sábado, 8 de dezembro de 2012

ALCOUTIM - Recordações (Crónicas e Ficções Soltas) I - Por Daniel Teixeira

 

ALCOUTIM - Recordações (Crónicas e Ficções Soltas) I - Por Daniel Teixeira

Pedindo as minhas desculpas ao amigo José Varzeano por estar a retirar-lhe a integralidade da página / tema gostaria de recordar aqui algumas das minhas memórias recolhidas neste Monte da Mesquita referida por ele, terra da naturalidade do meu avô materno.

(ver texto do José Varzeano aqui)

Conforme referi no meu texto geral sobre esta região e nas minhas demasiado curtas memórias já escritas no Alcoutim Livre sobre estes locais onde passei vários meses todos os anos, devo agora à distância confessar que sei ter algumas memórias destes meus tempos de infância e juventude, mas...por estranho que eu mesmo acho ser, tenho uma recusa quase instintiva em aprofundar muita coisa.

A explicação que eu tenho encontrado vacila muito entre o desejo de guardar desse «meu» outro Monte (Alcaria Alta) uma boa memória e prende-se também com o facto de que agora, tudo visto à distância, os laços de afinidade, eclipsando-se com o tempo e com o desaparecimento das gentes - levei muito tempo a ir regularmente a Giões a funerais de familiares directos e indirectos e seus e meus amigos - acabam por fazer definhar esses laços, acabam por os fazer perecer, e a gente, estando por lá ou falando de lá, pergunta-se interiormente, mais vezes do que gostaria, por aquelas pessoas de quem gostava e gosta tanto...

Por onde andará o meu velho avô que nas minhas memórias ainda me aparece claramente, deitado, de chapéu tombado sobre a cara, no poial da pequena cerca da arramada, de cabeça encostada a uma albarda, de botas surradas e onça de tabaco espreitando no bolsinho do colete?

Que é feito do seu ar envergonhado pedindo-me ajuda para subir o para si já pesado arado para cima da albarda do burro? O que é feito do seu ar comprometido a bater com uma esteva as redondezas do nosso poiso nocturno em noites de dormir ao relento em folhas de terra mais distantes? Seria porque já fora picado por lacraus e ele mesmo tinha medo dessa dor horrível ou seria para que isso me não acontecesse a mim?

Que é feito de minha avó, por onde andará ela, a mulher que mais cedo se levantava em Alcaria Alta e que percorria ainda noite os caminhos para chegar ao romper da luz às hortas, regar e repartir para uma outra e outra e outra antes que o sol começasse a queimar?

«Sentindo passos atrás de si, não muito longe de si, na noite escura como breu, agarrou numa pedra maior que as suas  mãos e gritou: - Quem quer que venha aí que passe para a minha frente e que mostre a cara! - Sou eu Ti Virgínia - o João!»

Este, coitado, esteve uma enormidade de anos na Alemanha, comendo o pão que o Diabo amassou, para vir morrer de ataque cardíaco não muitos anos depois do seu regresso...por isso, também, que é feito da vida que eu tive nesses sítios ? O meu amigo Juanito, morto no Ultramar, o Antonico igualmente já falecido, o seu irmão mais velho falecido há poucos anos aqui no Hospital de Faro e que na violência do seu mal nem sequer me reconheceu?

Eu, sem mal que me apoquente, não me reconheço nem reconheço a «minha» Alcaria Alta de hoje: para mim desde há alguns anos, desaparecido o laço que me mais fortemente me ligava a ela, a minha mãe, recuso-me a aceitar a Alcaria Alta de hoje.

Há tempos, li num blogue de uma pessoa que penso ser a filha da Odília Guerreiro - filha do João Baltazar  - que o senhor Zézinho Martins andava a pastar o seu próprio gado: um dos homens mais ricos de Alcaria Alta, um lavrador que enchia a cozinha ao almoço e ao jantar com pelo menos uma vintena de ganhões em tempo de arado, ele mesmo, a dar pasto ao seu próprio gado (duas ou três reses pelo que percebi).

Não é que lhe caiam os parentes na lama, não se trata disso, mas é porque não há gente para ajudar (trabalhar) e porque apesar de tudo é preciso fazer continuar a vida mesmo que ela nos escorra pelos quadradinhos do calendário. O Zé Lourenço, seu «criado» (por vezes zangava-se e ia trabalhar para a «concorrência» - o outro lavrador do Monte) que tinha medo das trovoadas e que largava tudo assim que começava a trovejar, estivesse onde estivesse: largava tudo menos as bestas, e lá vinha ele, de chapéu na mão, aterrorizado, arrastando as arreatas, sem outra reacção que não fosse rezar a Santa Bárbara...

Zé Lourenço...o «pão de centeio», talvez o último serviçal, aquele que nas noites de trovoada dormia no quarto do patrão rezando até de manhã.

Pois eu, se bem me lembro daquilo que me lembro das deslocações com meu avô ao Monte da Mesquita, é de um facto cuja importância este texto do José Varzeano me fez afinal fundamentar sobre uma percepção esquisita que eu tinha desse Monte da Mesquita. Não se via vivalma...e havia ainda gente no Monte...

Habituado à franqueza daquelas casas portuguesas que conhecia pelos montes ao redor, com oferta insistente de cafezinho e pão com queijo e presunto, com as portas das cozinhas sempre abertas - chegávamos a tornear algumas passagens por termos a barriga a estourar - na Mesquita ali ficávamos os dois, recolhendo as azeitonas, as alfarrobas e comendo solitários do farnel: nem pessoa se aproximava e no entanto meu avô era de lá, quer dizer, tinha nascido lá: deveria haver alguém que pelo menos o conhecesse ou que ele conhecesse, mas não: acho que aquele Monte já estava moribundo mesmo, desabitado mesmo que estivesse habitado, sem alma, sem memória viva.

Acontece...os Montes são quase como algumas pessoas...podem eles também morrer muitos anos antes de morrerem de facto.


Publicado pela primeira vez no Jornal Raizonline 102 de Janeiro de 2011

 

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

ALCOUTIM - Recordações II (Crónicas e Ficções Soltas) - Por Daniel Teixeira

 
 
ALCOUTIM - Recordações II (Crónicas e Ficções Soltas) - Por Daniel Teixeira



Pedindo de novo as minhas desculpas ao amigo José Varzeano por estar a retirar-lhe a integralidade da página / tema (os seus trabalhos espevitam-me a memória) gostaria de recordar aqui algumas das minhas memórias recolhidas sobre este tema dos médicos de alguma forma considerados milagreiros que se encontram normalmente referidos em memórias de sítios ou locais mais pequenos e predominantemente referidos como médicos dos pobres.
 
O Dr. João Dias, referido pelo José Varzeano será um  caso à parte e como tal será referido e lembro-me concretamente que a primeira memória que tenho de ouvir falar dele através da minha falecida mãe - «especialista» em memórias e de grande memória até ao final da sua vida - foi a já por mim referida ao José Varzeano no seguimento de um artigo de um colaborador do Blogue Alcoutim Livre - salvo erro o Amílcar Felício - história da mudança de sexo de um homem que tinha nascido com uma deficiência nos órgãos genitais e que fora considerado mulher seguindo um costume médico na altura e dados os conhecimentos e meios imperfeitos que havia nesses tempos: «Em caso de dúvida, fá-la mulher» ao que me consta ensinava-se entre colegas médicos (agora obstetras) na altura.

Encontrei vestígios desse tipo de comportamento na forma não médica quando do estudo de alguns livros de antropologia através da referência em tribos indígenas tanto em Africa como na América e mesmo na Oceânia tudo levando a crer que tal comportamento tomado de forma natural tenha tido lugar em todas as partes do globo. Não havia problemas em termos sociais evidentes durante o período da infância mas em despertando a puberdade o caso acabava por tornar-se complicado mesmo nessas sociedades primitivas.
 
Estas pessoas normalmente eram colocadas numa casta social específica acabando por tornar-se pessoas com direitos desiguais e normalmente relegadas para a exclusividade dos trabalhos domésticos ou auxiliares, cuidar de crianças, etc.  não participando de forma activa na hierarquia normal da sociedade ou tribo, dependendo sempre em termos sociais e económicos dos progenitores (ou a quem fossem vendidos/vendidas). Breve, não eram nem uma coisa nem outra (homem ou mulher) o que visto segundo a linearidade lógica espontânea das sociedades primitivas teria a sua razão de ser: eram elementos desestabilizadores em estruturas delineadas secularmente: não li no entanto nada que me levasse a pensar que houvesse ou tivesse havido eliminação física dessas pessoas. (Radcliff-Brown e Daryl Forde, Engels, Espinas, Morgan, Bachofen,   R. Fortune, etc.).

Ora e em relação a esta «operação - cirurgia» do Dr. João Dias foi-me relatado pela minha melhor fonte neste plano (minha mãe) que a pessoa um causa (uma mulher com pelo menos aparente genitália «feminina» mas hormonas masculinas ) era reparada pelo facto de acompanhar muito com os homens e de dar preferência à companhia destes em vez de se integrar no meio que lhe era considerado - artificialmente mas oficialmente - natural, o meio feminino. Este reparo serve apenas para fazer notar o «distúrbio» social que o seu comportamento mais livremente efectuado levantava milhares de anos depois das tribos primitivas e do que se falava sobre o assunto embora tivesse o contra de ser um meio relativamente pequeno.

A outra referência memorial que tenho, menos médica e até um pouco humorada refere-se ao facto de me ser apontado o sítio «exacto» onde o carro do Dr. João Dias tinha ficado avariado durante dias até que o levaram à força de bestas e cordas tendo isto acontecido no caminho cercado (de cercas) da portela do Monte das Velhas. Chamava-se Portela à «porta» de saída para o Monte mais próximo por vezes, outras vezes o mais frequentemente acedido por essa tal de Portela.

Este preciosismo quanto ao local exacto do evento funcionava assim como que um ponto de honra para o pessoal de Alcaria Alta até por razões para mim paradoxais - tinham tido o carro do Dr. João Dias, ali, precisamente ali, durante dois ou três dias. O motivo da deslocação seria uma consulta a alguém do Monte (ao que me lembro um familiar de um Lavrador) e naqueles tempos para haver uma ida ou pedido de vinda de um médico - do único médico, diga-se - era porque já tinham falhado todas as tentativas caseiras. 
A
parentemente o Dr. João Dias teria enveredado directamente da estrada Alcoutim (Quatro Estradas dos Balurcos)  - Martinlongo e metido pelos terrenos de cultivo que naquela zona até são bem planos e teria chegado até ali (percorrendo talvez 6 a 10 kms de cultivo ou mato, depende da altura) vindo da direcção do Monte das Velhas em linha quase recta para Alcaria Alta. Ali chegado as lajes e as pedras irregularmente compostas no solo puseram fim à sua viagem...mas não à sua tarefa, vindo logo gente buscá-lo em besta.

Ora estas referências dão alguma quase magia aos acontecimentos: automóveis talvez houvesse mais alguns na sede do Concelho mas não mais que um ou dois, seguramente; médico o Dr. João Dias era o único (havia outro o Dr. Mendonça mas para os lados de Cachopo) e quem fizesse uma operação daquelas também só havia uma pessoa (tanto para a fazer como a quem ela poderia ser feita); alargue-se tudo isto a toda a região algarvia, isolada ainda do resto do país pela Serra do Caldeirão e por uma estrada com as tradicionais nunca contadas 365 curvas, com um caminho de ferro incipiente (o troço Faro - Vila Real de Sto António foi completado em 1906) e teremos um trabalho verdadeiramente heróico da parte do pessoal de saúde em zonas de mais difícil acesso.
 
A capacidade de improvisação era necessariamente grande e a falta de medicamentos tanto por não existirem como por serem sempre caros para quem praticamente não conhecia o dinheiro tornavam as situações propícias à legenda popular e a algum exagero milagreiro.

Em Faro (cidade) tivemos do Dr. Silva Nobre, também conhecido médico dos pobres, que também tem um busto em frente à casa onde habitou e onde foi o seu consultório, em frente a um Banco, rodeado de cervejarias e lojas de pronto a vestir e em Faro/Loulé a Dr.ª Fernanda Mealha, dermatologista e especialista conceituada em lepra, e força da especialidade - e não só - também considerada médica dos pobres, há poucos anos falecida, num relativo esquecimento, erradicada que foi - quase - a lepra.

A lição que pretendo tirar de todo este conjunto de referências acaba por responder um pouco à pergunta que o José Varzeano faz directamente e deixa também implícita outra parte no final do seu texto: o mito popular médico, tratar dos pobres, «fazer milagres» ou tratar dos mais pobres entre os pobres como o dizia Madre Teresa de Calcutá (ela também praticamente esquecida) não rende outra memória senão a memória popular. E esta, como sabemos, sendo curta de geração não tem forma de ser relembrada porque o orgulho institucional nos seus filhos ainda é bem mais curto.
 
 

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Coluna Um - Os períodos eleitorais - Por Daniel Teixeira

 
 
Coluna Um - Os períodos eleitorais - Por Daniel Teixeira
 
Os períodos eleitorais são para mim um verdadeiro paradoxo quando atingem aquela febre que já se vai tornando habitual nas suas pontas finais. Penso, por aquilo que leio e ouço que o fenómeno é geral, que existe em todos os países, mas não deixa de ser curioso que o processo tenha sido adoptado nos mais diversos quadrantes, também um pouco resultado do facto das campanhas terem períodos determinados no tempo, com princípio, meio e fim.
 
É no fim, quer dizer nos últimos meses antes das ditas eleições e nos últimos dias antes da sua realização que os ânimos aquecem, quer por necessidade de dar resposta aos chamados adversários ou por iniciativa própria que os diversos intervenientes no jogo ajustam o vocabulário, aumentam o volume da sua voz e utilizam os meios que julgam necessários para conquistar pontos aos adversários, baseados em análises resultantes de sondagens, em criteriosos estudos que dividem o eleitorado em faixas etárias, faixas de género, faixas de condição económica, faixas de intenção de voto, de utilidades de voto, enfim, a terminologia daria para encher pelo menos algumas páginas.
 
Faz-me sempre lembrar os jogos de futebol em que uma equipa, que em 90 minutos de jogo não consegue meter um golo na baliza adversária, protesta, pede cartão amarelo, reclama contra as lesões dos adversários que por princípio são sempre fingidas. nesta perspectiva, nos minutos finais e em que o outro, o adversário, aproveita o tempo para fazer as substituições que não fez porque não achou necessário mas que agora já acha que são necessárias ao cair do pano, faz uma falta ou outra desnecessária, enfim, empatam-se as coisas na perspectiva de um e aceleram-se as coisas nesses tais minutos finais na perspectiva de outros.
 
Um governo, ou qualquer órgão institucional eleito tem pelo menos 4 anos para mostrar aquilo que vale e se vale alguma coisa, as oposições têm também 4 anos pelo menos para mostrar aquilo que acham que o outro não vale, mas tudo se resume (dizer resumir é excessivo) aos tais minutos finais (que podem ser duas semanas, dois meses).
 
O matraquear ou metralhar do pobre eleitor é um verdadeiro abuso e tudo se conjuga para que as ideias mais ou menos guardadas durante os tais de 4 anos (ex.) sofram uma reviravolta ou se mantenham sem reviravolta, consoante os interesses e os intervenientes. «Descobrem-se» nestes períodos os mais diversos escândalos, sejam eles financeiros sejam eles políticos ou mesmo de outras índoles e no final, quer dizer, no dia das eleições, no dia do depósito efectivo do cartãozinho na urna, pelo menos uma percentagem razoável dos eleitores vota. não com a consciência, mas com a percepção algo abstracta de que o seu voto vai no caminho certo ou é «dado» a quem de facto o merece.
 
Já se tem assistido a verdadeiras reviravoltas no último minuto, como aconteceu na primeira eleição de Zapatero em Espanha, em que o elemento despoletador da reviravolta foi um trágico ataque terrorista e já aconteceu o inverso em França em que os distúrbios nos bairros periféricos de Paris acabaram por contribuir para eleição do então Ministro do Interior, agora Presidente Sarkosy.

Afinal será que o eleitorado anda mesmo às aranhas ou que não sabe analisar os comportamentos a longo ou a médio prazo e formar opinião ou será que tem a opinião tão frágil que um único acontecimento faz virar a balança do seu pensamento, que os últimos minutos são determinantes para a formação e consolidação dessa mesma opinião, ou será simplesmente, o mais provável na minha opinião, que o eleitorado, de uma forma geral, precisa que lhe digam mesmo de uma forma explícita em quem deve votar?

O facto de se fazerem grandes obras, de se inaugurarem outras grandes ou pequenas, até por várias vezes como já tem acontecido, terá de ser assim tão determinante para a formação de uma opinião de voto?

Afinal o resultado do voto, até que as coisas mudem, o que não convém absolutamente nada diga-se (incomoda-me verdadeiramente os países que andam em eleições quase mensais) o resultado desse voto não é para durar os tais exemplares 4 anos e não deveria ser estudado durante os anteriores 4 anos todos e não nos últimos 4 minutos da partida?

É dificil pensar em termos de estabilidade para se fazer alguma coisa quando, por exemplo em Portugal se sabe que os Presidentes da República são eleitos por um mais um mandatos, que os governos andam sempre vai não vai sem saber se ficam se vão embora, se as Câmaras Municipais, depois de atravessado um período de longas (e quase eternas) repetições eleitorais, têm ultimamente mudado globalmente a um ritmo acelerado, que as administrações dos Institutos Públicos mudam de acordo com a camisola governamental eleita, que existem milhares de cargos de nomeação que caem ou não caem depois das eleições e que, como se tudo isto não bastasse ainda se dá os tradicionais 100 dias de período de habituação aos lugares a este pessoal todo fora as alterações pontuais que se vão fazendo periodicamente.

Temos depois a também tradicional distribuição dos jobs for the boys que leva eternidades a assentar, que roda e volta a rodar consoante a adaptação de a, b, ou c para o lugar para onde foi nomeado.

Enfim é um rol quase interminável que leva a esta sensação de inconstância, de fragilidade estrutural, de trabalho de cada um por si (e para si) que os eleitores portugueses vão sufragar neste ano que corre muitos deles instavelmente durante os últimos minutos do jogo.

O Churchil dizia que a democracia era o pior dos sistemas políticos excluindo todos os outros: agora que só localizadamente existem outros sistemas talvez seja bom aperfeiçoar esta mesma coisa porque assim é mesmo desesperante.
 
 

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Crónicas e ficções soltas - Por Daniel Teixeira - O CERRO DO LAGARTO DE ALCARIA ALTA E O CERRO DO «NARIZ DEL DIABLO» NO PERU

 
 
Crónicas e ficções soltas - Por Daniel Teixeira - O CERRO DO LAGARTO DE ALCARIA ALTA E O CERRO DO «NARIZ DEL DIABLO» NO PERU

O cerro do lagarto, em Alcaria Alta, é uma lenda da qual eu não me lembro de ter ouvido falar dela por outras pessoas senão pela minha mãe que me disse tê-la ouvido contar pelo meu avô. Contava-me ela que algures, numas terras, todas elas com pequenas e maiores elevações, os chamados cerros, havia uma grande pedra com um lagarto esculpido em ouro embutido que só uma pessoa tinha visto uma vez. Dizia ela tratar-se de um local conhecido como sendo o «cerro do lagarto» mas que ninguém sabia qual cerro era.

Essa pessoa, à hora do pôr do sol, teria visto um brilho grande vindo do solo e aproximando-se teria visto então o lagarto em ouro. Teria tentado arrancar o ouro sem o conseguir e não podendo trazer consigo a pedra dadas as suas dimensões e peso tinha marcado o local onde ela estava e ficara de regressar no dia seguinte munido das ferramentas necessárias para recolher o lagarto de ouro partindo a pedra. Por mais que procurasse a pedra no dia seguinte e nos seguintes não a encontrou.

Ao que consta na lenda o homem terá ficado de tal forma transtornado e obcecado que mesmo ali montou uma pequena habitação como os pastores costumam fazer com pedras empilhadas e estevas cruzadas regadas com argila em líquido a fazer de tecto e ali terá ficado buscando nas redondezas e cada vez mais longe durante anos até que a morte o levou passados muitos anos.
 
Quem o viu durante esse tempo de vida não conseguiu nunca chegar-lhe à fala porque ele fugia e escondia-se nos inúmeros barrancos que por ali haviam. Reparavam essas mesmas pessoas que ele transportava sempre consigo uma roupa em estilo de albornoz pendendo do ombro com um peso que todos achavam serem pedras. Quando se deu por certo o seu falecimento quem lá foi buscar o corpo, passados muitos dias, verificou que ele tinha a sua pequena casa e abrigo repleto de bocados de xisto, a pedra predominante naquelas paragens, todas elas partidas em pequenos bocados e algumas quase em pó.

Ora esta história foi-me de facto contada pela minha mãe: parece-me evidente tratar-se de uma lenda e o meu avô era um bom contador de histórias. Contudo de reparar que friso o seguinte: contar histórias para ele não era propriamente contar mentiras. Ele contava o que lhe constava e que lhe contavam e praticamente percorreu todo o sul do país quer em trabalho quer nos seus negócios pelo que muito terá ouvido e muito terá guardado.

A minha memória sobre este tal de cerro do lagarto esteve adormecida durante bastantes anos mas não pude deixar de a relacionar com uma outra lenda que me apareceu relatada na Net com localização no Peru (América Latina, a milhares de quilómetros de Alcaria Alta) e que tem igualmente a sua génese num cerro, o Cerro do Nariz do Diabo e que conta assim.
 
Para o Cerro do Nariz do Diabo existe uma lenda Peruana referindo o Lagarto segundo a qual uma cultura pré-inca terá habitado o território do Nariz do Diabo assim conhecido por ser encimado por um cerro (uma pequena montanha) que se destaca das outras pelo facto de ter dois orifícios no seu rochedo xistoso semelhantes a duas fossas nasais.

Essa mesma cultura pré-inca considerava os lagartos, abundantes nas proximidades do Rio Chira (um importante Rio em Sullana), como divindades pelo que confeccionaram com ouro uma imagem de um Lagarto que veneravam como um deus.

É provável que os «marcaveles», os habitantes desses locais, ao terem conhecimento da chegada das hordas de Pizarro, cobiçando o ouro e a prata, tenham enterrado o sagrado «lagarto de ouro» nas entranhas de este misterioso e legendário Cerro (do Nariz do Diabo). Dizem que o local era um cemitério e que em alguns dia do ano têm lugar visitas aos jazigos existentes. Há alguns anos às quintas feiras santas homenageavam-se os falecidos do local.
A lenda do lagarto de ouro

Neste cerro aparece um pequeno Lagarto de Ouro que dorme nas margens do rio e que sai sempre ao alvorecer encantando os que deambulam por ali com o seu brilho e adormece-os e leva-os para dentro do cerro do qual não voltam a sair nunca mais.

No mês de Abril na semana santa os marcavelenses rezavam a seguir ao meio dia e acabavam antes da meia noite pedindo que o lagarto nunca lhes aparecesse.
 
Um dia chegaram à hospedaria local uns jornalistas que tinham ouvido falar das diversas versões desta lenda do lagarto e pediram que lhes fosse contada a lenda e a pessoa que a contou preveniu-os desta faceta do lagarto de encantar as pessoas e de levá-las para o interior do cerro não saindo elas mais de lá. Quiseram no entanto saber se era apenas uma lenda ou se havia algum fundo de verdade nesta lenda.
 
No dia seguinte levantaram-se de madrugada e foram com o guia até ao inicio do cerro. O guia, com temor de ir mais à frente, sentou-se em frente ao cerro e via como eles riam enquanto esperavam e um deles entretanto resolveu tirar uma fotografia ao cerro pelo que desceu até ao seu sopé.

Quando voltou para junto dos seus amigos viu que o lagarto de ouro tinha aparecido e como eles começaram a seguir o lagarto deslumbrados com o brilho do ouro. Quanto mais entravam nos caminhos do cerro o lagarto ia deixando como rasto bocados de ouro até desaparecer da sua vista.

Este jornalista fugiu daquele cerro assustado enquanto se ouviam gritos espantosos. Os seus colegas nunca mais apareceram.

Quem conta esta lenda do Lagarto do Cerro do Diabo, sempre um velho, muito velho mesmo, mas bem rijo ainda nos movimentos acrescenta sempre no final a pergunta: querem ir visitar o Cerro para ver se encontram o Lagarto de Ouro? Eu levo-os...mas só vou até ao sopé do Monte...Há quem tenha visto nos olhos do velho indígena quando o sol lhe ilumina a face um brilho intenso como se fosse o brilho do ouro.

Coluna Um - A culpa é do branco

 
 
Coluna Um -  A culpa é do branco
 
Há dias, durante a visita do Primeiro Ministro Inglês a Brasília, o Presidente Lula da Silva afirmou sucintamente que a presente crise económica é resultado da actuação de indivíduos «brancos, louros e de olhos azuis», numa referência que todos entendemos estar o mesmo Lula a dizer que os países pobres (em princípio não brancos) estavam a sofrer aquilo que outros tinham fabricado, e que essas pessoas apareciam antes pelo Brasil e por outros países «julgando e dizendo que sabiam tudo».
 
É um facto que, de uma forma geral, a crise actual, resultando sobretudo de especulações financeiras subidas além do chinelo da razoabilidade, tem o seu alicerce nos países ocidentais normalmente considerados ricos e sobretudo, na medida da sua importância em termos económicos, o seu efeito é proporcional à sua capacidade financeira. Quanto maior a nau maior a tormenta e neste caso concreto maior ondulação produz a grandeza dessa nau agora sem rumo nem remos.
 
Esta coisa da moeda é algo de extraordinariamente simples na sua origem: a moeda resulta das transacções de mercadoria (para as quais se estipula um dado valor) evitando-se assim o tradicional sistema da troca directa, ainda em uso nas comunidades rurais, por exemplo, em que se paga com ovos, por exemplo, o café.
 
O intermediário capital, neste sistema, contudo, ganha vida própria, desliga-se da sua realidade de base, joga com os tempos, com remunerações para aplicação, é aplicado com remuneração, ou seja, procura reproduzir-se: quem tem mil euros disponíveis, por exemplo, entrega-os a um banco, que por sua vez o remunera numa dada percentagem e, por estranho que pareça, dizem os financeiros, esses mesmo mil euros na sua rotação podem atingir cerca de 100 voltas, ou seja, podem «transformar-se» em 100 mil euros, dos quais 99 mil são em parte substancial virtuais.
 
E digo que são em parte virtuais, estes 99 mil euros e não na totalidade, porque uma parte dessa virtualidade acaba por agregar-se a realidades e acaba por fazer parte dessa mesma realidade. Vejamos - e peço desculpa por ser tão primário no raciocínio mas não sei trabalhar de outra forma - vamos supor que nessa rotação uma parte fomenta uma actividade produtiva (ou outra complementar) e o milagre da multiplicação dos pães está feito.
 
Os mil euros iniciais, que resultavam de uma realidade, são assim acrescidos na sua realidade com mais mil, ou dois mil, ou dez mil, ou 99 mil, segundo esta lógica. É claro que isso implica um processo de rotação progressiva: não se trata de dar 100 voltas ao dinheiro e voltar a receber os mesmos mil euros. Isso seria absurdo, como é claro, e mais resultado dava tê-lo a abobrar nos cofres (não pagando remuneração nenhuma).
 
Ora visto isto, vamos aos senhores da pele branca, cabelos louros e olhos azuis: o que esse senhores fizeram foi simplesmente furar o sistema, não integrando nos tais mil euros o bastante de realidade que lhe desse um suporte aceitável.
 
Pelas minhas contas feitas assim aqui em casa, e dado o buraco que as coisas estão a apresentar, e tomando como exemplo um caso que dá brado aqui em Portugal, o famoso caso do Banco Português de Negócios (e do Banco Privado Português numa escala mais pequena em valores), o primeiro (BPN) de uma necessidade de solvabilidade (diferença entre a realidade e a virtualidade) de 450 mil euros, passou a 750 mil numa semana e a três mil milhões em dois meses.

O que é que isto quer dizer? Que inicialmente estava descoberta (dada a pressão dos pedidos de retorno dos depositantes) uma soma de 450 mil euros e que essa soma evoluiu para 3 mil milhões de euros. Fazendo umas contas ao contrário, e se entendermos que o dinheiro inicial dos depósitos, rodou 100 vezes (o que é elogioso porque a média da rotação é de 40, 50 vezes) isso quer dizer que foi incorporado no processo uma irrealidade (ou uma virtualidade pura) de 3 mil milhões de euros menos 1%, ou seja, 2.700 milhões de euros.

Se quisermos ser mais correctos podemos dizer que tendo rodado a média (40/50 vezes) a percentagem de virtualidade se reduz a metade e que em vez de haver um virtual puro de 2.700 milhões de euros há um virtual puro de 2.400 milhões de euros, sendo que o real de partida (depósitos) será no primeiro caso de 300 milhões de euros e de 600 milhões de euros no segundo caso.

Ou seja, em qualquer dos casos, em vez do milagre da multiplicação dos pães assiste-se ao milagre da microscopização dos pães: os iniciais mil euros com que começamos as nossas contas «valem» agora 1% ou 2% de si mesmos, ou seja, 10 ou 20 euros, tendo levado assim uma «dentada» de 990 euros ou 980,00 euros.

É claro que os senhores de olhos azuis não conseguiriam fazer isso se não contassem com a tradicional sofreguidão dos aplicadores de capitais entre os quais se encontram muitas instituições públicas (aqui em Portugal o Fundo da Segurança Social do Estado tinha num destes bancos 450 milhões de euros aplicados, que ao que parece levantou a tempo).

Por outro lado uma parte substancial das empresas públicas, e privadas, com capitais a disponibilizar por períodos curtos ou longos segundo as capitalizações (lucros) e os investimentos terão de vir um dia à luz do dia, e para já a recente redução dos lucros apresentados na sua maioria resulta da perda de capitais investidos em larga percentagem e numa parte bem mais pequena das reduções da procura e da disponibilidade financeira das famílias.
 
Por outro lado, essas aplicações estão a contar como capital (património) pelo valor corrente do mercado que ninguém sabe onde vai parar em termos de descida daqui a dias ou meses.

Ora, numa altura em que se pode considerar que os implicados nesta mega fraude varrem muitos quadrantes, de forma activa ou passiva (a este passivo eu chamo ganância e / ou ignorância) é muito cedo para andar a deitar todas as culpas sobre o branco, embora fique sempre bem o apelo à unidade, isto porque amanhã ou depois vai ficar-se a saber que a culpa é do branco, do preto, do amarelo e das mais cores que se forem arranjando.

Até aqueles (brancos, pretos, amarelos, etc.) que nada têm, ou que têm muito pouco, têm culpa porque deixaram nas mãos de meia dúzia de parolos a gestão dos seus destinos.
 

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Coluna Um - Inversões e marcha atrás

 
 
Coluna Um -  Inversões e marcha atrás
 
 Em tempo de crise económica e social as questões que levantamos não aparecem como se tivessem estado escondidas atrás de uma pedra durante o tempo das vacas confortadas.
 
Estiveram, essas mesmas questões, antes, envolvidas no tal de manto diáfano da fantasia em que fomos vivendo através do desviante e silenciador massacre das propagandas privadas e oficiais, que através da insistência da sua própria lógica e desenvolvimento, fizeram até com que essas questões tivessem passado para uma outra dimensão quase extraterrestre.
 
Não há muitos anos, fazendo uma viagem à terra dos meus avós e meus bisavós, uma triste terra, é um facto, onde se aplicava integralmente desde havia muitos anos antes o ditado popular que «a agricultura era a arte de empobrecer alegremente», um técnico, que estava comigo presente na altura segredou-me perante a descoladora imagem de uma população envelhecida que apesar de tudo continuava a insistir em cavar terras e a plantar alguns pés de trigo, cevada, couves e batatas, que ele, se tivesse meios e poderes, pagava àquela gente para se ir embora «para ter uma vida condigna».
 
Relembrando o passado e recolhendo na memória dos outros, o passar de cavalo para burro aplicava-se ali integralmente; de duas vacas, seis ovelhas, dois cavalos e uma égua trinta anos antes, um dos presentes na pequena conferência da semi-taberna estava naquela altura na posse de dois velhos burros cujos potenciais compradores, em caso de necessidade, seriam apenas e só os indivíduos de etnia cigana se ele os encontrasse e se eles estivessem nessa disposição.
 
O pão caseiro, de uma excelência de forno de estevas e loendros, saindo a respirar como gente da boca do seu mundo, era já, naquela altura (cerca de vinte anos) batido aos pontos económicos pelo pão de padaria industrial e era fácil fazer as contas: cerca de 5 vezes mais caro - mesmo não contabilizando todos os factores -. O pão verdadeiramente caseiro estava ali também a despedir-se deste mundo na altura em que lá estivemos.
 
Veio depois o plantio dos infalíveis eucaliptos, ditos de crescimento rápido e a vivência das miseráveis reformas de toda aquela gente. Desapareceu um mundo, ali, em várias fases, mas sem outras opções de sobrevida. Uma forma de ver vencida pela roda trituradora do alegado progresso. Falta saber se foi mesmo um progresso...

Na situação em que estamos penso que não haverá grandes dúvidas de que eucaliptos não dão de comer a ninguém, salvo a meia dúzia de pessoas e durante períodos limitados de tempo. Dão de comer sim aos grandes industriais, às suas grandes empresas que investem na bolsa ou noutros locais menos conhecidos e que agora estão cai não cai no domínio da intervenção económica estatizante.

Pode assim fazer-se um balanço, ainda que os indicadores não sejam todos favoráveis à tese de que «antes era melhor». Não era, de facto, melhor trabalhar de sol a sol, com meios técnicos rudimentares, envelhecendo prematuramente, não tendo condições de apoio à saúde, trabalhar para o boneco, praticamente, porque o resultado económico obtido era inferior ao esforço e aos meios envolvidos, não era melhor. Só que agora é ainda pior...

Aqui em Portugal 150 milhões de euros dão para alargar o período de benefício do subsídio de desemprego, mais 150 milhões de euros dão para reduzir temporariamente para metade uma parte substancial dos pagamentos mensais de quem comprou casa a crédito (sob garantia hipotecária antes e agora). Isso soma 300 milhões de euros.

Só para alegadamente garantir os depósitos de um banco que só não se chama de falido porque ainda ninguém se lembrou disso foram dados, pelo Estado, 750 milhões de euros. Para um outro, que segundo alguns é um caso de polícia, já se vai perto, com as novas exigências de reequilíbrio, dos 300 mil milhões de euros (não são 300 milhões, são 300 mil milhões, repete-se).
 
Isto numa altura em que o Governo Alemão já mandou às urtigas este tipo de apoios e em que a França se debate com forte contestação social que pode resultar no habitual. Entretanto em Espanha vai fervendo em fogo lento...
 
Fazendo contas simples, toda essa massaroca, cerca de 400 mil milhões de euros, davam para aumentar a garantia do benefício do subsídio de desemprego mais dez anos, garantindo ao mesmo tempo alguma confiança social, dava para reduzir as prestações de pagamento de casas à banca em período de carência durante outros dez anos, contribuindo para descomprimir os gastos no consumo corrente, fomentando e reforçando empresas e credibilizando a hipótese da retoma, e, de uma forma ou de outra, o retorno seria certo e seguro (o dinheiro ironicamente já é desde logo também deles). E alinda sobrava algum pois que 300 milhões vezes dez dá 300 mil milhões e estamos a falar de um plafond concedido e a conceder de 400 mil milhões.
 
E isto retornaria, todo este dinheiro retornaria, porque os desempregados arranjariam emprego ou reformavam-se sem andarem por aí a viver de forma pouco digna nalguns casos (a maioria), revoltados, fervendo ainda em águas mansas e os proprietários de casas compradas nestas condições acabariam por ter de resolver a situação logo que pudessem.

Ora, também, reactivar algumas actividades que têm substância de desenvolvimento e de produção efectiva e outras que estejam relacionadas com actividade verdadeiramente produtiva é trabalho que deve preocupar qualquer pessoa que tenha alguma altura de testa.
Mas não...arranja-se dinheiro ou crédito para fazer grandes investimentos que bem poderiam esperar, pressiona-se a banca para conceder crédito às pequenas e médias empresas de vida periclitante, como se a banca estivesse em condições de andar a fornecer dinheiro sem garantias efectivas de retorno sob risco de piorar ainda mais a sua situação e entrar mais no ciclo vicioso da intervenção estatal.

Ora, dentro daquilo que foi jogado fora, incluindo as oportunidades de aplicar melhor os fundos que já não voltam, e repetindo parte do sermão aos peixes do Padre António Vieira, o que terão até agora feito os homens senão manter no mar aquilo que eventualmente tem hipóteses de ser reactivado e de fomentar o encaminhamento da resolução de situações?
Que tem feito esse tal de aparelho de estado para ver estas coisas? Por onde anda a razão mais simples que qualquer um usa no dia a dia ao ir buscar coisas que por pequenas desvantagens relativas em relação ao novo colocou na prateleira/armazém para resolver agora temporariamente os inconvenientes da falência da sua máquina nova?

Esta gente não pensa ?? Não sabe pensar?? Não consegue pensar!!???
 
 

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

COLUNA UM - A violência nas escolas e os massacres

 
 
COLUNA UM -  A violência nas escolas e os massacres
 
 
Todos, ou quase todos, andámos na Escola e todos sabemos melhor ou pior aquilo que o tradicionalmente chamado de sadismo infantil pode produzir. O assunto anda muito mal estudado, e mesmo a nível da psicologia publicada a situação, sendo de alguma forma clara, acaba por ficar escondida dada a delicadeza do tema. Ninguém está interessado em mostrar a jovens em formação psíco - social aquilo que eles mesmos fazem (quando fazem) ou aquilo que eles mesmo não fazendo têm ou podem ter vontade de fazer .
 
A minha escola, contudo, foi antes da escola e depois da escola, como com toda a gente. A maior parte das pessoas não liga uma coisa à outra e até por comodismo psicológico prefere estabelecer a existência de dois ou diversos compartimentos estanques: antes da escola e depois da escola, vida familiar e vida escolar, vida na escola e vida fora da escola, etc.
 
A institucionalização que a Escola apresenta e fomenta sempre foi um problema muito mal digerido na sua compreensão: sejam elas instituições totais, quer dizer instituições onde as pessoas passam a esmagadora parte da sua vida ou uma parte substancial dela com contacto ou não com a sociedade á sua volta, seja ela a micro - sociedade local, seja ela a sociedade em geral, sejam elas ainda instituições às quais se adere voluntariamente ainda que com algum grau de obrigação, caso das escolas de escolaridade dita obrigatória, do serviço militar obrigatório, etc.
 
A utilização de uma lógica de grupo não espontaneamente constituída, a variedade dos graus de formação social e capacidades económicas e intelectuais diferenciadas, é tudo agrupado num conjunto de regras gerais, tipo lógica de código penal, em que sumariamente se diz, ainda que de forma indirecta, as sacramentais iniciais frases do penalismo:«Aquele que...fizer isto ou aquilo...incorre nisto ou naquilo».
 
Para uma criança, ou para um jovem, é, por vezes difícil entender muita coisa, nomeadamente quando se trata de regras com algum grau de preventivismo: por exemplo não se pode ir à casa de banho das meninas, mesmo que ela esteja vazia e se deixe um colega à porta prevenindo, estando a casa de banho dos meninos com enorme fila e apertando a fisiologia em extremo incontível.
 
Claro que a ideia é não romper o princípio, manter a privacidade de um sexo e outro, mas para quem tem de fazer o que quer que seja nas calças e sujeitar-se á chacota posteriormente a norma é nitidamente absurda, naquelas condições. São inúmeros os exemplos daquilo que se pode compreender metendo-nos agora dentro da nossa mente que também já foi infantil e juvenil. Ficamos com a ideia, para esta crónica, de que há coisas que se entendem numa leitura mas não se entendem (compreendem) numa outra leitura.
 
Os fenómenos actuais que se relacionam com a violência juvenil, seja ela nas escolas ou fora delas, nascem onde calha, ou seja, nascem consoante a ocasião, e muito pouco têm a ver com a escola em si senão pelo facto de aí poder haver uma maior regulamentação evidente e por aí se passar, de forma concentrada, socialmente, um largo tempo de vida, acrescido na sua
potencialidade de captação pelas limitações do espaço, pela uniformidade relativa do ambiente, pelo número de potencialidades do acontecer.
 
Se alguma vez fossem feitas as contas, e hoje fazem-se estatísticas para quase tudo, seria interessante saber-se a quantidade de eventos diferenciados e uniformizados acontecidos em ambiente escolar em comparação com aqueles que têm lugar fora do ambiente escolar. Só como
exemplo, e porque me veio à ideia, num estudo americano (são sempre os americanos) num outro campo, chegou-se à conclusão que os enfermeiros (os questionados, cerca de 900) são distraídos da actividade que executam entre 4 e 6 vezes em média e que o leque de distracções dessa sua actividade abrange 11 itens.
 
Ora, continhas destas nunca foram feitas nem nas escolas nem nos miúdos (sejam eles mesmo miúdos ou menos miúdos) e o curioso deste estudo que falei sobre os enfermeiros é que ele foi feito a partir da altura em que os enfermeiros começaram a estar sujeitos também ao conceito do erro médico (de enfermagem, neste caso). Ou seja, foi feito porque começaram a entrar em jogo indemnizações, entidades publicas e privadas, seguradoras, etc.
 
Quanto à violência nas escolas, nada estando feito e ninguém se interessando por isso, assistimos com alguma frequência a verdadeiros massacres incompreendidos, a chantagens (bullyng) entre alunos, a pressões das mais diversas ordens, a violência física, a violações, etc.
 
Ora o mundo parece que acorda para a novidade cada vez que uma destas coisas é conhecida ou mais tragicamente acontece, quando deveria procurar conhecer o que está por detrás dos fenómenos. Uma Universidade, todas as Universidades, reforçam as medidas de segurança depois que um trágico caso acontece, mas em termos de inteligência, quer dizer, de informação, o que fazem. Nada, que eu saiba...
 
São capazes até de ser injustos em procedimentos, penso que é o próximo passo dentro desta lógica que tem mais de repressiva do que de preventiva, ao ponto de construírem bases de dados de alunos - problema, fazerem circular entre si essa informação, quando nada garante que cesteiro que faz um cesto faça um cento, apesar do ditado popular, anexando assim ao sistema de informação geral (social) aquilo que se manifesta em ambiente escolar em circunstâncias bem específicas e por razões igualmente específicas quantas vezes.
 
Tenho lido sobre violência nas escolas desde há muitos anos, pelo menos dez, e tenho visto que as soluções apontadas para resolução de problemas não são razões estudadas: na maior parte dos casos fazem-se experiências, como é o caso do aluno moderador que não será difícil confundir com o aluno «bufo» em terminologia escolar.
 
 Ir à fonte dos problemas, poucas pessoas querem, até mesmo os pais e suas associações muitas vezes primam pela envolvência emocional desviando desde logo a possibilidade de uma análise cuidada dos factos.
 
Não digo que a violência nas escolas (até mesmo contra professores) ou que os massacres escolares que vimos a saber periodicamente estejam inteiramente dependentes e sejam resolúveis na sua incidência através desses estudos que qualquer ser racional hoje sente a falta.
 
Mas era bom ter uma ideia, quanto mais não fosse uma ideia, daquilo que se passa realmente nestas mentes sem ser a tradicional resposta desculpa do ambiente familiar (quando é mesmo desculpa pilatiana), da sociedade (esse saco enorme), da Net, da televisão, dos jogos de computador ou de qualquer outra coisa.
 
Tal como estamos, nada feito!!
 
Daniel Teixeira