terça-feira, 9 de abril de 2013

Coluna Um - Há problemas na divulgação da ideia de comunidade de língua portuguesa?

 
 
Coluna Um
 
 
Há problemas na divulgação da ideia de comunidade de língua portuguesa?
 
Daniel Teixeira
 
A Comunidade dos países de língua portuguesa (CPLP) parte de uma ideia difusa que nem sempre e nem por todos é possível acompanhar: uns porque não chegam lá, à ideia, outros porque não podem (dada a sua formação) e outros porque não querem, chegar a essa ideia.
 
Contudo ela é simples, em si, como ideia mas vale a pena darmos aqui aquela ideia que nós temos dessa mesma ideia, pelo que comecemos pela história. Pessoalmente nunca fui um adepto muito convicto da ideologia que foi defendida em várias matizes de que existia, da parte dos portugueses, um dom especial que os levava a conseguir um relacionamento privilegiado com outras raças e culturas.
 
Povo com uma tradição cultural estreita, com sangue elitista (azul, terra tenente, e residualmente burguesmente industrial) eram de rejeitar desde logo as ideias peregrinas de que essa potencialidade de relacionamento privilegiado se encontrava em cada pessoa, em cada um de nós.
 
A conhecida Junta do Ultramar tem nos seus arquivos excelentes trabalhos teóricos (e práticos) de alguns cientistas sociais que, procurando justificações para o lançamento dessa ideia do «dom» relacional, procuravam, num arroubo que se queria de realista, encontrar a origem desse «dom» não no factor cultural, mas sim no factor acultural: ou seja, para esses teóricos (Jorge Dias à cabeça) a nossa vantagem no relacionamento com os outros povos advinha antes da nossa ignorância e do estado imberbe dos nossos sistemas de exploração económica, que, no seu conjunto, se constituíam como factores de convergência relacional perante os povos colonizados e logo igualmente - ou num outro grau próximo - pouco desenvolvidos.
 
A ideia teve o seu cheque mais notável em acontecimentos que muitos preferem esquecer, ao lançar-se uma colonização, nomeadamente em Angola, baseada nestes princípios: como os portugueses eram ignorantes e pouco formados em termos tecnológicos nada melhor que colocá-los na mesma situação dos povos indígenas onde alegadamente eles funcionariam como um elemento catalisador dado o diferencial, mesmo mínimo, entre estes e os locais.
 
O processo, que é sempre pouco referido, teve pelo menos o mérito - e que me perdoem os descendentes desta muito sofrida operação - de mostrar que afinal não eram os povos indígenas que exploravam inconvenientemente as suas parcelas agrícolas - que eram a base da sua economia - mas sim que o problema ia para além disso o que no fundo se pode traduzir no chavão mais conhecido da economia: falta de estruturas.
 
A chamada «inteligência» portuguesa estava mais interessada no acantonamento junto das Cortes do que em produzir ou fomentar a produção. A atracção pelo Estado protector (e pouco exigente em termos de retorno), alimentado bastamente antes pelas caravelas vivia ainda esse período em termos ideológicos e foi vivendo assim (e de certa forma vai ainda vivendo assim).

Resultado disso, mesmo nos tempos mais recentes, já nos finais do Sec. XX, a exploração de mão de obra foi sempre intensiva, o investimento em tecnologias quase nulo e compreende-se não se compreendendo a falta de visão estratégica do pelo menos imberbe empresariado: uma máquina custava mais que manter os trabalhadores que ela iria substituir, daí a manutenção de uma política de exploração da mão de obra barata.
 
Nestes termos, o colonialismo português não foi nem melhor nem pior que os outros, na sua prática diária, mas teve a seu favor - se quisermos considerar assim - o facto de, em termos numéricos de população colonizadora, nunca ter tido bases para se alicerçar numa autonomia solidária entre «iguais» bastando-se a si mesma.

A negociação com os autóctones (mão de obra ainda mais barata) impôs-se desde sempre e as potencialidades em termos militares nunca conseguiram implantar um colonialismo «puro e duro». Outras fossem as circunstâncias e outro galo não cantaria agora na CPLP.

Mas, e regressando ao presente, estas condições sociais acabaram por fomentar todo um conjunto de factores interligados entre os quais vamos agora referir a miscenização (termo ingrato, mas cientificamente correcto). Ora a miscenização por muito desagradável que possa parecer a afirmação, processa-se entre o povo e constrói laços de afinidade suficientemente distanciados das elites que lhe permitem um regime de vivência autónomo.

Assim, é nas bases da sociedade, quer dizer, nas classes menos favorecidas que se desenvolve o sentimento de igualdade (ou de desigualdade menor) apesar das exclamações à boleia das classes mais favorecidas.

A recente guerra do Alecrim e da Manjerona ortográfica é disso um exemplo claro (ao lado de outras com a mesma base): a chamada «intelectualidade» elitista comunga dos mesmos princípios que temos vindo a referir; não lhe restando, como factor de diferenciação interventiva senão a defesa da tradição que os alimentou e alimenta à sombra de uma ainda farta bananeira estatal e mecenária (não confundir com mercenária) estão contra a abolição do «p» e do «v» e contra o acrescento do «a» e do «b».

Mas quem se preocupa com estas vozes ainda não sabe (infelizmente) que elas não chegam ao céu da realidade do dia a dia.
 
 
 

sexta-feira, 5 de abril de 2013

COLUNA UM - A violência nas escolas e os massacres

 
 
COLUNA UM -  A violência nas escolas e os massacres
 
 
Todos, ou quase todos, andámos na Escola e todos sabemos melhor ou pior aquilo que o tradicionalmente chamado de sadismo infantil pode produzir. O assunto anda muito mal estudado, e mesmo a nível da psicologia publicada a situação, sendo de alguma forma clara, acaba por ficar escondida dada a delicadeza do tema. Ninguém está interessado em mostrar a jovens em formação psíco - social aquilo que eles mesmos fazem (quando fazem) ou aquilo que eles mesmo não fazendo têm ou podem ter vontade de fazer .
 
A minha escola, contudo, foi antes da escola e depois da escola, como com toda a gente. A maior parte das pessoas não liga uma coisa à outra e até por comodismo psicológico prefere estabelecer a existência de dois ou diversos compartimentos estanques: antes da escola e depois da escola, vida familiar e vida escolar, vida na escola e vida fora da escola, etc.
 
A institucionalização que a Escola apresenta e fomenta sempre foi um problema muito mal digerido na sua compreensão: sejam elas instituições totais, quer dizer instituições onde as pessoas passam a esmagadora parte da sua vida ou uma parte substancial dela com contacto ou não com a sociedade á sua volta, seja ela a micro - sociedade local, seja ela a sociedade em geral, sejam elas ainda instituições às quais se adere voluntariamente ainda que com algum grau de obrigação, caso das escolas de escolaridade dita obrigatória, do serviço militar obrigatório, etc.
 
A utilização de uma lógica de grupo não espontaneamente constituída, a variedade dos graus de formação social e capacidades económicas e intelectuais diferenciadas, é tudo agrupado num conjunto de regras gerais, tipo lógica de código penal, em que sumariamente se diz, ainda que de forma indirecta, as sacramentais iniciais frases do penalismo:«Aquele que...fizer isto ou aquilo...incorre nisto ou naquilo».
 
Para uma criança, ou para um jovem, é, por vezes difícil entender muita coisa, nomeadamente quando se trata de regras com algum grau de preventivismo: por exemplo não se pode ir à casa de banho das meninas, mesmo que ela esteja vazia e se deixe um colega à porta prevenindo, estando a casa de banho dos meninos com enorme fila e apertando a fisiologia em extremo incontível.
 
Claro que a ideia é não romper o princípio, manter a privacidade de um sexo e outro, mas para quem tem de fazer o que quer que seja nas calças e sujeitar-se á chacota posteriormente a norma é nitidamente absurda, naquelas condições. São inúmeros os exemplos daquilo que se pode compreender metendo-nos agora dentro da nossa mente que também já foi infantil e juvenil. Ficamos com a ideia, para esta crónica, de que há coisas que se entendem numa leitura mas não se entendem (compreendem) numa outra leitura.
 
Os fenómenos actuais que se relacionam com a violência juvenil, seja ela nas escolas ou fora delas, nascem onde calha, ou seja, nascem consoante a ocasião, e muito pouco têm a ver com a escola em si senão pelo facto de aí poder haver uma maior regulamentação evidente e por aí se passar, de forma concentrada, socialmente, um largo tempo de vida, acrescido na sua potencialidade de captação pelas limitações do espaço, pela uniformidade relativa do ambiente, pelo número de potencialidades do acontecer.
 
Se alguma vez fossem feitas as contas, e hoje fazem-se estatísticas para quase tudo, seria interessante saber-se a quantidade de eventos diferenciados e uniformizados acontecidos em ambiente escolar em comparação com aqueles que têm lugar fora do ambiente escolar. Só como exemplo, e porque me veio à ideia, num estudo americano (são sempre os americanos) num outro campo, chegou-se à conclusão que os enfermeiros (os questionados, cerca de 900) são distraídos da actividade que executam entre 4 e 6 vezes em média e que o leque de distracções dessa sua actividade abrange 11 itens.
 
Ora, continhas destas nunca foram feitas nem nas escolas nem nos miúdos (sejam eles mesmo miúdos ou menos miúdos) e o curioso deste estudo que falei sobre os enfermeiros é que ele foi feito a partir da altura em que os enfermeiros começaram a estar sujeitos também ao conceito do erro médico (de enfermagem, neste caso). Ou seja, foi feito porque começaram a entrar em jogo indemnizações, entidades publicas e privadas, seguradoras, etc.
 
Quanto à violência nas escolas, nada estando feito e ninguém se interessando por isso, assistimos com alguma frequência a verdadeiros massacres incompreendidos, a chantagens (bullyng) entre alunos, a pressões das mais diversas ordens, a violência física, a violações, etc.
 
Ora o mundo parece que acorda para a novidade cada vez que uma destas coisas é conhecida ou mais tragicamente acontece, quando deveria procurar conhecer o que está por detrás dos fenómenos. Uma Universidade, todas as Universidades, reforçam as medidas de segurança depois que um trágico caso acontece, mas em termos de inteligência, quer dizer, de informação, o que fazem. Nada, que eu saiba...
 
São capazes até de ser injustos em procedimentos, penso que é o próximo passo dentro desta lógica que tem mais de repressiva do que de preventiva, ao ponto de construírem bases de dados de alunos - problema, fazerem circular entre si essa informação, quando nada garante que cesteiro que faz um cesto faça um cento, apesar do ditado popular, anexando assim ao sistema de informação geral (social) aquilo que se manifesta em ambiente escolar em circunstâncias bem específicas e por razões igualmente específicas quantas vezes.
 
Tenho lido sobre violência nas escolas desde há muitos anos, pelo menos dez, e tenho visto que as soluções apontadas para resolução de problemas não são razões estudadas: na maior parte dos casos fazem-se experiências, como é o caso do aluno moderador que não será difícil confundir com o aluno «bufo» em terminologia escolar.
 
Ir à fonte dos problemas, poucas pessoas querem, até mesmo os pais e suas associações muitas vezes primam pela envolvência emocional desviando desde logo a possibilidade de uma análise cuidada dos factos.
 
Não digo que a violência nas escolas (até mesmo contra professores) ou que os massacres escolares que vimos a saber periodicamente estejam inteiramente dependentes e sejam resolúveis na sua incidência através desses estudos que qualquer ser racional hoje sente a falta.
 
Mas era bom ter uma ideia, quanto mais não fosse uma ideia, daquilo que se passa realmente nestas mentes sem ser a tradicional resposta desculpa do ambiente familiar (quando é mesmo desculpa pilatiana), da sociedade (esse saco enorme), da Net, da televisão, dos jogos de computador ou de qualquer outra coisa.
 
Tal como estamos, nada feito!!
 
Daniel Teixeira 
 
Publicado pela primeira vez no Jornal Raizonline nº13 de Março de 2009
 

quinta-feira, 4 de abril de 2013

Crónicas e ficções soltas - Alcoutim - Recordações IX - Por Daniel Teixeira - Inércia congénita

 
 
Crónicas e ficções soltas - Alcoutim - Recordações IX - Por Daniel Teixeira - Inércia congénita
 

Conforme tenho referido, penso que desde sempre, o Monte de Alcaria Alta e o pessoal que lá vivia (e vive ainda algum), de uma forma bem geral era possuidor de uma inércia confrangedora.

Em certo sentido acho que as pessoas trabalhavam porque era hábito trabalhar, em primeiro lugar, sabiam lamentar-se ou alegrar-se pela pobreza ou pela riqueza das colheitas mas tudo ficava no desgosto ou na alegria quase entre portas e tudo demorava muito pouco tempo. Sempre pensei isso em miúdo, fui pensando e as razões para pensar isso foram-se mantendo durante muitos anos.

Mais tarde, através da minha própria evolução pessoal, da experiência de vida que fui adquirindo, dos conhecimentos de ordem intelectual que fui coleccionando, acabei por verificar que talvez estivéssemos perante um caso de esgotamento, de uma convicção de que tudo tinha sido tentado já e que a minha ignorância do passado e das tentativas feitas antes de eu as saber, porque não tinha ainda nascido ou porque não tinha ainda idade para saber, era uma hipótese plausível.

Calhou a ler, por acaso no Arquivo Distrital aqui de Faro, um livro e depois mais do Professor Gomes Guerreiro, primeiro Reitor da Universidade do Algarve, e conhecedor de mérito da realidade algarvia. Em 1945 já ele fazia medições pluviométrias e poucos anos depois debruçava-se sobre a erosão na serra de Tavira. O Rio Gilão é uma desgraça em termos de assoreamento, como todos sabem: pois ele em 1954 propunha já uma solução minimizadora do impacto das chuvas: que os regos da lavoura se fizessem na forma de barreira contra o arrastamento. Já não penso agora que a inércia seja exclusiva de Alcaria Alta e do Nordeste Algarvio pelo que em face do sabido em Tavira duvido também que muita gente tenha seguido o conselho.
 
Na verdade era para mim então impossível conceber que se trabalhasse sempre da mesma forma, ou com pequeníssimas alterações, que não se lutasse para modificar alguma coisa, enfim...que o correr dos dias fosse assim...trabalhar de sol a sol em troca sempre do mesmo deflacionado ganho.

Um dia ou dois, talvez com os meus dez anos, procurei ajudar a seu pedido o meu avô a aprofundar um poço rasteiro: tirámos pedras, algumas lajes bem pesadas, todas à mão é claro e sem ajuda de ferramentas. Nem um martelo daqueles grandes e um escopro, que bem poderiam servir para reduzir o tamanho das lajes o meu avô levou...era assim mesmo e ali ficámos, de manhã à noite, até sem uma pá, usando os baldes de zinco para arrastar pedras e água e fazer monte à entrada do poço, deixar escorrer o minguado liquido de regresso e depois afastar um pouco, não muito, as mesmas pedras.

As mais pequenas, e situando-se o poço no final de uma encosta e encostado a um barranco, logo que chovesse mais acabariam por regressar ao sítio donde as tínhamos tirado, isso parecia-me evidente, mas...
 
E não era por falta de conhecimento dos instrumentos que assim acontecia: o meu avô tinha trabalhado na construção de troços da via férrea no Algarve e na estrada de Castro Marim a Balurcos, quando era ainda jovem. Tinha uma vivência bem recheada, com uma episódica vida de contrabandista, era negociante de panelas a troco, enfim...não era propriamente alguém que não devesse saber que as coisas não são feitas assim mas fazia-as.

Logo abaixo, a cerca de 50 metros, uma irmã da minha avó tinha o seu quinhão de terra também, e antes dela havia uma faixa curta, também de alto a baixo, para aí com 20 / 30 metros de largura por 100/150 de altura / comprimento, esta sem qualquer poço, que era de uma outra irmã da minha avó que vivia em Santa Justa. O poço da Ti Zabelinha, quase paredes meias com o Ribeirão, era farto de água: o marido dela, GNR ainda na altura, tinha conseguido os meios para o aprofundar, talvez para aí uns 20 metros.

Tínhamos autorização para nos servirmos da água à vontade, mesmo que o meu Tio Afonso fosse um bocado «torcido» como se dizia por lá: nem um terreno, o da minha Tia Marianita nem o da minha Tia Zabelinha eram cultivados: havia umas parreiras que se alimentavam sozinhas do precioso líquido e o resto lá estava: era muito longe, de facto. Só não era longe para nós porque fazia mesmo falta para o remedeio da casa.

E ali estivemos nós, a escavar à mão um poço, com água em relativa abundância e sem utilização a 50 metros. Ali tínhamos nós de trabalhar regando as casolas parcimoniosamente e uma vez ou duas, por acaso, lá íamos buscar dois baldes de água cada um ao outro poço. Como «pagamento» deitávamos meia dúzia de baldes de água numa laranjeira que nem no ano 5 mil daria fruta de jeito.

Não há muito tempo um primo meu, herdeiro dessa faixa de terra que foi da minha Tia Zabelinha telefonou-me: queria comprar a «minha» parte para acrescentar na métrica da reserva de caça. Com a minha outra prima herdeira da tal faixa situada a seguir à nossa também já tinha falado: isso dava-lhe direito a não sei quantas cabeças de caça.

Dissemos-lhe ambos que sim, que até de borla poderia ficar com elas (isso não dissemos mesmo mas pensámos). Já passou um ano quase e nunca mais obtivemos resposta. A inércia por esgotamento foi substituída pela inércia por comodidade.

E tanta perdiz que lá havia, tanta perdiz que se levantava nas margens daquele ribeirão...tanta lebre e tanto coelho que por lá passavam em corrida distraídos quase à nossa frente.
 
Publicado pela primeira vez no Jornal Raizonline nº 130 de 25 de Julho de 2011.
 
 

terça-feira, 5 de março de 2013

COLUNA UM - Sobre a Especificidade e a Globalização.

 
 
COLUNA UM - Sobre a Especificidade e a Globalização.
 
 O Acas, (a seguir nesta coluna), fez o favor de responder ao meu convite para que nos falasse sobre o que é ser-se caipira, o que sente, vive e motiva um caipira que o faz ficar caipira.
Em certo sentido tentei que ele me explicasse as razões de fundo do seu orgulho em afirmar-se caipira.  Nunca pretendi como parecerá evidente, ver no caipira um ser estranho a este mundo de modernidade, a este mundo de nivelamento cultural e linguístico, enfim ao mundo em que vivemos.
 
Isto apesar de alguma simplificação comparada (comparamos sempre tudo com tudo) nos levar facilmente a pensar que o caipira é o mesmo que o nosso habitante do interior português, o agricultor de antigamente a soldo dos latifundiários (tipo criado de servir como braço de trabalho e as mulheres também como serviçais) ou da pequena agricultura de sobrevivência, onde existia (e existe) uma relação com fortes laivos de feudalismo - normalmente traduzidos pelo termo compadrio - onde acontecem, nestes tempos de democracia (pelo menos virtual) algumas cumplicidades entre poderosos e «ex-criados» que ultrapassam pelo absurdo tudo aquilo que um defensor da «luta de classes» julgaria possível.
 
Os exemplos mediáticos nesta nossa terra são muitos e podemos falar de Felgueiras, Adelino Ferreira Torres, Alberto João Jardim e todo um manancial que por uma razão ou outra pouco conhecido do grande público é.
 
Mas existem outras relações de solidariedade entre pessoas de classes e condições económicas mais ou menos diferenciadas que não se ficam pela cumplicidade «malandra» e são antes resultantes do respeito mútuo por regras de convivência seculares que não são forçosamente resultado de outras imposições senão as que resultam de uma vivência e de uma história comuns.
 
Afinal, tudo depende dos homens, tudo depende das pessoas. Tudo depende de casos concretos, tudo depende da especificidade que se tem em análise.
 
Numa altura em que todos os povos - e neste momento os mais reparados são os europeus entre os quais neste caso se acentuam os portugueses - são englobados na ideia da mundialização do pensar, num momento em que as próprias tecnologias nos empurram para procedimentos comuns, nivelados, em que o ser «normal» obedece quase a um figurino que se pretende que seja tão único quanto é possível, a afirmação das identidades torna-se trabalho de muito poucos e resistência passiva de muitos.
 
Em certo sentido condenada pela história em andamento a especificidade e a defesa dela começou de forma mais evidente a ser «limada» nos seus pontos mais fracos e o hábito, a cultura, o falar local são seguramente pontos fracos em qualquer sociedade que ficarão como motivo folclórico para turista ver como vai acontecendo todos os dias desde há muito tempo com os povos todos.
 
Teremos nós culpa disso, ou seja, teremos nós achado que era pouco significante que o índio brasileiro, o africano tribal, o ilhéu de Dobu se «civilizassem» à nossa maneira e estaremos nós agora a «pagar» pela nossa desatenção no passado ? Não sei se as coisas não seriam sempre assim qualquer que fosse a nossa atitude...porque de uma forma ou de outra ela aí está e veio para ficar: a globalização cilindrará pura e simplesmente tudo aquilo que destoe do pensar que se vai tornando cada vez mais comum a um maior número.
 
Estamos pois condenados a não ser diferentes e a sermos menos nós - e que não se entendam estas palavras como sendo uma manifestação de derrotismo. É antes a constatação de uma realidade que todos sabemos ser demasiado real.
 
Os portugueses que lêem o Acas quando ele se refere a Portugal, quando ele refere as grandes vantagens de se estar na União Europeia, quando ele fala daquilo que se diz pelo menos em certos estratos da população brasileira sobre a riqueza e a fortuna de se estar na U. Europeia e sobre aquilo que é Portugal actualmente, os portugueses sabem que a imagem que de nós se cria não correspondendo de todo à realidade mas também têm de saber que é assim que as ideias se implantam: manda primeiro o imaginário o manto da ilusão e mostra-se a realidade por si mesma depois. É um processo imparável e infalível...

   Daniel Teixeira
Janeiro de 2009

Afinal em Portugal não estamos assim tão mal...

 
 
Afinal em Portugal não estamos assim tão mal...
 
no que se refere à mortalidade perinatal.
 
A Euro Peristat, de cujo Comité Científico faz parte o representante português Prof. Henrique Barros do Serviço de Higiene e Epidemiologia da Faculdade de Medicina do Porto, reportando-se a dados recolhidos para o ano de 2004, divulgou recentemente o seu relatório no que se refere a dados sobre as percentagens de mortalidade perinatal na sua relação com o número de nascimentos em cada um dos 25 países da Comunidade Europeia mais a Noruega em 2004.
 
Nesse relatório, que não deixa de ser curioso nas suas dramáticas conclusões, pode verificar-se um realinhamento no ranking dos países com maior ou menor taxa de mortalidade perinatal que não encontra correspondência com a imagem normalmente construída sobre o bem estar e os cuidados de saúde a nível europeu e que diferencia em quase todos os sectores os países mais ricos e os países mais pobres dentro desta mesma Comunidade Europeia (mais a então candidata à adesão Noruega).
 
Assim, Portugal, com 3.8 mortes perinatais por cada 1.000 nascimentos encontra-se em igualdade estatística (neste plano) com a Hungria, um ponto abaixo da Austria (com 3.7), da Alemanha com 3.5, da Finlândia com 3.3, da Espanha com 3.2 (havendo aqui que referenciar que este país aparece estatisticamente separado entre Espanha com 3.2 e Valência com 4.3 o que no globo dá aproximadamente 3.5), a Suécia aparece com 3.1 assim como o Luxemburgo e a Eslováquia, com a melhor performance de todos os 26 países estudados, contabiliza 2.6 mortes perinatais por cada mil nascimentos.
 
O estranho, sem deixar de ser significativo de alguma coisa (redireccionamento diferenciado de recursos na saúde, por exemplo ) é que abaixo de Portugal, com valores que vão dos 3.9 mortes perinatais da República Checa aos 9.1 da França (10.7 na parte ultramarina), vamos encontrar neste intervalo países como a Bélgica, a Dinamarca, a Estónia, a Irlanda, a Grécia, a Itália, a Letónia, a Lituânia, a Hungria, a Holanda, a Polónia, a Eslovénia, o Reino Unido, que se encontra dividido dente Inglaterra e País de Gales com 5.7, a Escócia com 6.7 e a Irlanda do Norte com 6.3 e por fim, na lista, a Noruega com 4,5.
 
Embora o critério para a definição de morte perinatal varie nalguns casos no limiar da sua definição com «aborto espontâneo» entre «0» (Espanha e Luxemburgo) e 500 grs de peso do feto e o tempo de gestação (22 semanas a 28 semanas - Portugal adopta as 24 semanas de gestação) os números apresentados no relatório da Euro Peristat não deixam de demonstrar que o factor do acompanhamento da grávida durante a gestação é um factor que merece uma maior atenção quer das entidades de saúde quer como preocupação das próprias populações nuns países mais que noutros não dependendo exclusivamente dos meios colocados à disposição das populações a sua utilização ou frequência.
 
Outros factores não deixarão de ter a sua influência nestes números, factores estes que seria interessante escalpelizar uma vez que as estatísticas atravessam os factores religiosos (comparando Espanha com a Irlanda, por exemplo) e são aparentemente independentes do factor migratório (embora a Inglaterra e a França tenham números elevados vamos encontrar o Luxemburgo com um número relativamente baixo de mortes perinatais tal como a Alemanha).
 
Daniel Teixeira

Janeiro de 2009

segunda-feira, 4 de março de 2013

Sociedades e micro problemas

 
 
Sociedades e micro problemas

 Por Daniel Teixeira
 

Ao longo da minha formação pessoal fui confrontado com a necessidade de conhecer as formas de formação das sociedades para entender melhor esta em que vivemos.
 
A antropologia cultural (aquela que não aldraba) é um dos domínios onde me movimento relativamente bem na medida em que tenho feito bastantes leituras sobre o tema e embora se dê presentemente pouca relevância a estes conhecimentos é por exemplo interessante saber-se que uma parte das concepções de hoje vêm de trabalhos realizados séculos atrás e que uma parte substancial da nossa organização social e económica, cuja origem se atribui ao ontem ou ante ontem tem na verdade muitos séculos de treino histórico.

Aliás um dos problemas grandes das sociedades actuais é por vezes não terem presente as suas origens de forma a saberem aquilo que podem implantar com maior certeza de vingar e poderem também acautelar substancialmente mais aquilo que é relativamente recente em termos de formulação para que essa força enorme que é a cultura social dos povos não venha a confrontar-se com contradições cujo alcance e objectivo não entende.

Na minha vida profissional, como jornalista, embora trabalhe pró bono, ou seja, é uma profissão por vocação mais do que uma profissão no sentido de se executar trabalho remunerado, tenho encontrado em muitos campos, de forma por mim percebida desde logo e outras vezes de forma quase automática, aplicação para muitos conceitos, filosofias, ideologias, teorias e aspectos científicos conhecidos desde longa data e conhecidos de longa ou fresca data por mim que estou convencido que me levam a melhor gerir os interesses e conceitos aparentemente contraditórios com os quais me defronto.

Trabalhando com um jornal online que pretende inserir-se no âmbito da diversidade cultural que é própria da CPLP (Países de Língua Oficial Portuguesa) não é difícil entender-se que para conjugar num campo uniforme uma diversidade geograficamente, economicamente e socialmente tão distribuída é preciso um pouco mais do que a simples boa vontade.

Temos, nós, portugueses europeus e / ou assemelhados, o triste hábito, por vezes, de nos alcandorar como fonte única e genuína da cultura portuguesa e admitirmos com alguma dificuldade a variância da sua complexidade universalista. Temos sempre mais facilidade em aceitar aquilo que «deixámos» por esse mundo fora do que temos facilidade em aceitar aquilo que «recebemos» e os exemplos são tantos que seria preciso um suplemento bem paginado para as descrever com alguma extensão aceitável.

Como exemplo, não partilho do princípio que as coisas se impõem por decreto, naquele sentido em que se contraria através de decreto (forma formal) aquilo que são os movimentos das sociedades. Partilho sim, de uma ideia com conotações um pouco esquisitas e geralmente muito pouco seguida que é o esclarecimento, o convencimento, a função pedagógica.

Se eventualmente se consegue que um decreto (visto neste sentido da sua inadaptabilidade) resulte, em grande parte ele terá pouca duração, ou haverá uma forma de contorno do mesmo que levará à sua inutilidade pelo menos parcial. Não sou contudo avesso a junções que sejam resumos unificadores escritos (em forma de decreto que seja) daquilo que já existe ou que através de uma análise se aponta como direccionado para um dado caminho.

Será a título de exemplo só o caso do Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa que tanta celeuma levanta e levantaria sempre qualquer que fosse a sua forma e o conteúdo escolhido. Um acordo deste género, por menos relevante que seja no seu impacto com o mundo da lusofonia (esse mundo porque é real vai continuar o seu caminho com acordo ou sem acordo) sendo um instrumento unificador de uma língua dada (neste caso o português) é um mero instrumento técnico destinado a conjugar princípios que levem a que se construa uma melhor comunicação, isto sabendo-se que a língua tem essa função, a de comunicar.

Para quem não tem presente, as regras gramaticais de todas as línguas foram desenhadas pelo uso e unificadas para fins pedagógicos, ou seja, como instrumentos de ensino da língua. Curiosamente os primeiros gramáticos foram músicos, não porque para isso estivessem particularmente vocacionados, mas porque a metodologia da pauta (baseada em tons) era a que mais se aproximava da sua primeira componente, a fonética.

Ora – e avançando – no que se refere a um ambiente ideal para que língua portuguesa tivesse uma plataforma ideal para se encontrar pacificamente necessário seria que as condições económicas, sociais e políticas deste largo espectro fossem convergentes em mais aspectos do que aqueles em que o são.
 
Tal sendo impossível – as sociedade existem e movem-se para além deste (para elas simples / básico) facto da língua portuguesa – trata-se assim de arranjar uma plataforma mínima de convergência que acabe afinal por ser uma média abstractamente considerada das diversas diversidades linguísticas, económicas, sociais e culturais.

Ora tendo eu oportunidade de estar pelo menos minimamente informado das realidades dos diversos países que falam melhor ou pior o português, também tenho de ter em atenção as necessidades próprias das suas próprias evoluções.

Só como exemplo complementar, fala-se agora muito dos trabalhadores das diversas organizações de ajuda internacional, algumas vezes referidas como Ong’s mas também como organizações Institucionais relacionadas quer com a ONU quer com as suas sub - organizações dela dependentes directamente ou por ela comparticipadas.
 
Esses trabalhadores dessas organizações têm sido vítimas, mais nestes últimos anos do que em períodos anteriores, de violência que algumas vezes acaba na morte de alguns deles em zonas inclusivamente consideradas de pouco risco.

Pois bem, embora não descure a gravidade da situação e das outras componentes culturais em jogo, tenho sempre pensado que é devido a dificuldades de comunicação que algumas destas coisas acontecem, isto sem fazer referência àqueles trabalhadores que exercem a sua actividade em zonas de risco e guerra, onde os acontecimentos a terem lugar, são quase um acontecimento com graus de probabilidade de ter lugar acrescidos porque neste caso não se vive em campo diplomático mas sim no campo do braço armado da diplomacia que é a guerra.

Mas como disse as sociedades, por mais diversificadas que sejam, têm alguns pontos comuns: se em Moçambique se queimaram, por exemplo, trabalhadores de uma Ong que distribuía redes de mosquiteiro contra a malária, porque alegadamente, e no entender popular, eles difundiam a malária, ao mesmo tempo – e tenho de falar de novo de Moçambique – nas zonas urbanas, os centros de tratamento e aconselhamento de doentes com HIV / Sida têm tido dificuldade em implantar-se porque são rejeitados pelas populações circunvizinhas.

Nada que não tenha acontecido aqui em Portugal, não de uma forma tão exuberante, em termos de movimentações populares e de gravidade, mas de facto durante os meus tempos de jornalismo escrito, tendo seguido uma parte desses processos encontrei em muita respostas que recebia a mesma questão de rejeição.
 
Em entrevistas, que efectuei várias, ao Dr. João Goulão, então Director da Delegação do Instituto da Droga e da Toxicodependência no Algarve e agora Presidente do mesmo Instituto (IDT) a nível nacional o problema era o mesmo ainda que mais polidamente discutido. A vizinhança dos postos de toma de metadona não agradava…e não agrada.

Ora, as sociedades são organizadas de forma diversa, têm condições económicas e sociais diferentes, mas os problemas podem ser os mesmos ou parecidos. E é esta plataforma aqui mostrada na sua forma negativa que existe também na sua forma positiva e o caso que referi acima do Acordo Ortográfico é de certa forma um exemplo de existem seguramente pontos de acordo que é possível explorar e que existem pontos de desacordo que pode ser possível gerir.

Assim, por mais diferentes que sejam os graus de potencialidade económica, a diferenciação social e cultural há pontos de convergência que «apenas» é preciso detectar.

Já no que se refere a tecnologias, parece-me evidente que as sociedades se concentram naquelas soluções que mais ao seu alcance estão e quando refiro alcance não me limito a frisar o seu aspecto do custo financeiro. Claude Levy Strauss num dos seus paradigmáticos livros, Tristes Trópicos, faz uma abordagem com de cerca de 50 anos de distanciamento e refere factos que para mim me parecem de todo absurdos terem tido lugar: uma parte substancial dos índios Tupi (etnia índia dominante no Brasil) foram contemplados com apetrechos técnicos e tecnológicos nos anos 30/40 que para eles não tinham nenhum significado, desde cafeteiras a máquinas de costura.

Ora passados esses cerca de 50 anos o antropólogo vai encontrar aquilo que seria desde logo expectável, quase nada, materiais enferrujados (nomeadamente cafeteiras de café) que teve de negociar para obter e peças soltas de outros objectos cuja origem era já difícil detectar. Assim, parece-me claro que se as tecnologias evoluem, existem estádios para que elas sejam aplicadas.
 
Só como exemplo desta disparidade o ferro de engomar eléctrico doméstico foi inventado (1882) antes da generalização pelo menos mínima do fornecimento da energia eléctrica em meios urbanos desenvolvidos. Posteriormente a electrificação, pelo menos em Portugal, só foi considerada próxima da totalidade de cobertura nacional nos anos 90 do sec. passado. Assim, e pegando nesta história e aplicando-a à língua portuguesa nos seus diversos aspectos, temos mais de 100 anos de «ferro eléctrico» verbal entre o seu aparecimento e a sua implantação mais próxima da sua universalidade.

Ora tão importante para mim como conhecer as evoluções técnicas é saber se elas são convenientemente empregues e nestes dois casos referidos logo acima parece-me que pelo menos num caso tanto o ovo como a galinha não nasceram simplesmente no caso dos Tupi e não nasceram pela ordem devida no caso do ferro de engomar. Acabaram por nascer mais tarde pela ordem possível.
 
Ora há que diferenciar entre língua portuguesa e «linguarice aguda» e se estivermos atentos, iremos descobrir que uma parte substancial das formulações do português dito erudito não tem quem se sirva delas por razões diversas que normalmente se agrupam sob o termo de analfabetismo de função e que não dependem por vezes exclusivamente da qualificação académica e da falta dela. Dependem da sua adaptabilidade às situações vividas quer a nível pessoal quer a nível profissional quer a nível institucional quer a nível mais geral da sociedade.

Quem não tiver, para este campo, isto presente, e há muitos radicais tanto para cá como para lá dos Oceanos…poderá ser em termos opinativos apelidado de «analfabeto» temporal.

sábado, 2 de março de 2013

COLUNA UM - Daniel Teixeira - Dia da Poesia ou Dia dos Poetas

 
 
Dia da Poesia ou Dia dos Poetas.
 
Aparentemente uma coisa e outra deveriam querer dizer o mesmo ou quase, pelo menos...De facto sem poetas não há poesia (ou há?) e sem Poesia não há poetas (ou há?).
 
Pois, sem querer ser complicadinho confesso que não entendo muito bem porque se chama a este Dia (21 de Março) de Dia da Poesia e não se chama antes Dia dos Poetas. Na verdade, a
 
Poesia, sendo uma coisa abstracta, sem definição concreta, apenas encontra definição pelo menos mais concreta e definida quando é feita, quando é realizada...por poetas, é claro.
 
Aliás, talvez 100% dos Poetas ao considerarem-se Poetas admitem que fazem Poesia, ou que pelo menos pensam que fazem Poesia, o que já não é mau de todo. Por isso a minha contribuição para este Dia é que ele trate de fazer-se dele mesmo o Dia dos Poetas.
 
Poderemos assim celebrar o homem (o ser humano, nada de machismos aqui)  no exercício da sua Arte e não como fazemos agora celebrar a Arte sem sujeito.
 
Talvez eu esteja um pouco influenciado pelos acontecimentos do presente e em função deles me tenha relembrado hoje daquilo que sempre considerei ser uma incongruência mas, e por isso, numa altura em que jogam bombas no Médio Oriente, em que se matam pessoas - todas inocentes porque ninguém merece ser morto por nada deste Mundo ou mesmo do outro - deveríamos dizer que o que mata e faz  morrer é a Guerra e não as pessoas que fazem a guerra.
 
A Poesia, quando feita pelos Poetas, como é claro, deve também reflectir sobre este mundo conturbado em que vivemos, em que praticamente muita pouca gente se entende entre si e onde há gente que não utiliza a poética arte do diálogo para resolver problemas.
 
Se entendermos este Mundo como uma casa grande, composta de muitas famílias, estaremos dentro desta linha de raciocínio a legitimar a violência doméstica - e que violência meu deus...que reprovamos abertamente todos os dias, por exemplo.
 
Por isso o Poeta é mesmo mais alto e a Poesia é aquilo que ele consegue que seja e não aquilo que ele gostaria que fosse. Esta parte do gostar, quer dizer a diferença entre o possível e o desejado é a parte utópica do Poeta e da Poesia que ele mesmo faz e que encontra sempre lugar dentro do coração, da alma, do sentir do Poeta.
 
Ser Poeta, pois, é estar mais além e estar aqui. Sem se estar aqui, neste Mundo que nos desilude um pouco ou muito todos os dias é andar evadido, e isso, fugir ou alhear-se das coisas, das coisas importantes que mexem no Homem e no Mundo onde ele vive não é francamente Poesia...Aliás acho, mesmo, que vendo estas coisas estou a ser Poeta.
 
 Daniel Teixeira