-nos sinal para nos mantermos abaixados.
 
Segredando foi dizendo que tinha visto gente acampada lá mais à frente e que esse pessoal não lhe inspirava confiança nenhuma.
 
Eram seguramente caçadores furtivos, pelo que ele disse, eram três e bastante mal encarados e estavam numa de ficar por ali pois já tinham acendido uma fogueira e bebiam que nem uns desalmados. Por ele continuava tentando contorná-los, foi o que disse, mas tinha um sério receio de que fossemos descobertos.
 
Nós éramos da cidade, nunca ali tínhamos posto os pés e eles deviam conhecer a mata. Colocar as moças e a nós mesmos em perigo era o nosso grande receio e com caçadores furtivos era difícil adivinhar qual seria o comportamento deles e o mais provável era que não fosse um comportamento cordial.
 
A Ilda, uma mocinha pouco vivida, tremia como varas verdes e a Cristina sendo mais voluntariosa não deixava de mostrar um ar preocupado. O que fazer? Não tínhamos resposta, mesmo. Ficar ali a noite até que eles se fossem embora, deviam partir ainda de madrugada, era o que seria pensável e era a opção mais viável, mas tínhamos de nos afastar deles recuando um bom bocado.
 
Por outro lado tínhamos pouca roupa de cobertura e durante a noite devia fazer muito frio. Estivemos nisto alguns minutos, meia hora talvez, meia hora de indecisão. Colocámos a possibilidade de passar por eles, cumprimentá-los de longe e tudo correr bem, mas era uma possibilidade que achávamos cada vez mais remota.
 
As gargalhadas e os palavrões que vinham do lado dos caçadores foram-nos dando cada vez mais a convicção de que essa não seria uma boa opção.
 
Restava-nos recuar e passar a noite por ali, mesmo com o frio que iríamos passar era certamente a melhor solução.
 
Foi quando começámos a ouvir os tiros, cadenciados, um, dois, três e segundos depois um quarto. Ficámos paralisados, não sabíamos o que se passava, mas os disparos não pareciam ser de arma de caça, de cartuchos e chumbos ou zagalotes. Pareciam ser antes tiros de espingarda, de um rifle de bala normal.
 
Minutos depois lá foi o Fernando esgueirando-se tentando ver o que se passava logo um pouco mais à frente e voltou poucos minutos depois com o terror espelhado na face: «Estão todos mortos, os três. Dois estão voltados para cá e têm um buraco mesmo no centro da cabeça. Aquilo não foi entre eles, aquela guerra, foi alguém mais que anda por aí.»
 
A coisa estava a tornar-se mais complicada ainda e fora eu que tinha tido a ideia de fazermos aquela exploração por aquele lado da quinta da Ilda.Não sabíamos se devíamos voltar para trás ou seguir em frente.Já não sabíamos nada, estávamos todos aterrorizados.
 
Foi quando ouvimos uma voz ao longe dizendo: «Já podem passar, pessoal da cidade, eh pessoal da cidade, já podem passar!».
 
Embora as circunstâncias não estivessem de molde a fazer-nos seguir a sugestão sem pensar muito bem ficámos por ali um bom bocado até que ouvimos perto de nós o rastejar de calças a bater nas ervas e o som de botas.
 
A cerca de dez metros de nós, escondidos no matagal, vimos então um vulto entre as folhagens e as árvores que seguia de espingarda com mira telescópica ao ombro em direcção à Vila. ~
 
Não vi muito bem, nenhum de nós viu e todos vimos. Quem quer que fosse era uma pessoa que coxeava.

 

terça-feira, 30 de abril de 2013

Pacatez

 
 
Pacatez
 
O suspense, ah, o suspense, aquela certeza incerta ou aquela incerteza certa de que algo vai ter lugar, que alguma coisa vai acontecer, seja como for e da forma que for é seguramente um atributo da mente humana que não tem nem pode ter explicação racional. Mas esteve ali comigo, naquele dia, naquela hora, naquele local.
 
Segundos antes eu era apenas uma pessoa sentada num banco de jardim, uma pessoa qualquer, alguém que procurava fazer passar o tempo, ou deixá-lo passar por mim, tanto me fazia.
 
Segundos antes : ouvia os pássaros a chilrear, o ruído das ramagens das árvores bandeando ao vento, as buzinas de carros e comboios lá ao longe, o chapinhar da água de encontro aos muros da doca, os gritos agudos das gaivotas e tudo, mas mesmo tudo,  parecia normal.
 
Depois veio aquela sensação estranha, aquele incómodo, aquele aperto no estômago, aquele acelerar da pulsação, aquela sensação incerta e mista de medo e de expectativa, e mais nada ficou normal dentro do meu pensamento: ia acontecer alguma coisa, eu sabia, sabia isso. Mas não sabia o que seria.
 
Contudo não demorou muito até tudo acontecer, poderia dizer felizmente porque para mim foi libertador, ou seja, libertei-me de uma sensação de indefinição para passar a viver uma situação que podia definir mas ainda hoje estou sem saber se na altura senti que uma situação foi melhor que a outra.
 
Ouvi o grito, um grito longo, um grito de socorro, estridente, talvez a cinquenta metros de mim, para trás de mim e virei-me quase instintivamente. Não vi nada. As ramagens que bordejavam a álea não me deixavam ver, ramagens espessas, recortadas. E era dali que tinha vindo o grito, aquele grito longo. Tentei levantar-me e correr, senti vontade de intervir, tentei, estou absolutamente certo de que tentei, mas as pernas não me deixaram.
 
Ouvi o grito de socorro de novo, e de novo, e de novo, estridentes, prolongados e depois apercebi-me que enquanto os gritos, aqueles gritos, iam durando o seu volume baixava e se ouvia como que um debater quase silencioso nos silvados e que finalmente quase tudo desaparecia como que num soluço para voltar a aparecer de novo, para voltar a ouvir-se de novo e para voltar a silenciar-se aos poucos.
 
Confesso, hoje posso confessar, agora que já passou algum tempo que foram as minhas pernas que não me deixaram sair do banco onde estava sentado e correr em direcção ao grito porque era isso que eu queria mas foi isso que eu não consegui.
 
Desde esse dia, quando me sento naquele banco de jardim lembro-me daqueles gritos de socorro sobre a origem ou a causa dos quais nunca ninguém disse nada. Eu vivo numa cidade pacata, as pessoas são pacatas, se alguma coisa aconteceu ali ninguém iria falar nisso.
 
Mas nunca mais senti aquela sensação de intranquilidade, aquela sensação estranha, aquele incómodo, aquele aperto no estômago, aquela sensação incerta e mista de medo e de expectativa e isso é bom, para mim é bom.
 
O que quer que fossem aqueles gritos, viessem donde viessem e fossem pelas razões que fossem, em cada um dos dias que lá me sento, logo que são passados os primeiros minutos sei que nada vai acontecer. Sinto isso.
 
Série Contos Impopulares