quarta-feira, 7 de outubro de 2015

Gostas de mim, não gostas? - Conto de Daniel Teixeira


Gostas de mim, não gostas?

Conto de Daniel Teixeira

Gostas de mim, não gostas? foi o que ela me perguntou, assim de chofre, naquela tarde na Alameda quando eu tentava fazer com que uma côdea de pão fosse ter certinha a um pobre pato preto que não era suficientemente lesto e deixava sempre que os outros chegassem primeiro ao naco deixando-lhe o bico vazio a chapinhar na água um pouco escura do lago.

Eu conhecia aquele pato e estava a estudá-lo havia quase um mês tentando conseguir saber as razões do seu, para mim, estranho comportamento e não interrompi a minha análise e a reflexão que se lhe acoplava como uma luva por causa daquilo que que a moça me perguntou.

Se gosto dela (?) agora não dava para responder e para além do mais a minha resposta teria as suas consequentes extensões dialogadas e voltei, sem ter saído, da observação ao pato preto. Era estranho, de facto.

Não quero ser cínico, nem sequer quero pensar hoje que naquele dia estava a pensar que o pobre do animal, mesmo não comendo nada, ficava convencido que comia, tal o frenético «mastigar» das suas abas ossudas e a surpresa que eu lhe notei no olhar quando finalmente acabou por «abocanhar» o bom bocado que eu quase lhe encostei ao bico.

Ele terá sentido o sólido do pão ao mesmo tempo que eu senti o deslizante da pergunta que me foi feita pela Clarinha.

Ora a surpresa do pato foi diferente, certamente, os patos não se surpreendem como os humanos, parece-me claro, mas deve ter sido tão intensa quanto a minha ao ter digerido por inteiro a pergunta que a Clara (Clarinha) me fez.

Não deveria ser uma pergunta assim tão estranha se nos conhecêssemos há mais tempo mas era apenas a segunda vez que a levava ali ao lago e depois nos sentávamos num banco esverdeado e suspirávamos respirando o ar puro que o arvoredo nos proporcionava.

Era bom e eu de facto gostava de estar ali com a Clarinha porque ela era extremamente pouco conversadora distinguindo-se nisso das outras colegas dela que eu tinha levado noutros dias, colegas essas que pareciam ter uma necessidade absoluta de espalhar vocabulário sobre as ervas, como se estivessem alegremente semeando os pensamentos que manifestamente preferiam estar ausentes das suas cabecinhas.

Claro que antes disso, antes do lago e da Alameda tinham havido várias saídas com a Clarinha, o que atenuava um pouco, apenas um pouco o meu potencial de estranheza mas por dentro de mim veio, só para mim, a habitual reacção do perguntado inopinadamente: que raio de pergunta!!.

Numa delas, das minhas saídas com a Clarinha, havia uma dessas saídas que eu penso ter sido a mais marcante para a sua pergunta. Terá sido, na minha opinião, o dia eu que eu, descuidado e entusiasmado com o filme que corria no ecrã do cinema local deixei escorregar a mão direita pela sua coxa esquerda e acabei por me encontrar, embaraçado, com a sua mão entrelaçada nos meus dedos apertando-me ela com força toda a superfície sobre-palmar (quer dizer, a parte posterior dos dedos, para simplificar).

O filme até nem era nada de jeito mas a dada altura o realizador achou por bem inserir um lago com um único e isolado pato, branco, por sinal, que vagueava em círculos quase concêntricos. Ora este pormenor levou-me a tentar perceber se o sacana do realizador, ou alguém a seu mando, não teria atado uma corda a uma coxa do pato, obrigando-o assim a circular, circular e só circular e isto durante pelo menos um minuto, e foi nessa altura que joguei uma aflitiva mão à pouco aflita coxa da Clarinha.

Depois disso o pato e o lago do cinema foram-se embora mas a mão da Clarinha ganhou renovada força própria e tratou de escolher para a minha mão um trajecto que não me envergonhando de todo me impede de o referir aqui em detalhe.

Na verdade a escrita, se se entender que «isto» é um escrito, requer-se sóbria, metódica, alinhada, convergente e o que a minha mão fez (não o provocando, esclareço) ultrapassa os limites que a essa mesma escrita todo o escritor (mesmo bera, como eu) lhe deve impor.

Por isso eu digo que terá sido esse mero evento (meia hora : depois vieram as luzes e o fim da sessão), provavelmente com significações diferentes para ela e para mim, terá sido esse evento, repito, que terá estado na origem da inopinada pergunta da Clarinha naquele dia na Alameda.

Aqui devo confessar que tenho pouca apetência e jeito para fazer entoações diferenciadas pelo que me saiu em resposta à sua pergunta um «Claro que sim, Clarinha, claro que gosto de ti.» o que não sei porquê parece não a ter satisfeito. Debandou, ao que me pareceu bastante irritada, fazendo roçar ruidosamente a saia nos silvados que lhe tentavam tolher o caminho.

Vejo-a de quando em vez e ela vira-me simplesmente a cara: sinto vontade de lhe dizer, se para isso tivesse oportunidade, que é injusto que ela me trate assim depois de tudo aquilo que fizemos juntos, tal como estar na Alameda sentados respirando o ar puro da natureza e até tenho pensado, embora desista logo da ideia, que um dia destes lhe falo em irmos ao cinema.




segunda-feira, 28 de setembro de 2015

Aconteceu - Conto de Daniel Teixeira



Aconteceu

Conto de Daniel Teixeira

Foi assim que as coisas aconteceram ou então é assim que eu me lembro delas e isso pode não ser a mesma coisa, é certo, mas vou contar como eu me lembro porque acho que nunca estarei longe daquilo que de facto aconteceu.

Foi há muito tempo já, há mais de trinta anos, já nem sei exactamente quantos porque o tempo das lembranças não tem a mesma forma de ser medido que o tempo da realidade. Não sendo coisas totalmente diferentes é certo e toda a gente sabe que recordação não é bem a mesma coisa que a realidade, que não têm a mesma idade e que é muito raro, mesmo muito raro que a recordação e a realidade passada coincidam , que isso é pouco possível por mais que nos esforcemos como eu faço agora.

Eu era jovem, isso é certo, e ainda por cima pensava que era possível ser-se jovem e ter ideias revolucionárias e na altura estava convencido que as coisas iam mesmo mudar, todos os dias pensava nisso e várias vezes pensava nisso e foi nesse tempo que o homem entrou no café, era um café de gente fina, lembro-me bem que tinha um espaço onde a gente, gente que não era fina, não devia ir ou não devia sentar-se.

As mesas não estavam reservadas mas era costume as pessoas que não eram finas não se sentarem naquele espaço, que era um espaço grande que estava por vezes quase vazio mas que também estava por vezes quase cheio e naquele dia estava bem cheio, aquele espaço.

O homem era um homem do campo, ainda trazia as botas enlameadas que tratou de fazer bater no chão em calçada lá fora mas a lama não saiu toda e o homem foi por ali fora e falou com o empregado de mesa e disse-lhe que queria falar com o doutor, que era médico, porque a sua mulher estava muito mal e ela precisava do médico.

Ele era gordo, o médico, bem gordo e acho que ele estava a jogar às cartas com os amigos e depois de um bom bocado acabou por se levantar e vir ter com o homem que tinha as botas sujas e o chapéu na mão.

A mulher estava muito mal, dizia ele, doía-lhe muito a barriga e o corpo todo e ele precisava que o senhor doutor a fosse ver, receitar-lhe qualquer coisa ou trazê-la para o hospital e o médico disse-lhe: eu conheço-te, tu moras lá no cerro e eu não vou lá, os caminhos não prestam e a última vez que lá fui, para aqueles lados, amolguei o carro todo, à frente e nos lados, gastei uma remessa de dinheiro para o arranjar, não vou lá não, tens de trazer a mulher aqui.

Mas ela não pode doutor, disse o homem do chapéu na mão, ela nem se consegue mexer e vir com ela, na mula, eu não consigo nem ela consegue cá chegar e o médico disse outra vez que não estava para estragar o carro e que o mais certo era ser alguma coisa que ela tivesse comido que lhe tivesse feito mal e ela que se deitasse e tomasse chá, que dormisse e se amanhã ela não estivesse melhor então ele que trouxesse duas mulas que ele ia numa delas mas que o carro não levava até àqueles caminhos e isso nem pensar.

Mas o homem das botas sujas não arredou pé, continuou a pedir ao médico que fosse e disse-lhe que só tinha uma mula mas o médico que fosse nela que ele ia a pé. Depois acrescentou baixinho que ela, a sua mulher, deitava sangue da barriga e que o sangue era muito e que ele tinha de ir vê-la, pelo amor de Deus, acrescentou o homem das botas sujas e do chapéu na mão.

Já sei o que se passa, meu grande burro, disse-lhe o médico em voz alta e todos ouviram os amigos dele que estavam a jogar cartas e as outras pessoas que estavam sentadas às mesas da parte fina do café e também as que estavam da outra parte do café.

E disse ainda o médico gordo, que sabia bem que ela se tinha metido com a velha Ermelinda para fazer um desmancho e que ela tinha dado cabo de tudo e que ele não ia estragar o carro por causa da burrice deles, que a velha Ermelinda merecia ser presa e eles também porque isso não se faz, os desmanchos, e ainda menos por quem não percebe nada do assunto como era o caso da velha Ermelinda.

E eu que não conhecia a velha Ermelinda nem sabia o que se passava, não sabia que àquela coisa se chamava um desmancho, pensei que ele, o médico, ia receitar qualquer coisa para o homem ir comprar à farmácia mas ele disse que tinha de ir lá mas que não ia estragar o carro, ia na mula e dizia que ela tinha de andar depressa senão não havia nada a fazer e a mulher dele morria e foi quando o homem do campo começou a chorar e a pedir ainda mais vezes que o senhor doutor fosse lá por amor de Deus e chorava muito o homem.

Anda daí meu grande burro, disse então o médico, um homem não chora, era só o que me faltava estar agora a aturar as tuas lágrimas e depois disse-lhe ainda que ele deixasse a mula guardada por ali e que iam os dois no carro dele e que ele ia estragar o carro todo, ia ficar com o carro cheio de amolgadelas e que as suspensões iam ficar uma merda e que ele era um burro por deixar a mulher meter-se naqueles trabalhos, e que mesmo que ele já tivesse cinco filhos isso não era razão nenhuma porque panela onde comem cinco comem seis e foram andando depois dele dizer um já volto para os amigos que jogavam cartas.

O médico só voltou muitas horas depois, já eu tinha jantado e tinha voltado ao café para ver se sabia alguma coisa quando ele entrou queixando-se de que tinha estragado o carro todo, que ia ter de gastar uma pipa de massa para o por em condições e os amigos foram ver o carro e eu e os outros fomos todos ver o carro que estava coberto de lama até às portas e tinha amolgadelas à frente e de lado e ele então carregou no tejadilho para que ouvissem as suspensões que rangiam como tudo e disse estão a ver a merda de profissão que eu arranjei e ninguém quis saber da mulher que ele tinha ido tratar e eu fiquei a pensar se ela teria morrido ou não, e só soube no outro dia, que ela não morreu quando o homem veio buscar a mula que tinha ficado abrigada num telheiro ao pé do café e ele disse para quem estava por ali que o senhor doutor às vezes é de mau trato mas que é muito bom homem, muito boa pessoa.





segunda-feira, 7 de setembro de 2015

Conto baixinho - Daniel Teixeira


Conto baixinho

Eu já estou emigrado há longo tempo e embora não esteja muito longe do meu local de nascimento, do meu país, da minha pátria, nunca mais aqui pus os pés.

Não interpretem isto como sendo uma forma de desapego injurioso para com as minhas raízes, ou como uma manifestação de peneirice motivada por alguma ideia de superioridade entre a minha vida presente e o meu passado porque na verdade lá onde vivo as coisas não me correm bem, passo mesmo alguma fome sobretudo no refeitório da fábrica onde trabalho que desde há anos aderiu à ementa quase gourmet e aos fins de mês é um verdadeiro suplício pagar as poucas contas que tenho.

Durmo perto de uma linha de comboios que trabalha 24 horas por dia praticamente fazendo passar um comboio por minuto e no emprego, para além da escassez dos alimentos de que já falei sou tratado como um cão, ou talvez a imagem não esteja certa porque os cães em princípio não têm de fazer centenas de peças por dia e algumas delas são autênticas ofensas para o que resta do meu ego memorial pessoal.

No meu dia a dia estou simplesmente farto de fazer tampas de campainhas para bicicletas, puxadores para caixões e juntar com solda as duas metades das garrafas de camping gás, eu que até não sou adepto do campismo, eu que tinha em bom recato a imagem das duas rodas pedaladas na infância, eu que vejo em cada par de puxadores a imagem fúnebre de um pobre diabo estendido num isolado e frio recanto de uma igreja.

Chego a colocar problemas filosóficos sobre o triste destino do proletário que eu sou, alienado do resto do produto do meu trabalho, sem saber quem vai tocar alguma daquelas campainhas que eu comecei, quem vai ter uma garrafa de gás «das minhas» ou mesmo quem vai ser o usuário daqueles puxadores que a terra não irá seguramente comer desde logo, mas que comerá devagar durante anos de ferrugimento.

É triste mas é assim e antes que me perca mais em divagações deixem-me tentar explicar porque não me apeteceu voltar aqui ao meu país até agora. A explicação é fácil e não foge aos clichés habituais que se foram cimentando sobre o ser do emigrante.

Uma coisa é viver mal no estrangeiro, o que o comum dos nossos mortais conterrâneos gregarizados na ignorância dos mundos lá fora considera ser impossível e outra coisa bem diferente é viver mal no nosso próprio país, onde se passa uma imagem inversa.

É absolutamente possível para a minha classificação social, aliás, diria que é a possibilidade única, viver-se mal no nosso país e nem sequer ter a veleidade de fazer passar a imagem de uma réstia de felicidade mesmo quando se vai ver um bom filme ou se sai de uma jantarada contadinha ao tostão. Ser triste, ser pobre, macambúzio, lamechas, choramingas, é a regra nacionalizada que não admite excepção.

Lá fora, onde estou, é diferente e para mim, nem sequer é possível ter a pretensão absurda de pensar que vivo descansadamente mal porque os outros cá não o sabem. Os nossos antecessores, neste êxodo migratório secular, levaram, todos eles, a realidade escondida nos bolsos e dela não abrem mão pública. Mas eles sabem tudo, sabem tudo e não fica nada que eles não saibam.

Na verdade, e aprofundando as coisas, a grande valorização de estar longe do seu país é porque a miséria no estrangeiro é sempre melhor tolerada que a miséria no nosso país. Não é uma questão de grau, viver mal é igual em todo o mundo e não tem escalas, mas a sensação é diferente.

A miséria do cosmopolita pode até ser chique, tem um status, vale psicologicamente mais embora o aperto da fome nos estômagos seja igual em qualquer canto do mundo. Mas é assim...e basta ler os jornais para saber que é mesmo assim: um sem abrigo em Nova York tem infinitamente mais classe que um sem abrigo em Lisboa.

Pois bem: amealhei durante cinco anos para fazer uma deslocação a Portugal, à minha terra, ver os amigos que ainda restam, e sobretudo ver se ainda restava algum, enfim, foi uma decisão longamente ponderada: cinco anos é assim um tempo normal para se considerar longo, acho eu e em estado de ponderação pode considerar-se quase uma tibetana eternidade.

Assim que desembarquei do autocarro calhou-me logo ver ao balcão da bilheteira uma antiga namorada minha, velha como tudo, de papos horríveis nos olhos e umas mamas transbordando em suporte incompleto no tampo anterior do balcão.

Ela fez o favor de nem me reconhecer, o que é foi bom porque não sabia mesmo o que lhe dizer se entrássemos em conversa. Quase tínhamos estado no altar da Igreja não fora o facto de ter sido um falso alarme a sua possível gravidez, o que levou a um adiamento sine die que ela não levou muito a gosto na altura e de certa forma acho que foi melhor para ela assim. Se ela soubesse o que eu sei hoje sobre a minha vida reconheceria rapidamente o favor que eu lhe fiz.

Mas erro meu, aqui, neste fugaz encontro com a minha antiga namorada: na verdade ela apenas fez que não me reconheceu mas topou-me e bem. Eu estava mais magro, foi o que me disse quando saiu de trás do guichet e aqui as mamas dela pareceram-me mais proporcionadas e até os papos nos olhos pareciam ter diminuído.

Se eu não fosse um gajo frio, calmo, ponderado, racional ao extremo teria pensado que havia ainda um pouco do fogo da nossa paixão e parece-me que sim. Na verdade, as coisas são como são: ela disse-me que tinha esperado sempre por mim, que eu tinha sido o único homem da vida dela e mais coisas que me enterneceram o coração.

Teria ficado por cá, demo-nos muito bem durante os dias que cá estive, acabei por não encontrar ninguém verdadeiramente conhecido e aquelas pessoas que o tinham sido, conhecidas, homens e mulheres já não eram os mesmos pelo que nada me prendia senão o decrescer vertiginoso da amplitude das mamas da Joana, o aligeirar dos papos nos olhos e mais umas coisas que relevam do domínio do íntimo e pessoal.

Mas pesei tudo, ponderei cerca de trinta dias e cheguei à conclusão que era impossível viver nesta miséria portuguesa (não levem a mal), um país onde não havia campainhas de bicicleta, garrafas de camping gás e puxadores de caixões para fazer. Nada, não havia nada: nem sequer comboios de minuto a minuto. Uma autêntica miséria....
Daniel Teixeira






sábado, 25 de julho de 2015

Sobre o cultivo da palavra - Texto de Daniel Teixeira


Sobre o cultivo da palavra

Texto de Daniel Teixeira


Este é um dos textos mais monótonos que alguma vez escrevi e para quem se questione como sei eu que este é um dos textos mais monótonos que alguma vez escrevi devo responder que sei isso porque o meditei todo, mais palavra menos palavra, há poucos minutos enquanto tomava o pequeno almoço: algumas bolachas e café com leite, para alimentar a saciedade dos mais curiosos.

Poderemos sempre perguntar-nos porque é que eu tomo um pequeno almoço que segundo os parâmetros, mesmo os continentais, é um pequeno almoço frugal, até excessivamente frugal segundo me dizem e que para estar a tomar um pequeno almoço destes, também segundo me dizem, mais valia estar sossegado e passar directamente à refeição seguinte.

Pois bem - e esta parte já não faz parte do meditado antes e que virá a seguir - eu sempre fui uma pessoa de pouca comida de manhã, aliás de manhã é quase tudo aos poucochinhos para mim, e tudo se assemelha ao bochecho do lavar dos dentes, ao fraco dispêndio calórico com que faço tudo até à hora da bica. O esforço que consumo está numa proporção directa com o volume do frugal ou mesmo miserável pequeno almoço que tomo.

É a partir da bica que a minha acelerada vida, um pouco mais acelerada vida - não exageremos - começa. Aqui caberia bem uma anedota sobre alentejanos mas não posso perder de vista o objectivo deste texto já reflectido sob risco de esgotar o espaço para introdução de texto que a moderna forma de leitura me permite. Nem pouco nem muito, porque o pessoal não está muito virado para leituras de testamentos nem de Lusíadas de assentada.

Pois bem, mas antes de ir ao reflectido tenho de descrever de uma forma mais clara o que é a minha vida de manhã e isto porque não quero que os meus queridos leitores achem que eu faço tudo em pequenino: salvo os bochechos do lavar dos dentes, limitados pelo espaço entre dentes e pelo normalmente pequeno volume do interior de uma boca normal, o resto é abundante, tal como a água do duche ou mesmo o sabão para a barba, mas lento, lento, numa exploração exaustiva da minha condição de sulista. Chego a levar uma hora a despachar-me e nunca tive grandes problemas com isso.

Levanto-me cedo precisamente por causa disso: prefiro dormir menos e continuar a explorar este ritmo matinal do que levantar-me mais tarde e trocar as voltas às rotinas, porque de rotinas se trata. Em rigor não tenho de pensar absolutamente nada antes da bica. Tudo é mecânico, espontâneo e mesmo quando a tampa da pasta de dentes calha a cair dentro da bacia é igualmente mecânico o gesto que me leva a apanhá-la e a colocá-la no circuito certo e donde nunca deveria ter saído.

O que mais me chateia, para além do facto de alguém se atrever a apressar-me, coisa que acontece uma vez na vida por razões que têm de ser devidamente fundamentadas, o que mais me chateia, dizia, é tocar o telefone. Não porque eu não goste de falar ao telefone (ah! se aquele telefone falasse...sozinho!) mas porque o som é sempre irritante mesmo que eu o tenha adocicado com um género de princípio de uma sinfonia de Beethoven, ou Schubert, não interessa para o caso...ou será de outro gajo qualquer?

Bem, verdadeiramente não interessa, embora agora fique a magicar sobre isso. Quem será o sacana?! Strauss? O Piotr Ilich Tchaikovski? O Wolfgang Amadeus Mozart? Tenho de ver se me lembro de descobrir isso da próxima vez que o telefone tocar, desde que não seja enquanto eu estou nas minhas rotinas matinais porque aí o gajo que toca na campainha (falo do telefone fixo, esclareço) é um filho da p. e o gajo ou a gaja que me telefona inicialmente é também isso embora eu possa mudar de opinião depois de ouvir as primeiras palavras.

Para o efeito tenho um conjunto de telefones em casa que ocupam toda a casa mas não me arrisco a meter um na casa de banho: não é por nada mas acho exagerado. Todas as coisas têm o seu limite e este é um daqueles que eu estabeleci a mim mesmo: nem televisão, nem rádio, nem telefone na casa de banho. Na casa de banho apenas o necessário para cumprir as funções da dita embora haja por lá tralha a dar com um pau, felizmente arrumada em prateleiras, mesa, gavetas e etc.

Mas voltando ao que interessa, que é o cultivo da palavra: já não tenho assim grande espaço para escrever sobre o cultivo da palavra, o que é pena, mas posso deixar um resumo: o cultivo da palavra versaria - se eu não tivesse perdido o meu tempo e o espaço de escrita - sobre a subjectividade e a sucessão de impressões subjectivas que criamos sobre a palavra, tendo por base a poesia de António Ramos Rosa, mas podia ser de outro qualquer, porque a tese a defender era uma tese a la Palisse e suportava qualquer poeta mesmo pouco famoso.

É pena não poder desenvolver mais o tema mas a culpa não é minha: está estudado que as pessoas não lêem mais do que x palavras num texto e mesmo que isso me seja indiferente, que é, de facto, não quero fugir a essa regra. Provavelmente escreverei sobre o cultivo da palavra noutra altura porque a reflexão, agora que me despeço, até tinha o seu interesse e a sua piada.

É pena não haver mais espaço..




quinta-feira, 2 de julho de 2015

Um caso esquisito? - História de humor de Daniel Teixeira


Um caso esquisito?

História de humor de Daniel Teixeira


Ontem quando me deitei já era tarde. É claro que tudo depende da ideia do ser cedo ou ser tarde mas essencialmente o que me interessa fazer reparar aqui é que era tarde, na minha perspectiva, de acordo com o meu pensamento ou de acordo com os meus parâmetros.

Ora, aqui uma outra questão se pode levantar que é de se saber se os meus parâmetros sobre o ser cedo ou sobre o ser tarde são os parâmetros correctos ou normais. Isso não seria relevante se não dependesse da verdade desta análise a continuidade da estória que quero contar, porque na verdade, e em boa verdade vos digo, se eu me tiver deitado realmente tarde não será de estranhar o desenvolvimento que a estória que pretendo contar tem, mas inversamente, se eu me tiver deitado cedo, ou pelo menos não muito tarde, seria de esperar que a estória tivesse um outro desenvolvimento colocando-se assim um verdadeiro busílis narrativo que fará colocar-se o problema do limiar destrinçante entre o real e o irreal.

Eu explico melhor: se me deitei tarde, e se for aceite essa ideia de eu me ter deitado tarde é absolutamente normal que aquilo que se passou comigo tenha sido um sonho e logo que a estória nada tenha de paranóico, isto é sendo eu radical, ou de menos normal, sem radicalismos, porque nos sonhos, como se sabe, vale tudo e mais alguma coisa.

Mas, se eu me deitei cedo então terei de reconhecer que a possibilidade de se ter tratado de um sonho, não sendo de todo remota contudo, é reduzida, e aquilo que é o objecto desta estória é realmente algo de anormal, de menos comum, um pouco doentio mesmo ou então, estranho e para não entrarmos nestes campos esquisitos do se ser são ou se ser "maluquinho".

Até porque esta coisa da normalidade, minha ou da estória, tem muito a ver com aquilo que é corrente e é esse corrente que é o parâmetro aferidor: estamos próximos, ou em posição credivelmente aceitável daquilo que é corrente e aquilo que fazemos ou contamos é normal, ou estamos afastados daquilo que é corrente e aquilo que fazemos ou aquilo que contamos é anormal, paranóico (em extremo) ou só maluquinho numa versão mais tolerante.

Pois bem, o que quero contar é o seguinte: estava eu deitado, dormindo ou não dormindo isso é questão pendente, sonhando ou não sonhando igualmente questão pendente, neste caso de duas condicionantes (estar a dormir e estar a sonhar) quando me tocaram à campainha da porta.

Não costumo receber visitas tardias pelo que pensei desde logo estar a sonhar e voltei-me para o outro lado, coloquei meticulosamente a almofada sobre a cabeça, calquei-a com aquele solene e simultaneamente carinhoso gesto da praxe (todos sabem como é, uma almofada não é só uma almofada, é também um pouco de nós) mas, a campainha continuava a tocar depois de um ligeiro intervalo que eu calculo ter sido de poucos segundos mas que pode ter sido de mais tempo se eu me tiver deixado dormir e tiver perdido a noção do tempo.

Levantei a cabeça da almofada de baixo deixando cair a de cima que antes tinha afagado (nunca compreendi muito bem porque é que as pessoas levantam a cabeça para ouvir melhor mas enfim, agora não interessa), coloquei os dois ouvidos em escuta plena bandeando a cabeça não fosse haver traição timpanal de um deles e, de facto, estavam a tocar-me à campainha, só podia ser isso uma vez que a hipótese da campainha tocar sozinha era de afastar.

Levantei-me, gritei um já vai porque aquele ruído da campainha é irritante mesmo de dia e ainda mais de noite, espreitei pelo ralo e surpresa: uma cara sorridente aparecia no buraquinho, de cabelo amarelamente louro e tez bronzeada.

"Caramba!"- disse para mim mesmo: eu não encomendei nenhuma pizza e se tivesse encomendado estas não são horas para entregar pizzas e para além disso os entregadores de pizza são normalmente homens, ou pelo menos são pessoas do sexo masculino e por princípio trazem uma embalagem de plástico ou de cartão à frente e a moça a única coisa que trazia à frente era um volumoso par de seios (são sempre aos pares) repuxados para cima e prontos a saltar, isto já visto e analisado depois de eu ter entreaberto a porta.

"Olá!"-disse-me ela. "Olá!"- disse-lhe eu e ali ficámos nos olás cerca de vinte segundos mais coisa menos coisa não tinha o relógio à mão. Depois tudo se passou como num sonho: ela entreabriu a racha da saia (que por acaso até era gira, a saia) mostrou-me uma nesga de abundante joelho com entrada de coxa, penetrou uns centímetros dentro do hall e jogou-se a mim (eu estava paralisado, como será de entender) e sem mais nem menos deu com o sapato esquerdo na porta fazendo-a fechar-se quase sem estrondo.

Caramba! Caramba! Era a única coisa que me vinha à mente.
"Surpresa!" dizia ela.
Bolas pensei que tivesses levado a chave...disse depois de refeito.
E trouxe, meu tontinho...disse-me ela mostrando o molho de chaves. Mas tu, como sempre esqueceste-te de tirar a tua chave da fechadura...meu tontinho.
Acabei por ter de lhe ir dando razão até que mergulhei na cama e me deixei de facto dormir.
Ou não?!




 

sexta-feira, 19 de junho de 2015

Joaquim de Fiore e August Comte


Joaquim de Fiore e August Comte

 Por: Daniel Teixeira

August Comte, foi um filósofo francês, e tendo em conta que a sua filosofia teve grande propagação e se transformou quase numa religião na América do Sul, este trabalho destina-se a oferecer mais uma possibilidade de se verificarem alguns pontos de convergência entre diversas concepções do mundo e do ser humano existentes entre a ontologia de Comte e a sua visão culta do acontecimento histórico, e, neste caso, as ideias do abade Joaquim de Fiore (c.1135-1202) e o seu pensamento messianista que se acredita ter sido o principal fundamentador da teoria sebastianista portuguesa.

A apresentação do messianismo, como manifestação de uma esperança em algo que resulta não do nosso esforço mas de algo que tem de acontecer, é feita simultaneamente e intercaladamente com a Teoria dos Três Estados de August Comte, cujos pontos de convergência com Fiore achamos importante realçar neste trabalho.

Não nos debruçamos sobre o Sebastianismo em si, que é uma sub - divisão localizada do messianismo mas deixamos algumas pistas para outros trabalhos sobre esta questão messiânica que desenvolveremos noutras oportunidades.

Joaquim de Fiore foi abade de um convento cisterciense na Calábria. Dividia a história em três fases sucessivas, ou, para falarmos na terminologia do autor, em três estados (status): o do Pai, o do Filho e o do Espírito Santo.

Para Fiore o estado do Pai iniciou-se com Adão, começou a frutificar em Abraão e terminou em Zacarias, o pai de S. João Batista. Caracteriza-se pela imposição rigorosa de mandamentos exteriores, à qual corresponde, da parte dos homens, o temor.

Em Comte, o seu Primeiro Estado, ou Estado Teológico é descrito assim: No estado teológico, o espírito humano, dirigindo essencialmente as suas investigações para a natureza intima dos seres, para as causas primeiras e finais de todos os efeitos que o afectam, numa palavra, para os conhecimentos absolutos, imagina os fenómenos como um produto da acção directa e contínua de agentes sobrenaturais mais ou menos numerosos, cuja intervenção arbitrária explica todas as anomalias aparentes do universo.

Para Joaquim de Fiore o estado do filho iniciou-se com Osias, rei de Judá (Sec.VII A.C.), começou a frutificar com Jesus e deverá terminar (deverá ter terminado) por volta de 1260. Caracteriza-se pela humildade do verbo encarnado, à qual corresponde, da parte dos homens, a obediência confiante a leis ainda não completamente interiorizadas.

Ou seja, o homem entrega-se ao seu «destino» e segue confiante as leis da natureza (e as suas) que não compreende mas atribui-lhes um valor ontológico e de verdade ou certeza.

Para Comte, o seu segundo (cronologicamente) Estado é o Estado metafísico: No estado metafísico, que, no fundo, não é mais do que uma simples modificação geral do primeiro, os agentes naturais são substituídos por forças abstractas, verdadeiras entidades (isto é, abstracções personificadas) inerentes aos diversos seres do mundo, e concebidos como capazes de engendrar por eles mesmos todos os fenómenos observados, cuja explicação consiste, então, em atribuir a cada um a entidade correspondente.

Para Fiore o seu Terceiro Estado é o estado do Espírito Santo: iniciou-se em S. Bento, começará a frutificar (terá começado a frutificar) por volta de 1260, e deverá terminar com a consumação dos séculos.

Caracteriza-se pelo amor e pela liberdade espiritual e as leis já não são impostas nem propostas, mas livremente aceites, amadas e vividas. Ou seja, e por outras palavras o homem interioriza as leis, assume-as como necessárias, mas como se depreende pelo termo «aceites» não as faz.

Em Comte o seu Terceiro Estado é o Estado positivo: No estado positivo, o espírito humano, reconhecendo a impossibilidade de obter noções absolutas, renuncia a procurar a origem e o destino do universo e a conhecer as causas íntimas dos fenómenos, para se consagrar unicamente á descoberta, pelo uso bem combinado do raciocínio e da observação, das suas leis efectivas, i.é., das suas relações invariáveis de sucessão e de semelhança.

A explicação dos factos, reduzida então aos seus limites reais, nada mais é, doravante, que a ligação estabelecida entre os diversos fenómenos particulares e alguns factos gerais cujo número tende, cada vez mais, a ser reduzido.

Ou seja, a descoberta, processando-se no campo fenoménico, naquilo que se reveste de realidade pela acção ou pelo acontecer, agrupa-se em leis gerais que se vão restringindo no número porque a «descoberta» se orienta, também (ou talvez só) para a simplificação do conhecer, liberto ainda à priori da necessidade de conhecer os princípios primeiros e no campo fenoménico liberto do conhecimento das causas que estão por detrás de cada fenómeno ou de vários fenómenos.

Tudo estaria bem se a amplitude do homem se não demonstrasse pelo abdicar de conhecer, o que em rigor levaria ao cultivo do desconhecer.

Como se vê (em Joaquim de Fiore) não se trata de uma sucessão de três estados rigorosamente demarcados, mas de três estados parcialmente coincidentes. O desenvolvimento da história é, em última análise, a obra de um único Deus Trino.

Fiore, exegeta, e de alguma forma cabalista, estabelece datações destinadas a encontrar coincidências ou estados anteriores e superiores em correlação, num sistema de plataformas numeradas.

Por sua vez os números de Fiore existem desde sempre (e serão para sempre) e fazem parte de uma organização da qual são meros elementos apontadores mas ao mesmo fazem parte da essência dos eventos. Quase que se pode dizer que sem eles não haverá evento dado que ao estabelecerem a datação a enquadram materialmente.

(...) Cada um destes três estados compõe-se de sete idades, analogamente aos seis dias da Criação seguidos do sábado, e aos sete dígitos sucessivamente abertos pelo Cordeiro do Apocalipse. A estrutura interna de cada uma das sete idades apresenta uma grande semelhança com a idade que lhe corresponde no estado anterior ou posterior. A cada personagem e a cada facto ocorrente no estado do Pai correspondem, nos dois estados seguintes, outra personagem e outro facto que representam o mesmo tipo.

A história repete-se, dentro de certo esquema cronológico, cada vez num plano superior. A repetição não é idêntica, como o imaginavam alguns pensadores da antiguidade, mas tipológica.

A figura de São Bento (480-547) não é idêntica á do Profeta Elias, (Sec. IX A.C.) mas a obra do abade de Monte Cassino (S. Bento) repete, num plano superior, a do ermitão do Monte Carmelo (Elias). Investigar essas analogias ou «concórdias» é, para Joaquim de Fiore, a grande incumbência do exegeta. Quem, munido desta chave, conseguir entrar na tipologia da Escritura Sagrada será também capaz de entender o profundo significado da história moderna.

Por outras palavras e através de um sistema previamente construído, ainda que não de todo conhecido (faltará a chave) o homem constata as coincidências temporais, resume estas e tem consciência que o «segredo» do conhecimento está numa hipotética chave ou combinação metodológica que doará o conhecimento da história moderna, entendida aqui como sendo o conhecimento absoluto de tudo o que irá acontecer, precisamente porque essa metodologia (chave) sendo a mesma que orientou o passado será a mesma que orientará o futuro, consciência que se tenha que o sistema funciona em plataformas que se repetem.

Breve, num e noutro caso, nos seus últimos estados, põe-se por exclusivo o problema do conhecimento e nunca o problema da acção (praxis) e a vida do homem, como ser componente da história.

Os dois Estados anteriores referem-se, de uma forma geral, à atitude do homem perante a natureza, a sua forma de compreensão dela e dos Deuses ou Deus que lhes está subjacente: no primeiro Estado desconhecido ou incompreendido, no segundo Estado personificado ou unificado numa ou em várias entidades e no terceiro Estado, predestinado em Fiore e resultante de uma impossibilidade de conhecimento constatada em Comte.

Enquanto que em Fiore o segredo do futuro pode ser conhecido (mas não transformado) em Comte o futuro pode apenas ser conhecido no campo restrito do acontecer, o que de alguma forma vem dar ao mesmo uma vez que um e outro sistemas não actuam sobre esse mesmo futuro.

Em qualquer um deles predomina pois o destino, o facto consumado desde o princípio dos tempos, e a margem de liberdade do ser humano restringe-se ao exercício de especulações inseridas em campos pré-delimitados (num caso por força das coisas e noutro caso por força de uma constatação dessa mesma força das coisas).

A acção humana, que pode existir dentro de um campo delimitado é de alguma forma serva dessa mesma condição.

Daniel Teixeira 





domingo, 14 de junho de 2015

Chama devoradora - John Steinbeck - Resenha crítica de Daniel Teixeira


Chama devoradora

John Steinbeck

Resenha crítica de Daniel Teixeira

Com este título, Chama devoradora, aparentemente da autoria da tradutora da Livros do Brasil - Lisboa, Virgínia Motta, em data incerta dos anos 60's, baseado no volume de Steinbeck de 1950 «Burning Bright», relemos recentemente mais uma obra deste nobelizado (1963) autor.

O título em português não é dos mais felizes, na nossa opinião, havendo algumas alternativas possíveis que correspondessem melhor quer a um sentimento literário menos catastrófico quer à própria temática do livro, mas por ora fique-mo-nos por aqui.

Na verdade há todo um conjunto de especificidades neste volume que é preciso desde logo referir, na medida em que se não trata directamente de romance (embora o seja no seu conjunto) mas sim de um conjunto de novelas entrelaçadas que se constituem num trama romanceado.

Mas ninguém melhor que o autor para nos explicar porque escreveu desta forma e não de uma outra:

«Decidi-me por este tipo literário por várias e diferentes razões. A leitura de peças teatrais parece-me difícil e o mesmo pensa muita gente. As peças que se dão à estampa são lidas exclusivamente pelas pessoas que se encontram ligadas ao teatro, pelos estudante ou estudiosos da arte dramática e por um grupo relativamente reduzido de leitores a quem o teatro fascina.

Daí a primeira razão da forma literária que adoptei: o desejo de produzir uma peça capaz de atrair um número substancial de leitores, uma vez que o livro é apresentado como um romance vulgar, ou seja, dentro de um género mais familiar ao grande público» (...)»

Quanto à segunda razão apresentada pelo escritor no seu prefácio iremos resumi-la desta forma: trata-se de fornecer de forma mais acessível um conjunto de informação ao actor, ao director, ao produtor e ainda ao leitor, em diversos aspectos, alargando o leque informativo sobre as personagens, coisa que uma peça de teatro escrita ou declamada não faz desde logo, no entender do autor, permitindo por isso uma liberdade interpretativa ao encenador, aos actores e ao público que pode não corresponder àquela intensidade ou forma que inicialmente era pretendida pelo autor.

Steinbeck divide esta peça novela em quatro actos, cada um deles passado em cenários diferentes, com as mesmas personagens base e um argumento que se entrelaça nos momentos relevantes de cada um dos anteriores.

Assim, o primeiro acto passa-se num circo, o segundo acto numa quinta, o terceiro que se prolonga pelo quarto acto entre o mar (um barco atracado num porto) e um nascimento.

Quem conhece Steinbeck sabe que este autor deu uma importância relevante à relação de família e ao relacionamento familiar e tanto neste romance como noutros a transmissão de sangue ou da continuidade afectiva e memorial está de alguma forma sempre presente: lembramo-nos de «A um Deus desconhecido» por exemplo (que curiosamente teve pouco sucesso quando da sua publicação primeira em 1933) ou mesmo «Ratos e Homens» que é considerada a sua obra prima ou ainda «As vinhas da Ira» (1939) entre outros.

Neste romance/peça de teatro o tema basilar trata de um indivíduo que tem um verdadeiro problema sobre a necessidade de deixar descendência, o que se torna de alguma forma obsessivo. Compreender Steinbeck e o tempo em que escreve é também ter a tentação de referir o chavão que se acopla normalmente ainda hoje ao povo americano em geral que é a busca de uma identidade comum americana (USA).

Nascido este país (conjunto de estados) de um caldo (nem, sempre ou poucas vezes misturado) de nacionalidades e culturas é bastante comum encontrarem-se ainda hoje as referências identitárias originais (irlandês, italiano, judeu, latino, polaco, etc.) dos emigrantes que inicialmente povoaram a América, mantendo-se algumas comunidades com muito poucas variantes inter - culturais e relativamente pequena fusão social e familiar efectiva.

Contudo este problema relatado por Steinbeck pode inicialmente ser encarado no plano exclusivamente pessoal. Joe Saul é casado em segundas núpcias com Mordeen dado o falecimento da sua primeira esposa, tem um amigo denominado no romance de Amigo Ed, e um jovem auxiliar de nome Vítor.

Independentemente do cenário desenvolvido por Steinbeck as posições hierárquicas dos personagens mantêm-se. No circo Vítor é companheiro de trapézio do mais experiente Joe Saul, na quinta é trabalhador sob as ordens de Joe Saul e no barco é o imediato de Joe Saul e no quarto acto, interligado com o terceiro, está ausente por razões que esclareceremos mais à frente.

Mordeen ama Joe Saul cuja ânsia por ter descendência se vê constantemente frustrada e o atormenta cada vez mais porque sem o saber Joe Saul é estéril. Sabendo da esterilidade dele e desejosa de fazer cumprir o desejo do companheiro, logo no primeiro acto, em conversa com Amigo Ed, sugere levemente a possibilidade de engravidar através de uma relação secreta com o jovem Vítor que a ama sem ser correspondido por Mordeen, relação essa que vem a acontecer.

No primeiro acto ficamos com a dúvida sobre se a infidelidade de Mordeen a Joe Saul terá uma componente exclusivamente altruísta, uma vez que Mordeen também deseja ser mãe, não de uma forma tão obsessiva, mas o resultado acabará por ser o mesmo na medida em que o seu relacionamento com Joe Saul melhorará de forma significativa no seu entender cumprido que seja este seu desejo de deixar o «seu sangue» perdurar.

Nos outros actos trata-se sobretudo da gravidez e da luta de Vítor perante Mordeen para que ela assuma que o futuro filho é dele e dela, situação esta que está presente nos três actos.

No último o Amigo Ed acaba por «resolver» a insistência de Vítor jogando-o ao mar e causando a sua morte, ficando desta forma o crime sem castigo, tentando assim poupar tanto Joe Saul como Mordeen.

A parte final trata do nascimento do bebé, já sabendo na altura, através de análises que fez, Joe Saul, que é estéril e que logo o filho que nasce da barriga de Mordeen não é seu.

Joe Saul acaba por aceitar a inevitabilidade, depois de uma luta de recusa consigo mesmo, e após o nascimento do bebé acaba a peça / romanceada com o seguinte trecho:

(...) «Mordeen, gosto da criança - a voz de Joe Saul ganhou volume e foi em tom vigoroso que reforçou a sua declaração - Mordeen, gosto do nosso filho - e erguendo a cabeça, exclamou triunfante - Mordeen, gosto do meu filho.»

Depois do que dissemos acima sobre as intenções de John Steinbeck quanto à forma do seu escrito parece-nos claro que, apesar de estar bem escrito e ter um enredo suspensivo constante entre actos, com os elementos dramáticos, desconhecimento da realidade dos factos da parte de Joe Saul e posterior conhecimento, insistência e incerteza quanto ao resultado da pressão do verdadeiro pai da criança, desfecho relativamente inesperado pela acção de Amigo Ed e a atitude final de Joe Saul que, dito tudo isto, como romance este vale mais como peça de teatro.

Na verdade pensamos que só na declamação e na actuação as personagens podem ganhar verdadeira força e intensidade dramática e que as coreografias poderão de facto ajudar bastante uma história que não sendo de todo banal, está quanto a nós longe de se constituir como sendo interessante por si só na sua forma escrita.

Daniel Teixeira



segunda-feira, 8 de junho de 2015

Luís Forjaz Trigueiros - Aquelas mãos - Por Daniel Teixeira


Luís Forjaz Trigueiros

Aquelas mãos

Por Daniel Teixeira

Conforme fizemos referência no número anterior existem no livro de contos «Ainda há Estrelas no Céu» de Luís Forjaz Trigueiros dois contos que mereceram uma maior atenção da crítica e dos tradutores fazendo desses dois contos aqueles que maior relevo merecem ainda que, e conforme dissemos igualmente quando da análise do conto «Boa noite, Pai!» existam neste pequeno volume algumas outras estórias que consideramos de igual interesse desenvolver, o que faremos noutras oportunidades. Este volume tem oito contos.

Embora e citando a contracapa do volume vejamos que na altura o autor foi referenciado como tendo afinidades narrativas com Maupassant e K. Mansfield e em termos de análise ou ambiência psicológica ele seja situado nesta introdução com Mauriac, certo nos parece ser que existe nele também influência do psicologismo russo e em análise mais detalhada talvez com Camus ou mesmo Gogol.

Na verdade as personagens deste autor são na sua larga parte elementos de uma pequena e média burguesia rotineira, que não vivem o seu tempo mas que antes o deixam passar por elas, desprovidas de objectivos substanciais, desligadas da alegria de viver, fazendo em certo sentido lembrar o Mersault de Camus no romance o Estrangeiro (não na Morte Feliz) ou mesmo a «Peste».

Por seu lado a falta de objectivos definidos na vida dos seus personagens principais fá-los viver num universo estreito: uma grande farra de aniversário é uma noite no Parque Mayer, por exemplo, a ver uma Revista... enfim, são personagens que se não encontram no tempo em que vivem (as notícias da guerra, neste conto que resumimos e procuramos analisar, de 1940, entram-lhe por um ouvido e saem-lhe pelo outro), é fundamentalmente uma desesperança de vida que neste conto encontra a sua alegria num facto sem importância que pode muito bem aceitar-se como a alegoria que é, mas que denuncia a pouca imaginação do personagem.

Bom narrador, Luís Forjaz Trigueiros, consegue uma narrativa inteligente e faz uma descrição tão detalhada quanto possível de um homem que pode considerar-se comum com ambições que vão um pouco além mas não passam do comum plano mental.

Farei algumas citações mais à frente mas noto antes que o autor procurou ele mesmo construir antecipadamente o ambiente que despoletaria o evento : na verdade por uma vez decide seguir um percurso diferente daquele que segue habitualmente de eléctrico e nele encontra duas mãos de uma jovem senhora que o cativam muito para além daquilo que seria normal.

Ora e retrocedendo um pouco na nossa análise não vemos porque razão ele não encontraria umas mãos que o cativassem numa das suas habituais viagens de casa para o emprego e deste para casa e porque as encontrou naquele dia e não num outro.

Claro que temos um alerta logo no início do conto onde ele repete para si mesmo aquilo que a sua mulher lhe diz ao que parece com alguma frequência : «Tu não me enganes! (...) Não arranjes outra.» o que pode funcionar nele como um desejo de ser tão normal quanto os outros seus colegas e amigos, mas não nos parece que o argumento tenha assim tanta força.

Na verdade «Aquelas mãos» apesar de poder considerar-se ser um conto bem escrito está fracamente alicerçado e menos alicerçado fica quando essa sua paixão por aquelas mãos em concreto se distribui na sua imaginação por várias mãos femininas. Contudo as mãos da sua mulher nunca são referidas nem positiva nem negativamente.

O problema maior que esta questão levanta é o seu convencimento de que comete infidelidade, convencimento esse que o leva a um alheamento familiar que depressa contagia os receios sempre infundados da mulher. Assim os condimentos da infidelidade conjugal reúnem-se entre os dois havendo da parte da sua mulher uma atitude de aceitação dos factos que não existem.

(...) « Foi nessa altura que comecei a olhar melhor para a rapariga que ia sentada mesmo defronte de mim. A falar a verdade, ela não tinha nada de extraordinário. Era bonita? Não me recordo bem. Creio, porém, que tinha uns olhos de tal maneira vagos que nem se cruzaram com os meus.Além disso, vestia sem espalhafato. Sem espalhafato e, com certeza, sem água de colónia absorvente da senhora do lado. Pintadinha, sim, mas com recato, sem exageros. Também não me lembro do vestido. Só me lembro - e isso muito bem - que tinha uma carteira castanha e que a segurava, com as mãos rosadas, sobre os joelhos. Mas eu olhei para as mãos da rapariga e não fui capaz de olhar para mais nada!»(...)

(...)«Até ao dia em que meti naquele eléctrico eu tinha uma cortina corrida entre mim e a vida. Tudo quanto eu via era visto apenas por detrás dessa cortina e, logo, correspondia a uma realidade incompleta.»(...)

(...)«Do meu lugar, (...) acompanhava fixamente com os olhos a vida das suas mãos. Já não eram indiferentes. Assim como eu tinha acordado para um mistério, elas tinham entrado também nesse mistério. E riam para mim, riam evidentemente, já sem conseguirem estar à vontade, perseguidas pela consciência de que estavam a falar comigo uma linguagem própria, que os meus olhos talvez não vissem, mas escutavam.»(...)

(...)«Desta maneira, à medida que fitava as mãos da minha companheira de eléctrico, sem quer desviar delas esse olhar, instintivamente me lembrava da minha mulher e quase a ouvia numa reprimenda discreta e apagada como todos os seus gestos: "Firmino, não olhes para ela..." Ouvia-a falar-me assim, mas continuava a olhar. Afinal, pela primeira vez, estava a ser infiel à Lucília, infiel com frieza, conscientemente.E não tive remorsos.»(...)

(...) « Mas assim que me levantei do meu lugar (...) chegara ao final do meu percurso (...) aquelas mãos recuperaram a sua tranquilidade, voltaram a cumprir o seu destino de existirem apenas. (...) As mãos daquela desconhecida, que eu não tornaria a ver, voltaram, de súbito, a ser silenciosas para mim.»(...)

O resto da estória já foi referida em grosso acima. Podemos sempre pensar e acreditar que se trata de ficção, claro que é, mas mesmo pela sua insignificância o episódio pretende descrever a eclosão de um sentimento até aí recalcado (e que continua recalcado) mas onde tudo funciona como a grande catarse desejada.

Chamamos no entanto a atenção para a imagem da cortina corrida (sobre uma vida) e o correr dessa cortina (sobre uma outra perspectiva de vida) e dizer, ironicamente, que cada um corre as cortinas que tem e as que pode ter.

Daniel Teixeira




segunda-feira, 1 de junho de 2015

Luiz Forjaz Trigueiros - Texto /Resenha de Daniel Teixeira - Boa noite Pai



Luiz Forjaz Trigueiros

Texto /Resenha de Daniel Teixeira

Boa noite Pai

Tenho-me dedicado nos tempos livres e nos tempos não livres a reler alguns autores que no meu tempo de escola e não só foram referências para mim importantes no desenvolvimento do meu gosto pela literatura.
 

Faço-as, estas releituras, por razões que vão muito além do mero saudosismo: na verdade, na actualidade tenho tido dificuldade em gostar da literatura que se produz actualmente, seja ela nacional ou estrangeira, ainda que pudesse facilmente apontar um número razoável de excepções.

O volume de contos «Ainda há estrelas no Céu» de Luiz Forjaz Trigueiros (1915-2000) é apenas um livro no percurso literário deste autor, cujos caminhos se estendem da ficção ao jornalismo, ao ensaio e à crítica literária e teatral.

Contém este pequeno volume os contos «Boa noite, Pai» (1942) e «Aquelas Mãos» (1940) que tiveram bastante acolhimento na altura da sua publicação e que foram traduzidos em várias línguas. Sobre este último, «Aquelas Mãos» faremos o seu resumo e notas numa outra publicação seguinte.

Há outros contos dentro deste pequeno volume que mereciam igualmente uma referência da minha parte neste pequeno texto ou noutros, mas talvez a eles revenha numa outra altura.

Por ora digamos que estes dois contos tratam quer da infidelidade numa perspectiva latente ou potencial não efectivamente consumada na sua forma mais conhecida, quer do ciúme, ainda que ambos vistos em perspectivas bastante diferentes.

Há várias formas de infidelidade e de ciúme sem que alguma delas possa ser considerada nas acepções correntes: neste conto que vou referir a seguir há uma forma de infidelidade, na medida em que se descrevem percursos lógicos diferentes da base esperada ou desejada e é dessa tensão entre a realidade e aquilo que se esperaria, segundo formas de pensar distintas, que pode existir a ideia de uma infidelidade também ela distinta.

No conto «Boa noite, Pai» trata-se de alguma forma de ciúme ainda que o fulcro do tema se situe no relacionamento entre um pai e uma filha: não se trata pois do ciúme amoroso naquele sentido mais corrente mas sim de um sentimento de afastamento progressivo de uma filha do seu pai, à medida que a mesma cresce, o que acaba por colocar uma segundo questão que será a de se saber se é a filha que cresce afastando-se do pai ou se é o pai que não acompanha a sua evolução e a evolução dos tempos.

Há neste problema que o autor desenvolve também uma forte componente de crise da sua meia idade que está presente e se acentua dado a evolução do seu relacionamento com a sua filha e do relacionamento desta com um período socialmente diferente cujo percurso ele tende a não conseguir psicologicamente acompanhar, preenchendo os espaços vazios da sua mente neste campo com as mais variadas e imaginadas suspeitas sobre o comportamento actual da filha.

O autor é bastante simpático com o desfecho do conto tudo acabando em bem, pelo menos no conto, com um «simples» Boa Noite, Pai.

Quando disse atrás que o autor tinha sido simpático na narrativa não esqueço é claro que os problemas entre ele e a evolução da sua filha única (e dele com a sociedade) não acabam, embora o «Boa noite pai!» sirva de alguma forma como paliativo.

Para o leitor que atentar no escrito notará seguramente que o conflito é apenas adiado porque o personagem mais não faz do que fazer reflexivamente regressar este «Boa noite, Pai» aos tempos passados, aos tempos em que a filha era para ele ainda uma criança, como veremos nestes estractos:

«Vê-a pequenina a chegar da escola primária ao meio-dia, para almoçar, laçarotes cor de rosa, almazinha cor de rosa, futuro cor de rosa.» (...) «Gabi era ainda Gabriela (o senhor Mota nunca se habituou a chamar-lhe Gabi, e talvez gostasse mais da outra filha, a de ontem, a do nome por extenso), ainda era Gabriela e ainda sorria.

Esteve oito dias entre a vida e a morte (...) durante longas noites de vigília os pais alternaram-se à cabeceira. (...) Aristides acompanhou a longa convalescença de Gabriela, e só se afastava quando a filha dizia meigamente "Boa noite, Pai" e adormecia com a mão dada com a sua, (...). A verdade é que nunca mais, nunca mais, a filha voltara a tratá-lo tão meigamente e com entoação tão doce.(...).

(...) Oito horas, oito e meia. A chuva abrandou, iluminaram-se mais candeeiros na velha rua deserta (...) Aristides Mota ouve na escada os passos apressados de Gabriela (...). Ouve-a atravessar o corredor, dirigir-se à salinha pequena onde, há duas horas, ansiosamente a espera. Gabriela vem de cabelo revolto, encharcada, a pintura desfeita, escorrendo-lhe ainda na cara a água da chuva.

Pára um momento mesmo à porta, surpreendida com o olhar do pai, que fica em silêncio, pois nem se atreve a dizer-lhe nada. Gabriela dá dois passos em frente, adivinha que qualquer coisa se transformou no pai, mas não pode compreender o quê. Então, enlaça-o instintivamente com mais ternura que de costume, e diz-lhe simplesmente, naturalmente: «Boa noite, pai!»

Acho que é um conto bem escrito, que consegue prender o leitor do princípio ao fim, sobretudo porque na sociedade em que vivemos actualmente e graças aos massacres constantes das ideias verdadeiras e falsas de modernidade, teremos seguramente margem para fazer as extrapolações ideadas que aqui o pai faz sobre a sua filha, o que me leva a uma outra questão, que é a de saber até que ponto este conto terá sido actual na altura em que foi escrito (1942), isto é, numa altura em que esse tipo de preocupações tinham talvez menos variáveis para explorar mas que a avaliar pelo escrito existiam já com a profundidade que alguns de nós por vezes lhes damos hoje.

Mas...retiremos um pouco mais a Luz Forjaz Trigueiros:

(...) Gabriela (...) «Disse-o simplesmente, naturalmente, mas Aristides Mota logo esquece ali mesmo quanto o preocupava e afligia. Responde-lhe sorrindo como numa bênção que nunca soube dar: «Boa noite, filha!», e fica-se muito surpreendido por ter encontrado naquele momento o eco duma voz diferente.

Ele próprio diz "Boa noite, filha" como o dizia sete anos atrás nas longas noites dessa outra angústia tão diferente da que experimentou agora.

Gabizinha vai arranjar-se para o jantar. O senhor Mota ergue-se a custo do maple, vai lá dentro por o casaco, endireitar o laço da gravata. Canta-lhe ao ouvido aquela voz inesperada :«Boa noite, pai», que lhe trouxe, afinal todo o doce sabor da antiga paz.

E senta-se à mesa, sem coragem para fazer qualquer pergunta, muito feliz e sorridente.»




sexta-feira, 22 de maio de 2015

Irene - Conto / Crónica de Daniel Teixeira


Irene

Conto / Crónica de Daniel Teixeira

A Irene não era bonita, nunca tinha sido bonita e nunca seria bonita,
pensava eu no tempo em que a conheci mais de perto, então era ela jovem, isto pelos idos dos anos oitenta.

Lamentava-a porque, reflectindo, depressa tinha de chegar à conclusão que há pessoas que nascem, crescem e morrem sem nunca serem bonitas e eu não sou grande adepto da ideia do destino como guia do passado, do presente e do futuro.

Não acredito nas condenações eternas, acho que as coisas e o mundo estão em constante movimento, enfim acho que aquilo que é pode deixar de ser e que aquilo que não é pode vir a ser.

No caso dos homens o problema de ser feio não parece ser tão grave
porque existe uma tradição implantada, penso eu. Corre por aí que as
mulheres não se importam muito com essas coisas, ou que conseguem
descobrir a beleza em traços quase imperceptíveis ao imparcial olhar
comum.

Enfim, não vou fazer, neste espaço que é uma história, uma dissertação sobre a influência do patriarcalismo nestas coisas mas parece-me claro que, numa lógica do homem mandante este terá sempre defeitos que são socialmente mais toleráveis em si do que nas inferiorizadas e comandadas mulheres.

Claro que nos anos oitenta havia já um esbatimento da ferocidade
patriarcal mas como sabe quem essa época viveu uma parte substancial das concepções de inovação nesse campo eram para uso crítico do comportamento dos outros e muito raramente para consumo próprio.

Mas tratava-se ainda, nesta altura que refiro, quando ela tinha cerca de
vinte anos mais ou menos, de ter de pensar num percurso de feiúra ainda a percorrer, por isso, e contra minha vontade, voltava à ideia de
destino e este parecia-me alicerçado nessa então recente certeza
científica que era a genética.

Qualquer mente, mesmo sem ser muito dotada para a imaginação sentia-se quase na obrigação de projectar para ela um percurso crescente de feiúra: era fatal, penso eu, que alguém não visse, desde a primeira vez que via a Irene que o que lhe restava a ela pela frente era ser precisamente igual à sua mãe, boa senhora, por sinal, conformada com a sua fatalidade.

Quando se olhava para a Irene via-se logo o realce em amplificação e
profundidade das rugas à volta dos olhos, via-se-lhe o crescimento dos
chamados papos, o encarquilhar lento mas irremediavelmente progressivo dos lábios - agora ainda relativamente carnudos - empurrados para dentro dela pela perca de alguns dentes (primeiro os sobressaídos da frente) e imaginava-se aligeirado o afundamento pela colocação de uma daquelas placas em prótese branquérrima, denunciando desde logo a sua artificialidade, tal como na sua mãe.

Via-se, imaginava-se, calculava-se também perfeitamente a possibilidade que deixava de ser cada vez menos remota à medida que nisso se pensava que a placa descolaria do céu da boca, tal como na sua mãe, quando ela se risse muito, coisa que fazia agora. E ria sem complexos a Irene.

Sabia-se desta mesma forma também que o queixo dela se afundaria cada vez mais, misturando-se com as rugas do pescoço (se engordasse talvez se misturasse com o papo) tal como a sua mãe.

Mas o que interessava era que por mais voltas que a sua fisionomia desse nunca ela ou outros veriam decrescer aquele nariz enorme, um autêntico triângulo bermudiano apontando para uma distância incalculada nos ares à sua frente, um apêndice desproporcionado, uma verdadeira intrusão de um corpo num espaço roubado, um geométrico lançado de arestas afiadas no perfil, uma agressiva e quase cortante intrusão no espaço vital de quem a visse de frente.

Pois...a Irene não tinha passado de beleza, não tinha presente de beleza e o futuro era ainda mais ameaçador para ela.

Mas, e há sempre um mas que merece ser metido em altura oportuna, consta que constava que a Irene confidenciava repetidamente às suas amigas, já nesta altura que descrevo, um segredo que era simultaneamente sentido como um chamamento: "Tenho de casar rapidamente!"- dizia - como que a constatar aquilo que eu tenho descrito atrás e acima. "Tenho de casar rapidamente, antes que a minha feiúra progrida ainda mais!"- era o que a Irene queria dizer, digo eu.

Possibilidade de fazer plásticas não havia: a Irene era apenas e só
economicamente remediada; tinham, ela e a mãe - o pai falecera
oportunamente - algumas rendas de pequenas propriedades, de casas
antigas, algum dinheirito a render, pouco, seguramente e trabalhar por
conta de outrem não era tradição na família nem sequer sei que
actividade poderia exercer a Irene porque nunca a essa ideia se dedicara e o tempo normal de começar estas coisas já ia passando.

Não sei exactamente como tudo se passou imediatamente antes, nem quais os preparativos que a Irene terá eventualmente feito e também não consta que tenha dado conta de alguns desses preparativos às amigas mais chegadas, mas o certo é que um dia a Irene desapareceu da cidade.

Falecida a sua mãe com quem convivera desde sempre, talvez não se
sentisse em condições de reviver a memória dela no mesmo espaço durante todo o seu tempo e partiu.

Foi o que eu e as suas amigas e amigos pensamos, embora todos achássemos estranho ela não dizer nada a ninguém. Soubemos entretanto que tinha vendido as casas e os terrenos que lhe ficaram. Não terá amealhado muito, era a voz corrente. E foi assim como que um corte radical, o acabar de um livro que se fecha e não se leva na bagagem aquilo que achámos que a Irene tinha feito.

Pois...todas as histórias têm um remate final senão não valeria a pena
contá-las e esta não foge à regra. Estava eu então em Lisboa num
intervalo de esplanada quando se aproximou de mim uma senhora. Eu já ia nos quarenta e a tal senhora por aí andaria, quando ouço um «Olá, estás bom!?».

Virei-me na direcção daquilo que me pareceu ser um chamamento a mim dirigido e deparo-me com a Irene, sem tirar nem por, quer dizer, com mais vinte anos como eu, mas igual a ela mesma. Dei-lhe os tradicionais dois arremedos de beijo na face, convidei-a a sentar-se e ela então foi-me contando aquilo que era feito nela.

Primeiro vieram as razões porque não tinha dito nada a ninguém quando se viera embora. Ainda recordo, passados mais alguns anos, as suas palavras: aquele ambiente era para mim sufocante - foi o que ela me disse - alegre sim, confessou, tinha ainda algumas saudades dos amigos e amigas, mas chegara à conclusão que precisava de se diluir numa multidão e na nossa pequena cidade sentia-se encurralada.

Embora nunca se tivesse apercebido de ser alvo de chacota, cada vez que entrava num café ou saía com as amigas e os amigos ou mesmo só sentia-se alvo de todos os olhares. Por vezes sentia a piedade, aquela sensação estranha de ser motivo de pena.

Aguentou tudo enquanto a mãe foi viva, não iria nunca abandonar a velhota e nem sequer podia sugerir-lhe fazer aquilo que ela tinha feito.

Viera para Lisboa, tirara um curso de secretariado e encontrara emprego num pequeno escritório na baixa onde se mantinha desde então, já lá iam quase vinte anos. Com o tempo foi-se adaptando à nova realidade e hoje, naquela altura, sentia-se bem. Vivia só num apartamento depois de algumas bolandas por quartos alugados e disse-me: era feliz.

Acredito que sim, acreditei nela, na sua sinceridade, embora o peso da
solidão estivesse presente nela. Gostou de me ver - disse. Eu também e
nunca mais vi a Irene.

Por vezes, como agora, lembro-me dela e por estranho que me pareça sempre, embora ela fosse naquela altura em Lisboa quase igual à Irene que eu tinha conhecido muitos anos antes pareceu-me ter uma face e uma figura como qualquer outra pessoa.




O Suicídio - Por Daniel Teixeira


O Suicídio

Por Daniel Teixeira

Há diversas formas de se morrer. Uma delas é o suicídio. Hoje em dia enquadramos o suicídio num contexto psicológico e vemos aqueles que o cometem como pessoas com problemas, passíveis de ser ajudadas por profissionais.

Mas o suicídio, a sua prática sempre existiu, desde os tempos mais remotos, e foi a forma de o encarar que mudou radicalmente ao longo dos tempos. As mentalidades evoluíram e o suicídio tomou outros contornos.

Só no século IV é que se começa a tomar o suicídio como algo negativo, graças a S. Agostinho que rejeita a prática. Mais tarde, a Igreja, órgão de suma importância nas sociedades do século XIII veio - sob a forma de S. Tomás Aquino - a trazer um conceito que mudou para sempre a visão dos que cometiam suicídio. Foi o conceito de «pecado» que até hoje ainda influencia a opinião de muitos neste assunto.

Foi então que, através de «castigos», como a ameaça do Inferno (ao cometer o pecado), e a exposição do corpo em praça pública, denegrindo a pessoa morta e família, o suicídio ganhou o seu cunho de «proibido» e mau.

Hoje o suicídio é visto essencialmente de uma forma psicológica (considerando-se as problemáticas psicológicas relacionadas), e entendido mais abertamente que sob a suma influencia da Igreja.

No entanto, não existe uma posição permissiva em quase nenhuma sociedade, mas sim uma preocupação crescente da saúde mental e não só de proporcionar uma existência em que o suicídio não seja contemplado como alternativa. Assim, desenvolvem-se esforços vários para promover condições de vida em que o suicídio não seja visto como uma hipótese viável.

Este é um assunto muito complexo, e podemos começar por comparar as diferentes noções que vários autores dão do conceito de suicídio.
Parece-nos óbvio o que é o suicídio, mas há diversas teorias que abrangem mais do que o simples acto de morrer voluntariamente, utilizando de instrumentos que se sabem provocar esse fim (a morte).

Durkheim (1897) refere que uma conduta suicidária alcança tudo o que a «vitima» causa, tendo consciência do seu possível resultado. Assim, segundo este autor, usar drogas, álcool ou até conduzir perigosamente, são condutas suicidárias.

Já Halbwachs (1930) refere que o suicídio é o acto realizado com instrumentos ou meios que nos levem a crer que o sujeito realmente tinha como objectivo a morte.

A definição que, talvez, se aproxime mais da noção em senso comum que vigora actualmente, é a de Vaz Serra (1971) que concebe o suicídio como a autodestruição consequente num acto voluntariamente realizado com vista a esse fim (morte).

Baechler (1975) vê o suicídio como todo o comportamento que procura solução para um problema existencial através do atentar ao Eu.

Estes autores, referidos por Daniel Sampaio, também ele muito atento a esta questão, dão-nos uma noção breve da extensão desta problemática.

Talvez ninguém saiba explicar completamente o suicídio, o que leva uma pessoa a recorrer a ele, que sentimento acompanha o momento do suicídio, que objectivo se pretende alcançar com esse acto.

Talvez seja diferente para cada pessoa, as pressões exercidas sobre os indivíduos são diferentes, as razões nunca poderiam comparar-se de pessoa para pessoa.

Será para alguns como Paulo Coelho escreve no seu livro, Verónika decide morrer:

«(...) Verónika decidira morrer naquela tarde bonita de Lubljana, com músicos bolivianos a tocar na praça, com um jovem a passar diante da sua janela, e estava contente com o que os seus olhos viam e os seus ouvidos escutavam. Mais contente ainda estava por não ter que ver aquelas mesmas coisas por mais trinta, quarenta, ou cinquenta anos - pois iam perder toda a sua originalidade, e transformar-se na tragédia de uma vida onde tudo se repete, e o dia anterior é sempre igual ao seguinte(...) .»;
para outros esta calma, é substituída por um desespero avassalador, uma angústia silenciosa.

O suicídio nem sempre é um adeus, na maior parte dos casos é uma mensagem, um pedido aos que os rodeiam.Daniel Sampaio refere quatro tipos fundamentais de suicídio (baseou as suas conclusões num estudo de tentativas de suicídio adolescente):
fala-nos do suicídio por apelo, em que o indivíduo pretende a comunicação, enviar determinada mensagem que, de outra forma, não consegue expressar;
o suicídio por desafio, em que o sujeito desafia os seus superiores, colocando-se numa posição de igualdade;
do suicídio de renascimento, em que a pessoa quer modificar o sistema em que está inserido, a seu modo;
e, por fim, temos o suicídio de fuga, em que o sujeito quer excluir-se.

Nestes quatro tipos de suicido encontra-se uma noção em comum, a noção de mudança. Os sujeitos desejam a mudança. A forma como encaram as suas tentativas de suicídio difere, mas o objectivo central é o mesmo, a mudança. A situação em que se encontram não lhes serve mais.

Não será o equivalente a sofrer de uma doença terminal em que a morte não é uma escolha, mas uma certeza incontornável, mas os últimos passos de quem um dia «escolhe» a morte, seja por que razão for, são também minutos de despedida que talvez nunca entendamos completamente.




Valores reais - Texto de Daniel Teixeira


Valores reais


Texto de Daniel Teixeira

Este titulo e uma parte do texto / argumento é «emprestado» pela nossa amiga e colaboradora do Jornal Raizonline, Renata Rimet, residente na Baía (desculpem lá escrever à portuguesa) e que tem um poema precisamente com este titulo colocado de forma poetizada.

Peço desculpa de não ir agora ver qual a forma exacta utilizada por ela mas esse poema foi publicado no jornal e o que me interessa aqui (para além de plagiar pelo menos parte do título e a ideia de parte do seu conteúdo) é fazer a destrinça que ela faz no seu poema de uma forma mais alongada.

Como sabem não sou poeta nem sintético: poeta gostaria de ser mas ser sintético / sumarizador já é outra coisa e francamente não vou mudar, provavelmente nunca.

O poema da Renata retrata um assalto a um autocarro (não me lembro como se diz no Brasil e estou mesmo atrasado neste texto e não dá para andar a fazer pesquisa - aliás tenho horror ao termo, parece-me que é ónibus...

Bem, continuando: no referido assalto o autor do mesmo não leva nada dos valores que quer, mas rouba, segundo a Renata - e com toda a razão - sentimentos às pessoas. Intimidade exposta (quer dizer aquelas coisas que por vezes se levam nas malas ou nas algibeiras ou nas mochilas e que fazem parte da nossa intimidade e que não gostamos que os outros vejam), devassa dos nossos pertences (algumas coisas compradas nos chineses aqui em Portugal, por exemplo e que são conotadas com a penúria pessoal por as termos comprado, o que é paradoxal, mas já veremos isso).

Bem, o que está em causa na descrição poética da Renata é o facto de uma determinada atitude ou comportamento (neste caso um assalto à mão armada ainda por cima) trazer prejuízo a quem o sofre mesmo que não traga, como não traz, vantagem ao outro ou ao criminoso - neste caso.

Pois por mais estranho que lhes possa parecer e tomando a posição do outro (sem crime como é claro) eu posso não obter nada do que quero, retirar (comprando) a outro algo, mas, por uma posição de escala de valores isso não me servir para nada ou para muito pouco.

Se fizerem uma viagem com os olhos - não precisam mexer-se do sofá - verão à vossa volta pelo menos dezenas de coisas que não servem absolutamente de nada e nem sequer já para regalo da vista, como foi o caso daquele pote chinês que se comprou quase compulsivamente num dado dia, que se adorou durante uma semana ou um mês e que acabou por ser arquivado no nosso circuito de atenção.

Pois a sociedade de consumo é assim: as coisas são compradas (e não roubadas (!); a Renata aqui entra de férias neste texto) muitas vezes por impulso. A nossa necessidade natural de novidade, de ver ou fazer diferente, é excessivamente explorada pela nossa envolvência, seja ela comercial ou não.

Depois existe também uma tendência também quase natural para seguir e por vezes perseguir o outro: na minha infância por exemplo lembro-me bem que as coisas desejadas, mesmo de melhor qualidade, se enquadravam quase sempre no necessário: quer dizer, comprar uma mobília ou um colchão melhor, um sofá, uma televisão com um ecrã maior (naquele tempo - agora é com maior fidelidade de imagem), enfim...mesmo que já houvesse uma descolagem do reino do aperfeiçoamento do necessário ameaçando a descambada no supérfluo, ainda havia uma relação com a base que se foi depois afastando progressivamente. Agora andamos constantemente de avião, neste plano...

Perseguir o outro foi a fase seguinte à fase primitiva: começámos a desejar não só o que nos fazia falta como começámos também a desejar o que fazia falta aos outros (vizinhos, familiares, meros conhecidos e os meros desconhecidos que colocavam coisas nas montras - todas elas apetitosas diga-se).

Ficámos assim despojados dos valores reais, dos reais valores, com os quais ainda temos alguma ligação que muitas vezes falseamos oportunistamente: uma coisa não nos faz falta mas dentro das caves do nosso raciocínio encontramos presto para ela uma «utilidade». Esta estante ficava mesmo a matar ao lado da outra que temos naquela nossa cave onde só vamos duas vezes por ano para borrifar o insecticida.

Breve...temos, de uma forma geral, e descrita de forma exagerada como se requer, uma necessidade grande de «comprar», de ter novo ou diferente...
Ora, sem que isto se aplique senão de forma abstracta, porque razão não direccionamos nós esta forma de desejar para aquilo que mesmo sendo considerado por vezes supérfluo, faz de facto também falta, como a cultura (?) ...

Porque aceitamos (generalizo de novo) melhor um novo modelo de automóvel do que um filme bom? (que até sai bem mais barato...).

Bem, no fundo todos sabemos porquê: é mais fácil encontrar um plasma numa casa relativamente degradada do que uma estante de livros: um é um símbolo de poder o outro é um símbolo do saber e o saber já não se usa. Usa-se a esperteza e essa compra plasmas, carros ultimo modelo e tudo o resto.

Por isso (mas não só por isso) estamos como estamos um pouco por todos os lados deste nosso planeta. A esperteza no entanto é um «bem» de carreira curta, sempre o foi e os espertos nunca acreditaram nisso e ainda não acreditam.

Daniel Teixeira