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quarta-feira, 7 de outubro de 2015

Gostas de mim, não gostas? - Conto de Daniel Teixeira


Gostas de mim, não gostas?

Conto de Daniel Teixeira

Gostas de mim, não gostas? foi o que ela me perguntou, assim de chofre, naquela tarde na Alameda quando eu tentava fazer com que uma côdea de pão fosse ter certinha a um pobre pato preto que não era suficientemente lesto e deixava sempre que os outros chegassem primeiro ao naco deixando-lhe o bico vazio a chapinhar na água um pouco escura do lago.

Eu conhecia aquele pato e estava a estudá-lo havia quase um mês tentando conseguir saber as razões do seu, para mim, estranho comportamento e não interrompi a minha análise e a reflexão que se lhe acoplava como uma luva por causa daquilo que que a moça me perguntou.

Se gosto dela (?) agora não dava para responder e para além do mais a minha resposta teria as suas consequentes extensões dialogadas e voltei, sem ter saído, da observação ao pato preto. Era estranho, de facto.

Não quero ser cínico, nem sequer quero pensar hoje que naquele dia estava a pensar que o pobre do animal, mesmo não comendo nada, ficava convencido que comia, tal o frenético «mastigar» das suas abas ossudas e a surpresa que eu lhe notei no olhar quando finalmente acabou por «abocanhar» o bom bocado que eu quase lhe encostei ao bico.

Ele terá sentido o sólido do pão ao mesmo tempo que eu senti o deslizante da pergunta que me foi feita pela Clarinha.

Ora a surpresa do pato foi diferente, certamente, os patos não se surpreendem como os humanos, parece-me claro, mas deve ter sido tão intensa quanto a minha ao ter digerido por inteiro a pergunta que a Clara (Clarinha) me fez.

Não deveria ser uma pergunta assim tão estranha se nos conhecêssemos há mais tempo mas era apenas a segunda vez que a levava ali ao lago e depois nos sentávamos num banco esverdeado e suspirávamos respirando o ar puro que o arvoredo nos proporcionava.

Era bom e eu de facto gostava de estar ali com a Clarinha porque ela era extremamente pouco conversadora distinguindo-se nisso das outras colegas dela que eu tinha levado noutros dias, colegas essas que pareciam ter uma necessidade absoluta de espalhar vocabulário sobre as ervas, como se estivessem alegremente semeando os pensamentos que manifestamente preferiam estar ausentes das suas cabecinhas.

Claro que antes disso, antes do lago e da Alameda tinham havido várias saídas com a Clarinha, o que atenuava um pouco, apenas um pouco o meu potencial de estranheza mas por dentro de mim veio, só para mim, a habitual reacção do perguntado inopinadamente: que raio de pergunta!!.

Numa delas, das minhas saídas com a Clarinha, havia uma dessas saídas que eu penso ter sido a mais marcante para a sua pergunta. Terá sido, na minha opinião, o dia eu que eu, descuidado e entusiasmado com o filme que corria no ecrã do cinema local deixei escorregar a mão direita pela sua coxa esquerda e acabei por me encontrar, embaraçado, com a sua mão entrelaçada nos meus dedos apertando-me ela com força toda a superfície sobre-palmar (quer dizer, a parte posterior dos dedos, para simplificar).

O filme até nem era nada de jeito mas a dada altura o realizador achou por bem inserir um lago com um único e isolado pato, branco, por sinal, que vagueava em círculos quase concêntricos. Ora este pormenor levou-me a tentar perceber se o sacana do realizador, ou alguém a seu mando, não teria atado uma corda a uma coxa do pato, obrigando-o assim a circular, circular e só circular e isto durante pelo menos um minuto, e foi nessa altura que joguei uma aflitiva mão à pouco aflita coxa da Clarinha.

Depois disso o pato e o lago do cinema foram-se embora mas a mão da Clarinha ganhou renovada força própria e tratou de escolher para a minha mão um trajecto que não me envergonhando de todo me impede de o referir aqui em detalhe.

Na verdade a escrita, se se entender que «isto» é um escrito, requer-se sóbria, metódica, alinhada, convergente e o que a minha mão fez (não o provocando, esclareço) ultrapassa os limites que a essa mesma escrita todo o escritor (mesmo bera, como eu) lhe deve impor.

Por isso eu digo que terá sido esse mero evento (meia hora : depois vieram as luzes e o fim da sessão), provavelmente com significações diferentes para ela e para mim, terá sido esse evento, repito, que terá estado na origem da inopinada pergunta da Clarinha naquele dia na Alameda.

Aqui devo confessar que tenho pouca apetência e jeito para fazer entoações diferenciadas pelo que me saiu em resposta à sua pergunta um «Claro que sim, Clarinha, claro que gosto de ti.» o que não sei porquê parece não a ter satisfeito. Debandou, ao que me pareceu bastante irritada, fazendo roçar ruidosamente a saia nos silvados que lhe tentavam tolher o caminho.

Vejo-a de quando em vez e ela vira-me simplesmente a cara: sinto vontade de lhe dizer, se para isso tivesse oportunidade, que é injusto que ela me trate assim depois de tudo aquilo que fizemos juntos, tal como estar na Alameda sentados respirando o ar puro da natureza e até tenho pensado, embora desista logo da ideia, que um dia destes lhe falo em irmos ao cinema.




segunda-feira, 28 de setembro de 2015

Aconteceu - Conto de Daniel Teixeira



Aconteceu

Conto de Daniel Teixeira

Foi assim que as coisas aconteceram ou então é assim que eu me lembro delas e isso pode não ser a mesma coisa, é certo, mas vou contar como eu me lembro porque acho que nunca estarei longe daquilo que de facto aconteceu.

Foi há muito tempo já, há mais de trinta anos, já nem sei exactamente quantos porque o tempo das lembranças não tem a mesma forma de ser medido que o tempo da realidade. Não sendo coisas totalmente diferentes é certo e toda a gente sabe que recordação não é bem a mesma coisa que a realidade, que não têm a mesma idade e que é muito raro, mesmo muito raro que a recordação e a realidade passada coincidam , que isso é pouco possível por mais que nos esforcemos como eu faço agora.

Eu era jovem, isso é certo, e ainda por cima pensava que era possível ser-se jovem e ter ideias revolucionárias e na altura estava convencido que as coisas iam mesmo mudar, todos os dias pensava nisso e várias vezes pensava nisso e foi nesse tempo que o homem entrou no café, era um café de gente fina, lembro-me bem que tinha um espaço onde a gente, gente que não era fina, não devia ir ou não devia sentar-se.

As mesas não estavam reservadas mas era costume as pessoas que não eram finas não se sentarem naquele espaço, que era um espaço grande que estava por vezes quase vazio mas que também estava por vezes quase cheio e naquele dia estava bem cheio, aquele espaço.

O homem era um homem do campo, ainda trazia as botas enlameadas que tratou de fazer bater no chão em calçada lá fora mas a lama não saiu toda e o homem foi por ali fora e falou com o empregado de mesa e disse-lhe que queria falar com o doutor, que era médico, porque a sua mulher estava muito mal e ela precisava do médico.

Ele era gordo, o médico, bem gordo e acho que ele estava a jogar às cartas com os amigos e depois de um bom bocado acabou por se levantar e vir ter com o homem que tinha as botas sujas e o chapéu na mão.

A mulher estava muito mal, dizia ele, doía-lhe muito a barriga e o corpo todo e ele precisava que o senhor doutor a fosse ver, receitar-lhe qualquer coisa ou trazê-la para o hospital e o médico disse-lhe: eu conheço-te, tu moras lá no cerro e eu não vou lá, os caminhos não prestam e a última vez que lá fui, para aqueles lados, amolguei o carro todo, à frente e nos lados, gastei uma remessa de dinheiro para o arranjar, não vou lá não, tens de trazer a mulher aqui.

Mas ela não pode doutor, disse o homem do chapéu na mão, ela nem se consegue mexer e vir com ela, na mula, eu não consigo nem ela consegue cá chegar e o médico disse outra vez que não estava para estragar o carro e que o mais certo era ser alguma coisa que ela tivesse comido que lhe tivesse feito mal e ela que se deitasse e tomasse chá, que dormisse e se amanhã ela não estivesse melhor então ele que trouxesse duas mulas que ele ia numa delas mas que o carro não levava até àqueles caminhos e isso nem pensar.

Mas o homem das botas sujas não arredou pé, continuou a pedir ao médico que fosse e disse-lhe que só tinha uma mula mas o médico que fosse nela que ele ia a pé. Depois acrescentou baixinho que ela, a sua mulher, deitava sangue da barriga e que o sangue era muito e que ele tinha de ir vê-la, pelo amor de Deus, acrescentou o homem das botas sujas e do chapéu na mão.

Já sei o que se passa, meu grande burro, disse-lhe o médico em voz alta e todos ouviram os amigos dele que estavam a jogar cartas e as outras pessoas que estavam sentadas às mesas da parte fina do café e também as que estavam da outra parte do café.

E disse ainda o médico gordo, que sabia bem que ela se tinha metido com a velha Ermelinda para fazer um desmancho e que ela tinha dado cabo de tudo e que ele não ia estragar o carro por causa da burrice deles, que a velha Ermelinda merecia ser presa e eles também porque isso não se faz, os desmanchos, e ainda menos por quem não percebe nada do assunto como era o caso da velha Ermelinda.

E eu que não conhecia a velha Ermelinda nem sabia o que se passava, não sabia que àquela coisa se chamava um desmancho, pensei que ele, o médico, ia receitar qualquer coisa para o homem ir comprar à farmácia mas ele disse que tinha de ir lá mas que não ia estragar o carro, ia na mula e dizia que ela tinha de andar depressa senão não havia nada a fazer e a mulher dele morria e foi quando o homem do campo começou a chorar e a pedir ainda mais vezes que o senhor doutor fosse lá por amor de Deus e chorava muito o homem.

Anda daí meu grande burro, disse então o médico, um homem não chora, era só o que me faltava estar agora a aturar as tuas lágrimas e depois disse-lhe ainda que ele deixasse a mula guardada por ali e que iam os dois no carro dele e que ele ia estragar o carro todo, ia ficar com o carro cheio de amolgadelas e que as suspensões iam ficar uma merda e que ele era um burro por deixar a mulher meter-se naqueles trabalhos, e que mesmo que ele já tivesse cinco filhos isso não era razão nenhuma porque panela onde comem cinco comem seis e foram andando depois dele dizer um já volto para os amigos que jogavam cartas.

O médico só voltou muitas horas depois, já eu tinha jantado e tinha voltado ao café para ver se sabia alguma coisa quando ele entrou queixando-se de que tinha estragado o carro todo, que ia ter de gastar uma pipa de massa para o por em condições e os amigos foram ver o carro e eu e os outros fomos todos ver o carro que estava coberto de lama até às portas e tinha amolgadelas à frente e de lado e ele então carregou no tejadilho para que ouvissem as suspensões que rangiam como tudo e disse estão a ver a merda de profissão que eu arranjei e ninguém quis saber da mulher que ele tinha ido tratar e eu fiquei a pensar se ela teria morrido ou não, e só soube no outro dia, que ela não morreu quando o homem veio buscar a mula que tinha ficado abrigada num telheiro ao pé do café e ele disse para quem estava por ali que o senhor doutor às vezes é de mau trato mas que é muito bom homem, muito boa pessoa.





segunda-feira, 7 de setembro de 2015

Conto baixinho - Daniel Teixeira


Conto baixinho

Eu já estou emigrado há longo tempo e embora não esteja muito longe do meu local de nascimento, do meu país, da minha pátria, nunca mais aqui pus os pés.

Não interpretem isto como sendo uma forma de desapego injurioso para com as minhas raízes, ou como uma manifestação de peneirice motivada por alguma ideia de superioridade entre a minha vida presente e o meu passado porque na verdade lá onde vivo as coisas não me correm bem, passo mesmo alguma fome sobretudo no refeitório da fábrica onde trabalho que desde há anos aderiu à ementa quase gourmet e aos fins de mês é um verdadeiro suplício pagar as poucas contas que tenho.

Durmo perto de uma linha de comboios que trabalha 24 horas por dia praticamente fazendo passar um comboio por minuto e no emprego, para além da escassez dos alimentos de que já falei sou tratado como um cão, ou talvez a imagem não esteja certa porque os cães em princípio não têm de fazer centenas de peças por dia e algumas delas são autênticas ofensas para o que resta do meu ego memorial pessoal.

No meu dia a dia estou simplesmente farto de fazer tampas de campainhas para bicicletas, puxadores para caixões e juntar com solda as duas metades das garrafas de camping gás, eu que até não sou adepto do campismo, eu que tinha em bom recato a imagem das duas rodas pedaladas na infância, eu que vejo em cada par de puxadores a imagem fúnebre de um pobre diabo estendido num isolado e frio recanto de uma igreja.

Chego a colocar problemas filosóficos sobre o triste destino do proletário que eu sou, alienado do resto do produto do meu trabalho, sem saber quem vai tocar alguma daquelas campainhas que eu comecei, quem vai ter uma garrafa de gás «das minhas» ou mesmo quem vai ser o usuário daqueles puxadores que a terra não irá seguramente comer desde logo, mas que comerá devagar durante anos de ferrugimento.

É triste mas é assim e antes que me perca mais em divagações deixem-me tentar explicar porque não me apeteceu voltar aqui ao meu país até agora. A explicação é fácil e não foge aos clichés habituais que se foram cimentando sobre o ser do emigrante.

Uma coisa é viver mal no estrangeiro, o que o comum dos nossos mortais conterrâneos gregarizados na ignorância dos mundos lá fora considera ser impossível e outra coisa bem diferente é viver mal no nosso próprio país, onde se passa uma imagem inversa.

É absolutamente possível para a minha classificação social, aliás, diria que é a possibilidade única, viver-se mal no nosso país e nem sequer ter a veleidade de fazer passar a imagem de uma réstia de felicidade mesmo quando se vai ver um bom filme ou se sai de uma jantarada contadinha ao tostão. Ser triste, ser pobre, macambúzio, lamechas, choramingas, é a regra nacionalizada que não admite excepção.

Lá fora, onde estou, é diferente e para mim, nem sequer é possível ter a pretensão absurda de pensar que vivo descansadamente mal porque os outros cá não o sabem. Os nossos antecessores, neste êxodo migratório secular, levaram, todos eles, a realidade escondida nos bolsos e dela não abrem mão pública. Mas eles sabem tudo, sabem tudo e não fica nada que eles não saibam.

Na verdade, e aprofundando as coisas, a grande valorização de estar longe do seu país é porque a miséria no estrangeiro é sempre melhor tolerada que a miséria no nosso país. Não é uma questão de grau, viver mal é igual em todo o mundo e não tem escalas, mas a sensação é diferente.

A miséria do cosmopolita pode até ser chique, tem um status, vale psicologicamente mais embora o aperto da fome nos estômagos seja igual em qualquer canto do mundo. Mas é assim...e basta ler os jornais para saber que é mesmo assim: um sem abrigo em Nova York tem infinitamente mais classe que um sem abrigo em Lisboa.

Pois bem: amealhei durante cinco anos para fazer uma deslocação a Portugal, à minha terra, ver os amigos que ainda restam, e sobretudo ver se ainda restava algum, enfim, foi uma decisão longamente ponderada: cinco anos é assim um tempo normal para se considerar longo, acho eu e em estado de ponderação pode considerar-se quase uma tibetana eternidade.

Assim que desembarquei do autocarro calhou-me logo ver ao balcão da bilheteira uma antiga namorada minha, velha como tudo, de papos horríveis nos olhos e umas mamas transbordando em suporte incompleto no tampo anterior do balcão.

Ela fez o favor de nem me reconhecer, o que é foi bom porque não sabia mesmo o que lhe dizer se entrássemos em conversa. Quase tínhamos estado no altar da Igreja não fora o facto de ter sido um falso alarme a sua possível gravidez, o que levou a um adiamento sine die que ela não levou muito a gosto na altura e de certa forma acho que foi melhor para ela assim. Se ela soubesse o que eu sei hoje sobre a minha vida reconheceria rapidamente o favor que eu lhe fiz.

Mas erro meu, aqui, neste fugaz encontro com a minha antiga namorada: na verdade ela apenas fez que não me reconheceu mas topou-me e bem. Eu estava mais magro, foi o que me disse quando saiu de trás do guichet e aqui as mamas dela pareceram-me mais proporcionadas e até os papos nos olhos pareciam ter diminuído.

Se eu não fosse um gajo frio, calmo, ponderado, racional ao extremo teria pensado que havia ainda um pouco do fogo da nossa paixão e parece-me que sim. Na verdade, as coisas são como são: ela disse-me que tinha esperado sempre por mim, que eu tinha sido o único homem da vida dela e mais coisas que me enterneceram o coração.

Teria ficado por cá, demo-nos muito bem durante os dias que cá estive, acabei por não encontrar ninguém verdadeiramente conhecido e aquelas pessoas que o tinham sido, conhecidas, homens e mulheres já não eram os mesmos pelo que nada me prendia senão o decrescer vertiginoso da amplitude das mamas da Joana, o aligeirar dos papos nos olhos e mais umas coisas que relevam do domínio do íntimo e pessoal.

Mas pesei tudo, ponderei cerca de trinta dias e cheguei à conclusão que era impossível viver nesta miséria portuguesa (não levem a mal), um país onde não havia campainhas de bicicleta, garrafas de camping gás e puxadores de caixões para fazer. Nada, não havia nada: nem sequer comboios de minuto a minuto. Uma autêntica miséria....
Daniel Teixeira






sexta-feira, 22 de maio de 2015

Irene - Conto / Crónica de Daniel Teixeira


Irene

Conto / Crónica de Daniel Teixeira

A Irene não era bonita, nunca tinha sido bonita e nunca seria bonita,
pensava eu no tempo em que a conheci mais de perto, então era ela jovem, isto pelos idos dos anos oitenta.

Lamentava-a porque, reflectindo, depressa tinha de chegar à conclusão que há pessoas que nascem, crescem e morrem sem nunca serem bonitas e eu não sou grande adepto da ideia do destino como guia do passado, do presente e do futuro.

Não acredito nas condenações eternas, acho que as coisas e o mundo estão em constante movimento, enfim acho que aquilo que é pode deixar de ser e que aquilo que não é pode vir a ser.

No caso dos homens o problema de ser feio não parece ser tão grave
porque existe uma tradição implantada, penso eu. Corre por aí que as
mulheres não se importam muito com essas coisas, ou que conseguem
descobrir a beleza em traços quase imperceptíveis ao imparcial olhar
comum.

Enfim, não vou fazer, neste espaço que é uma história, uma dissertação sobre a influência do patriarcalismo nestas coisas mas parece-me claro que, numa lógica do homem mandante este terá sempre defeitos que são socialmente mais toleráveis em si do que nas inferiorizadas e comandadas mulheres.

Claro que nos anos oitenta havia já um esbatimento da ferocidade
patriarcal mas como sabe quem essa época viveu uma parte substancial das concepções de inovação nesse campo eram para uso crítico do comportamento dos outros e muito raramente para consumo próprio.

Mas tratava-se ainda, nesta altura que refiro, quando ela tinha cerca de
vinte anos mais ou menos, de ter de pensar num percurso de feiúra ainda a percorrer, por isso, e contra minha vontade, voltava à ideia de
destino e este parecia-me alicerçado nessa então recente certeza
científica que era a genética.

Qualquer mente, mesmo sem ser muito dotada para a imaginação sentia-se quase na obrigação de projectar para ela um percurso crescente de feiúra: era fatal, penso eu, que alguém não visse, desde a primeira vez que via a Irene que o que lhe restava a ela pela frente era ser precisamente igual à sua mãe, boa senhora, por sinal, conformada com a sua fatalidade.

Quando se olhava para a Irene via-se logo o realce em amplificação e
profundidade das rugas à volta dos olhos, via-se-lhe o crescimento dos
chamados papos, o encarquilhar lento mas irremediavelmente progressivo dos lábios - agora ainda relativamente carnudos - empurrados para dentro dela pela perca de alguns dentes (primeiro os sobressaídos da frente) e imaginava-se aligeirado o afundamento pela colocação de uma daquelas placas em prótese branquérrima, denunciando desde logo a sua artificialidade, tal como na sua mãe.

Via-se, imaginava-se, calculava-se também perfeitamente a possibilidade que deixava de ser cada vez menos remota à medida que nisso se pensava que a placa descolaria do céu da boca, tal como na sua mãe, quando ela se risse muito, coisa que fazia agora. E ria sem complexos a Irene.

Sabia-se desta mesma forma também que o queixo dela se afundaria cada vez mais, misturando-se com as rugas do pescoço (se engordasse talvez se misturasse com o papo) tal como a sua mãe.

Mas o que interessava era que por mais voltas que a sua fisionomia desse nunca ela ou outros veriam decrescer aquele nariz enorme, um autêntico triângulo bermudiano apontando para uma distância incalculada nos ares à sua frente, um apêndice desproporcionado, uma verdadeira intrusão de um corpo num espaço roubado, um geométrico lançado de arestas afiadas no perfil, uma agressiva e quase cortante intrusão no espaço vital de quem a visse de frente.

Pois...a Irene não tinha passado de beleza, não tinha presente de beleza e o futuro era ainda mais ameaçador para ela.

Mas, e há sempre um mas que merece ser metido em altura oportuna, consta que constava que a Irene confidenciava repetidamente às suas amigas, já nesta altura que descrevo, um segredo que era simultaneamente sentido como um chamamento: "Tenho de casar rapidamente!"- dizia - como que a constatar aquilo que eu tenho descrito atrás e acima. "Tenho de casar rapidamente, antes que a minha feiúra progrida ainda mais!"- era o que a Irene queria dizer, digo eu.

Possibilidade de fazer plásticas não havia: a Irene era apenas e só
economicamente remediada; tinham, ela e a mãe - o pai falecera
oportunamente - algumas rendas de pequenas propriedades, de casas
antigas, algum dinheirito a render, pouco, seguramente e trabalhar por
conta de outrem não era tradição na família nem sequer sei que
actividade poderia exercer a Irene porque nunca a essa ideia se dedicara e o tempo normal de começar estas coisas já ia passando.

Não sei exactamente como tudo se passou imediatamente antes, nem quais os preparativos que a Irene terá eventualmente feito e também não consta que tenha dado conta de alguns desses preparativos às amigas mais chegadas, mas o certo é que um dia a Irene desapareceu da cidade.

Falecida a sua mãe com quem convivera desde sempre, talvez não se
sentisse em condições de reviver a memória dela no mesmo espaço durante todo o seu tempo e partiu.

Foi o que eu e as suas amigas e amigos pensamos, embora todos achássemos estranho ela não dizer nada a ninguém. Soubemos entretanto que tinha vendido as casas e os terrenos que lhe ficaram. Não terá amealhado muito, era a voz corrente. E foi assim como que um corte radical, o acabar de um livro que se fecha e não se leva na bagagem aquilo que achámos que a Irene tinha feito.

Pois...todas as histórias têm um remate final senão não valeria a pena
contá-las e esta não foge à regra. Estava eu então em Lisboa num
intervalo de esplanada quando se aproximou de mim uma senhora. Eu já ia nos quarenta e a tal senhora por aí andaria, quando ouço um «Olá, estás bom!?».

Virei-me na direcção daquilo que me pareceu ser um chamamento a mim dirigido e deparo-me com a Irene, sem tirar nem por, quer dizer, com mais vinte anos como eu, mas igual a ela mesma. Dei-lhe os tradicionais dois arremedos de beijo na face, convidei-a a sentar-se e ela então foi-me contando aquilo que era feito nela.

Primeiro vieram as razões porque não tinha dito nada a ninguém quando se viera embora. Ainda recordo, passados mais alguns anos, as suas palavras: aquele ambiente era para mim sufocante - foi o que ela me disse - alegre sim, confessou, tinha ainda algumas saudades dos amigos e amigas, mas chegara à conclusão que precisava de se diluir numa multidão e na nossa pequena cidade sentia-se encurralada.

Embora nunca se tivesse apercebido de ser alvo de chacota, cada vez que entrava num café ou saía com as amigas e os amigos ou mesmo só sentia-se alvo de todos os olhares. Por vezes sentia a piedade, aquela sensação estranha de ser motivo de pena.

Aguentou tudo enquanto a mãe foi viva, não iria nunca abandonar a velhota e nem sequer podia sugerir-lhe fazer aquilo que ela tinha feito.

Viera para Lisboa, tirara um curso de secretariado e encontrara emprego num pequeno escritório na baixa onde se mantinha desde então, já lá iam quase vinte anos. Com o tempo foi-se adaptando à nova realidade e hoje, naquela altura, sentia-se bem. Vivia só num apartamento depois de algumas bolandas por quartos alugados e disse-me: era feliz.

Acredito que sim, acreditei nela, na sua sinceridade, embora o peso da
solidão estivesse presente nela. Gostou de me ver - disse. Eu também e
nunca mais vi a Irene.

Por vezes, como agora, lembro-me dela e por estranho que me pareça sempre, embora ela fosse naquela altura em Lisboa quase igual à Irene que eu tinha conhecido muitos anos antes pareceu-me ter uma face e uma figura como qualquer outra pessoa.




quinta-feira, 21 de maio de 2015

Eu e fulana - Conto (Humor) de Daniel Teixeira


Eu e fulana

Conto (Humor) de Daniel Teixeira

Este título precisa de ser explicado porque podem aparecer várias opiniões sobre o facto dele ser como é, o título. Quando se diz fulana (ou fulano) embora nunca se consiga esconder o factor depreciativo, pode estar a querer dizer-se que se trata de alguém cujo nome não queremos, por razões diversas, escrever por explicado explícito.

Numa conversa de rua, por exemplo, e quando vão passando diversas pessoas nas proximidades, pode-se utilizar o termo (fulana ou fulano) para esconder a identidade da pessoa de quem se está a falar, porque não é conveniente que essa identidade seja declarada, mesmo que não se saiba se as pessoas que vão passando à nossa volta estão (pela notoriedade dela) ou estariam (pelo teor da conversa) sim ou não interessadas em saber do que ou de quem se está a falar.

O meu caso, e isto desde logo porque não interessa muito estar a consumir tempo e espaço, é diferente: escrevi fulana porque a mulher (senhora) tinha (e deve ter ainda) um nome horrível.

A mulher do Afonso Henriques chamava-se Urraca e, com todo o respeito patriótico que me é exigido, devo dizer que eu não casava com uma mulher com um nome destes: eu sei que o amor é cego e etc. mas desculpem-me todas as Urracas deste mundo mas comigo não contem...nem as Urracas nem aquelas cujo nome seja igual à que eu agora chamo de fulana. E mais uns quantos nomes, mas isso agora não vem ao caso...

Por mais depreciativo que possa parecer, o termo fulana está milhas acima do nome daquela mulher (senhora). E a coisa era assim, avançando eu na descrição da minha relação com fulana.

Vivíamos próximo, numa daquelas ruas com casas térreas quase todas iguais e eu de vez em quando era solicitado pela Dª Fulana (é melhor meter maiúscula!) para desenrascar coisinhas daquelas que levam meses a ser resolvidas por um sempre assoberbado profissional de qualquer métier relacionado com a domus, desde o parafuso na fechadura até ao candelabro do sec. XVIII.

A coisa ia bem, razoavelmente bem: as solicitações da Dª Fulana, que só era Dona porque era de boas famílias mas que em teoria deveria ser Menina, embora fossem frequentes, essas solicitações, atingiam uma regularidade mensal por mim considerada razoável: uma média de dois parafusos e uma lâmpada chama por mês ou uma de casquilho grosso ocasionalmente, mas factores exteriores ao nosso relacionamento semi-profissional (sou amador, eu) vieram conturbar uma relação que tendia a estender-se até às nossas respectivas covas (a dela primeiro que a minha segundo a lei das probabilidades).

A Dª Fulana arranjou um namorado, um espertalhão, na minha opinião, que tinha como fito declarado na cara sugar-lhe os tostanitos e metê-la daí a anos num Lar da Misericórdia se não optasse por dar à sola quando a coisa estivesse mais para lá do que para cá.

Ora, a minha intimidade com a Dª Fulana (cujo nome real eu era obrigado a dizer pelo menos uma vez quando batia à sua porta), era daquelas intimidades tipo paternais.

Embora eu fosse (e sou) bastante mais novo que ela eu era o pai dela nas questões que metiam parafusos, porcas, lâmpadas, tomadas, peras e nalguns cuidados especiais quando começaram a aparecer na casa dela as novas tecnologias como o micro-ondas, o DVD, a televisão por cabo, etc.

Ora, nestas coisas, como o seu namoro, eu não deveria nunca meter a colher, e não meti e esse terá sido o meu grande erro. Ora o homem era o que era e ela era maior e vacinada e pergunto a qualquer leitor imparcial se eu não procedi bem...é claro que procedi! O homem não tinha fusíveis, nem termóstato, nem comando electrónico porque razão eu me deveria meter!?

Por outro lado, e já disse isto acima, o amor é louco e etc. e ela sabia ou deveria saber bem as linhas com que se cosia. Ser solteirona não é certificado universitário de imbecilidade para ninguém...

Como já devem ter calculado, o gajo, por artes e engenhos vários, foi-lhe sacando aos bochechos o dinheirinho que ela tinha no banco e pirou-se em seis meses e isto ao ponto dela nem sequer ter disponibilidade para comprar as lâmpadas e os parafusos que eu continuava a substituir-lhe em casa.

O micro-ondas deu o bafo, a televisão por cabo foi-lhe cortada, e lá tivemos de regressar ao velho sistema da antena no telhado com acesso a 4 canais com os riscos que isso voltou a comportar para mim obrigando-me a constantes subidas e descidas ao telhado para acertar a imagem.

Quando a coisa começou a tornar-se incomportável para mim (ela já me devia seis lâmpadas - três chama e três de casquilho grosso - uma antena nova e o preenchimento de uma declaração de IRS com multa) eu tive de lhe dizer:"Ó Dª Fulana!!! O barco vai titanicando e a este ritmo não há Céline Dion que nos safe!!" fui então surpreendido pela surpreendente resposta.

"A culpa é sua!! Você sabia muito bem que o fulano (chamava-se Góis!) me ia levar à penúria e não me avisou de nada!!"

Daniel Teixeira



Fotos e memória - Conto (Humor) de Daniel Teixeira


Fotos e memória

Conto (Humor) de Daniel Teixeira

Tenho-me dedicado tanto quanto posso a pesquisas na net sobre fotografias e como devem calcular encontro um pouco de tudo e mais do que aquele todo imaginável pelo naïfe que eu sou. Mas, sem entrar em desbragadas análises sobre o quase inalisável o que mais me tem chamado a atenção é o facto de se encontrarem muito poucas fotos comuns sobre gente comum, na net.

Tenho visto algumas páginas pessoais, daquelas mesmo pessoais, com poucos centenas de visitas nos contadores, mas mesmo nestes casos tenho encontrado algum desejo de ser mostrado o incomum naquelas pessoas que deveriam mostrar-se gente comum por serem gente comum.

Os meus primeiros encontros com gente comum que não quer ser comum ou que se não quer assumir como comum, vulgo vulgar, sem diferença, orgulhosa de ser como é e não orgulhosa por ter sido incomum num dado momento da sua vida, foi quando pesquisei páginas pessoais com fotos e verifiquei que uma série razoável de gente tinha fotos das suas viagens, às Caraíbas, por exemplo, ou outros destinos exóticos.

Dependendo das nacionalidades o exótico é aquilo que se não encontra na terra onde vivemos: um português, por exemplo, tira fotografias de neve e montanhas, posa alegremente ao lado de um professor de sky, assenta os pés em dois palitos nos quais se vê que ele mal se consegue manter direito, e enterra firme e profundamente na neve dois tacos agarrados como enxadas e sorri, meu deus, como ele ou ela sorriem para a foto, para o fotógrafo, para a máquina mas sobretudo estão, dentro deles a pensar como irão fazer roer de inveja os amigos quando mostrarem as fotos sem sequer calcularem que eles se estarão borrifando para o facto de eles terem estado 24 horas vezes não sei quantos na Sierra Nevada ou mesmo nos Alpes.

A foto é alegre, a alegria é pessoal e o desejo de ferir o próximo (o vizinho teso ou com menos posses) é evidente. Nada está escondido na manga...

No caso de um Norueguês, por exemplo, o exótico é andar entre biquinis, toplesses, e abundância de carne exposta, ver e fotografar uns quantos marmanjos e marmanjas, estas com as mamas à mostra, de preferência, tirar a inevitável foto com uma bebida colorida num bar todo em madeira com os troncos "rústicos" à mostra e dar um chocho para o fotógrafo guardar no negativo.

Em qualquer dos olhares, português ou norueguês, ou de qualquer nacionalidade, o que se lê entre linhas, é a expressão da necessidade de mostrar ao próximo vizinho quanto felizes foram as férias, mesmo que se subentenda por vezes que a fominha passada fora das fotos foi enorme ou que mesmo os cartões de crédito levarão eternidades a ser saldados.

Gente comum não há, nunca há gente comum: quando um indivíduo, munido da sua indispensável máquina de chapear, vai ao Tibete, por exemplo, tem forçosamente de arranjar um monge, uma peregrinação, uma referência ainda que remota ao Lama do sítio, um mosteiro alcandorado nas montanhas, ou mesmo um animal daqueles que parecem camelos e se babam aos litros e quilos para a fotografia e para o fotógrafo.

O pobre e vulgar cidadão, com preocupações com o fisco ou mesmo sem possibilidades de ter essas preocupações não aparece senão quando calha em fundo de ecrã: e no entanto há tanta gente comum, tanta, tanta que são mesmo mais do que os Lamas, os professores de sky, ou as floridas havaianas.

Cheguei pois à conclusão que é impossível arranjar gente comum fotografada: gente mesmo comum. Uma simples velhinha a troco de muita insistência ou mesmo por biscate exibe o abundante relevo das rugas, esboça um sorriso talvez por gozo interior e mostra uma catrefa de dentes em falta ou simplesmente apodrecidos.

Não há, de facto gente comum senão aquela que é obrigada ou sente que é simpático mostrar o comum da sua vida ou vivência.

Uma mocinha, atingida a maior idade, não se importa absolutamente nada que a fotografem com os trajes da região (que ela vai buscar à arca a casa porque no dia a dia anda de mini saia) e com um pouco de insistência ou nenhuma mostra uma fatia da perna para decorar e dar mais interesse ao traje.

Os "profissionais" da "gente comum", esses, vão a África, arranjam pela agência uma festa tribal que pagam entre todos e batem fotografias de gente comum toda coloridamente besuntada com lama colada ao corpo, empunhando ameaçadoras lanças cuja ponta nem cortaria manteiga, e aparecem adornados com máscaras o mais mal feitas possível e alegadamente retalhadas directamente em troncos de árvore mas que alimentam a pequena indústria carpinteira local.

Mas, um dia, se Deus quiser, ainda verei na net fotos de gente mesmo comum.

Daniel Teixeira



O drama verde de Roberta - Conto (Humor) de Daniel Teixeira


O drama verde de Roberta

Conto (Humor) de Daniel Teixeira

Uma vez que me parece que gostam de histórias aqui vai uma que não é especialmente de Natal embora se passe também no Natal. O ano, como todos sabem, tem 365/366 dias, dentro dos quais está compreendido o período de Natal e esta história passa-se durante todos os ainda curtos anos de vida desta menina de que eu vos vou falar.

Exactamente quantos Natais se tinham passado na vida desta menina na altura em que me contaram a história não sei exactamente, mas, para jogar pelo seguro, vou escrever que se tinham passado à volta de dez anos (dá para menos e dá para mais nesta proximidade decadal).

Pois bem, a Roberta; um nome como outro qualquer mas com conotações especiais neste caso porque o seu pai se chamava Roberto o que faz pressupor ao mais imparcial observador e desde logo uma razoável dose de egocentrismo da parte do pai, tinha, a Roberta, filha do senhor Roberto e da senhora Maria das Dores ( aqui começo a ter a impressão que a escolha do nome Roberta como opção não foi de todo infeliz ) tinha, esta menina um problema familiarmente grave que se resumia - "resumia" para nós que não vivemos o problema - ao facto de ela não gostar de ervilhas.

Nada de grave (!!), dirão e com bastante razão porque não conhecem o resto da história. Na verdade existem milhares ou pelo menos centenas de substitutos para a ervilha e está provado que se pode viver perfeitamente sem comer ervilhas.

Mas os pais da Roberta gostavam de ervilhas e tinham a certeza de que a Roberta também gostava de ervilhas.

Ela, por simpatia e para não desgostar os ainda não muito velhos pais, nada dizia. O drama para a Roberta corria numa frequência considerada razoável numa família normal, arranjando ela as desculpas usuais para se escapar da mesa em dia de ervilhas.

Deveria ter dito que não gostava de ervilhas, é certo, mas quantos de nós não gostamos de uma dada coisa e, por delicadeza ou para não ferir sentimentos, e quando se trata de comida, somos até capazes dessa hipocrisia suprema que é dizer que essa coisa de que não gostamos (ou que odiamos mesmo ) e que somos obrigados a comer em casa de amigos "estava óptima" etc. etc. e que, para não dar muita pomada, afirmamos que com um bocadinho mais de noz moscada ainda ficava melhor?!

O cúmulo, que é o que algumas mulheres sobretudo, mas mulheres ou homens, sem coração, fazem, é segredar ainda a super hipócrita frase: " tens de me dar a receita!!" O ser humano é verdadeiramente esquisito, digo-vos eu, mas isso pode ser dito por qualquer um de nós e não implica qualquer esforço suplementar.

Pois bem, o rame rame sacrificial da Roberta foi cortado por um acontecimento inesperado por ela mas há muito desejado secretamente tanto pela sua mãe como pelo seu pai.

Houve, um dia, um saldo extraordinário numa grande cadeia de supermercados e os pais da Roberta resolveram atacar a arca congeladora preenchendo-a de sacos de quilo de ervilhas (congeladas como não podia deixar de ser ).

A Roberta assistiu ao transporte de cerca de 100 kilos de ervilhas do carro para a arca com um sorriso nos lábios ( era boa mocinha, a Roberta ), ajudou inclusivamente ao descarregamento e era ver as suas mãozinhas enternecidas, enrubescidas e enregeladas pelo contacto com o plástico trazerem os sacos e virem colocá-los alinhados dentro da arca.

Ao mesmo tempo um observador mais atento ( que neste caso foi o narrador da história ) poderia ver as lágrimas brotarem dos seus lindos olhos azuis e correr-lhe pela face.

Mas sem um sinal sequer de contrariedade ou de revolta. Amor de filho é assim. Ao deitar deu o usual beijo aos pais e eles nem se aperceberam que ela nessa noite se chegava mais a eles no abraço, e que ela lhes acarinhava docemente o cabelo, fazendo correr as suas mãozinhas pelos fios onde ia depositando grossos bagos de lágrimas.

E, sem dizer mais nada, durante a noite abandonou o lar.

Tinha então cerca de doze anos a Roberta e os pais nunca mais souberam nada dela. Nem um telefonema, nem uma carta, apesar da pobre e dolorida mãe quase sempre ir apanhar o carteiro na estrada tanta era a sua esperança...

A história é um pouco mais triste ainda porque o Roberto e a Dona Maria das Dores nunca mais entraram no quarto da Roberta e, carinhosamente ( como só os pais sabem fazer ), com os olhos vermelhos de tanto chorar todos os dias tanto tempo, serviam sempre um prato que colocavam no lugar que antes a Roberta ocupava na mesa.

Com alguma frequência eram ervilhas...

Daniel Teixeira




sábado, 14 de março de 2015

A senhora Joaquina


A senhora Joaquina

Tinha este nome, Joaquina...enfim, eu acho que era assim o seu nome, mesmo que agora isso não seja assim tão importante. Faleceu há bastantes anos, tinha eu talvez uns catorze ou quinze anos. Mas conheci-a a ela praticamente desde que me conheci a mim.

Sempre a vi e ainda hoje a vejo com duas malas que sempre pensei serem muito pesadas. Calcorreava a cidade de Faro vinda de uma aldeia próxima. Estivemos lá uma vez, a visitá-la. Fomos, eu, a minha mãe e o meu irmão que na altura era o mais novo, de camioneta. O outro, o que nasceu alguns anos depois não deve ter conhecido a senhora Joaquina como eu a conheci. Acho mesmo que nenhum deles conheceu da vida dela aquilo que eu conheci.

Vivia numa casa térrea, rodeada por uma cerca e no terreno havia árvores de fruto. Lembro-me bem das ameixas mas havia também laranjeiras, amendoeiras e duas ou três alfarrobeiras e ainda amoras... sempre reparei nestas coisas, nas árvores plantadas.

Nesse tempo não sabia, penso que não sabia como sei hoje porque gostava tanto das árvores mas agora penso que talvez seja porque dão uma ideia de continuidade nas vidas. A senhora Joaquina faleceu e as árvores lá ficaram e ainda lá florescem e dão frutos todos os anos, penso eu. De qualquer forma é assim que eu vejo hoje aquela sua casa e as suas árvores. Já lá estavam quando ela nasceu, isso eu sei porque ela me disse e ficarão para sempre na imagem que tenho da sua casa.

Vendia roupas, a senhora Joaquina. Enviuvara, talvez nos tempos da pneumónica, isso nunca perguntei, não tinha filhos nem propriedade que lhe bastasse e vendia roupas.

Naquele tempo não havia muita coisa que se pudesse vender assim de porta em porta. Era sobretudo roupa interior que ela vendia, meias de lã e algum tecido para costurar, botões, agulhas: do tecido trazia as amostras e na volta seguinte entregava.

Era uma senhora muito alegre, sempre bem disposta e vendia também umas rifas que davam cem escudos da roupa que ela vendia a quem saísse o número premiado. Era muito amiga da minha mãe, talvez porque fossem as duas camponesas, ainda que nascidas e criadas a muitos quilómetros de distância, mas acho que o pessoal do campo é igual em todo o lado e isso sabe-se logo: a amizade e a cumplicidade já lá estão antes das pessoas se conhecerem bem. É assim mesmo.

Talvez por isso a minha mãe foi provavelmente a única a saber que ela nem ligava aos números da lotaria para dar os prémios de cem escudos em roupa. Umas vezes dava a uma senhora, outras vezes dava a outra, outras vezes dava à minha mãe...e outras ficava para ela: quando lhe perguntavam a quem tinha saído respondia que tinha sido a uma senhora do Alto Rodes, outras vezes uma senhora do Pé da Cruz, enfim...para os outros era sempre indeterminada a ganhadora. Ela mesma, muitas vezes.

Como disse era uma pessoa muito alegre, as gargalhadas soavam desde que chegava até que partia de nossa casa carregando as duas malas. Às vezes comia mesmo ali na nossa casa: trazia uma marmita com comida do campo que a minha mãe aquecia e era mesmo uma pena vê-la partir depois...era mesmo uma alegria de pessoa.

Depois, bem, depois teve um azar, só se pode dizer disso ter sido um azar... Segundo ela estava um fim de semana a fazer a limpeza da casa e tinha lá uma arca com roupas do falecido que foi escolhendo e metendo numa fogueira que fez no quintal da cerca. Aquilo que achava que já não serviria para nada e estava ali a ocupar espaço, a apodrecer e já não lhe trazia recordação nenhuma.

Esqueceu-se, disse depois ela passado mais de um mês sem nos visitar, que tinha guardado todo o seu dinheiro, todas as notas amealhadas no meio dessas roupas. Quando se lembrou já era tarde. Todo o dinheiro acarinhado ao longo de anos, carregando as duas pesadas malas pela cidade de Faro, percorrendo quilómetros e mais quilómetros tinha ardido.

Envenenou-se, teve uma quebra e a alegre senhora Joaquina envenenou-se. Os vizinhos ainda acorreram a tempo depois de terem ouvido os gritos dela e levaram-na ao hospital. Esteve lá cerca de um mês e recomeçou a sua vida e foi só quando ela nos foi visitar que soubemos do sucedido.

Mas já não era a senhora Joaquina que eu tinha conhecido: encolhida numa cadeira na nossa cozinha, pequenina e triste, beberricava uma gemada com cerveja preta que a minha mãe lhe tinha feito: Precisa de ganhar forças, senhora Joaquina, precisa de ganhar forças, dizia-lhe a minha mãe. E por ali ficaram conversando um bom bocado.

Quando se foi embora tive a certeza que nunca mais veria a senhora Joaquina tal como a tinha visto até aquela altura. Há pessoas que morrem antes de morrer e a senhora Joaquina morreu quando perdeu o resultado de todo o seu esforço de tantos anos de trabalho e eu disse-lhe um adeus sem querer mostrar o desgosto que me ia na alma.

Pobre senhora Joaquina: o sobrinho roubou-lhe todas as economias e foi para o Canadá. Ela não quis fazer queixa nem disse a mais ninguém porque ele era do seu sangue e este envenenou-lhe o sangue dela para sempre.

Daniel Teixeira



sábado, 21 de fevereiro de 2015

Romance acabado - Conto de Daniel Teixeira


Romance acabado

Conto de Daniel Teixeira


Eu tinha os condimentos todos na minha história, ou pensava que tinha, mas talvez eu tivesse exagerado na complexidade de dar volta ao romance e construir as páginas necessárias para que a obra ficasse satisfatoriamente aceitável.

Havia várias fontes de inspiração mas eram fontes ao nível superficial porque é praticamente impossível fugir às nossas referências literárias e o processo da minha personagem era bem diferente de tudo aquilo que seria pensável coadunando-se bastante com a minha anterior experiência de crítico literário.

Tratava este meu romance que acabou por não o ser do relacionamento entre o escritor e o público e a crítica também, embora esta última fosse referida de uma forma mais subtil.

O meu personagem era suficientemente inteligente para saber que podia dispensar alguns leitores, ou mesmo muitos, mas que estaria liquidado como escritor caso afrontasse a crítica de uma forma demasiado directa, de nada lhe valendo os numerosos prémios até ali acumulados. Seria irremediavelmente votado ao olvido, ostracizado.

A crítica que o tinha elogiado e continuava a elogiá-lo nunca o deitaria abaixo senão pelo olvido depois de o ter subido, isso sabe-se, eu sei como as coisas funcionam : poderiam aqueles que se tinham mantido mais discretos no seu apoio começar por meter uma ou outra opinião menos favorável, progressivamente, mas esse processo levaria muito tempo ou não seria nunca mesmo completado. Ele nunca seria reduzido a zero.

Para além disso, deste cuidadoso aspecto do seu relacionamento com a crítica e no outro campo onde se sentia sem peias, nas conferências, notava ele pela leitura das expressões das pessoas que uma parte grande do seu público então presente considerava que aqueles mitos, os mitos que ele criara, aqueles que ele pretendia desfazer mais não eram que manifestações da sua excentricidade.

Na verdade que coisa mais fácil de apreender pela grande massa, mesmo aquela que era muito, mas mesmo muito culta que todo ele era excentricidade?

Vestia-se quase como um mendigo, o cabelo encrespado parecia não ter sido regado havia dias ou mesmo semanas, o blusão surrado acumulava gordura no colarinho e nas mangas, a barba crescia-lhe desordenada e a sua forma de se expressar era extremamente difícil de ser entendida: entrava num caminho de discurso para logo se perder nas encruzilhadas e depois nas curvas e mais tarde regressava, passado tempo ao ponto de partida. Mas era bom a escrever, confuso, mas bom.

Assim, havia alguns planos que podiam muito bem ser considerados quase paranóicos no comportamento do meu personagem sobretudo quando se entendia - quando se entendia - o fio daquilo que ele dizia e que afinal era claro e simples para ele e para muita gente que o quisesse entender.

Mas, acho que as pessoas não o queriam mesmo entender quando ele falava: tinham criado dele uma imagem, tinham incorporado aquilo que ele escrevia na sua imagem dele e a razão da sua grande frustração devia-se não a ele mas sim aos outros que tinham de alguma forma feito daquilo que ele era aquilo que sempre pensaram e iam pensando dele sempre na mesma linha de construção.

Não havia mesmo nada a fazer, dizia eu mesmo ao meu personagem, porque eu dialogava com ele, procurava encontrar-lhe uma saída que lhe fosse satisfatória, que o levasse a permitir-me ao fim de umas duas centenas de páginas escrever finalmente a palavra «fim».

Ele chegara à conclusão que as pessoas não o liam tal como ele escrevia, quer dizer, que as pessoas davam um sentido diferente quer às suas palavras quer aos seus temas e ao percorrer quase o mundo em conferências tentou sempre explicar que não era aquilo que as pessoas pensavam o que ele queria dizer, porque essas mesmas pessoas faziam a identificação dos seus textos com ele mesmo e faziam as suas palavras, entendidas nesta perspectiva, como se fossem guias ou referenciais do seu comportamento real e ao tomá-lo como ídolo pensavam que a sua ligação comportamental pessoal era a ideal, aquela que deviam seguir.

Ora, de nada disso se tratava, repetia ele, uma vez e dezenas ou mesmo centenas de vezes quer em conversas particulares, quer em escritos, quer nas inúmeras conferências para as quais era convidado. A sua ideia - dizia ele - era a de criar nos seus leitores uma repulsa tão forte àquilo que os seus personagens representavam ou faziam que fizesse surgir neles, leitores, o desejo de uma moral e de um comportamento inverso.

E era dramática a situação dele, tentando combater moinhos que existiam de facto mas que não eram susceptíveis de lhe proporcionar nem sequer uma ilusória vitória.Tentei convencê-lo a suicidar-se, coisa que teria parecido uma coisa assim quase normal para quem trabalha na escrita a tal nível de complexidade e abstracção e que tem grande tradição na literatura e nas artes mas ele não aceitou a ideia o que me alegrou ao fim e ao cabo.

Para mim nada mais eficaz, nestes casos do que uma morte acidental, uma coisa que possa acontecer a qualquer um, uma doença em limite, enfim, uma morte normal se é que a morte é alguma vez uma coisa normal.

Mas tanto ele como eu tivemos receio que isso acabasse por funcionar como um incentivo maior à sua leitura, porque escritor morto tem mais sucesso. Havia a possibilidade, sempre tão seguida na literatura de o mandar para um sítio qualquer inopinado, uma reclusão num desconhecido local mas isso não resolvia nem o meu nem o problema dele.

Continuariam, os seus leitores à espera que ele voltasse e eu não conseguiria gerir a sua ausência de forma a meter o tão desejado termo «fim» no meu romance.

Que posso eu dizer mais? Nada mais tenho a acrescentar senão pedir desculpas por não ter escrito este romance. E daí, desculpa porquê ? Talvez este meu romance nem fosse lido senão por mim...bem talvez também o lesse a pessoa que fizesse a correcção e o ordenamento na editora, mas essa não conta.




sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

Um leve sonho pesado - Conto de Daniel Teixeira


Um leve sonho pesado - Conto de Daniel Teixeira

Lembro-me, lembro-me sempre - e mais ainda me lembro disso de cada vez que conto esta história - que as pessoas dividem os sonhos em sonhos que são sonhos e em pesadelos. Está combinado que seja assim, a sociedade, os homens, o hábito, combinaram isto tudo desta forma mas todos sabemos que um e outro são sonhos, um que se considera bom ou agradável, e que 
se chama de sonho e o sonho pesado, que se considera como sendo um pesadelo.

Não existe, contudo, que eu saiba, saída para o pesadelo senão o acordar abrupto. Ora neste sonho que eu tive e que tem uma parte grande de pesadelo, eu não acordei, no pesadelo. Houve o cuidado inconsciente, é claro, de me libertar dele, de adoçar o seu final transformando o pesadelo em sonho tal como se entende ser o sonho. 

Foi um trabalho árduo da minha mente, para o qual eu não terei 
contribuído como é certo e para o qual ela, a minha mente dentro do meu eu consciente adormecido arranjou uma solução ou um seguimento narrativo quase coerente, passe o surrealismo próprio das coisas que são sonhadas.

Por isso, hoje, ao escrever aqui aquilo que foi este meu sonho, entre tantos que tenho tido, deixo à minha mente liberta do consciente as minhas mais sinceras homenagens. Ela merece! 

Quanto ao sonho...nele, dentro dele,primeiro havia um grande pássaro, um pássaro enorme, de asas negras e peito acinzentado que rodava, rodava e rodava à minha volta como se estivesse preso num mastro pelas pernas, fazendo círculos quase perfeitos e largando pios profundos, que me soavam como gritos de criança e que pareciam começar nas suas entranhas, como se fossem expirados por um sopro ainda maior que elas. Era, o piar, maior que os pulmões donde advinha, foi o que pensei.

Um Haiaiaiai! prolongado que durava minutos, muitos minutos, ou então era impressão minha, e acabava num som rouco, como se o ar sorvido antes se não tivesse ainda esgotado dentro do peito do pássaro grande. Assim mesmo. E era um roncar em cordas agudas, forte, ensurdecedor, como se os ruídos da própria terra e o ar à sua volta nada fossem comparados com ele, com o gritado pelo pássaro negro.

Depois havia um índio que era um índio com uma só pena presa tombada da cabeça por uma fita que parecia de couro, pintada com uma enormidade de cores em pequenos quadrados e um rosto que parecia cavado na pedra, sem expressão, de olhos fechados e cabeça tombada, cantando e rezando, como se estivesse a invocar aquela terra muito vermelho acastanhada, seca, batida pelo sol que passava pelos meus olhos à frente e atrás das asas do enorme pássaro.

Durou tudo muito tempo, não sei bem quanto tempo demorou até que o animal, que estava preso no seu circulo de voo, parecendo estar preso pelas pernas, começou a alargar os círculos que fazia, como se o elástico do seu arco se fosse esticando e sempre gritando passou rente a mim uma vez e outra vez e por fim lá partiu em direcção ao sol que se encostava já ao longe numa montanha.

Eu tinha os meus olhos protegidos com os braços e a partir de certa 
altura preferi não olhar para o pássaro e cruzava ainda com mais força os dedos, entrelaçando-os junto aos olhos, como se isso para mim fosse a esperança, aquilo que me restava, a melhor arma que o meu medo arranjara: não ver para evitar sofrer.

Eram dois mundos, duas realidades ao mesmo tempo contando como se fossem tempos diferentes e a minha recolhia-se por tempo infindo e abria-se por segundos, apenas pelo tempo suficiente para eu ver o pássaro, a sua sombra e o índio e a terra onde eu estava deitado.

E o índio lá continuava sempre, de pernas dobradas junto ao solo, de quando em vez fazendo pequenos movimentos como se procurasse assentar melhor as pernas dobradas a cada voo e a cada passagem do pássaro. Mas não saía praticamente do mesmo lugar, estava sempre ali, esteve sempre ali mesmo depois que o pássaro partiu. 

Procurava precaver-se do seu regresso, do regresso do pássaro enorme, de asas negras e peito acinzentado, pensei eu, tal como se tinha protegido do voo do pássaro enquanto ele durara, cantando e rezando sempre numa lenga lenga da qual eu não entendia nem o começo nem o fim.

Havia várias lendas sobre aqueles pássaros, tinham-mas contado na aldeia e todas elas apontavam para a destruição certa de quem fosse cercado pelo «bicho negro». Que havia olhos arrancados primeiro, braços decepados e por fim o pouso triunfal do animal sobre o peito da sua vítima arrancando com o seu enorme bico a carne do peito, ficando apenas o esqueleto e o coração.

Este órgão, o coração, segundo as lendas que eu tinha ouvido na aldeia, ficava palpitando e se alguém chegasse após a partida do bicho e o arrancasse e o metesse numa ânfora de barro meio cheia de sangue de cabra - tinha de ser de cabra, o sangue, segundo as lendas - ficava vivo para sempre, latejando baixinho, tão levemente que só quem olhasse atentamente podia ver. Mas lá estaria ele, a mexer, sorvendo o sangue de cabra a expelindo-o de novo para a ânfora num compasso quase imperceptível.

Eu não conhecia o índio, não conhecia nem acreditava no pássaro, nem acreditava na imortalidade do tal coração deixado intacto pelas bicadas do pássaro negro. Era uma lenda, nada mais que isso, não significava nada. Agora penso que foi talvez por eu não acreditar, por eu não crer, que tive aquele sonho. Talvez tenha sido por isso mesmo... 

Então apareceu uma jovem, era mesmo uma jovem, uma jovem que não constava da lenda que me tinha sido contada e que dificilmente
encaixaria no episódio do voo do pássaro negro com peito acinzentado, nem sequer o velho com face petrificada que rezava ainda.

Mas fazia parte da história, a jovem e fazia parte da história o índio 
cantante da pena solitária na cabeça mesmo que não fizessem parte das lendas que tinha ouvido na aldeia. As lendas não contam nunca tudo, nunca se debruçam sobre os detalhes e no emaranhado das suas versões há sempre uma especial apetência pelo realce do horrível, pelo realce da provação. 

A jovem agarrou-me na mão esquerda que tal como a direita tapavam ainda os meus olhos receosos, fez um pouco de força para me erguer, sorriu e levantando os braços finos começou a içar-me, primeiro pondo-me de pé e depois elevando-me num voo que eu não entendia como podia ter lugar uma vez que ela não tinha asas. Talvez fosse um anjo e talvez nos sonhos os anjos não tenham asas, não sei, mas foi assim mesmo como conto que tudo se passou. 

Fez-me sobrevoar uma montanha, depois outra e ainda outra e depois, entre duas montanhas, e sobre um vale verdejante que contrastava com o vermelho acastanhado do resto que nos rodeava, deixou-me a mão e eu senti que também podia voar.

Estava aterrorizado embora voasse livremente sobre o vale verdejante, tinha medo que o impulso acabasse, que eu viesse a cair a pique da altura em que encontrava mas nada disso aconteceu e pousei os pés no solo, num espaço livre de arbustos. 

A jovem ficou lá pelo ar olhando-me e depois foi partindo na mesma 
direcção que tinha tomado o pássaro negro de peito acinzentado, lá onde o sol se punha, e foi-se fazendo cada vez mais pequena até que a perdi de vista.

Belisquei-me, não era sonho, tinha sido assim mesmo, era assim mesmo, tudo tinha sido real, desde o pássaro negro até ao índio cantante e à jovem que voava e eu que voara. E ali estava eu no meio do nada, verdejante, é certo, mas sem ter noção do caminho a seguir para regressar a casa.

Consegui divisar uma estrada logo ali no cimo do vale, uma estrada que era estrada para mim porque via nela passarem os topos de carros e camiões. Estava zonzo, mesmo zonzo, não percebia o que se passava, o que se tinha passado, não sabia nada e em certo sentido não queria saber. 

Só queria sair dali, abandonar aquele lugar, aquele sonho que não era bem um sonho, ou que talvez fosse, queria sair daquele mundo tão surreal, daquele mundo onde tanta coisa tinha acontecido em tão pouco do tempo de toda a minha vida.

Na estrada houve um carro que parou ao pé de mim com alguma chiadeira de pneus. A estrada era longa e direita e convidava à velocidade. O senhor que conduzia o carro abriu-me a porta sem uma palavra mas nada disso era para mim importante. Queria sair dali e saí.

Daniel Teixeira