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terça-feira, 23 de abril de 2013

Crónicas e ficções soltas - Alcoutim - Recordações XXXIV - Por Daniel Teixeira - A nossa piscina

 
 
Crónicas e ficções soltas - Alcoutim - Recordações XXXIV - Por Daniel Teixeira - A nossa piscina

Falar em piscina em Alcaria Alta, pelo menos na altura em que andei por lá jovem ou criança, seria introduzir um neologismo no vocabulário local e depois do que vou escrever em seguida seguramente ainda hoje será considerado exagerado o termo.

Numa primeira vista, esclareça-se, porque piscina advém de peixes e muito pouco tem a ver com o actual sentido que lhe é dado maioritariamente. Por isso eu dizer que tínhamos uma piscina (várias, até) em Alcaria Alta não é totalmente um absurdo: não davam, na sua grande parte, para nadar (salvo alguns pegos mais resistentes à seca do verão já na Ribeira da Foupana ou mesmo no Ribeirão) mas até os poucos que sabiam nadar, nós, os da cidade, não tínhamos assim uma tão grande apetência para a braçada.

Habituados à água salgada, mais «pesada» como dizíamos, era uma trabalheira enorme para nos mantermos à tona da água doce (levezinha) pelo que utilizando a sempre presente em qualquer idade lei do menor esforço ficávamos pelo «molho» a meia altura com mergulhos só da cabeça para alisar o penteado. Aliás ainda bem que não nos lembrámos de andar a saltar das rochas porque os fundos eram bastante irregulares e surpreendentes.

Mas a nossa piscina, a piscina do dia a dia era um poço numa horta: dava-nos a água aí pelos ombros, sensivelmente, era extraordinariamente límpida antes da primeira entrada e descíamos e subíamos com a força dos braços. Juntávamo-nos três e quatro num espaço que acabava por se tornar exíguo e tínhamos direito a banho de lama de borla ao fim de dois minutos de termos entrado.

Estava este poço situado numa horta que ficava a seguir ao poço de baixo numa zona ainda sem denominação específica que me lembre mas que ficava próximo das Almargens : era só descer mais vinte metros e estávamos lá, na zona das  Almargens que ficava perto do Almarginho, este seguramente com este nome diminuido por relação de proximidade e de semelhança e continuidade.
 
Numa direcção oposta e distante, já no caminho que fazíamos a butes para Martinlongo fora da estrada porque era mais muito mais curto o percurso, e virado para o outro lado do Monte e a uma distância dali onde estávamos de pelo menos um quilómetro ficava o Almarjão, onde cultivávamos uma horta.
 
Nunca percebi muito bem a lógica destas denominações mas que não era sempre por relação de proximidade me parece ser certo: talvez fosse pela forma, pela localização em dado tipo de terreno, pelo contorno que os cursos de água davam às hortas, pelo desenho que a erosão das elevações ia plantando no sopé dos montes: deveria saber mais sobre isto e estudar um pouco estas coisas, é um facto.

Havia um sítio que era merecidamente chamado da «Areia fina», logo à saída do Monte, porque, por estranho que nos parecesse a areia era mesmo fina, quase tipo praia: já teria havido ali um curso de água com dimensão grande mas já não havia na altura e há centenas de anos provavelmente: nunca ninguém, me falou em ter visto água ali a não ser a das enxurradas do Inverno que desciam do bairro do Além.
 
O processo do nosso banho perto das Almargens era demorado mesmo: bastava meia hora de banho para termos quinze minutos de segunda lavagem a balde num outro poço e enxaguamento ao sol. Desincrustar a areia, a lama e toda a sujeira natural que os bordos do poço iam debitando e que se colavam sobretudo na parte mais visível,  que era o cabelo,  era a segunda fase obrigatória no processo.

Mas era bom, fazia calor de rachar e tudo o que abrandasse a sensação de estarmos a torrar era bem aceite. Os montanheiros adultos não tomavam de facto muitos banhos porque não tinham as possibilidades que nós crianças tínhamos. Aproveitávamos  a hora de caçar (quase nada sempre) neste poço de baixo , hora esta que era mais farta de possibilidades na força do calor aproveitando a altura em que os pássaros iam beber nas pequenas poças de água que se formavam à volta do poço.
 
De esclarecer que era o poço das bestas e que resto de balde não bebido por um animal tinha de se deitar fora...e deitava-se logo ali, para voltar a ser filtrado pelo terreno e regressar donde tinha vindo, pelo menos assim se pensava. A sapiência dos povos é grande :  uma besta, seja ela asinina, muar ou cavalar, não bebe água já tocada pelos lábios (beiços) de um outro pelo que não dá para dar o resto a outro e voltar a jogá-la para dentro do poço também não dava, porque mesmo sendo um poço na altura exclusivamente para animais, nunca se sabe o dia de amanhã.
 
Quando me lembro destas coisas, e regressando agora às nossas piscinas, sei perfeitamente que era uma grande porcaria e que o poço só mantinha a água limpa se lá não entrássemos: logo uma coisa implicava outra; tomar banho (para nos limparmos por definição) implicava que nos sujássemos mas nada impedia aquela agradável sensação de frescura em plena força do verão.

Estas pequenas coisas, desaparecidas agora, são coisas e tempos que não voltam mesmo mais. Qualquer criança agora não fará nada disto, nem sequer se aconselha que o faça e nem terá condições para fazer o mesmo. Isso é que torna também as coisas de hoje por vezes tão urgentes e tão prementes e tão necessárias para serem usadas ou feitas mesmo: muitas das coisas que fazemos ou não fazemos hoje podemos nunca mais vir a fazê-las o que faz com que cada um de nós tenha condições e momentos que são mesmo únicos no sentido mais absoluto do termo. Não sabemos exactamente quais, é um facto e nunca saberemos o último segundo de cada coisa.

E descontando esta parte desagradável da areia e do barro no corpo e no cabelo quantos de nós sentimos alguma vez ao tomar hoje um seguramente mais higiénico duche que provavelmente estaremos numa época de viragem e que talvez não amanhã mas um dia destes aparecerá outra coisa qualquer que faça com que esse nosso actual prazer de sentir correr a água pelo corpo seja daqui a muitos anos objecto de saudosa recordação tal como eu fiz agora?

Daí a aceitação neste plano, mas só neste plano e nos aspectos com ele relacionados dentro dos mesmos princípios lógicos, da frase de Virgílio na Eneida, carpe diem quam minimum credula postero, «aproveita o dia, confiando o mínimo possível no futuro». O mínimo possível do futuro não é todo o futuro, como é claro, é só o mínimo...
 
 

quinta-feira, 4 de abril de 2013

Crónicas e ficções soltas - Alcoutim - Recordações IX - Por Daniel Teixeira - Inércia congénita

 
 
Crónicas e ficções soltas - Alcoutim - Recordações IX - Por Daniel Teixeira - Inércia congénita
 

Conforme tenho referido, penso que desde sempre, o Monte de Alcaria Alta e o pessoal que lá vivia (e vive ainda algum), de uma forma bem geral era possuidor de uma inércia confrangedora.

Em certo sentido acho que as pessoas trabalhavam porque era hábito trabalhar, em primeiro lugar, sabiam lamentar-se ou alegrar-se pela pobreza ou pela riqueza das colheitas mas tudo ficava no desgosto ou na alegria quase entre portas e tudo demorava muito pouco tempo. Sempre pensei isso em miúdo, fui pensando e as razões para pensar isso foram-se mantendo durante muitos anos.

Mais tarde, através da minha própria evolução pessoal, da experiência de vida que fui adquirindo, dos conhecimentos de ordem intelectual que fui coleccionando, acabei por verificar que talvez estivéssemos perante um caso de esgotamento, de uma convicção de que tudo tinha sido tentado já e que a minha ignorância do passado e das tentativas feitas antes de eu as saber, porque não tinha ainda nascido ou porque não tinha ainda idade para saber, era uma hipótese plausível.

Calhou a ler, por acaso no Arquivo Distrital aqui de Faro, um livro e depois mais do Professor Gomes Guerreiro, primeiro Reitor da Universidade do Algarve, e conhecedor de mérito da realidade algarvia. Em 1945 já ele fazia medições pluviométrias e poucos anos depois debruçava-se sobre a erosão na serra de Tavira. O Rio Gilão é uma desgraça em termos de assoreamento, como todos sabem: pois ele em 1954 propunha já uma solução minimizadora do impacto das chuvas: que os regos da lavoura se fizessem na forma de barreira contra o arrastamento. Já não penso agora que a inércia seja exclusiva de Alcaria Alta e do Nordeste Algarvio pelo que em face do sabido em Tavira duvido também que muita gente tenha seguido o conselho.
 
Na verdade era para mim então impossível conceber que se trabalhasse sempre da mesma forma, ou com pequeníssimas alterações, que não se lutasse para modificar alguma coisa, enfim...que o correr dos dias fosse assim...trabalhar de sol a sol em troca sempre do mesmo deflacionado ganho.

Um dia ou dois, talvez com os meus dez anos, procurei ajudar a seu pedido o meu avô a aprofundar um poço rasteiro: tirámos pedras, algumas lajes bem pesadas, todas à mão é claro e sem ajuda de ferramentas. Nem um martelo daqueles grandes e um escopro, que bem poderiam servir para reduzir o tamanho das lajes o meu avô levou...era assim mesmo e ali ficámos, de manhã à noite, até sem uma pá, usando os baldes de zinco para arrastar pedras e água e fazer monte à entrada do poço, deixar escorrer o minguado liquido de regresso e depois afastar um pouco, não muito, as mesmas pedras.

As mais pequenas, e situando-se o poço no final de uma encosta e encostado a um barranco, logo que chovesse mais acabariam por regressar ao sítio donde as tínhamos tirado, isso parecia-me evidente, mas...
 
E não era por falta de conhecimento dos instrumentos que assim acontecia: o meu avô tinha trabalhado na construção de troços da via férrea no Algarve e na estrada de Castro Marim a Balurcos, quando era ainda jovem. Tinha uma vivência bem recheada, com uma episódica vida de contrabandista, era negociante de panelas a troco, enfim...não era propriamente alguém que não devesse saber que as coisas não são feitas assim mas fazia-as.

Logo abaixo, a cerca de 50 metros, uma irmã da minha avó tinha o seu quinhão de terra também, e antes dela havia uma faixa curta, também de alto a baixo, para aí com 20 / 30 metros de largura por 100/150 de altura / comprimento, esta sem qualquer poço, que era de uma outra irmã da minha avó que vivia em Santa Justa. O poço da Ti Zabelinha, quase paredes meias com o Ribeirão, era farto de água: o marido dela, GNR ainda na altura, tinha conseguido os meios para o aprofundar, talvez para aí uns 20 metros.

Tínhamos autorização para nos servirmos da água à vontade, mesmo que o meu Tio Afonso fosse um bocado «torcido» como se dizia por lá: nem um terreno, o da minha Tia Marianita nem o da minha Tia Zabelinha eram cultivados: havia umas parreiras que se alimentavam sozinhas do precioso líquido e o resto lá estava: era muito longe, de facto. Só não era longe para nós porque fazia mesmo falta para o remedeio da casa.

E ali estivemos nós, a escavar à mão um poço, com água em relativa abundância e sem utilização a 50 metros. Ali tínhamos nós de trabalhar regando as casolas parcimoniosamente e uma vez ou duas, por acaso, lá íamos buscar dois baldes de água cada um ao outro poço. Como «pagamento» deitávamos meia dúzia de baldes de água numa laranjeira que nem no ano 5 mil daria fruta de jeito.

Não há muito tempo um primo meu, herdeiro dessa faixa de terra que foi da minha Tia Zabelinha telefonou-me: queria comprar a «minha» parte para acrescentar na métrica da reserva de caça. Com a minha outra prima herdeira da tal faixa situada a seguir à nossa também já tinha falado: isso dava-lhe direito a não sei quantas cabeças de caça.

Dissemos-lhe ambos que sim, que até de borla poderia ficar com elas (isso não dissemos mesmo mas pensámos). Já passou um ano quase e nunca mais obtivemos resposta. A inércia por esgotamento foi substituída pela inércia por comodidade.

E tanta perdiz que lá havia, tanta perdiz que se levantava nas margens daquele ribeirão...tanta lebre e tanto coelho que por lá passavam em corrida distraídos quase à nossa frente.
 
Publicado pela primeira vez no Jornal Raizonline nº 130 de 25 de Julho de 2011.
 
 

sábado, 8 de dezembro de 2012

ALCOUTIM - Recordações (Crónicas e Ficções Soltas) I - Por Daniel Teixeira

 

ALCOUTIM - Recordações (Crónicas e Ficções Soltas) I - Por Daniel Teixeira

Pedindo as minhas desculpas ao amigo José Varzeano por estar a retirar-lhe a integralidade da página / tema gostaria de recordar aqui algumas das minhas memórias recolhidas neste Monte da Mesquita referida por ele, terra da naturalidade do meu avô materno.

(ver texto do José Varzeano aqui)

Conforme referi no meu texto geral sobre esta região e nas minhas demasiado curtas memórias já escritas no Alcoutim Livre sobre estes locais onde passei vários meses todos os anos, devo agora à distância confessar que sei ter algumas memórias destes meus tempos de infância e juventude, mas...por estranho que eu mesmo acho ser, tenho uma recusa quase instintiva em aprofundar muita coisa.

A explicação que eu tenho encontrado vacila muito entre o desejo de guardar desse «meu» outro Monte (Alcaria Alta) uma boa memória e prende-se também com o facto de que agora, tudo visto à distância, os laços de afinidade, eclipsando-se com o tempo e com o desaparecimento das gentes - levei muito tempo a ir regularmente a Giões a funerais de familiares directos e indirectos e seus e meus amigos - acabam por fazer definhar esses laços, acabam por os fazer perecer, e a gente, estando por lá ou falando de lá, pergunta-se interiormente, mais vezes do que gostaria, por aquelas pessoas de quem gostava e gosta tanto...

Por onde andará o meu velho avô que nas minhas memórias ainda me aparece claramente, deitado, de chapéu tombado sobre a cara, no poial da pequena cerca da arramada, de cabeça encostada a uma albarda, de botas surradas e onça de tabaco espreitando no bolsinho do colete?

Que é feito do seu ar envergonhado pedindo-me ajuda para subir o para si já pesado arado para cima da albarda do burro? O que é feito do seu ar comprometido a bater com uma esteva as redondezas do nosso poiso nocturno em noites de dormir ao relento em folhas de terra mais distantes? Seria porque já fora picado por lacraus e ele mesmo tinha medo dessa dor horrível ou seria para que isso me não acontecesse a mim?

Que é feito de minha avó, por onde andará ela, a mulher que mais cedo se levantava em Alcaria Alta e que percorria ainda noite os caminhos para chegar ao romper da luz às hortas, regar e repartir para uma outra e outra e outra antes que o sol começasse a queimar?

«Sentindo passos atrás de si, não muito longe de si, na noite escura como breu, agarrou numa pedra maior que as suas  mãos e gritou: - Quem quer que venha aí que passe para a minha frente e que mostre a cara! - Sou eu Ti Virgínia - o João!»

Este, coitado, esteve uma enormidade de anos na Alemanha, comendo o pão que o Diabo amassou, para vir morrer de ataque cardíaco não muitos anos depois do seu regresso...por isso, também, que é feito da vida que eu tive nesses sítios ? O meu amigo Juanito, morto no Ultramar, o Antonico igualmente já falecido, o seu irmão mais velho falecido há poucos anos aqui no Hospital de Faro e que na violência do seu mal nem sequer me reconheceu?

Eu, sem mal que me apoquente, não me reconheço nem reconheço a «minha» Alcaria Alta de hoje: para mim desde há alguns anos, desaparecido o laço que me mais fortemente me ligava a ela, a minha mãe, recuso-me a aceitar a Alcaria Alta de hoje.

Há tempos, li num blogue de uma pessoa que penso ser a filha da Odília Guerreiro - filha do João Baltazar  - que o senhor Zézinho Martins andava a pastar o seu próprio gado: um dos homens mais ricos de Alcaria Alta, um lavrador que enchia a cozinha ao almoço e ao jantar com pelo menos uma vintena de ganhões em tempo de arado, ele mesmo, a dar pasto ao seu próprio gado (duas ou três reses pelo que percebi).

Não é que lhe caiam os parentes na lama, não se trata disso, mas é porque não há gente para ajudar (trabalhar) e porque apesar de tudo é preciso fazer continuar a vida mesmo que ela nos escorra pelos quadradinhos do calendário. O Zé Lourenço, seu «criado» (por vezes zangava-se e ia trabalhar para a «concorrência» - o outro lavrador do Monte) que tinha medo das trovoadas e que largava tudo assim que começava a trovejar, estivesse onde estivesse: largava tudo menos as bestas, e lá vinha ele, de chapéu na mão, aterrorizado, arrastando as arreatas, sem outra reacção que não fosse rezar a Santa Bárbara...

Zé Lourenço...o «pão de centeio», talvez o último serviçal, aquele que nas noites de trovoada dormia no quarto do patrão rezando até de manhã.

Pois eu, se bem me lembro daquilo que me lembro das deslocações com meu avô ao Monte da Mesquita, é de um facto cuja importância este texto do José Varzeano me fez afinal fundamentar sobre uma percepção esquisita que eu tinha desse Monte da Mesquita. Não se via vivalma...e havia ainda gente no Monte...

Habituado à franqueza daquelas casas portuguesas que conhecia pelos montes ao redor, com oferta insistente de cafezinho e pão com queijo e presunto, com as portas das cozinhas sempre abertas - chegávamos a tornear algumas passagens por termos a barriga a estourar - na Mesquita ali ficávamos os dois, recolhendo as azeitonas, as alfarrobas e comendo solitários do farnel: nem pessoa se aproximava e no entanto meu avô era de lá, quer dizer, tinha nascido lá: deveria haver alguém que pelo menos o conhecesse ou que ele conhecesse, mas não: acho que aquele Monte já estava moribundo mesmo, desabitado mesmo que estivesse habitado, sem alma, sem memória viva.

Acontece...os Montes são quase como algumas pessoas...podem eles também morrer muitos anos antes de morrerem de facto.


Publicado pela primeira vez no Jornal Raizonline 102 de Janeiro de 2011

 

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

ALCOUTIM - Recordações II (Crónicas e Ficções Soltas) - Por Daniel Teixeira

 
 
ALCOUTIM - Recordações II (Crónicas e Ficções Soltas) - Por Daniel Teixeira



Pedindo de novo as minhas desculpas ao amigo José Varzeano por estar a retirar-lhe a integralidade da página / tema (os seus trabalhos espevitam-me a memória) gostaria de recordar aqui algumas das minhas memórias recolhidas sobre este tema dos médicos de alguma forma considerados milagreiros que se encontram normalmente referidos em memórias de sítios ou locais mais pequenos e predominantemente referidos como médicos dos pobres.
 
O Dr. João Dias, referido pelo José Varzeano será um  caso à parte e como tal será referido e lembro-me concretamente que a primeira memória que tenho de ouvir falar dele através da minha falecida mãe - «especialista» em memórias e de grande memória até ao final da sua vida - foi a já por mim referida ao José Varzeano no seguimento de um artigo de um colaborador do Blogue Alcoutim Livre - salvo erro o Amílcar Felício - história da mudança de sexo de um homem que tinha nascido com uma deficiência nos órgãos genitais e que fora considerado mulher seguindo um costume médico na altura e dados os conhecimentos e meios imperfeitos que havia nesses tempos: «Em caso de dúvida, fá-la mulher» ao que me consta ensinava-se entre colegas médicos (agora obstetras) na altura.

Encontrei vestígios desse tipo de comportamento na forma não médica quando do estudo de alguns livros de antropologia através da referência em tribos indígenas tanto em Africa como na América e mesmo na Oceânia tudo levando a crer que tal comportamento tomado de forma natural tenha tido lugar em todas as partes do globo. Não havia problemas em termos sociais evidentes durante o período da infância mas em despertando a puberdade o caso acabava por tornar-se complicado mesmo nessas sociedades primitivas.
 
Estas pessoas normalmente eram colocadas numa casta social específica acabando por tornar-se pessoas com direitos desiguais e normalmente relegadas para a exclusividade dos trabalhos domésticos ou auxiliares, cuidar de crianças, etc.  não participando de forma activa na hierarquia normal da sociedade ou tribo, dependendo sempre em termos sociais e económicos dos progenitores (ou a quem fossem vendidos/vendidas). Breve, não eram nem uma coisa nem outra (homem ou mulher) o que visto segundo a linearidade lógica espontânea das sociedades primitivas teria a sua razão de ser: eram elementos desestabilizadores em estruturas delineadas secularmente: não li no entanto nada que me levasse a pensar que houvesse ou tivesse havido eliminação física dessas pessoas. (Radcliff-Brown e Daryl Forde, Engels, Espinas, Morgan, Bachofen,   R. Fortune, etc.).

Ora e em relação a esta «operação - cirurgia» do Dr. João Dias foi-me relatado pela minha melhor fonte neste plano (minha mãe) que a pessoa um causa (uma mulher com pelo menos aparente genitália «feminina» mas hormonas masculinas ) era reparada pelo facto de acompanhar muito com os homens e de dar preferência à companhia destes em vez de se integrar no meio que lhe era considerado - artificialmente mas oficialmente - natural, o meio feminino. Este reparo serve apenas para fazer notar o «distúrbio» social que o seu comportamento mais livremente efectuado levantava milhares de anos depois das tribos primitivas e do que se falava sobre o assunto embora tivesse o contra de ser um meio relativamente pequeno.

A outra referência memorial que tenho, menos médica e até um pouco humorada refere-se ao facto de me ser apontado o sítio «exacto» onde o carro do Dr. João Dias tinha ficado avariado durante dias até que o levaram à força de bestas e cordas tendo isto acontecido no caminho cercado (de cercas) da portela do Monte das Velhas. Chamava-se Portela à «porta» de saída para o Monte mais próximo por vezes, outras vezes o mais frequentemente acedido por essa tal de Portela.

Este preciosismo quanto ao local exacto do evento funcionava assim como que um ponto de honra para o pessoal de Alcaria Alta até por razões para mim paradoxais - tinham tido o carro do Dr. João Dias, ali, precisamente ali, durante dois ou três dias. O motivo da deslocação seria uma consulta a alguém do Monte (ao que me lembro um familiar de um Lavrador) e naqueles tempos para haver uma ida ou pedido de vinda de um médico - do único médico, diga-se - era porque já tinham falhado todas as tentativas caseiras. 
A
parentemente o Dr. João Dias teria enveredado directamente da estrada Alcoutim (Quatro Estradas dos Balurcos)  - Martinlongo e metido pelos terrenos de cultivo que naquela zona até são bem planos e teria chegado até ali (percorrendo talvez 6 a 10 kms de cultivo ou mato, depende da altura) vindo da direcção do Monte das Velhas em linha quase recta para Alcaria Alta. Ali chegado as lajes e as pedras irregularmente compostas no solo puseram fim à sua viagem...mas não à sua tarefa, vindo logo gente buscá-lo em besta.

Ora estas referências dão alguma quase magia aos acontecimentos: automóveis talvez houvesse mais alguns na sede do Concelho mas não mais que um ou dois, seguramente; médico o Dr. João Dias era o único (havia outro o Dr. Mendonça mas para os lados de Cachopo) e quem fizesse uma operação daquelas também só havia uma pessoa (tanto para a fazer como a quem ela poderia ser feita); alargue-se tudo isto a toda a região algarvia, isolada ainda do resto do país pela Serra do Caldeirão e por uma estrada com as tradicionais nunca contadas 365 curvas, com um caminho de ferro incipiente (o troço Faro - Vila Real de Sto António foi completado em 1906) e teremos um trabalho verdadeiramente heróico da parte do pessoal de saúde em zonas de mais difícil acesso.
 
A capacidade de improvisação era necessariamente grande e a falta de medicamentos tanto por não existirem como por serem sempre caros para quem praticamente não conhecia o dinheiro tornavam as situações propícias à legenda popular e a algum exagero milagreiro.

Em Faro (cidade) tivemos do Dr. Silva Nobre, também conhecido médico dos pobres, que também tem um busto em frente à casa onde habitou e onde foi o seu consultório, em frente a um Banco, rodeado de cervejarias e lojas de pronto a vestir e em Faro/Loulé a Dr.ª Fernanda Mealha, dermatologista e especialista conceituada em lepra, e força da especialidade - e não só - também considerada médica dos pobres, há poucos anos falecida, num relativo esquecimento, erradicada que foi - quase - a lepra.

A lição que pretendo tirar de todo este conjunto de referências acaba por responder um pouco à pergunta que o José Varzeano faz directamente e deixa também implícita outra parte no final do seu texto: o mito popular médico, tratar dos pobres, «fazer milagres» ou tratar dos mais pobres entre os pobres como o dizia Madre Teresa de Calcutá (ela também praticamente esquecida) não rende outra memória senão a memória popular. E esta, como sabemos, sendo curta de geração não tem forma de ser relembrada porque o orgulho institucional nos seus filhos ainda é bem mais curto.
 
 

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Crónicas e ficções soltas - Por Daniel Teixeira - O CERRO DO LAGARTO DE ALCARIA ALTA E O CERRO DO «NARIZ DEL DIABLO» NO PERU

 
 
Crónicas e ficções soltas - Por Daniel Teixeira - O CERRO DO LAGARTO DE ALCARIA ALTA E O CERRO DO «NARIZ DEL DIABLO» NO PERU

O cerro do lagarto, em Alcaria Alta, é uma lenda da qual eu não me lembro de ter ouvido falar dela por outras pessoas senão pela minha mãe que me disse tê-la ouvido contar pelo meu avô. Contava-me ela que algures, numas terras, todas elas com pequenas e maiores elevações, os chamados cerros, havia uma grande pedra com um lagarto esculpido em ouro embutido que só uma pessoa tinha visto uma vez. Dizia ela tratar-se de um local conhecido como sendo o «cerro do lagarto» mas que ninguém sabia qual cerro era.

Essa pessoa, à hora do pôr do sol, teria visto um brilho grande vindo do solo e aproximando-se teria visto então o lagarto em ouro. Teria tentado arrancar o ouro sem o conseguir e não podendo trazer consigo a pedra dadas as suas dimensões e peso tinha marcado o local onde ela estava e ficara de regressar no dia seguinte munido das ferramentas necessárias para recolher o lagarto de ouro partindo a pedra. Por mais que procurasse a pedra no dia seguinte e nos seguintes não a encontrou.

Ao que consta na lenda o homem terá ficado de tal forma transtornado e obcecado que mesmo ali montou uma pequena habitação como os pastores costumam fazer com pedras empilhadas e estevas cruzadas regadas com argila em líquido a fazer de tecto e ali terá ficado buscando nas redondezas e cada vez mais longe durante anos até que a morte o levou passados muitos anos.
 
Quem o viu durante esse tempo de vida não conseguiu nunca chegar-lhe à fala porque ele fugia e escondia-se nos inúmeros barrancos que por ali haviam. Reparavam essas mesmas pessoas que ele transportava sempre consigo uma roupa em estilo de albornoz pendendo do ombro com um peso que todos achavam serem pedras. Quando se deu por certo o seu falecimento quem lá foi buscar o corpo, passados muitos dias, verificou que ele tinha a sua pequena casa e abrigo repleto de bocados de xisto, a pedra predominante naquelas paragens, todas elas partidas em pequenos bocados e algumas quase em pó.

Ora esta história foi-me de facto contada pela minha mãe: parece-me evidente tratar-se de uma lenda e o meu avô era um bom contador de histórias. Contudo de reparar que friso o seguinte: contar histórias para ele não era propriamente contar mentiras. Ele contava o que lhe constava e que lhe contavam e praticamente percorreu todo o sul do país quer em trabalho quer nos seus negócios pelo que muito terá ouvido e muito terá guardado.

A minha memória sobre este tal de cerro do lagarto esteve adormecida durante bastantes anos mas não pude deixar de a relacionar com uma outra lenda que me apareceu relatada na Net com localização no Peru (América Latina, a milhares de quilómetros de Alcaria Alta) e que tem igualmente a sua génese num cerro, o Cerro do Nariz do Diabo e que conta assim.
 
Para o Cerro do Nariz do Diabo existe uma lenda Peruana referindo o Lagarto segundo a qual uma cultura pré-inca terá habitado o território do Nariz do Diabo assim conhecido por ser encimado por um cerro (uma pequena montanha) que se destaca das outras pelo facto de ter dois orifícios no seu rochedo xistoso semelhantes a duas fossas nasais.

Essa mesma cultura pré-inca considerava os lagartos, abundantes nas proximidades do Rio Chira (um importante Rio em Sullana), como divindades pelo que confeccionaram com ouro uma imagem de um Lagarto que veneravam como um deus.

É provável que os «marcaveles», os habitantes desses locais, ao terem conhecimento da chegada das hordas de Pizarro, cobiçando o ouro e a prata, tenham enterrado o sagrado «lagarto de ouro» nas entranhas de este misterioso e legendário Cerro (do Nariz do Diabo). Dizem que o local era um cemitério e que em alguns dia do ano têm lugar visitas aos jazigos existentes. Há alguns anos às quintas feiras santas homenageavam-se os falecidos do local.
A lenda do lagarto de ouro

Neste cerro aparece um pequeno Lagarto de Ouro que dorme nas margens do rio e que sai sempre ao alvorecer encantando os que deambulam por ali com o seu brilho e adormece-os e leva-os para dentro do cerro do qual não voltam a sair nunca mais.

No mês de Abril na semana santa os marcavelenses rezavam a seguir ao meio dia e acabavam antes da meia noite pedindo que o lagarto nunca lhes aparecesse.
 
Um dia chegaram à hospedaria local uns jornalistas que tinham ouvido falar das diversas versões desta lenda do lagarto e pediram que lhes fosse contada a lenda e a pessoa que a contou preveniu-os desta faceta do lagarto de encantar as pessoas e de levá-las para o interior do cerro não saindo elas mais de lá. Quiseram no entanto saber se era apenas uma lenda ou se havia algum fundo de verdade nesta lenda.
 
No dia seguinte levantaram-se de madrugada e foram com o guia até ao inicio do cerro. O guia, com temor de ir mais à frente, sentou-se em frente ao cerro e via como eles riam enquanto esperavam e um deles entretanto resolveu tirar uma fotografia ao cerro pelo que desceu até ao seu sopé.

Quando voltou para junto dos seus amigos viu que o lagarto de ouro tinha aparecido e como eles começaram a seguir o lagarto deslumbrados com o brilho do ouro. Quanto mais entravam nos caminhos do cerro o lagarto ia deixando como rasto bocados de ouro até desaparecer da sua vista.

Este jornalista fugiu daquele cerro assustado enquanto se ouviam gritos espantosos. Os seus colegas nunca mais apareceram.

Quem conta esta lenda do Lagarto do Cerro do Diabo, sempre um velho, muito velho mesmo, mas bem rijo ainda nos movimentos acrescenta sempre no final a pergunta: querem ir visitar o Cerro para ver se encontram o Lagarto de Ouro? Eu levo-os...mas só vou até ao sopé do Monte...Há quem tenha visto nos olhos do velho indígena quando o sol lhe ilumina a face um brilho intenso como se fosse o brilho do ouro.

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

A migração no concelho de Alcoutim

 
 
A migração no concelho de Alcoutim

Daniel Teixeira
 
 
Na região de Alcoutim, mais concretamente em Alcaria Alta, num Monte da Freguesia de Giões, todos os anos passava pelo menos um mês das largas férias que então a Escola Primária e depois a Escola Secundária proporcionavam, e isto enquanto não comecei a trabalhar.
 
A agricultura da qual viviam os meus avós, melhor ou pior, era então vista em certas regiões como sendo «a arte de empobrecer alegremente» o que de facto acontecia com eles, por razões também externas ao próprio facto agrícola mas de alguma forma com ele relacionados em termos estruturais.
 
As migrações eram quase uma opção de evidência comparativa e durante os primeiros anos da minha infância passaram por minha casa (a minha mãe tinha sido das primeiras a migrar) talvez duas ou três dezenas de pessoas, todas fazendo parte daquele conceito de família alargada que já não se usa. Mesmo quando havia necessidade de recorrer ao Hospital de Faro (agora Misericórdia) era a minha casa que essas pessoas iam bater o que acontecia quase naturalmente.

Como vivíamos numa casa composta por várias casas agregadas, um quintal enorme rodeado de casas que se tornavam habitáveis, mantiveram-se por lá algum tempo primos, primas e mais os eventuais que cobriam o seu tempo enquanto não arranjavam trabalho e habitação que se lhes ajustasse. Ora estas migrações tinham sangrado o ambiente rural, extremamente pobre em termos de produtividade e com uma falta de entusiasmo e iniciativa desoladora.
 
Lembro-me que sempre achei estranho e que referi várias vezes, mesmo criança e posteriormente jovem, que não compreendia porque é que as pessoas todas no monte não aproveitavam a água que escorria dos telhados durante as abundantes chuvadas de Inverno através da colocação de algerozes e bidões (não havia naquele tempo, de plástico) ou outras vasilhas (em barro eram abundantes e com tamanhos e formatos muito diversos).

Tínhamos (eu e meus irmãos) de alguma forma de «pagar» a nossa estadia e aligeirar um pouco a tarefa dos ainda não muito velhotes pelo que colaborávamos nas tarefas de agricultura na medida das nossas possibilidades e saber e idade.
 
A organização familiar, em termos económicos, respondia às necessidades e constrangimentos do tempo, segundo aquele velho princípio que se aponta à vida campesina: comida não falta, dinheiro é que não há. Lembro-me do meu avô se revoltar quando recebia o talão de pagamento do Imposto anual: 14$00 o que eu achava uma ninharia (meu pai ganhava na altura sensivelmente 400$00 por mês).
 
Minha avó, vinda de uma família remediada casara com o meu avô igualmente vindo de uma família remediada, mas sendo ambos de famílias numerosas o que lhes coubera como herança eram dois remedeios médios / reduzidos. Por opção acabaram por vir viver para a terra da minha avó que era simultaneamente o monte onde a maior parte da propriedade estava situada e onde o meu avô comprou casa (mil escudos ou dez notas) estando o restante da propriedade comum na terra (local de naturalidade) do meu avô situado a cerca de duas a três horas de marcha a pé, ainda que montados, no meu tempo já em burros.
 
As deslocações ao seu Monte, Mesquita (Freguesia de Vaqueiros), muito episódicas, processavam-se apenas em período de recolha dos frutos de algumas árvores, estando o resto do solo (que não era muito) sem tratamento ou cultivo. A nossa deslocação era feita praticamente a voo de pássaro (vol d’oiseau), se não tivéssemos de ter em conta os desvios que era necessário fazer para seguir os terrenos menos acidentados através de um caminho talhado a passo de pessoas e de bestas.
 
Quando referi acima que íamos (quando íamos) montados em burros é para esclarecer que quando mais jovem o meu avô (e a minha avó) tinham possuído uma égua, uma parelha de muares (mulas), duas vacas e um pequeno rebanho de ovelhas e algumas cabras. No meu tempo estavam reduzidos neste plano do gado a dois burros…
 
O facto de só terem tido filhas sobreviventes não deixa de ter aqui a sua importância: minha avó teve sete filhos três dos quais faleceram praticamente à nascença e morreu-lhes uma filha já com cerca de 20 anos.
 
Assim e como apanhado geral destas linhas temos que em termos de migração o pólo de atração, pelo menos final, parece ter sido Faro sendo que as causas da mesma se devem neste caso ao facto dos meus avós maternos não terem tido quem desse continuidade ao seu cultivo por não terem tido filhos do género masculino.
 
É claro que as filhas poderiam ter casado lá, na sua terra, substituindo assim essa necessidade, mas por aquilo que entendo as condições de futuro já eram fracas e a produção da propriedade detida insuficiente. Aliás essa migração já se desenhava havia anos através das expedições temporárias do meu avô e da minha avó e filhas: o meu avô trabalhou na construção dos caminhos-de-ferro (linha do Sul) e na construção da estrada que liga actualmente (ainda que renovada) Castro Marim a Alcoutim. A minha avó e as suas filhas, entre as quais ainda a minha mãe, faziam deslocações em tempo de ceifa ao Alentejo.
 
Acrescentou ainda o meu avô alguma actividade (na altura relativamente inocente) de contrabandista com Espanha – ovos, queijo e outros produtos alimentares – e uma outra de comerciante no sistema de trocas de utensílios de barro (feitos em Martinlongo) por outros produtos, muito nomeadamente figos secos vindos da Serra de Tavira.
 
Ora e tentando resumir o retrato parece-me evidente que o cultivo na serra algarvia não era de muita rentabilidade e que se tratava sobretudo de uma agricultura de sobrevivência a roçar já os limites mínimos: batatas, couves, tomate, feijão, etc. (entre os irrigáveis), trigo, centeio, cevada, tremoço (entre o sequeiro).
 
A falta de água era um handicap notável, e embora chovesse em abundância no Outono e no Inverno os lençóis freáticos não se abasteciam o suficiente e a água na sua grande parte, circulando em terrenos argilosos, era encaminhada para a Ribeira da Foupana, afluente na Ribeira de Odeleite e esta por sua vez afluente no Rio Guadiana.
 
A Ribeira da Foupana por sua vez tinha um caudal largo e tumultuoso e surpreendente – quer dizer, não era de confiança a vista de um caudal tranquilo uma vez que ela descia toda a Serra desde o planalto de Martinlongo cerca de 15 a 20 kms de curso – o que a tornava inultrapassável no Inverno mas ficava quase totalmente seca no Verão com excepção de alguns pegos onde se ia pescar (à lapa, quer dizer metendo as mãos nos buracos onde os peixes – e cobras – se aninhavam).
 
Em quase toda esta região foram plantados eucaliptos e pinheiros mas não tenho notícia que isso tenha alterado a forma de vida das pessoas na região residentes: os meus tios e tias avós continuaram a viver da mesma forma – mal – com uma situação adocicada pelas reformas da Segurança Social (antes Casa do Povo) e com dinheiros dos regressos da emigração de alguns.

Havia duas famílias «ricas» em Alcaria Alta, quer dizer, com maior posse de terra: um descendente de uma dessas famílias ainda procurou lutar um pouco contra a maré, comprou um tractor e outras alfaias mecanizadas, tinha um pequeno camião para transporte de gado e durante uns anos ainda tentou lutar contra a maré (talvez porque tivesse mais a perder perante o colapso) mas mesmo com o influxo da emigração regressada que de alguma forma veio trazer um maior manuseio financeiro e algum consumo à região isto de pouco terá servido.
 
A Associação In – Loco, que tive oportunidade de consultar e entrevistar na pessoa da sua então Directora Executiva (agora Prof. Doutora Alice Newton), co – Fundadora da Associação conjuntamente com o Dr. Alberto Melo, (pela últimas informações que obtive Director do Gabinete do Programa Sócrates da Universidade do Algarve) isto no princípio dos anos 90 de Sec. XX, tinha como perspectiva ajudar à fixação no local das populações residentes mas tinha a meu ver projectos utópicos; na altura estava a tentar resolver o problema da tradicional matança do porco através da compra de um atrelado matadouro que se deslocaria, segundo ela, na altura própria pelas aldeias e montes fornecendo condições higiénicas e seguras suportadas por Veterinários para que a mesma não fosse considerada, como era já na altura de «abate ilegal».
 
Ora o tal de atrelado, sem contar com o pessoal que lhe ficaria adstrito e a manutenção do mesmo implicavam um custo que qualquer mente mesmo contabilisticamente mal formada rejeitaria, mas estávamos nos tempos dos Programas Financiados pela C.E. e todo o sonho era possível, mesmo os impossíveis.
 
Por aquilo que conhecia já na altura as matanças de porco eram residuais, a electrificação da região levara ao consumo de outros tipos de carne e a rentabilidade da criação do tradicional porco estava relacionada com a actividade agrícola (os tremoços plantados pelo meu avô tinham como grande destinatário o porco de engorda) e não eram, estas matanças, tal como me pareceu que se pensava, um costume imbatível a qualquer custo.
 
O mesmo fenómeno, ainda que noutro campo, tinha tido lugar com a não menos tradicional cozedura do pão, em fornos conjuntos, espalhados pelas populações: assim que apareceram as primeiras reformas da S. Social e se começou a vender pão de aldeia a aldeia as pessoas, umas por impossibilidade física devido ao avanço da idade, outras porque fizeram as contas como eu.
 
Verifiquei que um pão de forno custava três vezes mais que um pão de padaria – feito com farinha subvencionada – não contando eu com a mão-de-obra que considerei voluntária. Logicamente depressa se entrou pelo lado prático da vida não se compadecendo esta com visões idílicas de um primitivismo rural que me parecia imperar nas visões citadinas mais «iluminadas».

Aliás foram feitas tentativas de criação de empresas cultivadores de chás medicinais de curta duração e todo um conjunto de iniciativas: este tipo de associações que eu conheci, por algum trabalho meritório que tenham feito sobretudo a nível da conservação e criação de atractivos monumentais, ou incentivos a arranjos paisagísticos, eram associações que eu mesmo nunca compreendi como podiam ser suportadas pelos fundos estruturais: 90% do seu pessoal era altamente qualificado (psicólogos, etnólogos, sociólogos, etc.) e, em rigor, não havia ninguém para trabalhar de uma forma acessível e interactiva com as populações.
 
Resultado disto, e utilizando as palavras de Jean Piaget «o bom professor não é aquele que ensina mas sim aquele que desperta a vontade de saber» estas operações destas associações passaram ao lado das populações até porque por natureza própria tinham de passar, na sua larga medida: as coisas não se implantam de fora para dentro, o orgulho da população rural não é pedra morta e o direito de dispor da sua propriedade a seu belo gosto (mesmo errado) não é fácil de vencer sobretudo por pessoas e soluções que não têm qualquer relação afectiva com a terra e o campo.
 
Como resumo intercalar, temos que a migração campo / cidade não é um impulso, que ela faz ensaios no tempo:

Temos o caso do meu avô e de dezenas, pelo menos, de colegas dele, que ela segue, como no caso da minha mãe, por ensaios (períodos da ceifa no Alentejo) e das pessoas que ficavam em nossa casa, e tem uma linha de familiaridade mais estreita ou mais larga, que mantém (caso das minhas férias anuais e da minha mãe e do meu pai no que se refere à região de naturalidade da minha mãe) ligações com a origem e que só progressivamente ela se concretiza, neste caso já na segunda geração, que é o meu caso.
 
Isto não é científico, como parece evidente, é uma percepção que se encontra ainda alicerçada no facto de que uma parte substancial dos emigrantes voltar às suas terras de origem, fazerem uma casa e viverem ali a sua pré-reforma ou reforma, ambição que também é comum aos migrantes; quase todos eles querem voltar às suas terras para passar a reforma (e morrerem lá, sic.). Os filhos em princípio não partilham dos mesmos ideais…
 
Estas ilações só têm interesse no sentido em que o diferencial atractivo campo/ cidade não é assim tão grande como isso o que por outras palavras também poderá dizer que os postos de trabalho ocupados no local de recepção migrante não são dos mais qualificados (e dos melhor remunerados), o que seguindo a mesma linha de raciocínio nos levaria à escolaridade e à qualificação profissional.
 
No que se refere, por outro lado, à minha ocupação no cuidado da terra, tema que não foi ainda desenvolvido, devo dizer que me limitei sempre a seguir os processos empregues no local, até porque dada a pouca idade e dadas as aberturas em termos imaginativos, foi certamente a melhor solução.
 
Reguei batateiras, couves, tomateiros, feijão verde, – na altura – algum dele era mesmo para secar – num sistema de recolha de água que me fez anos depois lembrar os ilhéus de Dobu: os poços, secos, tinham de ser descidos em escadas de pedra até ao fundo (normalmente não mais de três/quatro metros), as latas de zinco de recolha para trazer água de jeito tinham de ser deitadas na poça e esperar muitas vezes que a fonte debitasse mais água, algumas vezes escavava-se para tentar obter uma maior fundo livre para pouso do balde / lata e subia-se e descia-se as vezes que fosse necessário até obter um mínimo razoável de água por casola, doseando a mesma de forma a obter líquido para todas ou para a larga maioria.
 
Para o efeito os tempos de pousio aquífero eram espontaneamente calculados de acordo com as necessidades de rega das plantas e o volume de débito do poço e era também calculado o tipo e diversidade de plantas a semear por unidade (horta). Por isso encontravam-se batatas, couves, feijão, por exemplo, em várias unidades de cultivo, doseadas espontaneamente de acordo com o potencial de água disponível, quando a lógica mandaria que em cada horta se plantasse uma só espécie preferencialmente.
 
A falta de água levava a uma organização dos poços comunais também (três, ao todo) servindo apenas um para dar de beber às bestas. Já muitos anos depois foi conseguida uma bomba de roda num dos poços e só poucos anos atrás foi de facto conseguida a alimentação de água de forma eficiente para o monte, através da reperfuração de alguns dos poços já existentes, e isto numa altura em que os habitantes do monte na sua larga parte nem sequer tem condições físicas para se deslocar a esses mesmos poços (a pessoa mais nova naquele monte tinha na última vez que fiz as contas cerca de 70 anos).
 
Por mais de uma vez assisti a tentativas de obter maior fluxo de água aprofundando à sorte através de paus de dinamite. Um senhor, o famoso Ti Zé Pereira, que foi dado como quase morto num hospital de Lisboa e que regressou a casa alegadamente para morrer com a família recuperou extraordinariamente e tornou-se no maior inventor do monte de Alcaria Alta, mas tinha um problema de raciocínio: primeiro fazia o projecto de colheita e rega exterior e depois é que tentava encontrar a água, tão confiante que estava que o poço original (quase seco) tinha potencial certo.
 
Era assim interessante vê-lo ano após ano a bombardear o fundo do poço, que deitava todos os anos um bocadinho mais, é um facto, mas não atingia o volume por ele desejado.
As batatas plantadas não eram batatas semente, assim como o resto: não havia dinheiro nem se justificava tal, pelo que eram escolhidas as sementes entre aqueles legumes que maior volume ou aspecto apresentavam à colheita.
 
Era sem dúvida uma agricultura biológica, toda estrumada, com excepção das colheitas de cereais, em que um dos lavradores ricos comprava o guano (nitrato do Chile, na altura, que também é estrume ainda que tratado e concentrado) e depois revendia às sacas. O ciclo do azoto era assim quase naturalmente obtido por força das próprias condições e hábitos envolventes.
 
A compostagem de resíduos orgânicos não se fazia porque em grande parte aquele pessoal utilizava os mesmos métodos de cultivo que os seus país e os seus avós devido a razões evidentes: os jovens não se interessavam pela agricultura (antes eram incentivados a escolher outras profissões e a partir) e a idade média do agricultor habitual não pressionava no sentido de haver modernização de métodos ou processos agrícolas. Por outro lado o volume de resíduos orgânicos era relativamente baixo: os talos das couves por exemplo eram picados para porcos e galinhas e havia a alternativa concentração de estevas apanhadas em monte que serviam em parte para o aquecimento das casas, para o forno (neste caso normalmente também loendro da ribeira) e para cozinha sendo o excedente (bastante) queimado em queimadas cujas cinzas depois se espalhavam pelos campos de sequeiro. O estrume era o mais utilizado (sendo mesmo abundante e ficando de ano para ano).
 
Não sei até que ponto a PAC (Política Agrícola Comum) terá contribuído para a desertificação e migrações mas não me parece por aquilo que sei, por experiência própria, que ela se tenha feito sentir de uma forma positiva directa junto das populações envolvidas. Todo o Concelho de Alcoutim (o mais envelhecido do País) sofreu uma razia monumental e nos últimos anos / décadas nada que tenha sido feito tem produzido o sentido inverso.
 
Em jeito de remate durante a feitura deste esboço tive acesso a estudos comparativos sobre a divisão da terra nas semelhantes zonas fronteiriças de Portugal e Espanha tendo verificado que tanto no que se refere à dimensão da propriedade, ao número de cabeças de gado e à dimensão dos núcleos semi-urbanos e urbanos as diferenças são quase abissais, pelo que a excessiva divisão da terra existente deste lado de cá da fronteira são pelo menos a causa predominante que de nossa lavra podemos apontar.
 
Fevereiro de 2010