quinta-feira, 2 de maio de 2013

O Natal do Mendigo - Conto de Daniel Teixeira

 
 
O Natal do Mendigo
 
Conto de Daniel Teixeira
 
 Tinha amealhado durante os últimos dias tudo aquilo que lhe fazia falta. Pouco a pouco, em caixotes de lixo, em sacos semi - despejados à porta das casas e na rua, nas calçadas ou nas sarjetas.
 
Por vezes encontram-se coisas com valor nas ruas. As pessoas são descuidadas, por vezes, nem sempre metem as coisas com cuidado nos bolsos e no silêncio da noite ou no ruído da cidade elas caem no solo e vão ficando, por ali, por vezes muito tempo.
 
Achava muitas coisas: relógios, envelhecidos pelo tempo que tinham passado nas calçadas, à chuva ou ao calor por vezes, velhos ornamentos, brincos, sobretudo, coisas de pouco valor, sempre, nunca lhe davam muito dinheiro por nada que encontrasse.
 
Em certo sentido ele pensava que se fosse ouro os outros pensavam que mesmo sabendo que era ouro, que o ouro que ele trazia valia menos que o outro ouro que as ourivesarias vendiam ou que o seu ouro não valia quase nada.
 
 Não se importava muito nem discutia com o senhor Armando aquilo que ele lhe pagava por aquilo que ele lhe levava: as coisas vinham sempre em mau estado e era ainda uma sorte para ele que ele quisesse ficar com elas e lhe desse algum dinheiro em troca. Recebia o que lhe davam, não protestava, nem tinha que protestar. Um mendigo não reclama, um mendigo pede, e as pessoas dão aquilo que podem ou querem.
 
Gostava de pensar que as pessoas davam tudo o que podiam. Era uma ideia que os seus amigos na sopa dos pobres por vezes gozavam e chegava a haver discussões sobre isso entre eles. «Dão o que querem!!» e «Alguns nunca dão nada», diziam. Não valia a pena - dizia - não vale a pena discutirem por causa disso, cada um pensa como quer.
 
Era a ideia que tinha da liberdade, era a sua liberdade. Ele conquistara-a, também, à sua maneira mas conquistara a sua liberdade. Ela não lhe caíra do céu. Fizera a tropa, na Guiné, mas não se deu muito bem com o clima e com as coisas que via e com as que ouvia. Não achava jeito as pessoas andarem a matar-se uns aos outros quando afinal o mundo é tão grande e há espaço para todos. E ainda sobra, sobra muito espaço mesmo.
 
E depois foram os amigos que foram morrendo, uns com tiros, outros com minas, outros que se mataram...não aguentavam mais. Aquilo era muito forte, para muitos foi mesmo muito forte.
 
Aquela incerteza de não se saber se era naquela dia ou não que iam lá ficar dá cabo das pessoas. E dera cabo dele, reconhecia. Fez a tropa toda, nunca levantou problemas lá, fazia o que o mandavam fazer, gostasse ou não.
 
Depois apareceu aquela miúda novinha, talvez para aí com catorze anos em frente à sua espingarda: os seus olhos tinham um branco muito branco à volta das pupilas quase apagadas.
 
Era cega, soube depois, mas disseram-lhe: «Dispara caraças, dispara» e ele disparou. Não gostou mesmo nada mas não disse nada também.
 
E era ela a sua companhia nesta noite da Natal, como todos os anos. Era a sua família. E tinha tudo preparado para ela também.
 
Dispôs um bocado de pano branco no chão a fazer de toalha, dispôs dois garfos de plástico que lavara na bica, mais um bocado de queijo que encontrara nas traseiras de um restaurante, duas pernas de frango assado, e ao centro o bolo, tinha um bolo de Natal, era um bolo rei. Comprava-o todos os anos.
 
Depois, passado um bom bocado acendeu a vela. Estava na hora, era sempre àquela hora que ela vinha, nunca se atrasava, e logo que acendeu a vela ela chegou.
 
Sangrava do peito, sangrava sempre, tinha ficado com essa marca no peito, e não saía mesmo, por mais que ele a quisesse lavar, por mais que ele tentasse estancar o sangue. Aquele sangue não se apagava e corria sempre, sempre, e era muito vermelho...muito vermelho mesmo.
 
Ela sentou-se no chão à sua frente e comeu um pouco do queijo, do frango e do bolo. Não disseram uma palavra. Ela nunca falava com ele, nunca lhe dizia nada. Depois, um pouco depois, cantaram como sempre faziam ao Menino Jesus:
 
«Alegrem-se o céu e a terra
 cantemos com alegria
 já nasceu o Deus Menino
 filho da Virgem Maria»
 
Daniel Teixeira

O Larussas - Conto / crónica de Daniel Teixeira

 
 
O Larussas
 
 Conto / crónica de Daniel Teixeira
 
 O Larussas foi um cão que eu tive e não tive, ao mesmo tempo. Rafeiro, arraçado de pequinois, tinha aquela facies que é própria desta raça, com os dentes inferiores sobressaídos e o focinho escorrido, com os olhos pequeninos numa angulação ligeiramente elevada: tinha mesmo uma percentagem genética larga de pekinois.
 
E eu gostava sobretudo de ouvir a minha mãe «conversando» com ele e gostava de ver o animal de língua de fora todo contente por ter alguém que «dialogava» com ele: e a minha mãe a dizer-lhe;
 
«Ah! Larussas, que feio tu és, nunca vi um cão tão feio!» e ele abanava a cauda como se entendesse naquelas palavras o contrário daquilo que elas queriam dizer e lá lhe punha as patas no colo, descia-as depois e dava uma voltinha ou duas, acabando por vezes por correr atrás da cauda.
 
Quando encontrava a minha mãe neste «diálogo» dizia-lhe brincando para não dizer isso ao animal porque ainda o traumatizava psicologicamente ao que ela respondia mais para mim do que para o cão, como será claro, que de facto ele era tão feio, tão feio que até se tornava bonito de feio que era.
 
Tenho a certeza que esta imagem me ficou gravada também porque o Larussas para mim foi um pequeno herói da sobrevivência. Levou talvez mais de um mês até ser admitido no círculo familiar, dormindo no degrau à porta da nossa casa e recebendo em duas tigelas comida e água.
 
Mas não largou, nunca largou, nunca se afastou. Os animais podem não pensar mas sentem e ele sentia que era ali que estava a sua casa, a sua nova casa. E ganhou-a, essa casa, esse lar, se quisermos, logo que o verão acabou e começaram a cair os primeiros pingos de chuva.
 
Fizemos-lhe uma cama numa casa de arrumação no nosso quintal que lhe serviu para sempre.
 
Nunca exigiu mais e tinha condições para «exigir» espontaneamente: o outro ficava em casa, era um cão de guarda, ao fim e ao cabo e ele quando chegava a sua hora sempre preferiu recolher-se à sua «casa».
 
Perdido ou abandonado apareceu um dia na companhia do nosso cão «oficial», um enorme Serra da Estrela e na altura não se colocou a questão de ter mais um animal em casa.
 
O título de sobrevivente que eu lhe dou não se deve só a esta sua persistência: na altura frequentávamos três casas na cidade de Faro, todas elas distantes entre si e quando se sentia sozinho, enquanto o outro ficava bem onde estava só ou acompanhado este tinha de ter gente nossa à vista, por isso era um caminhante nato. De patas pequenas fazia por vezes quilómetros para nos encontrar.
 
Um psicólogo francês disse há anos que se soubessem que ele psicanalisava cães seria motivo de gozo entre os colegas, mas eu não tenho problemas com isso: na minha opinião o pobre do animal ficou traumatizado por ter sido abandonado e a memória dos cães é enorme, muito maior que a nossa, disso não tenho dúvidas e acho que ele sentia que quando não havia gente da «família» perto dele isso era um mau sinal.
 
Deve ter ficado com essa «ideia» gravada, por isso nos procurava afanosamente todas as vezes que eram necessárias, percorrendo do Bom João à Penha e da Penha à Baixa e fazendo o percurso inverso quando necessário. Encontrei-o muitas vezes nesta sua andança, reconhecia-me, cumprimentava-me, mas faltava eu estar em casa, numa casa «nossa» e ele logo repartia.
 
Andava livremente, tinha uma capacidade para se desenrascar extraordinária, sabia tornear os enormes cães que se plantavam todas as manhãs na zona exterior dos talhos no Mercado antigo à espera de um osso, sabia que o território era deles e que com o seu corpinho as hipóteses de sair dali sem mazela eram curtas e por isso fazia o percurso para o Mercado por um lado e passava para o outro lado da rua na altura própria, regressando depois ao trilho passado o potencial perigo.
 
Já tive e não tive vários cães e nenhum deles foi admitido - se quisermos utilizar o termo - por mim. A minha vez de ter um cão «meu» nunca chegou porque o lugar esteve sempre ocupado por escolhas de outros familiares, mãe, pai, filha e os cães vadios que se escolheram a eles mesmos.
 
Mas o Larussas, talvez pelo seu espírito de luta e por eu ter pensado bastante nisso ficou marcado na minha memória por estas razões. Outros ficaram por outras.
 
Mas sempre admirei a persistência e a capacidade de sobreviver, a capacidade de se cair e de se reerguer, sempre e de novo, mesmo que tudo isso seja muito difícil.
 
E o Larussas foi sempre como uma árvore, penso que ele «pensava» que quando tivesse que morrer morria, como morreu, de pé.

COLUNA UM - Daniel Teixeira - A inolvidável leveza de se ser

 
 
COLUNA UM - Daniel Teixeira - A inolvidável leveza de se ser 
 
Algumas pessoas, não muitas, têm-se-me queixado (delicadamente) que eu escrevo e falo de uma forma muito complexa, que devia ser mais acessível naquilo que escrevo e digo, enfim...que deveria esforçar-me por ser menos eu sendo mais eu para o outro.
 
Este problema, se é que é um problema, tem atravessado gerações: sabemos que uma coisa e outra têm os seus inconvenientes, ou seja, dar às pessoas aquilo que elas querem esmagando ou pelo menos flectindo aquilo que somos ou mantermo-nos como somos esperando que as pessoas nos entendam abrange todos os sectores da sociedade.
 
Eu próprio me queixo do mesmo, por vezes: a enormidade de siglas por exemplo que são familiares a algumas pessoas que são ditas com naturalidade e presteza e que eu tenho dificuldade em entender desde logo e peço explicação será um caso. Exemplo fraco, eu sei, mas não deixa de ser um exemplo.
 
Eu ainda não consegui aprender as siglas que referem os diversos Estados do Brasil e eles são uma remessa deles assim como não percebo peva da distribuição geográfica e horária actual no Brasil: deveriam os Brasileiros tornar-se mais acessíveis para mim, por exemplo (e para mais gente ao que sei) traduzindo desde logo para palavras correntes aquilo que querem dizer com DF (esta eu sei, Distrito Federal!) ou com a divisão territorial Região Norte, Região Nordeste, Região Centro Oeste, Região Sudeste e Região Sul ? (cabulei isto tudo, esclareço).
 
O exemplo pode não ser o melhor mas dá uma ideia das diferenças de terminologia que são necessárias...porque são necessárias! E não há outra forma de dizer as coisas sem deixar de as dizer ou sem ter de se fazer uma detalhada exposição sobre o que nós chamamos de «explicar o funcionamento do relógio quando se perguntam as horas».
 
A minha vida tem-se debatido com esse problema ao longo dos tempos uma vez que tenho trabalhado não pouco amiúde no jornalismo: deve-se «dar» às pessoas aquilo que elas querem ou antes deve-se exercer uma função didáctica (com que direito e com que delegação ou autoridade pudemos perguntar...).
 
Bem, não será esse o caso que devemos colocar em cima da mesa para discussão: qualquer diálogo se faz entre pessoas que forçosamente são diferentes, mesmo que as afinidades possam existir em campos específicos. A moldagem dos discursos faz-se nesse mesmo diálogo, nessa interacção e nem sempre resulta, todos sabemos.
 
Os ensinos sobre saúde e prevenção da doença, por exemplo, e para falar num campo que conheço também relativamente bem têm sérias possibilidades de cair em saco roto...umas vezes por desfasamento que não é de ordem verbal, mas sim da ordem dos costumes.
 
A unidade das linguagens é impossível de ser realizada e aliás é também isso que faz a riqueza dos movimentos linguísticos: características específicas devem ser mantidas, na minha modesta opinião:
 
Quem não percebe esta comovente história CAIPIRA do nosso amigo Acas?
 
Antônio Carlos Affonso dos Santos. - ACAS, o Caipira Urbano.
 
Das veiz eu gosto de apreciá as natureza!
 
 Das veiz eu gosto de apreciá as natureza! Nóis que é da roça, muitas das veiz adivinha se vai chovê; se o sór vai saí; se o vento é de chuva ô de tempestade; quar é a hora de prantá o arrois, o mío ô o fejão. Nóis sabe. E num é que ninguém ensinô nóis não; - só se for Deus.
 
Mais, na natureza tem os outro ser vivente que nóis arrespeita. Tem as borboleta que enfeita as mata ( eu aprecio por demais uma borboleta chamada «dama da noite» que tem deiz veiz o tamanho das outra, toda azur, e que só sai no poente do sór, bem no lusco-fusco). Gosto dos passarim tamém; inda mais se fôr bunito e subé cantá. Mais os outro bicho muitas das veiz nóis mata pra cumê. Eu só nunquinha que tinha pensado nas inteligença dos bicho, inté que eu mêmo vi com meus óio, que a terra há de cumê.
 
Num domingo com sór de estralá mamona, eu tava na rede da varanda dando um cochilo. Acordei com um bem-te-vi cantando ali no balaustre, numa lunjura de uma braça. Na varanda tinha um trem véio que a muié dexô ali pra numseioquê. Em riba duma mesa, tinha um vidro branco que eu achava que era remédio. O vidro de boca estreita tava pela metade de água (parece que a muié colocava flôr nele, como se fosse vaso).
 
O bem-te-vi viu o vidro e ficô rodano em vorta. Deu uma ô duas bicada no vidro duro; dispois subiu no gargalo e enfiô o bico: a água tava muito embaxo. Tentiô, pelejo, umas deiz veiz.
 
Desacorçoado ele vuô, foi embora. Pensei que ele tinha desistido, quar o quê! Ele vortô cuma pedrinha no bico, subiu no gargalo e jogô a pedra lá dentro e azulô, foi embora. Mais ele vortô mais deiz, vinte, trinta veiz., e cada veiz tacava a pedrinha lá dentro. Eu cansei de vê aquilo e dormi, tarveis uma meia hora.
 
Quando acordei, vi o vidro que tava com pedra até o pescoço. Ao lado do vidro, o bem-te-vi com a famía ( uma fema e dois fióte). Um de cada veiz subia no gargalo do vidro e tomava água à vontade.
 
Das veiz eu penso os home são anssim tamém. A diferença é que muitos deis adesiste de carregá pedra, mêmo que isso seja bão pra famía e pra si própio.
 
 Pois, digo eu (Daniel) agora, no que se refere à lingua e às linguagens: «muitos deis adesiste de carregá pedra, mêmo que isso seja bão pra famía e pra si própio.»
 
Daniel Teixeira

terça-feira, 30 de abril de 2013

Pacatez

 
 
Pacatez
 
O suspense, ah, o suspense, aquela certeza incerta ou aquela incerteza certa de que algo vai ter lugar, que alguma coisa vai acontecer, seja como for e da forma que for é seguramente um atributo da mente humana que não tem nem pode ter explicação racional. Mas esteve ali comigo, naquele dia, naquela hora, naquele local.
 
Segundos antes eu era apenas uma pessoa sentada num banco de jardim, uma pessoa qualquer, alguém que procurava fazer passar o tempo, ou deixá-lo passar por mim, tanto me fazia.
 
Segundos antes : ouvia os pássaros a chilrear, o ruído das ramagens das árvores bandeando ao vento, as buzinas de carros e comboios lá ao longe, o chapinhar da água de encontro aos muros da doca, os gritos agudos das gaivotas e tudo, mas mesmo tudo,  parecia normal.
 
Depois veio aquela sensação estranha, aquele incómodo, aquele aperto no estômago, aquele acelerar da pulsação, aquela sensação incerta e mista de medo e de expectativa, e mais nada ficou normal dentro do meu pensamento: ia acontecer alguma coisa, eu sabia, sabia isso. Mas não sabia o que seria.
 
Contudo não demorou muito até tudo acontecer, poderia dizer felizmente porque para mim foi libertador, ou seja, libertei-me de uma sensação de indefinição para passar a viver uma situação que podia definir mas ainda hoje estou sem saber se na altura senti que uma situação foi melhor que a outra.
 
Ouvi o grito, um grito longo, um grito de socorro, estridente, talvez a cinquenta metros de mim, para trás de mim e virei-me quase instintivamente. Não vi nada. As ramagens que bordejavam a álea não me deixavam ver, ramagens espessas, recortadas. E era dali que tinha vindo o grito, aquele grito longo. Tentei levantar-me e correr, senti vontade de intervir, tentei, estou absolutamente certo de que tentei, mas as pernas não me deixaram.
 
Ouvi o grito de socorro de novo, e de novo, e de novo, estridentes, prolongados e depois apercebi-me que enquanto os gritos, aqueles gritos, iam durando o seu volume baixava e se ouvia como que um debater quase silencioso nos silvados e que finalmente quase tudo desaparecia como que num soluço para voltar a aparecer de novo, para voltar a ouvir-se de novo e para voltar a silenciar-se aos poucos.
 
Confesso, hoje posso confessar, agora que já passou algum tempo que foram as minhas pernas que não me deixaram sair do banco onde estava sentado e correr em direcção ao grito porque era isso que eu queria mas foi isso que eu não consegui.
 
Desde esse dia, quando me sento naquele banco de jardim lembro-me daqueles gritos de socorro sobre a origem ou a causa dos quais nunca ninguém disse nada. Eu vivo numa cidade pacata, as pessoas são pacatas, se alguma coisa aconteceu ali ninguém iria falar nisso.
 
Mas nunca mais senti aquela sensação de intranquilidade, aquela sensação estranha, aquele incómodo, aquele aperto no estômago, aquela sensação incerta e mista de medo e de expectativa e isso é bom, para mim é bom.
 
O que quer que fossem aqueles gritos, viessem donde viessem e fossem pelas razões que fossem, em cada um dos dias que lá me sento, logo que são passados os primeiros minutos sei que nada vai acontecer. Sinto isso.
 
Série Contos Impopulares
 
 
 

terça-feira, 23 de abril de 2013

Jornal Raizonline nº 184 de 20 de Agosto de 2012 - COLUNA UM - Daniel Teixeira - As minhas memórias mais próximas (V) - Os bolos da Dª Maria Teresa

 
 
Jornal Raizonline nº 184 de 20 de Agosto de 2012 - COLUNA UM - Daniel Teixeira - As minhas memórias mais próximas (V) - Os bolos da Dª Maria Teresa

Por vezes fico com um ar de surpresa em relação a mim mesmo no que se refere a recordações e ao processo de selecção que a minha mente vai buscar como elemento que ela considera relevante e despoletador da recordação de um dado facto ou conjunto de factos.
 
Acho, usando um pouco do meu raciocínio (nada disto pretende ser  válido em termos científicos e nunca li isto em lado nenhum que me lembre) que a mente usa cábulas, daquelas que se usavam na escola (quem era cábula é claro) que dão início ao desenrolar consequente da mensagem arquivada na nossa mente.

Pois, (nunca cabulei, asseguro) há dias, estava eu em conversa com pessoas do meu bairro e veio à tona da conversa a Dª Maria Teresa. Fiquei surpreso, como já dei a entender acima, pelo que acho preocupante a rapidez da minha resposta no seu conteúdo: «Verdade, era uma excelente senhora...e sabia fazer bolos muito bem.»: acho que deveria ter  referido antes aquilo que mais choca nesta história, é que morreu praticamente no anonimato.
 
A D. Maria Teresa quase que terá nascido para a doçaria caseira e como tinha pouco ou quase nada que fazer dedicou-se a fundo sendo uma verdadeira e nossa muito solidária expert desde que começámos a conhecê-la: fomos vizinhos, casas lado a lado, e praticamente tinha uma fabricação continuada para consumo próprio e das amigas e vizinhas, o que muito nos alegrava, sobretudo a nós crianças e jovens.

Solteirona, coisa que não se dizia, em princípio deveria ser «Menina Maria Teresa» como é uso, mas foi nominalmente sempre «dona». A história tem aspectos bons e aspectos menos bons: ficou a cuidar da mãe, que enviuvou cedo e a Dona Maria Teresa também não deve ter feito grandes esforços para constituir família mesmo anos depois após o falecimento da mãe. Talvez considerasse que já que era tarde, talvez estivesse solidificada na vida a sós, enfim...também ninguém é obrigado a casar e a constituir família.

Beata, tal como se dizia também, passava uma parte substancial do seu tempo na Igreja e em conversas com amigas igualmente «beatas»: um irmão dela, comerciante, apoiou-a sempre financeiramente e embora nunca me tenha preocupado em saber isso, o seu comércio teria sido familiar com o falecido pai, sendo o contributo dele também uma parte daquilo que supostamente seria também propriedade dela.
 
O irmão faleceu muitos anos depois, teria ela já cerca de 60 anos e a D. Maria Teresa ficou resumida em termos financeiros a uma reforma curta: os bolos começaram a rarear nessa altura.
 
O processo de queda financeira não acabou só com os bolos, praticamente acabou com tudo, acabou com ela também muito mais que o percurso normal da idade. Afundou-se, mais em termos anímicos do que em termos físicos...

Havia um sistema de comunicação entre as nossas casas: subir até à altura do muro de divisão nos quintais geminados e um outro composto de pancadas na parede, na zona da cozinha e no corredor, em que se procurava saber se ela estava bem ou não: se respondesse aos chamamentos ou ao sistema de toques nas paredes estava tudo certo, quando isso não acontecia tínhamos uma chave da casa dela: primeiro ia a minha mãe, nestes casos; a D. Maria Teresa era extremamente pudica e mesmo quando a encontrava caída sem se conseguir levantar e não tinha forças para o fazer, primeiro compunha-lhe a roupa e só depois vinha buscar ajuda.
 
Durou talvez cinco anos esta situação: depois acamou e foi para um lar. Fomos informados do seu falecimento por acaso, no dia em que lha íamos fazer a visita semanal, já tinham passado vários dias...
  
 Daniel Teixeira
 
 

Crónicas e ficções soltas - Alcoutim - Recordações XXXIV - Por Daniel Teixeira - A nossa piscina

 
 
Crónicas e ficções soltas - Alcoutim - Recordações XXXIV - Por Daniel Teixeira - A nossa piscina

Falar em piscina em Alcaria Alta, pelo menos na altura em que andei por lá jovem ou criança, seria introduzir um neologismo no vocabulário local e depois do que vou escrever em seguida seguramente ainda hoje será considerado exagerado o termo.

Numa primeira vista, esclareça-se, porque piscina advém de peixes e muito pouco tem a ver com o actual sentido que lhe é dado maioritariamente. Por isso eu dizer que tínhamos uma piscina (várias, até) em Alcaria Alta não é totalmente um absurdo: não davam, na sua grande parte, para nadar (salvo alguns pegos mais resistentes à seca do verão já na Ribeira da Foupana ou mesmo no Ribeirão) mas até os poucos que sabiam nadar, nós, os da cidade, não tínhamos assim uma tão grande apetência para a braçada.

Habituados à água salgada, mais «pesada» como dizíamos, era uma trabalheira enorme para nos mantermos à tona da água doce (levezinha) pelo que utilizando a sempre presente em qualquer idade lei do menor esforço ficávamos pelo «molho» a meia altura com mergulhos só da cabeça para alisar o penteado. Aliás ainda bem que não nos lembrámos de andar a saltar das rochas porque os fundos eram bastante irregulares e surpreendentes.

Mas a nossa piscina, a piscina do dia a dia era um poço numa horta: dava-nos a água aí pelos ombros, sensivelmente, era extraordinariamente límpida antes da primeira entrada e descíamos e subíamos com a força dos braços. Juntávamo-nos três e quatro num espaço que acabava por se tornar exíguo e tínhamos direito a banho de lama de borla ao fim de dois minutos de termos entrado.

Estava este poço situado numa horta que ficava a seguir ao poço de baixo numa zona ainda sem denominação específica que me lembre mas que ficava próximo das Almargens : era só descer mais vinte metros e estávamos lá, na zona das  Almargens que ficava perto do Almarginho, este seguramente com este nome diminuido por relação de proximidade e de semelhança e continuidade.
 
Numa direcção oposta e distante, já no caminho que fazíamos a butes para Martinlongo fora da estrada porque era mais muito mais curto o percurso, e virado para o outro lado do Monte e a uma distância dali onde estávamos de pelo menos um quilómetro ficava o Almarjão, onde cultivávamos uma horta.
 
Nunca percebi muito bem a lógica destas denominações mas que não era sempre por relação de proximidade me parece ser certo: talvez fosse pela forma, pela localização em dado tipo de terreno, pelo contorno que os cursos de água davam às hortas, pelo desenho que a erosão das elevações ia plantando no sopé dos montes: deveria saber mais sobre isto e estudar um pouco estas coisas, é um facto.

Havia um sítio que era merecidamente chamado da «Areia fina», logo à saída do Monte, porque, por estranho que nos parecesse a areia era mesmo fina, quase tipo praia: já teria havido ali um curso de água com dimensão grande mas já não havia na altura e há centenas de anos provavelmente: nunca ninguém, me falou em ter visto água ali a não ser a das enxurradas do Inverno que desciam do bairro do Além.
 
O processo do nosso banho perto das Almargens era demorado mesmo: bastava meia hora de banho para termos quinze minutos de segunda lavagem a balde num outro poço e enxaguamento ao sol. Desincrustar a areia, a lama e toda a sujeira natural que os bordos do poço iam debitando e que se colavam sobretudo na parte mais visível,  que era o cabelo,  era a segunda fase obrigatória no processo.

Mas era bom, fazia calor de rachar e tudo o que abrandasse a sensação de estarmos a torrar era bem aceite. Os montanheiros adultos não tomavam de facto muitos banhos porque não tinham as possibilidades que nós crianças tínhamos. Aproveitávamos  a hora de caçar (quase nada sempre) neste poço de baixo , hora esta que era mais farta de possibilidades na força do calor aproveitando a altura em que os pássaros iam beber nas pequenas poças de água que se formavam à volta do poço.
 
De esclarecer que era o poço das bestas e que resto de balde não bebido por um animal tinha de se deitar fora...e deitava-se logo ali, para voltar a ser filtrado pelo terreno e regressar donde tinha vindo, pelo menos assim se pensava. A sapiência dos povos é grande :  uma besta, seja ela asinina, muar ou cavalar, não bebe água já tocada pelos lábios (beiços) de um outro pelo que não dá para dar o resto a outro e voltar a jogá-la para dentro do poço também não dava, porque mesmo sendo um poço na altura exclusivamente para animais, nunca se sabe o dia de amanhã.
 
Quando me lembro destas coisas, e regressando agora às nossas piscinas, sei perfeitamente que era uma grande porcaria e que o poço só mantinha a água limpa se lá não entrássemos: logo uma coisa implicava outra; tomar banho (para nos limparmos por definição) implicava que nos sujássemos mas nada impedia aquela agradável sensação de frescura em plena força do verão.

Estas pequenas coisas, desaparecidas agora, são coisas e tempos que não voltam mesmo mais. Qualquer criança agora não fará nada disto, nem sequer se aconselha que o faça e nem terá condições para fazer o mesmo. Isso é que torna também as coisas de hoje por vezes tão urgentes e tão prementes e tão necessárias para serem usadas ou feitas mesmo: muitas das coisas que fazemos ou não fazemos hoje podemos nunca mais vir a fazê-las o que faz com que cada um de nós tenha condições e momentos que são mesmo únicos no sentido mais absoluto do termo. Não sabemos exactamente quais, é um facto e nunca saberemos o último segundo de cada coisa.

E descontando esta parte desagradável da areia e do barro no corpo e no cabelo quantos de nós sentimos alguma vez ao tomar hoje um seguramente mais higiénico duche que provavelmente estaremos numa época de viragem e que talvez não amanhã mas um dia destes aparecerá outra coisa qualquer que faça com que esse nosso actual prazer de sentir correr a água pelo corpo seja daqui a muitos anos objecto de saudosa recordação tal como eu fiz agora?

Daí a aceitação neste plano, mas só neste plano e nos aspectos com ele relacionados dentro dos mesmos princípios lógicos, da frase de Virgílio na Eneida, carpe diem quam minimum credula postero, «aproveita o dia, confiando o mínimo possível no futuro». O mínimo possível do futuro não é todo o futuro, como é claro, é só o mínimo...
 
 

quinta-feira, 18 de abril de 2013

Verdade ou mentira? - COLUNA UM - Daniel Teixeira

 
 
COLUNA UM - Daniel Teixeira -  Verdade ou mentira?
 
 Falar verdade segundo o nosso amigo Aristóteles é, sumariamente «dizer daquilo que é, que é e daquilo que não é que não é». Assim segundo este velho mas sempre actual filósofo, não se trata apenas de afirmar pela positiva mas também de afirmar pela negativa, ou seja, dizer também do que não é que não é.
 
Quando se fala a verdade, normalmente e no entendimento comum, é falar / dizer «apenas» a primeira parte do exigido, esquecendo-se muitas vezes, o «dever» de afirmar pela negativa.
 
Dizer o «Rei vai nu» não chega, portanto, também seria necessário dizer, caso fosse outro o caso, que o Rei não vai bem vestido, por exemplo, caso o dito rei trajasse um hábito que não fosse próprio da sua condição, por exemplo, isto entendendo, que a sua posição requeria um trajar diferente daquele que ele levasse.
 
Talvez 90% das verdades que se dizem, neste mundo, numas contas muito sumárias, sejam verdades ditas no primeiro sentido: a verdade afirmativa. Utilizam-se os outros 10% também normalmente para fazer critica política, esgotando-os quase sempre. Não fica margem para mais...
 
No entanto esta segunda forma de dizer a verdade, negando uma outra «verdade» ou dizendo simplesmente daquilo que não é que não é, seria, na minha opinião a forma mais interessante de dizer a verdade. Uma parte dos 90% de verdades ditas, uma parte grande, são cobertas pelas afirmação da evidência. Assim é como dizer verdades de nada...é como «encher pneus».
 
A nossa sociedade em qualquer parte do mundo precisa de mais verdades que contestem e de menos verdades que digam o evidente, aquilo que toda a gente sabe, aquilo que toda a gente vê. «O Rei vai nu», dito por uma criança, teve apenas o condão de dizer aquilo que todos viam.
 
A  piada da afirmação / constatação do miúdo é que a verdade «submetida» ao politicamente correcto ou à crença se libertou. Mais nada...
 
No caso da cultura e da arte também precisamos mais de afirmações pela negativa...dizer por exemplo que muita «poesia» que anda por aí por essa Net não é poesia, que muitos escritos são meros exercícios de lustração egocêntrica.
 
Enquanto a percentagem de verdades ditas pela forma da contestação não subir percentualmente de forma sensível não saímos mesmo da cepa torta.
 
Sejamos tolerantes com todos sim mas sejamos amigos  de todos também não enganando o próximo com a nossa «verdade» politicamente correcta...
 
  Daniel Teixeira