domingo, 13 de fevereiro de 2011

BISPO DO PORTO - D. Manuel Clemente acredita que a sociedade portuguesa tem capacidade para superar a crise

BISPO DO PORTO

O bispo do Porto, que cumpriu em Janeiro dois anos à frente da diocese, acredita na capacidade da sociedade portuguesa para superar a crise e no papel fundamental desempenhado pelas comunidades cristãs. "Há na nossa sociedade portuguesa, em geral, e do Porto, em particular, mais que capacidade para responder a esta e outras crises", salientou D. Manuel Clemente, bispo do Porto, em entrevista exclusiva à agência Lusa.

Em tempo de crise as paróquias, misericórdias e comunidades cristãs "são constantemente procuradas para resolver os problemas de pessoas com maiores dificuldades", garantiu o prelado.
Por esse motivo, D. Manuel Clemente considera "impensável" que não haja na sociedade uma "presença contínua e constante" das comunidades cristãs que têm mesmo de ser "reforçadas porque as actuais circunstâncias assim o exigem". Como bispo do Porto, assistiu nos últimos dois anos a "uma reflexão acerca do enorme desafio social e cultural que se põe à religião", bem como sobre o "tecido mais complexo e fluido" que é a sociedade actual e ainda sobre a redefinição das comunidades.

Essa reflexão, anunciou, irá culminar em 2010 com uma "grande missão diocesana" a qual passará por "propor a experiência comunitária de Cristo a quem ou já esqueceu, ou não sabe ou simplesmente está só e ninguém contacta".
O objectivo é que todas as comunidades cristãs da diocese do Porto, incluindo as 477 paróquias, partilhem a sua experiência com os outros e consigam "ir um pouco mais além na transmissão da mensagem cristã", recorrendo às novas realidades tecnológicas ou mesmo às "realidades da cultura do povo" como "as janeiras e os compassos".

Sobre a diocese do Porto, o bispo da cidade considera tratar-se de "uma realidade muito vasta e muito densa" para abarcar em apenas dois anos e cujas "potencialidades humanas são imensas".
Ainda assim, admite que os problemas são diversos nomeadamente os "de aspecto católico e religioso". "Temos um clero de faixa etária alta - 60 anos ou mais - e directamente adstritos à diocese são 350 quando há quase 500 paróquias", lamentou.

Também no feminino, disse D. Manuel Clemente, há dificuldades em encontrar quem procure a vida religiosa, existindo "muitas casas e lares ligados a religiosas". "Elas são poucas", acrescentou. De acordo com D. Manuel Clemente, o catolicismo tem assistido a um aumento de praticantes "em toda a parte menos na Europa". "Na Europa o que se tem verificado é que a religião não passa pela fixação numa comunidade mas por um percurso íntimo, individual que a pessoa escolhe e vai reequacionando", contou. Essa "privatização da religião" impõe grandes desafios ao catolicismo que "insiste muito na presença comunitária". "Não que as pessoas sejam menos religiosas, estão menos definidas comunitariamente", sustentou.
O segundo aniversário de D. Manuel Clemente como bispo do Porto foi comemorado com a apresentação do livro "Um só propósito - Homilias e Escritos Pastorais em termos de Nova Evangelização" sobre o seu magistério episcopal.

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Pesquisa do Ipea indica que trabalhadores pobres são os mais afetados por desemprego

Pesquisa do Ipea indica que trabalhadores pobres são os mais afetados por desemprego

A participação dos trabalhadores mais pobres no índice de desemprego cresceu de 37,4% para 45,2%.

Da Redação, com agência

Brasília - A redução do nível de desemprego registrada nos últimos cinco anos e o aumento da taxa de ocupação, com uma sensível melhora na renda obtida pelos trabalhadores, não só não foi suficiente para eliminar as desigualdades sociais, como as ampliou entre os desempregados das seis principais regiões metropolitanas do país.

Segundo técnicos do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), enquanto nas regiões metropolitanas de Porto Alegre, São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Salvador e Recife a taxa de desemprego geral caiu 31,4% de dezembro de 2005 ao mesmo mês de 2010, entre os 10% mais pobres o desemprego cresceu 44,2%.

Além disso, cresceu também a desigualdade entre os 10% que ganham mais e os 10% que ganham menos. A partir dos dados da Pesquisa Mensal de Emprego (PME) feita pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), os técnicos do Ipea constataram que a diferença nas taxas de desemprego dos dois grupos, que em 2005 era de 11 vezes, passou a ser de 37 vezes em 2010.

Enquanto o percentual de desempregados entre os trabalhadores mais bem remunerados baixou de 2,1% para apenas 0,9% do total, entre os mais pobres o índice subiu de 23,1% para 33,3%, um resultado melhor do que o registrado entre os anos de 2007 e 2009, mas ainda muito aquém do verificado entre os do primeiro grupo.

Como consequência deste quadro, a participação dos trabalhadores mais pobres no índice de desemprego cresceu de 37,4% para 45,2% no mesmo período. Já entre os 20% de maior rendimento, o total de pessoas sem trabalho baixou de 7,8%, em 2005, para 6% em 2010.

A conclusão dos técnicos do Ipea é de que, apesar de importantes avanços socioeconômicos, os mais pobres continuam sendo os mais afetados pela falta de trabalho. Fato que, para os técnicos do instituto, pode ser consequência do incremento nos rendimentos dos que estão ocupados.

Os responsáveis pelo estudo divulgado hoje (10), disseram que a pobreza está cada vez mais relacionada ao desemprego e não à má remuneração. Segundo o estudo, é necessário avançar em políticas públicas capazes de reduzir as desigualdades sociais produzidas pelas diferenças de rendimento.

Por outro lado, quando desempregados, os trabalhadores com menor poder aquisitivo passaram a encontrar um novo serviço mais rapidamente que os mais bem remunerados. Em dezembro de 2010, o tempo médio de procura por trabalho para o desempregado entre os que ganham menos foi de 248,3 dias, enquanto em dezembro de 2005 era de 341,4 dias. Já entre os que ganham mais, o tempo de procura subiu de 277 para 320,6 dias, em média. As informações são da ABr.

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

O Zé Botarras

Clube das Histórias
Projecto: Abrir as portas ao sonho e à reflexão
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O Zé Botarras
— Já saiu toda a gente, Alice?
— Suponho que sim, D. Alda... só não vi no Cantinho da Leitura.
Efectivamente, a um canto, alguém estava debruçado sobre um livro, indiferente às horas de saída. Era o José Miguel.
Zé Botarras para os amigos. Migas para a mãe. E simplesmente José para o pai. Frequentava o 10º ano numa das secundárias da terra e já não era a primeira vez que a funcionária via aquele corpo esguio, vestido de preto, sentado ali naquele canto da biblioteca.
Agora que o via de pé, Alice lembrava-se que aquela mesma figura lhe tinha despertado a atenção há dois ou três dias atrás. O mesmo corte de cabelo, o mesmo blusão e aquele pormenor da tira de cabedal no pulso. Alice estava certa. Só achava estranho aquele isolamento. Sim, porque além de ir sozinho, só procurava a biblioteca em horas mortas.
— Vá lá, menino! Tencionas dormir cá? Se quiseres, podes requisitar o livro e acabar de lê-lo em casa.
Que não, mas "muito obrigado" e que desculpasse aquele esquecimento... havia livros assim! Não saiu sem repetir novamente o pedido de desculpas. A um canto, D. Alda assistia interessada àquelas cortesias algo despropositadas num rapaz de estranha aparência.
— Delicado este rapaz!
— É verdade, D. Alda — dizia a Alice encaminhando-se para a porta de saco na mão. — Não é todos os dias que se encontra um rapaz com aquelas maneiras. Mas reparou naquelas botarras?! Parecem do exército! Bem... ainda demora?
— Vou só dar uma espreitadela, não vá ficar alguma coisa ligada. Vá andando, Alice, saio já atrás de si.
Diligente, a bibliotecária confirmou as luzes e as janelas e, quando passava pelo Cantinho da Leitura, reparou numa folha solta sobre a carpete. Impressa, páginas 31/32 de qualquer livro... mas de qual? Virou-a dos dois lados, mas não havia indicação de título ou autor. Soltou-se, concluiu a bibliotecária com a folha na mão; os livros de hoje já não são o que eram, ou então o defeito era das mãos dos leitores, bem mais bruscas hoje em dia. Optimista, preferiu pensar que o problema era da segurança das lombadas e já congeminava uma forma de tirar partido pedagógico da situação.
Simples: promovia um concurso para descobrir o pé da Cinderela. Sim, porque em 22 000 volumes, era difícil descobrir qual o livro que não tinha as páginas 31/32 e, quem quer que tenha sido, havia folheado nesse mesmo dia o exemplar. Apelaria, assim, à descoberta e com direito a prémio. Com este novo projecto na cabeça, deixou, finalmente, a biblioteca.
Era Inverno, escurecia mais cedo e a vila enchia-se de luzes. Nas ruas e nas casas. No quarto, José Miguel aguardava que a mãe acabasse o jantar. Tinha, como sempre, programa à noite com os colegas e, apesar de se perder nas horas com os livros, gostava de pontualidade nos encontros com os da sua idade, para depois se perder também nas horas com eles. A mãe bem recomendava "Volta às onze, o máximo", mas davam muitas vezes as doze badaladas e o José Miguel sem estar em casa. Aos fins-de-semana a situação piorava em pouco. A mãe, habituada até aí a um filho reservado, mas cumpridor e pacato, atribuía às recentes companhias do filho a razão dos seus hábitos nocturnos.
— O Migas mudou muito — era a sua voz a desabafar para o marido — desde que se meteu com aquele grupo do Bairro dos Cabeçudos. Se era calado connosco, mais calado ficou. E a roupa, Chico... só lhe lavo e passo peças pretas! Salvam-se as cuecas no meio daquela rouparia toda. E o cabelo?!... E a linguagem... Por acaso já o ouviste falar ao telefone?! Parece conversa de latrina, quase outra língua!
— São fases, Assunção! — conciliava o marido, sem deixar de olhar para o jornal desportivo. — Mais uns anitos em cima e tudo isso passa. Quando andar na universidade...
— Se não se perder pelo caminho! Eu não o vejo pegar num livro e olha que as notas do 1º período não foram grande coisa!
— Está numa escola nova... e olha que o rapaz lê! Sabes de onde é que o vi hoje sair às seis e tal? Da Biblioteca Municipal! Isso mesmo! O teu rapaz também anda metido com livros. Se calhar, agora no quarto, está de volta deles!
— Ou a olhar para o relógio à espera da hora de jantar! Ele quer é sair! — arriscava, não convencida, a D. Assunção.
Enganavam-se os dois. José apareceu nesse momento à entrada da cozinha, reclamando pela escova de engraxar calçado. É que estivera de volta das botas e gostava delas a brilhar.
— Deves querê-las que nem espelhos para penteares essa madeixa! A escova está ali junto do tanque — diz a mãe, tirando as últimas batatas da fritadeira.
Que deixasse o cabelo e as botas... e acabasse antes o jantar, que a fome apertava.
— E os amigos também!... 'Tá bem, vamos lá para a mesa!
Jantaram calados e José saiu. Lustroso, madeixa a preceito, fez-se a caminho da casa do Sampaio. Dali partiram para o café da Estrelinha onde o grupo já devia estar. A música estava ligeira nessa noite, ainda menina, e, entre cigarros e cervejas, foram desfiando as aventuras da tarde. O Teixeira tinha estado a curtir umas músicas do último CD dos Nirvana... com a miúda, claro!... Onde?! Onde havia de ser?!! Na sala de estar dos Teixeiras, óbvio! O Alferes tinha andado de volta do trabalho de História que já deveria ter sido entregue há duas semanas. Que seca!... Limitou-se a copiar umas coisas de uma enciclopédia... e nem capa punha... o Macaco-pré-histórico não merecia mais! O Sampaio tinha andado a experimentar a Scooter da Nelas e tinha dado cá um speed na Av. 25 de Abril! As miúdas não sabiam apert ar no acelerador!
— E o Zé Botarras? A cismar com a Rosa, hem?!
Que nem pensasse nisso, toda a tardinha em conversa com uns tipos porreiraços que não via desde o ciclo.
— Quem? Chuta daí, ó Zé! — insistiram os colegas. Limitou-se a responder que não conheciam. Da ida à biblioteca nem uma palavra. O que diriam dele! Há coisas que não se podem dizer em nenhum sítio. Mesmo assim, com todas as suas cautelas, já tinham descoberto a sua paixoneta pela Rosa. Só porque um dia o apanharam a desenhar um botão. Que coisa mais careta! P'ró que lhe havia de dar: desenhar e pintar uma rosa! E tinha ficado linda! Fraquezas perigosas para um adolescente de 15 anos... de negro vestido. O que não diriam eles se soubessem que costumava gastar três ou quatro horas por semana na biblioteca?! Um perfeito betinho! Ainda por cima a ler letra miúda. Ainda se fossem revistas musicais ou Banda Desenhada! Estava decidido... nem uma palavra para eles. Até porque se divertia à brava com esta trupe do Bairro dos Cabeçudos. Fixes! Loucos a valer!
No outro dia, à mesma hora, lá estava o José Miguel na biblioteca. Precisava de ler o último livro de Tom Sharpe e tinha mais descanso ali no fim da tarde, sem os amigos ou a mãe por perto. Depois... andar com um livro debaixo do braço não fazia o seu estilo e sabe-se lá o que a Rosinha diria se o encontrasse.
— Com que então a acabar de ler o livrinho! — pergunta-lhe a Alice sorridente, reconhecendo o cliente atrasado do dia anterior. — Olha, dá uma vista de olhos ao anúncio do concurso que está no átrio. Pode ser que ganhes, já que és um leitor assíduo!
José Miguel desejava que esta última frase tivesse sido mais discreta. Sabe-se lá quem poderia tê-la ouvido na sala. E estava na sua hora de clandestinidade. Concurso... foi ver o que dizia.

PÁGINA SOLTA
À PROCURA DO SEU LIVRO
Queres ajudar esta página? Soltou-se do seu livro e foi encontrada desolada e órfã no chão da biblioteca. Se fores um leitor atento, podes dar-lhe uma ajudinha!
COMO?
Talvez pelo tipo de linguagem
Talvez por referências dispersas do texto
Vai eliminando hipóteses:
§ ficção ou ensaio?
§ nacional ou estrangeiro?
§ recente ou antigo?
Se descobrires ou quiseres dar um palpite, dirige-te à bibliotecária. Há um prémio para o primeiro que acertar.

Formou-se uma roda de jovens em torno do cartaz e, pelas expressões, ninguém parecia reconhecer a página. Apenas José Miguel examinava com atenção o texto, detendo-se nalguns nomes que lhe pareciam familiares. Mas sentia-se comprometido naquele grupo e afastou-se. Pediu à funcionária que lhe facultasse uma fotocópia da página e foi para o lugar. D. Alda tinha pensado em tudo – havia um pequeno número de cópias para o concorrente mais reflexivo.
O Wilt de Tom Sharpe ficava para mais tarde. Tinha de resolver primeiro este enigma. Pegou na folha, puxou de um lápis e começou a sublinhar palavras; de vez em quando levantava a cabeça, voltava a página, lia do outro lado, mordia na ponta do lápis e, numa mordidela mais profunda, a cara iluminou-se-lhe de revelação. Teria descoberto? Levantou-se, dirigiu-se às estantes de literatura estrangeira e começou a varrer com os olhos os títulos. Parecia ter encontrado a prateleira certa e, com o auxílio do dedo, separava os livros um a um. Tirou três: o primeiro tinha as páginas 31/32, o segundo também e o terceiro... lá estava! Sem a dita folha. O sapatinho de cristal tinha acabado de entrar no pé! Satisfeito, dirigiu-se ao gabinete da bibliotecária e bateu delicadamente à porta.
À sua frente, D. Alda tinha o jovem simpático do dia anterior. Com o livro na mão.
— Parece que descobri! — limitou-se a dizer o rapaz.
— Bravo!... Os marginais de S. E. Hilton. Já tinhas lido?
— Há uns tempos atrás, li os dois livros da autora publicados em português: Tex e Juventude inquieta. Este ainda não. Foi através de algumas palavras das páginas que cheguei lá.
— Explica-me como foi...!!! — D. Alda esperava que ele se identificasse.
— José, José Miguel. Repare aqui na página 31 — e mostrou-lhe na página rabiscada o fio da sua dedução. — 'Tá a ver aqui estas palavras inglesas... Cherry... Ponyboy... só podia ser ficção inglesa... ou então americana! Mais cá em baixo... aqui está rodeo, era americana! Depois o estilo de escrita é vivo, cheio de diálogos e coisas assim... tinha de ser livro recente e para malta, digo, gente da minha idade. Depois fala-se aqui de seitas de jovens que lutavam nas ruas e isso fez-me lembrar um filme do... Coppola... Francis Ford Coppola, que vi recentemente na televisão, por sinal baseado neste livro. Foi nessa altura que fui à estante e não foi difícil dar com ele... precisamente aquele que não tinha lido!
— Brilhante, José Miguel! Amanhã podes passar por cá para receberes o prémio. Um livro, se não te importas.
Não se importava nada. Agradecia-lhe muito. Foi satisfeito para o lugar e mais satisfeito ficou quando se encaminhava para casa, meia hora mais tarde. É que tinha visto a Rosa e tinham-se cumprimentado. Ela trazia o cabelo apanhado, como ele gostava, e a rapariga prometera-lha um poster dos AC/DC de que ele não gostava, mas ela pensava que ele gostava. E ele precisava de gostar do que ela e os amigos gostavam para todos gostarem dele. E ele gostava de livros (alguns, claro!), e os outros... não!
Este conflito de gostos dilacerava-lhe a cabeça. Quem era ele, afinal? O que os outros esperavam dele ou o que ele próprio sentia? Será que podia continuar a ser dois ao mesmo tempo? Tinha mesmo de se esconder dos outros para ler? Ser... parecer... "to be or not to be"... chegado a esta essência filosófica, começou a sentir-se mais forte, com uma personalidade para afirmar. A começar por casa. Nessa noite ao jantar, afirmou-se na carne estufada. Estava rija e demasiado apaladada. Não comia!
Quando se encaminhava mais tarde para casa do Sampaio, afirmou-se numa pedra e chutou. Azar. Não lhe calculou bem o tamanho e, apesar das suas botarras, magoou-se no dedo grande. Sentou-se num banco ali perto para amansar as dores e repensar as suas afirmações.
Ele queria ser ele próprio mas... a carne assada da mãe não tinha culpa e muito menos a pedra. Onde estava, afinal, o seu problema? Olhou para as horas. O amigo não gostava de esperar. Juntou-se ao Sampaio, ao Teixeira e ao Alferes e a todos os outros que apareceram no Café Estrelinha. As conversas do costume, que são, afinal, as da sua idade. Para quê debates?!
— Agora vamos todos p'rà garagem do Serafim! Um assalto! O gajo tem lá música da pesada.
E foram e José Miguel gostou. A sua mãe um pouco menos, porque esteve acordada até às duas da manhã. No outro dia teve aulas até às 17.30. Ainda passaria pela biblioteca para ver o livro que a D. Alda lhe reservava de prémio. Desculpou-se como pôde com os amigos e apressou o passo. Junto ao largo que dá acesso à biblioteca, avistou a Rosa que vinha na mesma direcção. Parou, voltou para trás e... uf!... perdeu-a de vista. Que encontro mais inconveniente!
Subiu, enfim, as escadas e dirigiu-se para o gabinete da bibliotecária. Lá estava sobre a secretária o embrulho da sua prenda. Os marginais, que tinha descoberto no dia anterior.
— Como foi o único da autora que ainda não leste, achei que irias gostar — diz-lhe ela.
E tinha mesmo gostado. Marginais. Marginais como ele, afinal, que fazia dos livros um ghetto clandestino. Tinha de... Alto aí! Através do separador envidraçado do gabinete, avistou um rabicho conhecido na sala de leitura. Era a Rosa. A Rosa na biblioteca. José Miguel nem queria acreditar. Saiu do seu ghetto e dirigiu-se ao lugar da rapariga. Sentou-se à sua frente. Ela olhou-o espantada:
— Tu por aqui?! Olha que não te trouxe o poster! Não fazia a mínima ideia de te encontrar aqui!
— Esquece o poster. Afinal, já não o quero. Já não cabem nas paredes e preciso até de limpar o quarto. Ainda demoras aqui?
— Um bocadito. Preciso de procurar um livro na estante para levar para casa — respondeu a Rosa sem entender muito bem aquela do poster.
— Se quiseres este, empresto-to. Acabo de o receber agora como prémio. Foi a bibliotecária que mo deu agora mesmo.
— Mas vens muito aqui? — Rosa cada vez o entendia menos.
— Sim, sim... — e dava pormenores. — Olha, no outro dia, até me esqueci das horas e foi a funcionária que...
Pelo caminho para casa, José Miguel foi-lhe revelando a sua faceta escondida. O seu outro lado secreto, e Rosa até achava aquilo engraçado. Despediram-se com um aperto de mãos mais prolongado. Ao jantar mastigou bem a carne, desta vez sim, um pouco rija! A caminho da casa do Sampaio, já não chutou em pedras. É que tinha acabado de engraxar as botas. O Zé Botarras!
Natália Caseiro
Os devoradores de livros
Leiria, Editorial Diferença, 1999
(adaptação)
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A Equipa Coordenadora do Clube das Histórias

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Golpes e Samuel Úria abrem Roquebeat

Concertos

Golpes e Samuel Úria abrem Roquebeat

Roquebeat - Nova Música Portuguesa consiste em concertos duplos de artistas portugueses em várias cidades, numa digressão nacional que aproveita a rede de salas de espectáculos e auditórios municipais.
A primeira série de concertos da iniciativa decorrerá em Março com cinco concertos em Torres Novas (dia 12), Leiria (dia 17), Torres Vedras (dia 19), Aveiro (dia 23) e Coimbra (dia 31).
Em cada noite haverá dois concertos, neste caso com Os Golpes e Samuel Úria, e se os artistas assim o entenderem podem tocar uma ou duas músicas em conjunto, disse Pedro Santos.
"A ideia é que a música nacional chegue ao maior número possível de pessoas e de salas de espectáculos. Esperemos que o Roquebeat se prolongue por vários anos", referiu o promotor.
Para as novas bandas portuguesas nem sempre é fácil conseguir montar uma estrutura de concertos pelo país, embora haja várias salas de espectáculos, de maior ou menor dimensão, cine-teatros, auditórios municipais e pequenos clubes.
O segundo ciclo Roquebeat decorrerá em Maio com Márcia Santos, que acaba de lançar o primeiro álbum, "Dá", e com o guitarrista Norberto Lobo, actualmente a preparar o sucessor do instrumental "Pata Lenta".
"Apesar de se chamar Roquebeat, nome que acaba por funcionar como uma provocação, queremos que a escolha musical seja o mais eclética possível", que não fique apenas no universo do pop rock, disse Pedro Santos.
A terceira série de concertos acontecerá em Outubro, mas os artistas não foram ainda anunciados.
Além destas pequenas digressões, Pedro Santos quer que se realizem ainda "acções surpresa, projectos mais especiais" e esporádicos ao longo do ano com actuações de artistas com convidados.
(ES)



Jamie Cullum em Cascais no Verão

Concertos

Jamie Cullum em Cascais no Verão

Jamie Cullum, que actua a 29 de Julho no Hipódromo Manuel Possolo, em Cascais, é um dos primeiros nomes confirmados para a 8.ª edição do Cool Jazz Fest, que decorre no Parque de Palmela, Parque Marechal Carmona e Hipódromo Manuel Possolo, em Cascais, e no Jardim do Cerco, em Mafra.
O britânico esteve em Maio do ano passado no Coliseu dos Recreios, em Lisboa, a apresentar "The Pursuit", o seu mais recente trabalho, e no Verão em Albufeira.
Mas Jamie Cullum já tinha actuado outras vezes em Portugal: em 2006 passou pelo Coliseu de Lisboa e em 2005 pelo Cool Jazz Fest e pelo Freeport, em Alcochete.
O outro nome anunciado foi o da norte-americana Maria Scheider, que a 23 de Julho dirige a Orquestra de Jazz de Matosinhos no Parque Palmela.
O mais recente trabalho de Maria Schneider, "Sky Blue", foi galardoado com um Grammy de melhor composição instrumental para o tema "Cerulean Skyes".
A norte-americana esteve em Portugal em Maio de 2009 para actuar no Matosinhos em Jazz.
(ES)



OUVINDO A MAGDA - A FEBRE DO AMOR

4ª Feira 9 de Fevereiro de 2011

A FEBRE DO AMOR

De Portugal para os cinco cantos do mundo, à distância de um só click, todas as quartas-feiras, das 21h às 23h, desfrute de música e poesia, escolhida por mim, a pensar em si.

Desperte os cinco sentidos, OUVINDO A MAGDA, com poesia e música a condizer com o tema do dia.

Fique atento e não perca «A FEBRE DO AMOR» o programa desta 4ª Feira na RADIO RAIZONLINE.