segunda-feira, 10 de novembro de 2014

O cavalo que morria devagar - Conto de Daniel Teixeira

O cavalo que morria devagar - Conto de Daniel Teixeira

Havia um cavalo pastando e um velho sentado numa pedra olhando o cavalo.

Havia também os dois netos do velho e um pequeno prado murado e com muitas pedras soltas musgadas. Parecia um prado tão velho quanto o velho. Ou talvez mais. Eu sempre o conheci assim, aquele prado e aqueles muros meio derrocados.

Poderia ter perguntado ao velho quanto velho era aquele prado e aquela cerca que o cercava quase por completo. Porque havia uma parte do muro que arrendava dois finos troncos cruzados que o velho certamente levantava e baixava para fazer entrar de manhã cedo e fazer sair à tarde, já quase noite, o cavalo.

Podia ter perguntado a idade daquelas pedras ali assim colocadas e talvez ele me soubesse responder. Mas o velho estava absorto, pensava naquelas coisas que os velhos pensam e cofiava o bigode e remexia o solo com o seu grosso cajado.

Não sei no que os velhos pensam quando estão assim absortos mas achei melhor não lhe perguntar nada e deixei que ele continuasse a pensar no que pensava.

Os dois netos dele, esses não tiveram o meu cuidado, eram crianças e as crianças nem sempre resguardam os tempos de pensamento de cada um e eu sei isso porque já fui criança, já tive filhos que foram pequenos e um dia, se calhar terei também netos como os dois netos do velho.

Os miúdos tagarelaram um pouco entre si e eu percebi que eles iam fazer uma pergunta ao velho: esticaram o pescoço como se quisessem ficar mais próximos do velho e disseram: «Avô!! É hoje que o cavalo vai morrer?»

O velhote voltou-se então para eles, como se fosse surpreendido pela sua presença ali, ou pela pergunta, não fiquei a saber, mas ele pareceu acordar de um mundo que era o dos seus pensamentos e ficar desperto num outro que demorou um pouco a parecer perceber.

Depois respondeu aos seus netos: «Não me parece que seja hoje, o cavalo está a comer bem e quando se come bem não se está a morrer.» Não percebi logo se a última parte da frase era também um subtil conselho aos netos mas acho que é verdade que quando se come bem não se está a morrer.

Os netos abriram os olhos com um misto de entusiasmo e de alegria, disseram mais algumas coisas entre eles e partiram em direcção à meia dúzia de casas que ficavam logo ali. Iam brincar, certamente: talvez tivessem os amigos por ali. Poucos, certamente, deviam ser poucos os seus amigos porque a aldeia estava quase deserta de vida e isso eu tinha visto logo que cheguei.

Reparou então em mim o velho e reconheceu-me. A mim, eu que já havia tantos anos que ali não ia e isso mesmo também foi o que ele disse logo. Sem se levantar da pedra onde estava sentado fez-me um aceno como se fosse um cumprimento e eu entrei então na cerca e no prado para o cumprimentar.

Já há mais de vinte anos, disse-lhe eu, há mais de vinte anos que aqui não venho. «Pois está tudo na mesma, como vês, quase nada mudou. O pessoal foi-se indo embora para as cidades, outros morreram, mas o resto ficou tudo na mesma.»

E para ele estava tudo na mesma, ou quase tudo estava na mesma porque quem fica não vê as coisas da mesma maneira dos que estão ausentes muito tempo. Vinte anos, repeti eu, e em vinte anos muita coisa mudara mesmo que o senhor Afonso achasse que estava tudo na mesma.

Ele não fumava, eu também não e ali ficamos um bocado olhando o cavalo que pastava. Já não era novo, não e era certo aquilo que os netos do senhor Afonso temiam: que o cavalo morresse e eu disse-lhe isso. Não quis criticá-lo por ter dito isso de o cavalo estar a morrer aos netos, longe de mim tal ideia mas ele deve ter percebido aquilo que eu respeitosamente não lhe disse.

«Tenho cá os meus netos e eles adoram o cavalo, sabes (?). Não quero que eles se afeiçoem muito a ele para não terem um desgosto muito grande quando ele morrer. Mas ele está morrendo devagar, muito devagar. Parece que sabe que eu não quero que os meus netos tenham esse desgosto e espera que eles voltem para a escola, para a cidade.»

Olhando a aldeia deserta, as hortas sem verdura, pensando nos meus que tinham ali morrido pensei sem lhe dizer: afinal tudo e todos nós morremos um pouco devagarinho a cada dia que passa e o senhor Afonso pensa que o seu cavalo morre todos os dias um pouco mais devagar. 

Talvez, talvez não seja assim mas é bom que ele o continue a pensar.

Daniel Teixeira


Reflexão - Texto/Conto de Daniel Teixeira


Reflexão - Texto/Conto de Daniel Teixeira

O terreno à minha frente está escuro, acinzentado. Parece que por ele passou labareda. E passou mesmo, digo-o a mim enquanto olho para aquele espaço tristemente defunto. Passou o fogo dos dias tórridos de um estio que não sei bem se destrói ou se purifica a terra. Ou faz as duas coisas, destrói e purifica, deve ser assim que as coisas se passam, penso eu agora.

Deve ser por isso que os traços do tractor revolveram as raízes do que quer que lá havia, e um tractor não risca os solos sem ter uma razão, uma lógica, um princípio. São assim os homens e os tractores, pensam de igual modo, pensam sempre o mesmo uns e outros.

O homem e o tractor arrancaram ao que quer que ali havia o alimento que lhes vinha da terra e deixaram os caules de raízes expostas à sorte que se calhar todos os anos lhes é destinada. Eu não conheço os terrenos, não sei como as coisas se passam nas terras nem o que se passa dentro delas: apenas posso reflectir e é isso e só isso que faço.

Se calhar estrumarão a terra, pode dizer-se, farão isso, entranhando-se mortos na terra e renascendo-se aos poucos aqui e ali quando as chuvas começarem a cair no composto. O solo matizar-se-à então naquele cinzento escuro com verde dos rebentos, primeiro, depois ficará tudo verde e não haverá mais cinzento queimado até ao ano seguinte.

Mas ainda não, não há verde que desponte no solo. Apenas há três ou quatro canas encostadas ao declive que se transforma num estreito ribeiro no Inverno. Erectas e muito verdes entre as outras amareladas que se deitaram, são o verde que por aquele lado há.

O homem passeia o cão ou o cão passeia o homem do cajado. Tem um boné que lhe tapa os olhos mas parece-me ser já velho, certamente que é, vejo pelo andar dele, um pouco arrastado.

Tem uma trela na mão mas a trela não conduz o cão. Este corre com a liberdade que os chamamentos do velho lhe permitem. Logo ali à frente há a estrada por onde corre veloz um trânsito que leva muita gente e mercadorias.

Um carro foi deixado ali, no terreno, um pouco à direita, um carro que já foi azul e que agora tem a cor da sucata azul. Ninguém o mexe e ele já não vai mexer-se por si mesmo. Está ali plantado no bordo das laranjeiras pequenas que não cresceram mais. A nora está tão morta como o solo escurecido e já não rega nada.

Foi uma horta verdejante, isto que eu vejo e agora já não é. Vai para construção, certamente, é o que acontece a todas as hortas verdejantes por estes lados. Aqui, donde eu vejo o que hoje vejo dentro de anos não haverá mais ervas que renascem, nem laranjeiras, nem carro morto.

Só o velho de cajado continuará a passear o cão ou o cão a passeá-lo a ele, espero.

Daniel Teixeira

A Marta - Conto de Daniel Teixeira

A Marta - Conto de Daniel Teixeira

Pensava muito eu, dizia-me ela, «Pensas e pensas, mas não é só da reflexão interior que as coisas saem. Se eu não tivesse tanto que fazer levava-te pela noite fora pelos bares até de madrugada…depois, bem, depois levavas-me a casa e talvez eu te convidasse a subir e tomar mais uma bebida…talvez, talvez…!» e depois ria-se naquele jeito sugestivo que eu tão bem lhe conhecia, acariciava-me as mãos, revolvia-me o cabelo e acabava por vezes com um beijo na testa.

Nunca daria em nada, em nada de especial, pensava eu, o sexo estava quase naturalmente afastado da nossa relação naquela altura e eu sabia bem, tinha aprendido isso tudo sem ter feito qualquer tentativa e aprendera também que era bem melhor nem sequer o tentar.

O receio de quebrar a estátua com algum grau de sacralidade que para mim era a Marta fazia-me conter, escolher caminhos de diversão e repetir constantemente para mim mesmo que o risco de tentar era demasiado elevado por maiores e mais sugestivas que fossem as acções e as palavras dela.

Talvez tenha esperado de mais, não sei, ou talvez tenha esperado justamente o tempo necessário. Eu não sei e acho que essas coisas nunca se sabem antes de terem o seu lugar. É sempre melhor guardar esta incerteza, esta indefinição…é sempre melhor não se ficar com a sensação que se perdeu alguma coisa, ou que se perdeu muito.

O meu problema, a minha falta de entendimento desta realidade derivava do facto de durante bastante tempo ter tomado os seus jogos sensuais como prova de uma ligação entre mulher e negócio, o que ela fazia, de facto, mas tendo sempre presente, de forma pouca clara ao observador, que este tipo de sensualidade era antes um instrumento e nunca uma forma profunda de sentir.

Não representava propriamente dois papéis nem ela mesma tinha dentro de si duas faces, a de mulher e a de editora, mas conseguia muito bem uma coisa que era manter esses dois campos convivendo dentro dela e projectá-los para uma exteriorização bem nítida que só ela sabia desenhar.

Eu limitei-me a conhecer a existência dela, dessa demarcação, desse traço que separava a sensualidade instrumento da sensualidade expressão de sentimento. A partir de uma dada altura aceitei bem o princípio que me parecia consequente de que nenhum destes dois campos competia ou prejudicava ou anulava o outro porque viviam mesmo em campos diferentes embora a sua forma de expressão fosse a mesma. E daí talvez não fossem as mesmas, talvez fosse eu, o observador, que unificava.

E fora então, depois de me dizer do engraçado da terriola para onde me mandava para acabar o romance que tinha em mãos que a Marta cruzara as pernas, como ela costumava fazer, a saia subia-lhe e expunha as coxas, como ela fazia muitas vezes, fazendo-me desviar os olhos.

Era difícil dar uma idade bem definida à Marta, tinha um corpo forte, pernas fortes e bem elegantes e era bonita, tinha uma cara bonita, bem bonita mesmo. E tinha umas coxas extraordinariamente belas e sugestivas e ela não só sabia disso como sabia tirar partido disso.

Ela conhecia-me bem e conhecia bem o que os homens pensavam que as mulheres pensavam deles ou podiam pensar e sabia que eu reagiria assim, que eu ficaria embaraçado por pensar que ela pensava que eu estava a olhar-lhe para as coxas e depois eu saí do seu gabinete com o papel rabiscado com as indicações do local que ela achou que eram suficientes.

Quanto à sensualidade demovente, como eu lhe chamava, a Marta era assim mesmo, nunca tinha tido a coragem de lhe dizer que sabia o que ela fazia com aquela coisa de mostrar as coxas, ou mesmo os seios quando estava inclinada à minha frente, ou à frente de outros homens, mas eu sabia que era uma forma que ela tinha de se desembaraçar de momentos ou perguntas que lhe não convinham.

Eu via-a a fazer isso mesmo em festas, ou recepções, ou nas sessões de autógrafos e ficar depois a rir-se para si mesma com o embaraço dos outros e eu sentia mais que via o seu sorriso interior. Pessoas que a respeitavam muito, como eu, e que não pensariam nunca que aquelas posições e aqueles gestos tinham outra causa senão o descuido. E era uma sensação que ela explorava muito bem, porque era uma mulher muito inteligente a Marta.

Quando me retirava dos embrulhos das conversas de grupo que me aborreciam ela agarrava-me pela mão, puxava-me para um canto ou contra uma parede e afagava-me o cabelo carinhosamente. Por vezes encostava o ventre dela ao meu e nem ela sabia a sensação de embaraço e não só que isso me dava. «Vamos provocar um bocado estes gajos» – segredava-me. E sobretudo as gajas – não dizia mas eu entendia – fazendo-me ali e daquela forma virtualmente seu, exclusivamente seu.

Havia assim já bastante tempo que a Marta me dava sinais do seu  interesse por mim só que eu não os interpretava dessa forma, achava que aquilo que ela fazia não devia ser só comigo, quer dizer, ela representava vários escritores, tinha duas poetizas, três romancistas incluindo eu e um ensaísta, fora os ocasionais que iam e vinham mas era a maneira dela e nunca pensei que fosse mais que isso, nunca pensei mesmo que ela só fizesse aquilo comigo daquela forma e com sentimento mas agora era agradável pensar assim, sentir-me especial, sentir ter sido diferente aos olhos da Marta.

Nunca se casara, segundo se sabia e ela mesma dizia e eu não sabia qual era a sua vida para além da sua função de editora, nem eu nem ninguém, ao que penso. Sempre achei que a Marta não se interessava mesmo por relações duradouras ou não: tinha a sua carreira que geria com sucesso, com escritores e poetas de sucesso, que acarinhava. Eu talvez fosse a sua mais recente «aquisição» e já havia dois anos que trabalhava com ela quando tudo aconteceu.

Aconteceu daquela forma que qualquer pessoa julga que é possível acontecer dado o que disse atrás: foi ela que avançou, foi ela que quebrou o gelo da cautela que me envolvia, foi ela em quase tudo e só depois fui eu.

Ainda hoje, que já passou algum tempo, penso, por vezes, qual terá sido o momento exacto em que ela, a Marta, saiu do campo do seu faz de conta erótico para entrar no campo da nossa realidade amorosa e penso que talvez desde sempre as coisas entre nós se passassem neste nosso campo agora aqui definido.

Talvez ela estivesse também receosa, não sei, tal como eu estava.

Enfim...há muita coisa que é possível mas não há nada que eu possa afirmar como certo.
Mas as coisas depois não se passaram como nos contos de fadas: fomos muito felizes, sim, essa parte existiu, mas não tivemos nem muitos meninos nem felicidade para sempre e tudo acabou percorrendo o caminho inverso daquele como tudo tinha começado.

E eu também não sei qual o momento exacto ou a razão exacta, se é que nestas coisas há razões, para que tudo tenha acabado. Posso supor mas não há nada que eu possa dizer com certeza.

E hoje, sentado nesta esplanada à frente da qual tantas mulheres e tantos homens passam e estando eu pensando em mim e na Marta, penso que eles, aqueles que por aqui passam, todos eles, sabem os momentos exactos em que as coisas começam e sabem os momentos e as razões, quando as há, para que as coisas acabem. E eu acho que talvez nunca o saiba.

Daniel Teixeira


O café suspenso - Conto de Daniel Teixeira

O café suspenso - Conto de Daniel Teixeira

O homem espreitou pela porta entreaberta e perguntou ao senhor do balcão se havia algum café suspenso que ele pudesse tomar e este respondeu-lhe que não havia nenhum café suspenso mas que ele podia arranjar. Ele que entrasse, disse-lhe.

A pastelaria estava vazia e o senhor que estava atrás do balcão e que limpava copos com um pano branco perguntou então ao homem que tinha já entrado se ele não queria outra coisa, talvez uma sandes e um galão, disse.

Ele disse que sim, o homem, disse que agradecia. Não lhe disse, nem iria dizer a ninguém que não fosse um mendigo como ele e se isso calhasse em conversa, que era já o quarto café que pedia nos estabelecimentos da zona e que até ali não tinha encontrado nenhum café suspenso.

Agora tinha ali a sorte de lhe sair uma oferta de uma sandes e um galão em vez de um só café, como buscava, o que era bem melhor, conforme também tinha dito o senhor que estava atrás do balcão. E era verdade, certo que era verdade.

O facto de ser aquele o quarto estabelecimento onde perguntava por um café suspenso, era coisa para ele pensar para si mesmo ou para falar com outros amigos mendigos se calhasse a jeito porque estas e outras coisas menos boas os mendigos não dizem a ninguém que não seja mendigo.

E não dizem a mais ninguém senão a mendigos, explicava-se ele a si mesmo enquanto ia entrando na pastelaria, porque se o dizem ninguém os ouve e se os ouvem fazem como se não ouvissem. 

Nada deve ser mais insignificante para aqueles que não são mendigos do que as palavras de um mendigo, porque só os mendigos entendem os mendigos. Ele sabia bem isso quase desde sempre. Os outros, os que não são mendigos, têm muita coisa em que pensar e se jogam uma moeda para o boné que ele mete no chão fazem-no quase mecanicamente, sem consumirem uma nesga do seu pensamento.

No fundo devem ter pensado um dia, há muito tempo já e isso ficou-lhes gravado na memória reflexa para sempre, que um ser que arrasta a sua miséria pelas ruas tem não um dom mas o defeito de ser pouco visível, de não contar mesmo como gente.

Por vezes, pensava ele, que se retirasse o boné do chão à sua frente ninguém notaria que ele estava onde estava. Gostava de pensar assim estas coisas, que seria, sem o boné no chão, um obstáculo a contornar assim como se contorna um cesto de papéis ou uma caixa de cartão abandonada no solo.

No último café onde tinha assomado o homem do balcão até o tinha insultado, e esse tinha mesmo reparado nele ao contrário dos outros dois anteriores que responderam com um curto «não» à sua pergunta por um café suspenso. Tinha esse homem corrido em direcção a ele vindo lá do fundo contornando as mesas mas a presença dos dentes afiados do seu lobo, como ele lhe chamava, levou-o a recuar vociferando. «Deixa, Lobo, não vale a pena...» disse então ele ao cão afagando-lhe a cabeça e puxando-o pela trela.

Ali, onde agora estava sabia que era bem melhor, o galão, é claro: era cedo, para aí sete horas e pouco da manhã e desde o jantar na Misericórdia às sete da véspera ainda não tinham comido nada nem ele nem o lobo que aguardava obedientemente na rua, perto da porta e à volta dos sacos.

Tinha passado a noite no local do costume, entre as escadas e o vento frio que enregela os ossos e tinha dormido aos poucos uma hora agora, meia hora depois, respondendo por vezes aos rosnares do lobo, que dormia e fazia a guarda dos poucos haveres de ambos.

Fazia-lhe uma festa na cabeça logo que se apercebia que era falso alarme, mas noutros dias nem sempre era falso alarme. Mas os dentes do lobo e o seu corpanzil metiam respeito mesmo.

Havia bêbados e meninos mimados que se aproximavam por vezes e até mesmo outros mendigos recém chegados à cidade ou de outras zonas daquela que frequentava e que não respeitavam nada nem ninguém.

Os bêbados, os meninos mimados e os mendigos estranhos eram quase iguais para ele, tinham quase o mesmo valor que para ele era nada. Mas eram um nada diferente daquele que ele era, como mendigo, porque há várias formas de se ser nada.

Era assim, grande e sempre vigilante o seu lobo, como lhe chamava. Já havia anos que o tinha encontrado, magro e sujo e cheio de fome e frio numa ruela escura catando o lixo de um contendor e fora amizade à primeira vista, como costumava dizer para si mesmo. Ele e o lobo naquela noite estavam ambos sozinhos neste mundo e cada um deles precisava do outro. Foi assim que isso começou.

Cuidara dele como pudera, aos poucos foi tratando da papelada, das vacinas e hoje estava tão legal como ele se é que ele estava mesmo legal o que nem sempre sabia porque nestas coisas um mendigo tem um estatuto à parte, bem mais exigente do que aquele do comum dos cidadãos.

Tinha estudado e lembrava-se bem que havia um autor que tinha dito que havia seres humanos que eram mais iguais que outros, mas sempre que pensava nele, como agora estava a pensar, dizia para si mesmo que ele se esquecera, esse autor, que para além desta desigualdade entre iguais havia ainda mais desigualdades. Na verdade há desiguais que são mais desiguais ainda que outros desiguais e ele reaprendia isso todos os dias.

O senhor fez então a sandes e o galão e disse-lhe para ele se sentar ali mesmo, ao balcão. Sempre estava melhor, acrescentou enquanto olhava para a montra e via o cão espreitando cuidadoso. Perguntou então se o cão era dele e ele disse que sim acrescentando que ele não ia entrar na pastelaria, que estava bem ensinado.

Mas não era isso que o senhor da pastelaria queria saber e acabou por lhe perguntar se o cão não teria fome também e o sem abrigo, que era ele, respondeu que lhe ia dar a metade da sandes que tinha posto de parte no prato.

Pode comer a sandes toda , disse o senhor do balcão que devia ser o dono do café, que eu arranjo-lhe qualquer coisa para o cão. E abriu uma porta que estava por detrás do balcão e começou então a juntar numa embalagem de alumínio alguns rissóis arrendados e pastéis de carne, daqueles compridos cobertos de pão ralado.

Eram da véspera acrescentou o dono do estabelecimento - só podia ser o dono, pensou - mas estavam bons, ele mesmo os comia durante o dia porque a clientela só quer coisas frescas e a brilhar. E ele, o mendigo, não gostava de falar muito com pessoas assim, que não fossem tão desiguais como ele, mas balbuciou então que sim, que estavam mesmo com bom aspecto, os rissóis e os croquetes.

Acabou de beber o galão e de comer a sandes e encaminhava-se já para a porta com a os pastéis que dariam para ele e para o cão ao mesmo tempo que ia agradecendo - isso dizia sempre - quando o homem saiu de trás do balcão e lhe disse para esperar um pouco ao mesmo tempo que metia a mão num bolso das calças e dizia «Tome lá dez euros, não é muito mas é o que posso dar a esta hora, ainda não fiz nada de caixa.»

O mendigo pensou se devia ou não devia aceitar mas não podia recusar também, ficava mal e ainda disse que era muito, mas o homem meteu-lhe mesmo os dez euros na mão e regressou para trás do balcão.

Chegado à rua tratou de dar logo dois pastéis ao lobo e já a meio da rua, enquanto arrastava os sapatos na calçada, disse ao lobo no tom peremptório que ele entendia bem:

«Não vamos voltar aqui, lobo, nunca mais. Nunca mais, ouviste!?» e como se ele, o lobo, ainda lambendo a boca e olhando para ele lhe tivesse perguntado porquê respondeu-lhe: «As pessoas que dão muito mais do que aquilo que se lhes pede, não são aquilo que parecem e nem são boa gente. Têm, sim, muito contrabando na alma que querem que lhes seja perdoado!»

Daniel Teixeira

quinta-feira, 3 de julho de 2014

O cavalo preto - Conto de Daniel Teixeira

 
O cavalo preto - Conto de Daniel Teixeira
 
Ali, à minha frente, havia um cavalo preto que rodava. Depois veio um pequeno cão que ladrou correndo desde o portão todo verde escuro da casa amarela. E ali ficou ladrando, perto do cavalo preto. Indiferente, na sua majestade, pensei eu, ficou o cavalo. E eu pensando o que o cavalo não poderia pensar: o que representará para um cavalo um cão pequeno que ladra?
 
Nada, um pequeno cão ladrando a um cavalo não deve representar nada porque não há nada para ele lhe poder representar: o que interessa ao cavalo é a sua quase mecânica do pastar e aquele resfolgar reflexo que afasta o cão poucos metros cada vez que ele irrompe.
 
Era lustroso o pescoço do cavalo. O pescoço e o dorso e o cavalo todo brilhavam sob o sol já fraco do entardecer. E as suas crinas eram lindas. Pareciam ondas brilhando no claro escuro do vento derramando-se sobre o seu pescoço e a sua testa. Era um belo cavalo, sim senhor, era mesmo um belo cavalo.
 
Era ainda cedo para o cavalo, sei que era cedo, porque os cavalos que pastam recolhem-se ao por do sol e aquele era sempre recolhido ao por do sol. A rapariga vinha, punha um cabresto de corda no cavalo, arrancava a estaca, enrolava a corda à volta da estaca e saltava para o dorso do animal.
 
Mas era cedo para ela vir e talvez já não fosse assim tão cedo para mim. Quase todos os dias a via, calças azuis, botas de feltro, quadris bem modulados e uma blusa ligeira que me fazia adivinhar-lhe os bicos dos seios. De andar resoluto, compenetrada, nunca olhava para cima, para mim. E eu tanto olhava para ela.
 
Ali, atrás de mim e em nossa casa, a Cynthia esforçava-se para se despachar e o telemóvel não parava de ir tocando: uma, duas, três, cinco, dez vezes, talvez, ou mesmo mais. Íamos a um jantar de amigos, e cada um deles ou delas marcava o ponto telefonicamente. Acho que o faziam várias vezes, cada uma delas ou cada um deles.
 
Eu só ouvia a voz da Cynthia, por vezes abafada, por vezes nítida e o bater dos seus sapatos no soalho.
 
Tínhamos combinado, talvez juntássemos meia dúzia de casais, era o que estava previsto, mas há sempre quem falte e quem traga mais gente e por isso nunca se sabe. Depois haveria uma volta pelos bares, uma discoteca, talvez. Haveria como sempre quem bebesse muito, isso era certo. Acontecia sempre.
 
Cada vez que eu perguntava quanto tempo demorava ainda a Cynthia respondia que estava quase, mesmo quase, mas nunca estava quase. Havia eu a perguntar e o telemóvel a tocar, e o vestido a acertar, e a maquilhagem a compor e os sapatos a escolher. Mas de todas as vezes que eu lhe perguntei ela respondeu sempre que estava quase.
 
E o cavalo que estava preso por uma corda ao pescoço parecia estar desinteressado do cão, do cão pequeno e do seu ladrar e o objectivo dele, como sempre que eu o via, era ir além do círculo de pasto que a corda lhe permitia. A estaca no solo fazia o centro da sua circunferência permitida mas ele queria ir além, para além desse circulo permitido.
 
O cão também tinha um espaço limitado, ficava a cinco seis metros do cavalo. Mesmo que lhe ladrasse respeitava-o. Cada um cumpria a sua função: o cavalo pastava, o cão latia e a moça viria sempre buscar o cavalo ao por do sol. Eu também tinha a minha função: olhava simplesmente e não fazia nada... Esperava pela moça que vinha buscar o cavalo e pela Cynthia.
 
E o cavalo sempre a forçar a corda, a querer sair do círculo. Não vais sair daí, não, dir-lhe-ia se ele me entendesse. Mas talvez não lhe dissesse. Ele almejava o outro pasto que era igual ao que ele tinha no interior do circulo, tinha esse desejo. Porque iria eu dizer-lhe uma coisa que ele não iria entender mesmo que entendesse as minhas palavras?
 
A Cynthia saiu então para a varanda: estava pronta, íamos embora, íamos jantar com os amigos. Pelo caminho falaríamos de coisas que por vezes interessam e outras vezes não interessam.
 
E ao longe lá vinha a moça que cavalgava o cavalo preto. Era perto que ela morava. Ela e o cavalo. A blusa ligeira colava-se-lhe ao corpo com a brisa ligeira da tarde quase noite e ela sacudia a cabeça para ajeitar o cabelo.
 
Despachou-se demasiado cedo, a Cynthia.
 
 

segunda-feira, 21 de abril de 2014

O sorriso - Conto de Daniel Teixeira

O sorriso

Aquele sorriso, naquele dia e naquele lugar não foi igual aos outros sorrisos que ela me sorria. As coisas estavam diferentes naquele momento, certo, mas nunca esperei que ela sorrisse, naquela altura.

Não pensei também que ao fazê-lo, o sorriso, o fizesse daquela maneira, duma maneira que eu tenho dificuldade em descrever de forma a ser percebido pelos outros, que são vocês.

Mas foi um sorriso tão bonito quanto todos os outros que ela me deitava quando eu passava e a encontrava à janela, isso posso assegurar. Encontrava-a sempre à janela quando chegava e quando partia em direcção ao barco. Porque havia um barco que me trazia e me levava todos os dias e eu então passava sempre na rua onde ela estava à janela e onde ela me sorria.

Naquele dia e naquele local, que era diferente da sua janela, foi um sorriso diferente, um sorriso daqueles que se fazem quando acreditamos que o outro a quem sorrimos está a brincar connosco, com ela, neste caso, um sorriso que responde a uma brincadeira, a uma frase que se acredita ser dita e não valer, não ter conteúdo.

E eu disse-lhe que tinha de lhe ver a mala, a sua mala de mão e ela riu-se, com aquele sorriso, assim, e nada mais, sem parar o seu andar, sem uma palavra, só aquele sorriso, lindo como todos os outros sorrisos que ela sorria na sua janela, mas diferente, havia uma diferença e eu reparei bem nisso.

Para mim foi melhor que as coisas se tivessem passado assim. Eu não tinha vontade nenhuma de lhe vasculhar a mala de mão. Acho, sempre achei, que não se olha para dentro das malas das senhoras, que contêm por vezes coisas que são íntimas, que fazem parte da intimidade, mas estávamos ali para isso, para ver o que toda a gente levava em sacos e em malas.

Era estúpido, pensava eu, mas fazia parte do protocolo, foi o que disse o capitão naquele dia. Estávamos em estado de emergência, o estado de emergência tinha sido declarado e nós tínhamos de revistar toda a gente que se deslocava - podiam levar armas - disse o capitão. Continuei a achar estúpido mesmo depois de ele ter dito isso e foi com alívio que a vi sorrir daquela maneira e continuar pela passadeira em direcção ao barco.

Tinha um corpo lindo, ou pelo menos eu achava que era lindo e havia já entre nós aquele pouco mais que quase nos levava a uma cumplicidade. Quantas vezes eu a cumprimentei enquanto passava e quantas vezes a vi responder-me sorrindo enquanto eu ia prometendo a mim mesmo que no dia seguinte, o tal dia seguinte que nunca acontece no dia seguinte, que nesse dia seguinte iria falar um pouco com ela. E ela era linda.

Se eu tivesse insistido para lhe ver a mala de mão, certamente esse dia seguinte em que eu iria falar com ela e que nunca tinha acontecido nunca aconteceria, mesmo, acho eu. Não sei mas penso que ver a mala de mão dela não era nada bom para uma relação que eu e ela, se calhar, almejávamos.

Poderia nunca acontecer e eu nunca falaria com ela, nunca começaria aquela relação que eu ia imaginando ser possível. Como era possível admitir sequer que a senhora levasse uma arma? Era uma senhora mesmo, tinha porte de senhora, talvez com trinta anos, não sei.

Provavelmente viúva, pensei eu sempre, talvez viúva de um colega meu que tivesse caído no Ultramar, pensei, imaginei, não podia ser outra coisa, ela era certamente viúva de um militar que tinha falecido de armas na mão combatendo não se sabe bem o quê nem porquê.

E isso era respeitável, mais respeitável ainda, achava eu, temos sempre muito respeito pelos nossos falecidos que são assim como que maiores que nós que estamos vivos.

E eu tinha querido ver-lhe a mala de mão para procurar uma arma, uma pistola, uma coisa que tinha de ser pequena para caber na sua pequena mala de mão. Felizmente ela sorriu e continuou o seu caminho, foi bom para mim, muito bom mesmo, fiquei com a minha consciência tranquila.

Mas havia o protocolo que era preciso seguir, foi o que disse o capitão, havia o protocolo e estávamos em estado de emergência, tínhamos de ver tudo o que as pessoas levavam e já tínhamos confiscado uma espingarda de caça a um caçador já velhote.

Ele bem protestou, coitado, mostrou a carta de caçador e tudo, a licença da arma, e até o farnel para a manhã seguinte, ia para a zona de Coruche, foi o que ele disse mas era assim mesmo, estávamos em estado de emergência e ele podia ir levantar a arma ao quartel passados uns dias.

Por isso, porque estávamos em estado de emergência, fiz sinal a um soldado que estava lá mais à frente na passadeira e apontei para a minha platónica namorada dos sorrisos à janela e ele abriu-lhe a mala e não foi nada simpático não.

Acho que ela nem soube que fui eu que fiz o sinal ao soldado, penso sempre isso, tenho de pensar, porque ela continuou nos dias seguintes a sorrir-me à janela, com aquele sorriso lindo. Mas para mim deixou de existir aquele dia seguinte que nunca acontecia em que eu lhe iria falar à janela.

Daniel Teixeira

quarta-feira, 2 de abril de 2014

A estranheza - Conto de Daniel Teixeira

 
A estranheza
 
O Vasconcelos vivia numa habitação toda em madeira – tinha-me dito o homem já com ar de reformado que andava por ali e tinha uma enxada – e era em madeira polida, vi eu depois, era em madeira polida e brilhante, onde o sol batia naquela hora em que lá fui e onde quase se via a nossa imagem na parede.
 
Era uma casa que parecia não ser uma casa ali posta para que pessoas vivessem nela e se sentissem bem embora tudo estivesse bem, tudo estava certo e a casa era perfeita mesmo, bonita, mas mesmo assim dava aquela sensação de ser provisória. Não parecia um lar, não era um lar mas quem ali vivia talvez visse nela um lar, não sei, nunca soube.
 
Depois, quando o vi a ele, Vasconcelos, quando o vi tal como ele era fisicamente, a sua casa acabou por se tornar também tão esquisita quanto ele, coisa que eu talvez nem reparasse ou não pensasse muito nisso se ele tivesse uma figura normal.
 
Talvez por ser em madeira, por estar implantada sobre estacas, por se verem as suas fundações logo ali, por elas darem aquela sensação de nudez estrutural, aquela sensação de vazio, aquela sensação de ser, não sendo, uma casa.
 
Aquela casa não parecia uma casa onde pudesse viver outra pessoa senão ele mesmo, o Vasconcelos e ele, com a sua quase nudez, talvez ele a considerasse um lar. Mas nunca lhe perguntei e nunca fiquei com a sensação de que ele pensava isso. Acho que não, que não pensava isso.
 
A estrutura de uma casa como a estrutura de uma pessoa devem ficar escondidas pelos tecidos, pelos acabamentos, ficando assim tudo o que é das suas fundações coberto e de forma a que se veja aquilo que faz de uma casa uma casa e de uma pessoa uma pessoa. Uma casa e uma pessoa devem mostrar a sua forma, não os seus ossos.
 
Ele não tinha culpa, era assim mesmo, era um resto de homem ou aquilo que resta num homem com uma doença grave, daquelas doenças que transformam as pessoas numa parte reduzida do que elas já foram. Ele nada podia fazer contra isso, era certo, mas ficava com aquele ar de nudez interior e de fragilidade, expondo os seus ossos cobertos apenas por uma pele finíssima com as veias muito vermelhas.
 
Nele, Vasconcelos, estava tudo logo ali, era uma coisa que eu preferiria não ver mas estava tudo mesmo ali, era impossível ver o Vasconcelos, olhar para ele sem ver isso. Tal como a sua casa ele também mostrava a sua estrutura e só a estrutura. Embora pudesse dar-me pena isso não evitava que eu o achasse esquisito, exposto, permeável.
 
Havia, na casa dele, uns blocos rasteiros que pareciam ser de cimento, cuidadosamente pintados de branco como que a dizer que «aquilo» era um acabamento. Nele, Vasconcelos, não consegui ver nada que me dissesse o mesmo, nem nos seus olhos que eram mortiços, nem nos seus gestos que eram todos lentos, muito lentos.
 
Não era propriamente o esperado, não era aquilo que eu esperava, não era suficiente, os blocos de cimento muito brancos deviam saber isso, mas estavam acabados, lustrosos, geometricamente perfeitos e serviam de suporte às estacas. O Vasconcelos dava a sensação de finitude, de deperecimento. Os blocos brancos da casa queriam, pelo menos queriam, ser um acabamento, algo que se acrescenta, queriam ser o «a mais» do que já está feito.
 
Talvez tivessem razão para se sentirem orgulhosos, aqueles pequenos blocos de cimento: tinham uma função nobre, suportavam a casa e o branco muito branco da sua pintura queria dizer que ela, essa sua pintura, tinha sido o retoque final. Depois dela nada mais fora acrescentado àquela casa. Só o Vasconcelos.
 
Não teria mais de dois ou três anos a casa do Vasconcelos e sobre os blocos brancos de sustentação, havia um emaranhado de troncos cruzados que conseguia ser harmonioso, é um facto, tudo muito direitinho, mas mesmo isso não lhe dava aquele ar de estabilidade e durabilidade que havia nas outras casas que eu conhecia. Era mesmo uma casa só para ele, pensei de novo.
 
E é este o problema quando se mostram as estruturas, as nossas estruturas e na casa dele as estruturas da sua habitação. Nunca se devem mostrar as estruturas, nunca se deve dar mais essa margem ao observador. Talvez por pensar assim eu seja ficcionista e não historiador, por exemplo, ou cientista de alguma coisa que tenha de dissecar o real.
 
Opinamos sobre a beleza e sobre a solidez e isso não deve ser facultado ao observador, deve ser tapado, escondido, não se pode dar ao outro a possibilidade de ter muitos motivos para emitir opinião e sobretudo sobre estruturas porque é aí que ele vai seguramente colocar defeitos, porque as estruturas suportam as coisas mas não são as coisas. São o mais frágil que existe antes que uma coisa seja uma coisa.
 
E a casa tal como os ossos do Vasconcelos eram seguramente frágeis, sabia-se isso logo que se olhava para uma e outro porque nos mostravam desde logo a sua fragilidade.
 
As pessoas divagam quando são chamadas ou quando têm a oportunidade de opinar sobre o real e aqui a estrutura representava o real da casa do Vasconcelos, mas ele não representava o real dele mesmo, era uma parte do que já fora e nele não se podia sequer imaginar como tinha sido.
 
Para mim ele vivia numa estrutura de uma casa com uma casa em cima, pois era isso que a casa do Vasconcelos era. Ele não, ele era uma pessoa cuja fundação interior se dava a conhecer, que se expunha, expondo uma parte que era agora o seu todo. Nada mais havia nele além disso.
 
E ele tinha razões suficientes para estar ali, todas as razões, assenti para mim mesmo. Podia muito bem ser aquilo que queria ser: o escritor que se afasta do público, que prefere viver como um eremita social. Era a capa que lhe servia para esconder mais, ao fim e ao cabo servia para esconder tudo aquilo que ele queria esconder.
 
«Este é o meu refúgio – foi o que me disse o Vasconcelos – um dos poucos lugares onde me sinto bem, onde não sou olhado como alguém estranho.
 
Acho que as pessoas aqui nem sabem ou não querem saber o que é estranho ou acham que tudo é estranho, acho que deve ser mais isso… para eles tudo é estranho e acaba por deixar de o ser.
 
Para eles, para quem aqui está, nesta aldeia, o que seria verdadeiramente estranho seria verem as coisas de uma forma normal. Já pensei muito nisto, nesta indiferença das pessoas entre si por aqui … acho que este pessoal foi plantado aqui como o são as árvores: não são de cá, são espécies exóticas e nem querem ser de cá. Todos estão por aqui a fazer passar o tempo para se irem embora mesmo que isso lhes leve a vida toda… em certo sentido estão aqui e não estão. Por isso nada lhes interessa…»
 
E ele, o Vasconcelos, tinha toda a razão, achei eu nessa altura. Eu tinha perguntado sempre a várias pessoas naquela aldeia por uma pessoa magra e doente e todos me responderam de forma natural, como se fosse natural ser-se assim tão magro e tão doente.
 
Não vi nem senti nenhum sinal ou entoação que se contivesse em cada resposta seca que recebi. Era tudo linear, rememorei. Apenas o homem da enxada, aquele que eu já disse que tinha ar de reformado me olhou com mais estranheza que os outros todos como se todos dissessem a si mesmos que era muito estranho eu andar por ali.
 
Daniel Teixeira