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domingo, 26 de abril de 2015

A importância na observação - Por Daniel Teixeira


A importância na observação

Por Daniel Teixeira

O termo voyeur é uma expressão normalmente vista numa perspectiva crítica ou depreciativa e é utilizado para definir, ou simplesmente episodicamente referir quem gosta de ver ou quem dá alguma primazia ou valor ao acto de observar outras pessoas ou coisas, entendendo-se aqui que essa observação do outro ou da coisa deverá ter implícita pelo menos alguma ligação com o observado.

Eu explico melhor esta última parte que pode aparecer como sujeita a confusão: em princípio não se observa apenas para observar; um astrónomo amador observa as estrelas, por exemplo, porque pretende compor a sua ideia sobre aquilo que é uma estrela, a sua forma, o seu brilho, a constelação onde se encontra, etc. Isto quer dizer que o observador deve ter um fim em vista e mesmo quando o faz por mera curiosidade diletante tal acto acaba por fazer suscitar em si um desejo por uma ou mais particularidades do ou dos objectos observados.

Claro que aqui interessa referir que deve haver alguma constância no acto de observar, até porque através da ocasionalidade será impossível detectar-se uma qualquer simpatia ou empatia para com o outro ou com a coisa observada. Jean Paul Sartre, nalguns desenvolvimentos que faz para definição do grupo pode dar-nos aqui uma pista comparativa até porque mais à frente voltaremos a falar dele.

Resumidamente, um conjunto de pessoas que apanha um autocarro no mesmo local com o mesmo destino não constitui um grupo, mas um conjunto de pessoas que participa numa deslocação programada, de autocarro, por exemplo, com partida e chegada ao mesmo local, embora se disperse de novo depois, antes durante e logo depois do decorrer da viagem é um grupo. Ora uma observação para o ser tem de equivaler a esta ideia acima referida: ser constante ou continuada.

As conotações dadas ao termo «observar» parecem esquecer o platonismo, ou o vulgarmente chamado amor platónico presente no diálogo Simpósio (Banquete). Embora a temática desenvolvida neste diálogo possa ser entendida como menos própria, trata este velho filósofo de destrinçar entre amor e (um pouco forçado) amor sem amor, sem apego, sem afeição.

Platão parece simpatizar com a segunda fórmula, até porque esta não distrai o observador dos verdadeiros interesses do saber e do conhecimento aos quais dá a primazia, que são do domínio do cérebro (pensamento) e não do domínio do corpo ou da paixão amputadora da racionalidade, como o primeiro. No seu entender é claro.

Assim, e voltando a Sartre acima, teremos que de forma grosseira Platão tenderia para a ocasionalidade e não para o grupo (ou agrupamento) definido acima. Assim, platonicamente, sem querermos ser muito rigorosos, observar (de forma correta, para ele) seria não se envolver com o observado. Refiro que se trata de analogias lógicas e não propriamente de análises consubstanciadas caso a caso.

Ora, observar, todos gostamos, penso eu. Aliás penso até que é uma das actividades à qual nos dedicamos por uma maior fracção do nosso tempo de vida. Na verdade, com excepção dos invisuais, somos dotados de visão e seria pouco compreensível que não exercêssemos essa actividade. O mundo à nossa volta está pleno de movimento, de seres e não-seres, de cores, de luz e sombra, breve, acho que é impossível escapar ao acto de observar.

Observar é um fenómeno que tem sido referido ao longo da literatura e mesmo na filosofia: Jean Paul Sartre por exemplo utilizou o termo para dizer que não se pode ser espectador e actor ao mesmo tempo, questão que eu acho discutível mas que não vou aqui discutir, porque na realidade o actor observa ainda que o faça de acordo com o interesse que tem na pessoa ou nos objectos com os quais interage.

Na verdade, Sartre distingue quase o mesmo que Platão acima: o envolvimento torna-nos actores e não podemos observar, pelo menos de forma «limpa / imparcial» aquilo em que estamos envolvidos. Vamos passar à frente a questão da subjectividade empregue ou não no envolvimento para lembrar o ditado de que não se pode ser juiz / julgar em causa própria.

Por sua vez e num outro paradigma de pensamento, um escritor americano (salvo erro Erskine Caldwell) relata num dos seus romances a luta entre dois indivíduos pela «posse» de um buraco na parede de um armazém naqueles ambientes um pouco surrealistas do campesinato americano dos anos 20 ou 30, com homens de calças de presilhas à jardineiro e ausência de banho anual.

Pois o dito buraco dava para a apreciação não de qualquer coisa extremamente escandalosa, não para a visão intromissora em algo de íntimo e pessoal, para algo em movimento que despertasse um desejo de seguir a sua continuidade, mas sim para uma extensa pradaria, vazia e sem qualquer significado se fosse vista da porta do dito armazém.

O importante era, pois, o buraco, a visão que era proporcionada pelo filtro do buraco, o facto de haver algo a separar o espectador da paisagem, a sensação diferente que era ter de mexer o corpo, e o olho, para olhar para a esquerda ou para a direita, enfim...se seguíssemos o raciocínio tratava-se de ver através daquele buraco na parede do armazém ... nada diferente, em sentido rigoroso. Mas o que interessou ao escritor foi descrever que é possível ver diferente vendo a mesma coisa de duas maneiras: através da porta e através do buraco na parede.

Quando se trata de obras, sobretudo as públicas, é frequente ver-se nos taipais pequenos furos, apenas suficientemente largos para que uma ou mais pessoas possam espreitar e não sei se por piada se por filosofia empresarial aparecem por vezes os dizeres, acompanhados de seta a feltro :«Espreite por aqui.»

Ora, estes elementos todos e mais alguns que fui recolhendo ao longo dos anos, de forma desinteressada e sem objectivo desde logo definido, levam-me hoje a fazer a reflexão que se impõe sobre a «magia» do buraco.
 
Há de facto algo de solene espreitar pelo buraco mesmo que aquilo que se vê seja precisamente aquilo que se pode ver de forma «livre» e aberta. O buraco soleniza as coisas, faz aquela separação que Nietzsche chama de separação entre actor e público, nas suas Origens da Tragédia. Aquela sensação de não estar por dentro soleniza aquilo que está por fora e a prova está nas referências literárias que fiz acima.

Mas, mais que isso, o pessoal que trabalha numa obra, e isto é importante, mesmo muito importante, não é objecto de crítica se por acaso estiver encostado à bananeira a deixar passar o tempo até ao apito de saída. Se perguntarmos a um «espreitante» usual ou não o que acha disso ele dirá que não tem nada com isso, está ali para espreitar e nada mais, o andamento da obra não lhe interessa: basta que do outro lado haja gente em movimento, máquinas, paredes e valas abertas.

Ora, e como vimos isso acontece a quem ou à coisa que está para além do buraco. Acontece com aquele que tem uma separação nítida e impeditiva de marchar à sua frente, aquele que não se pode fundir com o observado, aquele que não faz parte do mesmo «ambiente» funcional. Opta então essa pessoa pela ausência da crítica.

Não sendo esta uma questão transcendente é quanto a mim no entanto significativa sobretudo porque se aplica em diversos domínios da nossa forma de pensar e ver as coisas embora nem sempre lhe demos a devida importância, nomeadamente e como exemplo quando frequentamos redes sociais.
 


sábado, 21 de março de 2015

A imortalidade por correspondência - Por Daniel Teixeira


A imortalidade por correspondência

Por Daniel Teixeira

Debruçando-nos inicialmente sobre Camões que terá eventualmente sido o maior difusor português do conceito de que existe vida para além da morte, sabemos desde logo que este pequeno trabalho está direccionado para a interpretação de que ela, esta imortalidade, se manifesta de uma forma bem determinada: «aqueles que da Lei da Morte se libertam» ... e vivos memorialmente ficam.

Na verdade o autor Camões não pretendeu nem pretenderia lançar uma escada filosófica pitagórica ou outra que seria forçosamente anti-católica e severamente punida na altura em que o autor viveu.

Assim, a libertação da Lei da Morte faz-se, segundo este autor, da forma memorial, elegíaca ou não, ou seja, uma dada pessoa liberta-se desta inexorável lei através da memória que deixa de si e que as pessoas, a gente comum ou menos comum, guarda em si como património.

Montaigne, um dos meus pensadores favoritos, diz a dada altura das suas reflexões, que Deus nos deu, (na sua infinita sabedoria - será de crer que ele o tenha pensado embora não o tenha escrito) apenas uma forma de nascermos e milhares de formas de morrer.

Marco Aurélio, talvez o mais intelectual dos imperadores romanos (estóico) faz também ressaltar de uma outra forma a relatividade da importância da morte: apenas um grão de areia que cai do altar (da vida - deve entender-se).

Enquanto que em Montaigne se procura banalizar a morte - nesta nossa interpretação que não forçosamente na ideia do autor- apontando o imenso número de formas dela ter lugar, em Marco Aurélio faz-se ressaltar a relativamente pouca importância do viver humano, (no seu caso) no contexto da racionalidade estóica que neste autor se pode substituir à ideia de Universo ou de Natureza visto aqui de uma forma simplificada.

Um e outro, às suas duas maneiras, ao relativizarem o facto de se morrer e numa altura em que a memória dos povos tinha poucas possibilidades de se transmitir e permanecer, não deixaram de ficar na história em recuperação posterior às suas épocas de vida.

O mesmo Montaigne acima referido faz um longo elogio à memória e ao cavalo de Alexandre o Grande, interligando a construção do Império de Alexandre à posse e manuseio do seu cavalo (Bucéfalo).

Camões também se libertou da Lei da Morte e assim como aconteceu com Alexandre e o seu cavalo Bucéfalo agregou à sua memória o escravo Jau.
Não gostaria que fossem feitas comparações entre um cavalo por mais nobre e enobrecido que tenha sido (Alexandre construí-lhe um túmulo luxuoso) e um ser humano, embora a sociedade na altura não reconhecesse Jau como humano no sentido pleno por ser um escravo (logo uma coisa).

Ora, o que há de comum entre Bucéfalo, sobre cuja específica configuração existe uma relativamente extensa literatura e Jau?

Ninguém sabe ou ninguém se preocupou em descrever Jau, em criar uma imagem dele. Não se sabe como ele era realmente de forma ou caracterizado.

Nem sequer temos uma ideia da sua face e da sua constituição física. Diz-se dele ser da ilha de Java e, logo, um javanês será igual a todos os outros javaneses, assim sendo. Actualmente Java é a maior ilha do Arquipélago Indonésio onde se situa a capital Djacarta. Assim, Jau, seria, visto nos dias de hoje como sendo um indonésio, qualquer que seja a ideia que nós tenhamos da constituição física e facial de um indonésio.

Casimiro de Abreu, talvez dos poucos escritores que se debruçaram sobre Jau, na sua peça em um acto, desenvolve um pouco aquilo que foi Jau: um ser amante da sua terra (Java) e da sua família que teve um amor igualmente falecido tal como a bela Dinamene de Camões.

As referências de Camões atribuídas a Dinamene podem existir em diversos sonetos, dedicados a um amor perdido ou falecido, mas os estudiosos dividem-se entre Dinamene, Dona Catarina de Ataíde, Dama da Rainha, a qual é apontada como (pelo menos) musa do anagrama Natércia ao mesmo tempo que existem referências a um outro (ou ao mesmo) amor à Infanta D. Maria, irmão do Rei D. João III.

Para termos uma ideia de Jau em Casimiro de Abreu, cujo nome é aqui António, ele conta a Camões os seus amores.

ANTÓNIO (Jau)

Sim, sim; uma mulher eu amei muito.
Era tão bela! A mesma cor que tenho,
Ela tinha também; era de Java.
A infância ambos passamos sempre juntos
Brincando alegres pelos campos lindos.

Passaram-se os folguedos, e sozinhos
À fresca sombra dos gentis palmares
Que enfeitam a minha ilha tão formosa,
Mil falas de ternura lhe falava,
Mil esp'ranças risonhas eu nutria.

Era muito feliz o pobre escravo!

Depois… tão moça ela ainda finou-se!
O que eu chorei! E a dor pungente e amarga
Até à morte sentirei nesta alma
Que outro amor como aquele tão sincero…
Senhor, o pobre Jaú não terá nunca.

Mas o que fez Jau para merecer ser lembrado ainda hoje? De lembrar que Jau tem o seu nome numa rua em Lisboa, na zona de Alcântara / Stº Amaro assim como Luís Vaz de Camões.

Foi Jau um fiel servidor do vate, certo, esmolava para que este tivesse alimento e fosse vivendo aquela vida indigna para a qual foi votado no final da vida. Mas que seria da memória de Jau se antes ele, como tantos outros escravos, tivesse sido escravo de um ser normal e comum que da lei da morte se não tivesse libertado?

Camões sem Jau teria sempre escrito os Lusíadas, que foi afinal aquilo que da lei da morte o libertou e Jau sem Camões teria sido um desses inúmeros escravos dos quais não reza nem a história nem uma linha. Por outras palavras seria tão invisível à nossa memória de hoje como o foi enquanto mendigo.

De notar desde logo, no que se refere aos Lusíadas e a Camões e Jau que segundo a fabulação de Casimiro de Abreu o Javanês teria salvo os Lusíadas do fogo conforme veremos à frente.Portanto quando se diz atrás que Camões teria sempre escrito os Lusíadas, com Jau ou sem Jau, poderemos ainda aqui aceitar que sim, embora o autor brasileiro (C.A.) os tivesse colocado na eminência de se perderem não fora a acção de Jau.

Contudo, e voltando brevemente ao cavalo Bucéfalo, este está historicamente ligado, pelo menos lendariamente,(segundo Montaigne) à conquista do Império de Alexandre o Grande.

De Jau, não fora Casimiro de Abreu e mais algumas lendas que se recolhem, nada constaria de importante sobre a sua acção na escrita dos Lusíadas.

Assim e ainda Casimiro de Abreu:

CAMÕES

Eu à pátria sobreviver! Não quero.
Quem deste Portugal cantou as glórias
Não pode a Portugal na mesma lira
Desferir canto fúnebre saudoso.

Se a pátria é morta, hei-de morrer com ela.

Hei-de sim, hei-de sim, porque nesta alma
Era o afecto maior que ora existia.
Oh! que a mesma mortalha nos envolva;
E o canto d’alma apaixonado e terno,
Em que humilde exaltei a fama tua,
Que as chamas consumam; que hoje mesmo,
De Luís de Camões não tenha o mundo
Nem sequer uma prova de seus dias…
Bem poucos de prazer, de dor bastantes!

Queimem-se todos, queimem-se esses versos,
Desta alma parte, que escrevi mil vezes
Com pranto amargo deslizando em bagas.
Eia, coragem!

(Lança ao fogo alguns manuscritos e vai buscar os Lusíadas)

ANTÓNIO (Jau)

Os Lusíadas nunca!
Por quem sois, suspendei! sou que o peço:
Que não se queima assim num só momento
Dum poeta imortal a rica c’roa,
E o mais nobre brasão dum povo inteiro.

Oh!vou salvá-los.

Breve, Jau contribuiu para que fossem salvos os manuscritos de Camões, neste caso os Lusíadas, que noutros relatos constam como tendo sido igualmente salvos por Camões após um naufrágio no qual terá falecido Dinamene.

Camões pelo que escreveu teve e tem direito a estátuas, referências literárias e históricas constantes, enfim...Jau ganhou o direito a um nome de Rua em Lisboa, talvez mais, permito-me pensar, por uma questão de alicerçar materialmente a miséria do vate. Ainda aqui Jau se liberta da morte não se libertando de Camões. Tão escravo é memorialmente hoje como o foi durante a sua vida.

Sobre Dinamene existe referência escrita, aliás existem várias, mas dois sonetos referem expressamente o nome Dinamene:

Ah! minha Dinamene! Assim deixaste

Ah! minha Dinamene! Assim deixaste
Quem não deixara nunca de querer-te!
Ah! Ninfa minha, já não posso ver-te,
Tão asinha esta vida desprezaste!

Como já pera sempre te apartaste
De quem tão longe estava de perder-te?
Puderam estas ondas defender-te
Que não visses quem tanto magoaste?

Nem falar-te somente a dura Morte
Me deixou, que tão cedo o negro manto
Em teus olhos deitado consentiste!

Oh mar! oh céu! oh minha escura sorte!
Que pena sentirei que valha tanto,
Que inda tenha por pouco viver triste?

E este onde o nome aparece recortado por força da métrica:

Quando de minhas mágoas

Quando de minhas mágoas a comprida
Maginação os olhos me adormece,
Em sonhos aquela alma me aparece
Que pera mim foi sonho nesta vida.

Lá numa saudade, onde estendida
A vista pelo campo desfalece,
Corro pera ela; e ela então parece
Que mais de mim se alonga, compelida.

Brado: - Não me fujais, sombra benina!
Ela, os olhos em mim c'um brando pejo,
Como quem diz que já não pode ser,

Torna a fugir-me; e eu gritando: - Dina...
Antes que diga: - mene, acordo, e vejo
Que nem um breve engano posso ter.

E há ainda um outro que se diz referir-se a Dinamene, talvez o mais conhecido e repetido e estudado:

AlmA minha gentil, que te partiste

Alma minha gentil, que te partiste
Tão cedo desta vida descontente,
Repousa lá no Céu eternamente,
E viva eu cá na terra sempre triste.

Se lá no assento etéreo, onde subiste,
Memória desta vida se consente,
Não te esqueças daquele amor ardente
Que já nos olhos meus tão puro viste.

E se vires que pode merecer-te
Alguma cousa a dor que me ficou
Da mágoa, sem remédio, de perder-te,

Roga a Deus, que teus anos encurtou,
Que tão cedo de cá me leve a ver-te,
Quão cedo de meus olhos te levou.

Existem muito mais referências a amores idos em Camões mas alguns são de atribuição duvidosa a Dinamene, porque se podem muito bem referir aos seus alegados amores a Dona Catarina de Ataíde ou à Infanta D. Maria, irmã do Rei D. João III.

Como resumo temos neste pequeno esboço Camões, Jau, Dinamene, Dona Catarina de Ataíde e a Infanta D. Maria como entidades ligadas memorialmente à memória de Camões, sendo que Jau, Dona Catarina de Ataíde e D. Maria, irmã do Rei D. João III, por ele não são referidos de forma explícita e Jau, seguramente está ausente da poética de Camões.

E todos eles, com referência explícita ou sem ela, assim se libertaram da Lei da morte.





sábado, 14 de março de 2015

A senhora Joaquina


A senhora Joaquina

Tinha este nome, Joaquina...enfim, eu acho que era assim o seu nome, mesmo que agora isso não seja assim tão importante. Faleceu há bastantes anos, tinha eu talvez uns catorze ou quinze anos. Mas conheci-a a ela praticamente desde que me conheci a mim.

Sempre a vi e ainda hoje a vejo com duas malas que sempre pensei serem muito pesadas. Calcorreava a cidade de Faro vinda de uma aldeia próxima. Estivemos lá uma vez, a visitá-la. Fomos, eu, a minha mãe e o meu irmão que na altura era o mais novo, de camioneta. O outro, o que nasceu alguns anos depois não deve ter conhecido a senhora Joaquina como eu a conheci. Acho mesmo que nenhum deles conheceu da vida dela aquilo que eu conheci.

Vivia numa casa térrea, rodeada por uma cerca e no terreno havia árvores de fruto. Lembro-me bem das ameixas mas havia também laranjeiras, amendoeiras e duas ou três alfarrobeiras e ainda amoras... sempre reparei nestas coisas, nas árvores plantadas.

Nesse tempo não sabia, penso que não sabia como sei hoje porque gostava tanto das árvores mas agora penso que talvez seja porque dão uma ideia de continuidade nas vidas. A senhora Joaquina faleceu e as árvores lá ficaram e ainda lá florescem e dão frutos todos os anos, penso eu. De qualquer forma é assim que eu vejo hoje aquela sua casa e as suas árvores. Já lá estavam quando ela nasceu, isso eu sei porque ela me disse e ficarão para sempre na imagem que tenho da sua casa.

Vendia roupas, a senhora Joaquina. Enviuvara, talvez nos tempos da pneumónica, isso nunca perguntei, não tinha filhos nem propriedade que lhe bastasse e vendia roupas.

Naquele tempo não havia muita coisa que se pudesse vender assim de porta em porta. Era sobretudo roupa interior que ela vendia, meias de lã e algum tecido para costurar, botões, agulhas: do tecido trazia as amostras e na volta seguinte entregava.

Era uma senhora muito alegre, sempre bem disposta e vendia também umas rifas que davam cem escudos da roupa que ela vendia a quem saísse o número premiado. Era muito amiga da minha mãe, talvez porque fossem as duas camponesas, ainda que nascidas e criadas a muitos quilómetros de distância, mas acho que o pessoal do campo é igual em todo o lado e isso sabe-se logo: a amizade e a cumplicidade já lá estão antes das pessoas se conhecerem bem. É assim mesmo.

Talvez por isso a minha mãe foi provavelmente a única a saber que ela nem ligava aos números da lotaria para dar os prémios de cem escudos em roupa. Umas vezes dava a uma senhora, outras vezes dava a outra, outras vezes dava à minha mãe...e outras ficava para ela: quando lhe perguntavam a quem tinha saído respondia que tinha sido a uma senhora do Alto Rodes, outras vezes uma senhora do Pé da Cruz, enfim...para os outros era sempre indeterminada a ganhadora. Ela mesma, muitas vezes.

Como disse era uma pessoa muito alegre, as gargalhadas soavam desde que chegava até que partia de nossa casa carregando as duas malas. Às vezes comia mesmo ali na nossa casa: trazia uma marmita com comida do campo que a minha mãe aquecia e era mesmo uma pena vê-la partir depois...era mesmo uma alegria de pessoa.

Depois, bem, depois teve um azar, só se pode dizer disso ter sido um azar... Segundo ela estava um fim de semana a fazer a limpeza da casa e tinha lá uma arca com roupas do falecido que foi escolhendo e metendo numa fogueira que fez no quintal da cerca. Aquilo que achava que já não serviria para nada e estava ali a ocupar espaço, a apodrecer e já não lhe trazia recordação nenhuma.

Esqueceu-se, disse depois ela passado mais de um mês sem nos visitar, que tinha guardado todo o seu dinheiro, todas as notas amealhadas no meio dessas roupas. Quando se lembrou já era tarde. Todo o dinheiro acarinhado ao longo de anos, carregando as duas pesadas malas pela cidade de Faro, percorrendo quilómetros e mais quilómetros tinha ardido.

Envenenou-se, teve uma quebra e a alegre senhora Joaquina envenenou-se. Os vizinhos ainda acorreram a tempo depois de terem ouvido os gritos dela e levaram-na ao hospital. Esteve lá cerca de um mês e recomeçou a sua vida e foi só quando ela nos foi visitar que soubemos do sucedido.

Mas já não era a senhora Joaquina que eu tinha conhecido: encolhida numa cadeira na nossa cozinha, pequenina e triste, beberricava uma gemada com cerveja preta que a minha mãe lhe tinha feito: Precisa de ganhar forças, senhora Joaquina, precisa de ganhar forças, dizia-lhe a minha mãe. E por ali ficaram conversando um bom bocado.

Quando se foi embora tive a certeza que nunca mais veria a senhora Joaquina tal como a tinha visto até aquela altura. Há pessoas que morrem antes de morrer e a senhora Joaquina morreu quando perdeu o resultado de todo o seu esforço de tantos anos de trabalho e eu disse-lhe um adeus sem querer mostrar o desgosto que me ia na alma.

Pobre senhora Joaquina: o sobrinho roubou-lhe todas as economias e foi para o Canadá. Ela não quis fazer queixa nem disse a mais ninguém porque ele era do seu sangue e este envenenou-lhe o sangue dela para sempre.

Daniel Teixeira



sábado, 21 de fevereiro de 2015

Romance acabado - Conto de Daniel Teixeira


Romance acabado

Conto de Daniel Teixeira


Eu tinha os condimentos todos na minha história, ou pensava que tinha, mas talvez eu tivesse exagerado na complexidade de dar volta ao romance e construir as páginas necessárias para que a obra ficasse satisfatoriamente aceitável.

Havia várias fontes de inspiração mas eram fontes ao nível superficial porque é praticamente impossível fugir às nossas referências literárias e o processo da minha personagem era bem diferente de tudo aquilo que seria pensável coadunando-se bastante com a minha anterior experiência de crítico literário.

Tratava este meu romance que acabou por não o ser do relacionamento entre o escritor e o público e a crítica também, embora esta última fosse referida de uma forma mais subtil.

O meu personagem era suficientemente inteligente para saber que podia dispensar alguns leitores, ou mesmo muitos, mas que estaria liquidado como escritor caso afrontasse a crítica de uma forma demasiado directa, de nada lhe valendo os numerosos prémios até ali acumulados. Seria irremediavelmente votado ao olvido, ostracizado.

A crítica que o tinha elogiado e continuava a elogiá-lo nunca o deitaria abaixo senão pelo olvido depois de o ter subido, isso sabe-se, eu sei como as coisas funcionam : poderiam aqueles que se tinham mantido mais discretos no seu apoio começar por meter uma ou outra opinião menos favorável, progressivamente, mas esse processo levaria muito tempo ou não seria nunca mesmo completado. Ele nunca seria reduzido a zero.

Para além disso, deste cuidadoso aspecto do seu relacionamento com a crítica e no outro campo onde se sentia sem peias, nas conferências, notava ele pela leitura das expressões das pessoas que uma parte grande do seu público então presente considerava que aqueles mitos, os mitos que ele criara, aqueles que ele pretendia desfazer mais não eram que manifestações da sua excentricidade.

Na verdade que coisa mais fácil de apreender pela grande massa, mesmo aquela que era muito, mas mesmo muito culta que todo ele era excentricidade?

Vestia-se quase como um mendigo, o cabelo encrespado parecia não ter sido regado havia dias ou mesmo semanas, o blusão surrado acumulava gordura no colarinho e nas mangas, a barba crescia-lhe desordenada e a sua forma de se expressar era extremamente difícil de ser entendida: entrava num caminho de discurso para logo se perder nas encruzilhadas e depois nas curvas e mais tarde regressava, passado tempo ao ponto de partida. Mas era bom a escrever, confuso, mas bom.

Assim, havia alguns planos que podiam muito bem ser considerados quase paranóicos no comportamento do meu personagem sobretudo quando se entendia - quando se entendia - o fio daquilo que ele dizia e que afinal era claro e simples para ele e para muita gente que o quisesse entender.

Mas, acho que as pessoas não o queriam mesmo entender quando ele falava: tinham criado dele uma imagem, tinham incorporado aquilo que ele escrevia na sua imagem dele e a razão da sua grande frustração devia-se não a ele mas sim aos outros que tinham de alguma forma feito daquilo que ele era aquilo que sempre pensaram e iam pensando dele sempre na mesma linha de construção.

Não havia mesmo nada a fazer, dizia eu mesmo ao meu personagem, porque eu dialogava com ele, procurava encontrar-lhe uma saída que lhe fosse satisfatória, que o levasse a permitir-me ao fim de umas duas centenas de páginas escrever finalmente a palavra «fim».

Ele chegara à conclusão que as pessoas não o liam tal como ele escrevia, quer dizer, que as pessoas davam um sentido diferente quer às suas palavras quer aos seus temas e ao percorrer quase o mundo em conferências tentou sempre explicar que não era aquilo que as pessoas pensavam o que ele queria dizer, porque essas mesmas pessoas faziam a identificação dos seus textos com ele mesmo e faziam as suas palavras, entendidas nesta perspectiva, como se fossem guias ou referenciais do seu comportamento real e ao tomá-lo como ídolo pensavam que a sua ligação comportamental pessoal era a ideal, aquela que deviam seguir.

Ora, de nada disso se tratava, repetia ele, uma vez e dezenas ou mesmo centenas de vezes quer em conversas particulares, quer em escritos, quer nas inúmeras conferências para as quais era convidado. A sua ideia - dizia ele - era a de criar nos seus leitores uma repulsa tão forte àquilo que os seus personagens representavam ou faziam que fizesse surgir neles, leitores, o desejo de uma moral e de um comportamento inverso.

E era dramática a situação dele, tentando combater moinhos que existiam de facto mas que não eram susceptíveis de lhe proporcionar nem sequer uma ilusória vitória.Tentei convencê-lo a suicidar-se, coisa que teria parecido uma coisa assim quase normal para quem trabalha na escrita a tal nível de complexidade e abstracção e que tem grande tradição na literatura e nas artes mas ele não aceitou a ideia o que me alegrou ao fim e ao cabo.

Para mim nada mais eficaz, nestes casos do que uma morte acidental, uma coisa que possa acontecer a qualquer um, uma doença em limite, enfim, uma morte normal se é que a morte é alguma vez uma coisa normal.

Mas tanto ele como eu tivemos receio que isso acabasse por funcionar como um incentivo maior à sua leitura, porque escritor morto tem mais sucesso. Havia a possibilidade, sempre tão seguida na literatura de o mandar para um sítio qualquer inopinado, uma reclusão num desconhecido local mas isso não resolvia nem o meu nem o problema dele.

Continuariam, os seus leitores à espera que ele voltasse e eu não conseguiria gerir a sua ausência de forma a meter o tão desejado termo «fim» no meu romance.

Que posso eu dizer mais? Nada mais tenho a acrescentar senão pedir desculpas por não ter escrito este romance. E daí, desculpa porquê ? Talvez este meu romance nem fosse lido senão por mim...bem talvez também o lesse a pessoa que fizesse a correcção e o ordenamento na editora, mas essa não conta.




sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

Um leve sonho pesado - Conto de Daniel Teixeira


Um leve sonho pesado - Conto de Daniel Teixeira

Lembro-me, lembro-me sempre - e mais ainda me lembro disso de cada vez que conto esta história - que as pessoas dividem os sonhos em sonhos que são sonhos e em pesadelos. Está combinado que seja assim, a sociedade, os homens, o hábito, combinaram isto tudo desta forma mas todos sabemos que um e outro são sonhos, um que se considera bom ou agradável, e que 
se chama de sonho e o sonho pesado, que se considera como sendo um pesadelo.

Não existe, contudo, que eu saiba, saída para o pesadelo senão o acordar abrupto. Ora neste sonho que eu tive e que tem uma parte grande de pesadelo, eu não acordei, no pesadelo. Houve o cuidado inconsciente, é claro, de me libertar dele, de adoçar o seu final transformando o pesadelo em sonho tal como se entende ser o sonho. 

Foi um trabalho árduo da minha mente, para o qual eu não terei 
contribuído como é certo e para o qual ela, a minha mente dentro do meu eu consciente adormecido arranjou uma solução ou um seguimento narrativo quase coerente, passe o surrealismo próprio das coisas que são sonhadas.

Por isso, hoje, ao escrever aqui aquilo que foi este meu sonho, entre tantos que tenho tido, deixo à minha mente liberta do consciente as minhas mais sinceras homenagens. Ela merece! 

Quanto ao sonho...nele, dentro dele,primeiro havia um grande pássaro, um pássaro enorme, de asas negras e peito acinzentado que rodava, rodava e rodava à minha volta como se estivesse preso num mastro pelas pernas, fazendo círculos quase perfeitos e largando pios profundos, que me soavam como gritos de criança e que pareciam começar nas suas entranhas, como se fossem expirados por um sopro ainda maior que elas. Era, o piar, maior que os pulmões donde advinha, foi o que pensei.

Um Haiaiaiai! prolongado que durava minutos, muitos minutos, ou então era impressão minha, e acabava num som rouco, como se o ar sorvido antes se não tivesse ainda esgotado dentro do peito do pássaro grande. Assim mesmo. E era um roncar em cordas agudas, forte, ensurdecedor, como se os ruídos da própria terra e o ar à sua volta nada fossem comparados com ele, com o gritado pelo pássaro negro.

Depois havia um índio que era um índio com uma só pena presa tombada da cabeça por uma fita que parecia de couro, pintada com uma enormidade de cores em pequenos quadrados e um rosto que parecia cavado na pedra, sem expressão, de olhos fechados e cabeça tombada, cantando e rezando, como se estivesse a invocar aquela terra muito vermelho acastanhada, seca, batida pelo sol que passava pelos meus olhos à frente e atrás das asas do enorme pássaro.

Durou tudo muito tempo, não sei bem quanto tempo demorou até que o animal, que estava preso no seu circulo de voo, parecendo estar preso pelas pernas, começou a alargar os círculos que fazia, como se o elástico do seu arco se fosse esticando e sempre gritando passou rente a mim uma vez e outra vez e por fim lá partiu em direcção ao sol que se encostava já ao longe numa montanha.

Eu tinha os meus olhos protegidos com os braços e a partir de certa 
altura preferi não olhar para o pássaro e cruzava ainda com mais força os dedos, entrelaçando-os junto aos olhos, como se isso para mim fosse a esperança, aquilo que me restava, a melhor arma que o meu medo arranjara: não ver para evitar sofrer.

Eram dois mundos, duas realidades ao mesmo tempo contando como se fossem tempos diferentes e a minha recolhia-se por tempo infindo e abria-se por segundos, apenas pelo tempo suficiente para eu ver o pássaro, a sua sombra e o índio e a terra onde eu estava deitado.

E o índio lá continuava sempre, de pernas dobradas junto ao solo, de quando em vez fazendo pequenos movimentos como se procurasse assentar melhor as pernas dobradas a cada voo e a cada passagem do pássaro. Mas não saía praticamente do mesmo lugar, estava sempre ali, esteve sempre ali mesmo depois que o pássaro partiu. 

Procurava precaver-se do seu regresso, do regresso do pássaro enorme, de asas negras e peito acinzentado, pensei eu, tal como se tinha protegido do voo do pássaro enquanto ele durara, cantando e rezando sempre numa lenga lenga da qual eu não entendia nem o começo nem o fim.

Havia várias lendas sobre aqueles pássaros, tinham-mas contado na aldeia e todas elas apontavam para a destruição certa de quem fosse cercado pelo «bicho negro». Que havia olhos arrancados primeiro, braços decepados e por fim o pouso triunfal do animal sobre o peito da sua vítima arrancando com o seu enorme bico a carne do peito, ficando apenas o esqueleto e o coração.

Este órgão, o coração, segundo as lendas que eu tinha ouvido na aldeia, ficava palpitando e se alguém chegasse após a partida do bicho e o arrancasse e o metesse numa ânfora de barro meio cheia de sangue de cabra - tinha de ser de cabra, o sangue, segundo as lendas - ficava vivo para sempre, latejando baixinho, tão levemente que só quem olhasse atentamente podia ver. Mas lá estaria ele, a mexer, sorvendo o sangue de cabra a expelindo-o de novo para a ânfora num compasso quase imperceptível.

Eu não conhecia o índio, não conhecia nem acreditava no pássaro, nem acreditava na imortalidade do tal coração deixado intacto pelas bicadas do pássaro negro. Era uma lenda, nada mais que isso, não significava nada. Agora penso que foi talvez por eu não acreditar, por eu não crer, que tive aquele sonho. Talvez tenha sido por isso mesmo... 

Então apareceu uma jovem, era mesmo uma jovem, uma jovem que não constava da lenda que me tinha sido contada e que dificilmente
encaixaria no episódio do voo do pássaro negro com peito acinzentado, nem sequer o velho com face petrificada que rezava ainda.

Mas fazia parte da história, a jovem e fazia parte da história o índio 
cantante da pena solitária na cabeça mesmo que não fizessem parte das lendas que tinha ouvido na aldeia. As lendas não contam nunca tudo, nunca se debruçam sobre os detalhes e no emaranhado das suas versões há sempre uma especial apetência pelo realce do horrível, pelo realce da provação. 

A jovem agarrou-me na mão esquerda que tal como a direita tapavam ainda os meus olhos receosos, fez um pouco de força para me erguer, sorriu e levantando os braços finos começou a içar-me, primeiro pondo-me de pé e depois elevando-me num voo que eu não entendia como podia ter lugar uma vez que ela não tinha asas. Talvez fosse um anjo e talvez nos sonhos os anjos não tenham asas, não sei, mas foi assim mesmo como conto que tudo se passou. 

Fez-me sobrevoar uma montanha, depois outra e ainda outra e depois, entre duas montanhas, e sobre um vale verdejante que contrastava com o vermelho acastanhado do resto que nos rodeava, deixou-me a mão e eu senti que também podia voar.

Estava aterrorizado embora voasse livremente sobre o vale verdejante, tinha medo que o impulso acabasse, que eu viesse a cair a pique da altura em que encontrava mas nada disso aconteceu e pousei os pés no solo, num espaço livre de arbustos. 

A jovem ficou lá pelo ar olhando-me e depois foi partindo na mesma 
direcção que tinha tomado o pássaro negro de peito acinzentado, lá onde o sol se punha, e foi-se fazendo cada vez mais pequena até que a perdi de vista.

Belisquei-me, não era sonho, tinha sido assim mesmo, era assim mesmo, tudo tinha sido real, desde o pássaro negro até ao índio cantante e à jovem que voava e eu que voara. E ali estava eu no meio do nada, verdejante, é certo, mas sem ter noção do caminho a seguir para regressar a casa.

Consegui divisar uma estrada logo ali no cimo do vale, uma estrada que era estrada para mim porque via nela passarem os topos de carros e camiões. Estava zonzo, mesmo zonzo, não percebia o que se passava, o que se tinha passado, não sabia nada e em certo sentido não queria saber. 

Só queria sair dali, abandonar aquele lugar, aquele sonho que não era bem um sonho, ou que talvez fosse, queria sair daquele mundo tão surreal, daquele mundo onde tanta coisa tinha acontecido em tão pouco do tempo de toda a minha vida.

Na estrada houve um carro que parou ao pé de mim com alguma chiadeira de pneus. A estrada era longa e direita e convidava à velocidade. O senhor que conduzia o carro abriu-me a porta sem uma palavra mas nada disso era para mim importante. Queria sair dali e saí.

Daniel Teixeira





O João e a Filó - Conto de Daniel Teixeira


O João e a Filó - Conto de Daniel Teixeira

Os dentes dele batiam de uma forma que o assustava, mas era sempre assim. Não era porque estivesse muito frio, de facto a sala estava sempre bem aquecida, naquela temperatura ideal para um dia de inverno,  tinha-o sentido quando se despira e quando a enfermeira abrindo a porta um pouco, sem olhar muito para ele, lhe tinha perguntado se já estava despido. 

Sim, estava! Disse com uma resposta rápida, como se tivesse receio que ela entrasse mesmo e visse o seu corpo, um pouco magro, mas de qualquer forma não excessivamente magro para a sua idade jovem. 

Tenho de comer mais dizia muitas vezes mas o apetite faltava-lhe e agora estava ali, numa consulta, porque a sua mãe tinha dito ao médico que não compreendia porque é que ele estava naquele estado como se o estado dele fosse alguma coisa de grave. 

Fui sempre assim, dizia ele tantas vezes à mãe, e ao pai que também lhe ralhava e que achava que havia coisas que ele não devia fazer porque era demasiado fraco. Deixa que eu levo – dizia-lhe o pai quando se tratava de carregar algo mais pesado na loja, pronunciando este deixa que eu levo como se ele fosse um inútil ou estivesse num processo pronunciado de decadência, ele que tinha quinze anos, mal feitos. 

O médico dissera que não devia ser nada mas que era melhor ver acrescentando um misterioso nunca se sabe…nunca se sabe como (?) ele não era Médico (?) deveria saber pois então (!!)…mas não sabia e tinha-o mandado tirar uma radiografia aos pulmões, outra radiografia, mais uma radiografia, que raio de coisa, dizia para si mesmo: eu não estou doente nada, só não tenho tanta fome assim e faria uma vida normal se não fosse a mãe estar sempre com o come rapaz ou o pai com aquelas tiradas parvas do deixa que eu levo até nos embrulhos pequenos porque estavam carregados de ferragens e isso era muito pesado para mim, pelo menos era o que o pai dizia.

Depois havia o se não vais à tropa não tens moça que te queira, elas fogem todas de ti não sabia bem porquê, mas se calhar as moças só casavam com moços que tivessem ido à tropa, ora bolas, ele que até estava desejando não andar com aquela farda verdosa, horrível, como via nos seus primos, e aquela boina toda mal posta que era como eles lá no exército queriam porque achavam melhor mas ele não achava e o boné dele estava sempre bem enterrado na cabeça, dava-lhe um ar de rufia, dizia para si mesmo quando se via ao espelho, daqueles rufias safos que a sabem toda. 

Dançaste João (!?) perguntava-lhe a mãe quando ele voltava dos bailes onde a mãe o obrigava a ir e lhe dava então algum dinheiro para ele gastar com os amigos e as moças, comprar um chocolate oferecer, à filha da ti Rosa, que é uma moça bonita e depois dizia e forte como um touro fazendo-o lembrar de novo que estava magro, que comia pouco e que se queria a Filomena que era a filha da Ti Rosa tinha de comer mais senão ela não o queria e se o pai estivesse por perto acrescentava logo pois se ele não for à tropa nem a a Filó nem nenhuma outra o quer e etc. etc. se de mais se lembrasse.

Veio a enfermeira de novo para o levar ao médico antes de fazer a radiografia, a porta era logo ali ao lado e ela puxou-o por um braço com força como se tivesse medo que ele se escapulisse. Caramba, dizia o João com os seus botões, tenho de andar neste vai vem que pareço um pássaro, levantar os braços para o médico me apalpar debaixo dos braços, dar duas ou três voltas para ele me ver o corpo todo, que raio deu a esta gente que nem sequer sabe que eu tenho vergonha de andar a mostrar o pirilau por aí e ainda com a enfermeira lá a mexer nos frascos, nas seringas de vidro, nas agulhas enormes como se estivesse ameaçando. 

Aqui não tens nada, mas tem de comer, pá, tens de comer, vamos a ver a radiografia, ver o que ela diz, mas eu acho que não é nada só que tens de comer pá, tens de comer e lá continuou ele a lengalenga do costume, desde o chouriço até às couves, mais o tomate, mais o toucinho, mais a carne, mais o pão, mais o leite, mais o queijo e dormir bem, tens de dormir bem. 

Ele até dormia bem, até dormia sim senhor e dormiria mais se não fosse ter de ir à Escola, andar cinco quilómetros até chegar à estrada e apanhar a camioneta que o levava para a vila onde ele e mais uns quantos andavam a acabar o 9º ano. Antes era melhor, havia 4 anos a Escola ela logo ali ao lado e vinha almoçar a casa e agora não: levava uma marmita, um bocado de pão, uma laranja ou outra fruta e à hora do almoço lá se sentavam todos numa sala onde a Contínua embirrava com ele para ele acabar a marmita, a marmita que mãe lhe arranjava, cheia de cozido, mais o pão e a fruta. 

Bem a radiografia está bem, parece bem, disse o médico, não tens nada, só precisas de comer melhor, tens de comer melhor, para a próxima quero-te com mais cinco quilos, ouviste? Ouviste? Ouviste? 

E a mãe dele à espera na rua com o então que disse o doutor (?) – que da radiografia já ela sabia - que precisas de comer mais, e que te quer com mais cinco quilos na próxima vez que cá vieres, eu sabia, eu sabia, tens cinco quilos para engordar nestes meses: quando cá voltares quero que faças uma surpresa ao médico, trazes mais seis quilos, o que achas, achas que consegues? 

Chegados a casa o pai com a tropa e com as moças que não me vão querer se eu não for à tropa e daqui a três meses a mesma história e todos os dias a mesma história deixa que eu levo o mais pesado e a Filó é muito boa moça, um brinco de rapariga e a Ti Rosa que é viúva e tem terrenos, hortas, amendoeiras, oliveiras, árvores de fruto e a Filó que é filha única e daquela fábrica já não sai mais nada porque ela é viúva. E agora vai lanchar que estiveste muito tempo sem comer.




domingo, 30 de novembro de 2014

O preço dos figos - Conto de Daniel Teixeira


O preço dos figos - Conto de Daniel Teixeira

De calças compridas dali onde estava, eu nada percebia no seu corpo levantando-se e baixando-se sob uma figueira. De costas abaixadas aqui rente ao chão, a pessoa que eu via logo levantava o dorso mais além num emaranhado de ramos e ramagem onde despontavam pequenos pontos arroxeados. 

Virou-se então um pouco e ainda ao longe na minha direcção e eu, incerto, penso ter divisado um volume de seios. Talvez fosse uma mulher que colhia figos e que olhava de quando em vez em redor de si e das figueiras como se estivesse receosa. E devia estar, pensei eu.

As figueiras que pontuavam pelo pequeno monte não eram daquela pessoa, isso eu sabia e talvez fossem - e isso eu não sabia bem - de um homem de meia idade parecendo um pouco sujo e de barba salteada que por ali cirandava de quando em vez com um feltro escuro na cabeça e um colete sobre a camisa.

E então a pessoa que apanhava figos deslocou-se para uma outra árvore que estava mais perto do local onde eu observava e eu então vi perfeitamente que se tratava de uma mulher de cabelo enrolado em quase carrapito e um chapéu de palha que me pareceu desfiado nos bordos que transportava duas largas cestas de verga. 

Eu não tinha nada a ver com isso, quer dizer, nada tinha a ver com os figos e eles eram tantos ao longo das figueiras na pequena encosta que mesmo que estivessem a ser roubados pouca diferença fariam ao homem um pouco sujo do colete e do chapéu de feltro, se ele fosse mesmo o dono das árvores o que eu não sabia.

E a mulher aproximou-se ainda mais e eu, na sacada da minha varanda, três andares acima do solo que ela pisava, vi aproximar-se um miúdo, talvez com seis ou sete anos. Não deveria ter mais que isso, com certeza e tinha vestidos uns calções de ganga com suspensórios e disse-lhe «Mãe, dá-me um figo».

A mulher, talvez porque não esperasse que o miúdo ali aparecesse pareceu ficar um pouco mais assustada do que aquilo que me parecia antes e segundos depois deu-lhe um figo que o miúdo quase mastigou de uma vez. «Mãe, dá-me mais figos» disse logo em seguida o miúdo. 

Ela então respondeu-lhe que não podia dar-lhe mais figos, que os figos eram para ela ir vender mas mesmo assim o miúdo repetiu o pedido: «Mãe, dá-me mais figos» e a mulher então colocou as mãos nos quadris e disse-lhe que com o dinheiro da venda dos figos ia comprar pão e leite e massa para ele e para os irmãos e deu fim ao pequeno discurso com um autoritário «Vai para casa».

O miúdo encolheu-se um pouco mais na sua pequenez, tentou fazer outra tentativa para que a mãe lhe desse mais figos, isso eu percebi pela postura dele, mas acabou por sair dali a correr e a mulher retomou então a sua tarefa, baixando-se e levantando-se sobre a farta figueira que estava três andares de prédio abaixo de mim.

Não demorou muito que o miúdo voltasse, talvez cinco, talvez dez minutos, fazendo um pequeno ruído com os sapatos no terreno que despertou a atenção da mulher. Antes que ela tivesse oportunidade para dizer o que quer que fosse o miúdo disse-lhe então: «Mãe, vende-me figos» ao mesmo tempo que mostrava na palma da mão algumas moedas escuras.

O que ela então quis saber foi onde ele tinha arranjado o dinheiro e o miúdo respondeu que tinha sido o tio que estava à porta da taberna que lho dera, sem ele pedir, acrescentou, ele não pediu nada, ele simplesmente lho dera como fazia algumas vezes como a mãe sabia, foi dizendo.

A mulher então retirou uma mão cheia de figos de uma das cestas, com a outra mão recolheu o dinheiro e entregou então os figos, talvez meia dúzia, não mais, na concha das duas mãos do miúdo dizendo-lhe que era esse o preço dos figos, que ele fosse para casa e que se não conseguisse vender todos levaria o resto para casa, para ele e os irmãos comerem o que fez estampar um sorriso largo na face do miúdo que chamou de António.

Não pensava ficar por ali mais tempo, eu, e não teria ficado se entretanto não tivesse reparado que o homem um pouco sujo, que usava um colete por cima da camisa e um chapéu de feltro e que eu pensava ser o dono das figueiras não tivesse assomado mais abaixo junto a um canavial que corria ao longo de um ribeiro de inverno. 

Assobiou, ele, o homem, e ela, a mulher que apanhava figos olhou à volta e deixando as cestas de verga foi em direcção ao canavial. Talvez eu não devesse ter visto o que vi, talvez eu não devesse ter visto o resmalhar nas canas, talvez eu não devesse...Bem não devia mesmo. 

Há coisas que não são para se ver, mas se o não tivesse feito não teria visto a mulher regressar recompondo a recomposta blusa entre as calças, não teria adivinhado como adivinhei e depois vi as lágrimas escorrendo pela face dela e não saberia que o preço dos figos, o verdadeiro preço dos figos vai por vezes muito além do valor de algumas moedas.

Daniel Teixeira



O gato preto


O gato preto

A Arminda vivia no décimo andar de um prédio cujo elevador se mantinha entaipado havia anos. Os condóminos, por razões que todos achavam certas, variavam nas suas objecções ao arranjo do mesmo, razões essas que me não cabe a mim desenvolver aqui. Aliás, nem moro lá - caso isso não tenha ficado subentendido até agora. 

Apenas sou, no que à questão residencial se refere, visitante da Arminda e quando cheguei a casa dela desta vez estava não só derreado como estava irritado e sentia na pele da face agora crestada a falta do ar condicionado dos outros dias e aquela aragem pequena mas refrescante que o contínuo mandava do rés do chão rodando o botão para o lado do sinal mais por ser para mim.

Era bom cliente, eu, naquele prédio e o porteiro sabia-o mas desta vez pareceu-me ausente não de corpo, porque ele estava lá, com a sua farda cheia de medalhas e galões à tropa, mas porque estava e não estava no seu posto.

Ou seja, o corpo dele (e os galões e as medalhas) estavam lá plantados no sítio do costume, atrás de um balcão coberto a fórmica, mas o espírito, a alma, o sopro vital dele, aquela coisa que distingue as pessoas vivas das pessoas mortas, a respiração, o bafo, andavam nos limiares do coma, e acabei por apressar o passo no Hall. 

Disse-me depois a Arminda que lhe tinha falecido um gato, um pretinho que frequentava o terceiro andar e que eu não devia conhecer porque ele nunca ia para as escadas mas eu disse-lhe que não senhor, que era capaz de ser aquele que eu tinha visto na última vez que lá tinha estado entre o primeiro e o segundo andar embora tivesse visto um gato preto como veria outro gato preto qualquer porque os gatos pretos são todos iguais.

A Arminda disse-me então que sendo assim era bem provável que eu até o tivesse visto no dia da sua morte porque ele, o porteiro, tinha encontrado o seu corpinho desfalecido precisamente na zona do rés do chão, entre as caixas vazias de uma arrecadação.

Mas deixemos isso, disse-me ela enquanto me enchia um copo de vinho do Porto para me fazer subir a alma, disse ela, coisa que eu bem precisava, de uma alma subida depois daquela subida de dez andares e peço perdão pela redundância.

Os processos de luto do porteiro eram assim, isso eu sabia de raspão, mas para ela, Arminda, este era mais profundo, acrescentou: ela já lhe tinha conhecido vários lutos felinos o que lhe permitia - e eu aceitava - pronunciar-se agora da forma peremptória como o fazia.

Ele, o porteiro, tinha vários gatos, mas o que morrera agora, um dos pretinhos, era especial como o eram todos os outros, não por ser preto, havia mais pretos, mas porque - no dizer que ele tinha dito à Arminda - era um gato que lhe tinha sido oferecido por uma pessoa que ele considerava especial e de certa forma pode dizer-se agora, sem grande dificuldade, que ele, porteiro, via talvez naquele gato um pouco daquilo que via na pessoa que lho oferecera.

Amor (?) pela pessoa ou simplesmente um respeito respeitoso ? - Perguntei eu à Arminda quando já ia no segundo copo de Porto. Ela não conhecia a pessoa, nem sequer sabia se era homem ou mulher e o porteiro nunca fora além daquelas singelas palavras: fora-lhe oferecido por uma pessoa de quem ele muito gostava e vocalizava um lento ponto e uma vírgula para não dar o irrespeitoso ar abrupto do ponto final.

Quando a Arminda tentava puxar dele um pouco mais, naquela curiosidade quase natural para tentar descortinar algo mais daquilo que haveria para dentro da farda castanha, dos botões igualmente castanhos, das medalhas coloridas e dos galões dourados ele desviava a conversa dizendo que aquele gato (o agora falecido) não lhe dava nenhuns problemas praticamente desde que viera para aquele prédio.

Tinha - dizia ele como se ela (Arminda) não soubesse - a sua caixinha próximo da janela da sacada onde fazia as suas necessidades, uma caminha em pano acolchoado com um padrão de florzinhas brancas sobre fundo azulado (o que não condizia com o gato - ciciou-me no momento a Arminda com alguma ironia) e duas tigelas também junto à janela: uma com água e outra com ração que comia parcimoniosamente. 

Normalmente o porteiro (é melhor dizer o nome do homem agora) senhor Jorge Kovac em anteriores períodos de luto felino desinteressava-se das coisas e não valia a pena insistir com ele porque ele olhava-nos (disse ela) com os olhos vazios, abanava a cabeça como se tivesse percebido tudo mas no final não tinha percebido nada porque não conseguia perceber.

Mas desta vez, no caso deste grato preto, o processo estava a prolongar-se no tempo e na intensidade por razões que embora se admitissem dificilmente se suportavam sobre a estreita mas sólida base do minimamente exigente profissionalismo, do brio e até do desapego que deveria haver pelas coisas pessoais durante as horas de serviço.

E eu que o dissesse, da falta de profissionalismo do Kovac - frisei à Arminda - pois tinha tido a recente e dolorosa experiência própria subindo os dez andares de escadas sem assistência suplementar de ar condicionado coisa que nunca tinha acontecido no verão e nem sequer no inverno. 

Na altura do inverno o aquecimento também me era facultado em suplemento tal como o refrescante ar extra me era facultado no verão, devo precisar, embora algumas vezes tivesse razão de queixa no Inverno porque como qualquer pessoa sabe através do esforço os corpos aquecem e a partir do quinto piso o ar quente tornava-se excessivo. 

Mas sempre perdoei ao Kovac esta sua falta de sincronização temperaturamental optando por ir tirando o sobretudo, o casaco, a blusa de gola à barco e chegando a casa da Arminda em camisa com gravata já desabotoada.

Ora - e fazendo contas simples - o J. Kovac tinha a seu cargo vários gatos, e talvez uma ou mesmo duas mortes em média anual e embora possa parecer pouco humano da minha parte referir isto seria de exigir, na minha opinião, que ele tivesse já algum calo em relação à morte natural dos seus felinos. 

Calo esse que se poderia e deveria repercutir-se sobre esta última morte mesmo sendo inopinada. Coisa que assim dita pode parecer absurda porque as mortes, salvo raras excepções, são todas inopinadas.

Mas e conforme vimos acima, e se foi verdadeira a nossa ilação de que eu tinha visto este agora falecido gato preto na última vez em que lá tinha estado (em casa da Arminda) e tendo em atenção que eu não frequentava os seus aposentos senão uma vez por semana, teremos de tirar duas conclusões que interessam ao desenrolar da história.

O gato preto tinha falecido (coitado) provavelmente no dia em que eu estivera em casa da Arminda pela última vez antes daquela, quer dizer, havia oito dias arredondados e se as coisas se tinham passado como a Arminda aventava e se a fatalidade foi detectada nesse mesmo dia (oito arredondados atrás) isso queria dizer que o Kovac estava naquele estado havia sete, oito dias, sensivelmente.

Ora isso era muito tempo de luto e alheamento social mesmo que houvesse como fundamento o caso de um gato especialmente querido. Aliás a literatura médica não trata desta questão com detalhe bastante , mas será de estipular razoavelmente para o Kovac e tendo em atenção a sua envolvência com felinos, cerca de dois, três dias no máximo de luto sentido por cada gato.

Assim sendo e fazendo uma análise apressada e muito sumária e sabido que a questão do luto do Kovac já ultrapassava as marcas da razoabilidade e atingia patamares até ali difíceis de conceber propus eu à Arminda que tratasse de se inteirar mesmo indirectamente que fosse junto dele quanto tempo mais tinha o Kovac em previsão manter aquele estado lutuoso, tendo em vista - embora possa parecer cínico da minha parte - escalar telefonicamente nova visita à Arminda numa data posterior à sua libertação depressiva.

Eu utilizava os serviços da senhora, já entradota como é normal nestas coisas, o pessoal jovem já não faz destas coisas, só querem empregos de escritório e sobretudo empregos e não trabalhos. Ora a Arminda trabalhava e meu Deus como ela trabalhava: aquilo era uma máquina autêntica, salvo seja, porque no seu métier explorava o serviço personalizado, razão pela qual eu lá ia também desde havia cerca de dois anos já.

Estávamos neste bate papo sem termos entrado ainda em quaisquer preliminares sobre aquilo que ali me levava quando ouvimos um urro, um verdadeiro urro. Era do Kovac, só podia ser ele quem estava na origem do berro seco e grosso e eu, com mais um suspiro contrariado de imediato tirei a mão do cinto das calças que ia começar a desapertar.

Estava feita a tarde, nada mais se poderia acrescentar ali na casa da Arminda, tínhamos os planos semanais furados, já abalados antes pelo meu cansaço e suprimidos agora pela necessidade de dar atenção ao rompante grito. 

Mas a coisa era grave, mesmo, tenho de reconhecer agora: alguém, por artes sádicas que só aos inumanos são atribuídas após a exemplar e irada lição de Moisés aos adoradores dos bois e outras imagens alegadamente sagradas, alguém, repito, tinha tomado a iniciativa de deixar um envelope com uma folha e letras de jornal coladas ao Kovac afirmando que ele (o anónimo) lhe tinha lançado um bruxedo por causa do gato «para ele saber que ofertas daquelas feitas por quem foram» teriam para ele Kovac, sempre, resultados funestos. 

Ciúme, certamente, ciciei eu para a atónita Arminda enquanto esta temerosa se benzia, acrescentando que ainda hoje me parece impossível que haja pessoas que, por ciúmes, se esqueçam da existência da sua própria alma.

Ressalvando a morte do pobre do animal que me ficou a roer na consciência durante bastante tempo (meses, mesmo) afastei-me por isso da minha costureira de arranjos Arminda, e por carambola do Kovac nunca mais vindo a saber nada desse pessoal. 

De facto, o meu limite, o final da minha trilha, a beira do meu precipício mental, lá onde estaco o meu cavalo é quando chego ao ponto em que um oportuno lampejo memorial revolucionário me faz ficar instantaneamente convencido de um meu absurdo comportamental. 

Para este caso e neste caso, durante dois anos fui estúpido pois que nada justifica andar a subir e a descer dez andares para ter botões cozidos ou bainhas de calças levantadas.

Daniel Teixeira



segunda-feira, 10 de novembro de 2014

O cavalo que morria devagar - Conto de Daniel Teixeira

O cavalo que morria devagar - Conto de Daniel Teixeira

Havia um cavalo pastando e um velho sentado numa pedra olhando o cavalo.

Havia também os dois netos do velho e um pequeno prado murado e com muitas pedras soltas musgadas. Parecia um prado tão velho quanto o velho. Ou talvez mais. Eu sempre o conheci assim, aquele prado e aqueles muros meio derrocados.

Poderia ter perguntado ao velho quanto velho era aquele prado e aquela cerca que o cercava quase por completo. Porque havia uma parte do muro que arrendava dois finos troncos cruzados que o velho certamente levantava e baixava para fazer entrar de manhã cedo e fazer sair à tarde, já quase noite, o cavalo.

Podia ter perguntado a idade daquelas pedras ali assim colocadas e talvez ele me soubesse responder. Mas o velho estava absorto, pensava naquelas coisas que os velhos pensam e cofiava o bigode e remexia o solo com o seu grosso cajado.

Não sei no que os velhos pensam quando estão assim absortos mas achei melhor não lhe perguntar nada e deixei que ele continuasse a pensar no que pensava.

Os dois netos dele, esses não tiveram o meu cuidado, eram crianças e as crianças nem sempre resguardam os tempos de pensamento de cada um e eu sei isso porque já fui criança, já tive filhos que foram pequenos e um dia, se calhar terei também netos como os dois netos do velho.

Os miúdos tagarelaram um pouco entre si e eu percebi que eles iam fazer uma pergunta ao velho: esticaram o pescoço como se quisessem ficar mais próximos do velho e disseram: «Avô!! É hoje que o cavalo vai morrer?»

O velhote voltou-se então para eles, como se fosse surpreendido pela sua presença ali, ou pela pergunta, não fiquei a saber, mas ele pareceu acordar de um mundo que era o dos seus pensamentos e ficar desperto num outro que demorou um pouco a parecer perceber.

Depois respondeu aos seus netos: «Não me parece que seja hoje, o cavalo está a comer bem e quando se come bem não se está a morrer.» Não percebi logo se a última parte da frase era também um subtil conselho aos netos mas acho que é verdade que quando se come bem não se está a morrer.

Os netos abriram os olhos com um misto de entusiasmo e de alegria, disseram mais algumas coisas entre eles e partiram em direcção à meia dúzia de casas que ficavam logo ali. Iam brincar, certamente: talvez tivessem os amigos por ali. Poucos, certamente, deviam ser poucos os seus amigos porque a aldeia estava quase deserta de vida e isso eu tinha visto logo que cheguei.

Reparou então em mim o velho e reconheceu-me. A mim, eu que já havia tantos anos que ali não ia e isso mesmo também foi o que ele disse logo. Sem se levantar da pedra onde estava sentado fez-me um aceno como se fosse um cumprimento e eu entrei então na cerca e no prado para o cumprimentar.

Já há mais de vinte anos, disse-lhe eu, há mais de vinte anos que aqui não venho. «Pois está tudo na mesma, como vês, quase nada mudou. O pessoal foi-se indo embora para as cidades, outros morreram, mas o resto ficou tudo na mesma.»

E para ele estava tudo na mesma, ou quase tudo estava na mesma porque quem fica não vê as coisas da mesma maneira dos que estão ausentes muito tempo. Vinte anos, repeti eu, e em vinte anos muita coisa mudara mesmo que o senhor Afonso achasse que estava tudo na mesma.

Ele não fumava, eu também não e ali ficamos um bocado olhando o cavalo que pastava. Já não era novo, não e era certo aquilo que os netos do senhor Afonso temiam: que o cavalo morresse e eu disse-lhe isso. Não quis criticá-lo por ter dito isso de o cavalo estar a morrer aos netos, longe de mim tal ideia mas ele deve ter percebido aquilo que eu respeitosamente não lhe disse.

«Tenho cá os meus netos e eles adoram o cavalo, sabes (?). Não quero que eles se afeiçoem muito a ele para não terem um desgosto muito grande quando ele morrer. Mas ele está morrendo devagar, muito devagar. Parece que sabe que eu não quero que os meus netos tenham esse desgosto e espera que eles voltem para a escola, para a cidade.»

Olhando a aldeia deserta, as hortas sem verdura, pensando nos meus que tinham ali morrido pensei sem lhe dizer: afinal tudo e todos nós morremos um pouco devagarinho a cada dia que passa e o senhor Afonso pensa que o seu cavalo morre todos os dias um pouco mais devagar. 

Talvez, talvez não seja assim mas é bom que ele o continue a pensar.

Daniel Teixeira


Reflexão - Texto/Conto de Daniel Teixeira


Reflexão - Texto/Conto de Daniel Teixeira

O terreno à minha frente está escuro, acinzentado. Parece que por ele passou labareda. E passou mesmo, digo-o a mim enquanto olho para aquele espaço tristemente defunto. Passou o fogo dos dias tórridos de um estio que não sei bem se destrói ou se purifica a terra. Ou faz as duas coisas, destrói e purifica, deve ser assim que as coisas se passam, penso eu agora.

Deve ser por isso que os traços do tractor revolveram as raízes do que quer que lá havia, e um tractor não risca os solos sem ter uma razão, uma lógica, um princípio. São assim os homens e os tractores, pensam de igual modo, pensam sempre o mesmo uns e outros.

O homem e o tractor arrancaram ao que quer que ali havia o alimento que lhes vinha da terra e deixaram os caules de raízes expostas à sorte que se calhar todos os anos lhes é destinada. Eu não conheço os terrenos, não sei como as coisas se passam nas terras nem o que se passa dentro delas: apenas posso reflectir e é isso e só isso que faço.

Se calhar estrumarão a terra, pode dizer-se, farão isso, entranhando-se mortos na terra e renascendo-se aos poucos aqui e ali quando as chuvas começarem a cair no composto. O solo matizar-se-à então naquele cinzento escuro com verde dos rebentos, primeiro, depois ficará tudo verde e não haverá mais cinzento queimado até ao ano seguinte.

Mas ainda não, não há verde que desponte no solo. Apenas há três ou quatro canas encostadas ao declive que se transforma num estreito ribeiro no Inverno. Erectas e muito verdes entre as outras amareladas que se deitaram, são o verde que por aquele lado há.

O homem passeia o cão ou o cão passeia o homem do cajado. Tem um boné que lhe tapa os olhos mas parece-me ser já velho, certamente que é, vejo pelo andar dele, um pouco arrastado.

Tem uma trela na mão mas a trela não conduz o cão. Este corre com a liberdade que os chamamentos do velho lhe permitem. Logo ali à frente há a estrada por onde corre veloz um trânsito que leva muita gente e mercadorias.

Um carro foi deixado ali, no terreno, um pouco à direita, um carro que já foi azul e que agora tem a cor da sucata azul. Ninguém o mexe e ele já não vai mexer-se por si mesmo. Está ali plantado no bordo das laranjeiras pequenas que não cresceram mais. A nora está tão morta como o solo escurecido e já não rega nada.

Foi uma horta verdejante, isto que eu vejo e agora já não é. Vai para construção, certamente, é o que acontece a todas as hortas verdejantes por estes lados. Aqui, donde eu vejo o que hoje vejo dentro de anos não haverá mais ervas que renascem, nem laranjeiras, nem carro morto.

Só o velho de cajado continuará a passear o cão ou o cão a passeá-lo a ele, espero.

Daniel Teixeira