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domingo, 30 de novembro de 2014

O preço dos figos - Conto de Daniel Teixeira


O preço dos figos - Conto de Daniel Teixeira

De calças compridas dali onde estava, eu nada percebia no seu corpo levantando-se e baixando-se sob uma figueira. De costas abaixadas aqui rente ao chão, a pessoa que eu via logo levantava o dorso mais além num emaranhado de ramos e ramagem onde despontavam pequenos pontos arroxeados. 

Virou-se então um pouco e ainda ao longe na minha direcção e eu, incerto, penso ter divisado um volume de seios. Talvez fosse uma mulher que colhia figos e que olhava de quando em vez em redor de si e das figueiras como se estivesse receosa. E devia estar, pensei eu.

As figueiras que pontuavam pelo pequeno monte não eram daquela pessoa, isso eu sabia e talvez fossem - e isso eu não sabia bem - de um homem de meia idade parecendo um pouco sujo e de barba salteada que por ali cirandava de quando em vez com um feltro escuro na cabeça e um colete sobre a camisa.

E então a pessoa que apanhava figos deslocou-se para uma outra árvore que estava mais perto do local onde eu observava e eu então vi perfeitamente que se tratava de uma mulher de cabelo enrolado em quase carrapito e um chapéu de palha que me pareceu desfiado nos bordos que transportava duas largas cestas de verga. 

Eu não tinha nada a ver com isso, quer dizer, nada tinha a ver com os figos e eles eram tantos ao longo das figueiras na pequena encosta que mesmo que estivessem a ser roubados pouca diferença fariam ao homem um pouco sujo do colete e do chapéu de feltro, se ele fosse mesmo o dono das árvores o que eu não sabia.

E a mulher aproximou-se ainda mais e eu, na sacada da minha varanda, três andares acima do solo que ela pisava, vi aproximar-se um miúdo, talvez com seis ou sete anos. Não deveria ter mais que isso, com certeza e tinha vestidos uns calções de ganga com suspensórios e disse-lhe «Mãe, dá-me um figo».

A mulher, talvez porque não esperasse que o miúdo ali aparecesse pareceu ficar um pouco mais assustada do que aquilo que me parecia antes e segundos depois deu-lhe um figo que o miúdo quase mastigou de uma vez. «Mãe, dá-me mais figos» disse logo em seguida o miúdo. 

Ela então respondeu-lhe que não podia dar-lhe mais figos, que os figos eram para ela ir vender mas mesmo assim o miúdo repetiu o pedido: «Mãe, dá-me mais figos» e a mulher então colocou as mãos nos quadris e disse-lhe que com o dinheiro da venda dos figos ia comprar pão e leite e massa para ele e para os irmãos e deu fim ao pequeno discurso com um autoritário «Vai para casa».

O miúdo encolheu-se um pouco mais na sua pequenez, tentou fazer outra tentativa para que a mãe lhe desse mais figos, isso eu percebi pela postura dele, mas acabou por sair dali a correr e a mulher retomou então a sua tarefa, baixando-se e levantando-se sobre a farta figueira que estava três andares de prédio abaixo de mim.

Não demorou muito que o miúdo voltasse, talvez cinco, talvez dez minutos, fazendo um pequeno ruído com os sapatos no terreno que despertou a atenção da mulher. Antes que ela tivesse oportunidade para dizer o que quer que fosse o miúdo disse-lhe então: «Mãe, vende-me figos» ao mesmo tempo que mostrava na palma da mão algumas moedas escuras.

O que ela então quis saber foi onde ele tinha arranjado o dinheiro e o miúdo respondeu que tinha sido o tio que estava à porta da taberna que lho dera, sem ele pedir, acrescentou, ele não pediu nada, ele simplesmente lho dera como fazia algumas vezes como a mãe sabia, foi dizendo.

A mulher então retirou uma mão cheia de figos de uma das cestas, com a outra mão recolheu o dinheiro e entregou então os figos, talvez meia dúzia, não mais, na concha das duas mãos do miúdo dizendo-lhe que era esse o preço dos figos, que ele fosse para casa e que se não conseguisse vender todos levaria o resto para casa, para ele e os irmãos comerem o que fez estampar um sorriso largo na face do miúdo que chamou de António.

Não pensava ficar por ali mais tempo, eu, e não teria ficado se entretanto não tivesse reparado que o homem um pouco sujo, que usava um colete por cima da camisa e um chapéu de feltro e que eu pensava ser o dono das figueiras não tivesse assomado mais abaixo junto a um canavial que corria ao longo de um ribeiro de inverno. 

Assobiou, ele, o homem, e ela, a mulher que apanhava figos olhou à volta e deixando as cestas de verga foi em direcção ao canavial. Talvez eu não devesse ter visto o que vi, talvez eu não devesse ter visto o resmalhar nas canas, talvez eu não devesse...Bem não devia mesmo. 

Há coisas que não são para se ver, mas se o não tivesse feito não teria visto a mulher regressar recompondo a recomposta blusa entre as calças, não teria adivinhado como adivinhei e depois vi as lágrimas escorrendo pela face dela e não saberia que o preço dos figos, o verdadeiro preço dos figos vai por vezes muito além do valor de algumas moedas.

Daniel Teixeira



O gato preto


O gato preto

A Arminda vivia no décimo andar de um prédio cujo elevador se mantinha entaipado havia anos. Os condóminos, por razões que todos achavam certas, variavam nas suas objecções ao arranjo do mesmo, razões essas que me não cabe a mim desenvolver aqui. Aliás, nem moro lá - caso isso não tenha ficado subentendido até agora. 

Apenas sou, no que à questão residencial se refere, visitante da Arminda e quando cheguei a casa dela desta vez estava não só derreado como estava irritado e sentia na pele da face agora crestada a falta do ar condicionado dos outros dias e aquela aragem pequena mas refrescante que o contínuo mandava do rés do chão rodando o botão para o lado do sinal mais por ser para mim.

Era bom cliente, eu, naquele prédio e o porteiro sabia-o mas desta vez pareceu-me ausente não de corpo, porque ele estava lá, com a sua farda cheia de medalhas e galões à tropa, mas porque estava e não estava no seu posto.

Ou seja, o corpo dele (e os galões e as medalhas) estavam lá plantados no sítio do costume, atrás de um balcão coberto a fórmica, mas o espírito, a alma, o sopro vital dele, aquela coisa que distingue as pessoas vivas das pessoas mortas, a respiração, o bafo, andavam nos limiares do coma, e acabei por apressar o passo no Hall. 

Disse-me depois a Arminda que lhe tinha falecido um gato, um pretinho que frequentava o terceiro andar e que eu não devia conhecer porque ele nunca ia para as escadas mas eu disse-lhe que não senhor, que era capaz de ser aquele que eu tinha visto na última vez que lá tinha estado entre o primeiro e o segundo andar embora tivesse visto um gato preto como veria outro gato preto qualquer porque os gatos pretos são todos iguais.

A Arminda disse-me então que sendo assim era bem provável que eu até o tivesse visto no dia da sua morte porque ele, o porteiro, tinha encontrado o seu corpinho desfalecido precisamente na zona do rés do chão, entre as caixas vazias de uma arrecadação.

Mas deixemos isso, disse-me ela enquanto me enchia um copo de vinho do Porto para me fazer subir a alma, disse ela, coisa que eu bem precisava, de uma alma subida depois daquela subida de dez andares e peço perdão pela redundância.

Os processos de luto do porteiro eram assim, isso eu sabia de raspão, mas para ela, Arminda, este era mais profundo, acrescentou: ela já lhe tinha conhecido vários lutos felinos o que lhe permitia - e eu aceitava - pronunciar-se agora da forma peremptória como o fazia.

Ele, o porteiro, tinha vários gatos, mas o que morrera agora, um dos pretinhos, era especial como o eram todos os outros, não por ser preto, havia mais pretos, mas porque - no dizer que ele tinha dito à Arminda - era um gato que lhe tinha sido oferecido por uma pessoa que ele considerava especial e de certa forma pode dizer-se agora, sem grande dificuldade, que ele, porteiro, via talvez naquele gato um pouco daquilo que via na pessoa que lho oferecera.

Amor (?) pela pessoa ou simplesmente um respeito respeitoso ? - Perguntei eu à Arminda quando já ia no segundo copo de Porto. Ela não conhecia a pessoa, nem sequer sabia se era homem ou mulher e o porteiro nunca fora além daquelas singelas palavras: fora-lhe oferecido por uma pessoa de quem ele muito gostava e vocalizava um lento ponto e uma vírgula para não dar o irrespeitoso ar abrupto do ponto final.

Quando a Arminda tentava puxar dele um pouco mais, naquela curiosidade quase natural para tentar descortinar algo mais daquilo que haveria para dentro da farda castanha, dos botões igualmente castanhos, das medalhas coloridas e dos galões dourados ele desviava a conversa dizendo que aquele gato (o agora falecido) não lhe dava nenhuns problemas praticamente desde que viera para aquele prédio.

Tinha - dizia ele como se ela (Arminda) não soubesse - a sua caixinha próximo da janela da sacada onde fazia as suas necessidades, uma caminha em pano acolchoado com um padrão de florzinhas brancas sobre fundo azulado (o que não condizia com o gato - ciciou-me no momento a Arminda com alguma ironia) e duas tigelas também junto à janela: uma com água e outra com ração que comia parcimoniosamente. 

Normalmente o porteiro (é melhor dizer o nome do homem agora) senhor Jorge Kovac em anteriores períodos de luto felino desinteressava-se das coisas e não valia a pena insistir com ele porque ele olhava-nos (disse ela) com os olhos vazios, abanava a cabeça como se tivesse percebido tudo mas no final não tinha percebido nada porque não conseguia perceber.

Mas desta vez, no caso deste grato preto, o processo estava a prolongar-se no tempo e na intensidade por razões que embora se admitissem dificilmente se suportavam sobre a estreita mas sólida base do minimamente exigente profissionalismo, do brio e até do desapego que deveria haver pelas coisas pessoais durante as horas de serviço.

E eu que o dissesse, da falta de profissionalismo do Kovac - frisei à Arminda - pois tinha tido a recente e dolorosa experiência própria subindo os dez andares de escadas sem assistência suplementar de ar condicionado coisa que nunca tinha acontecido no verão e nem sequer no inverno. 

Na altura do inverno o aquecimento também me era facultado em suplemento tal como o refrescante ar extra me era facultado no verão, devo precisar, embora algumas vezes tivesse razão de queixa no Inverno porque como qualquer pessoa sabe através do esforço os corpos aquecem e a partir do quinto piso o ar quente tornava-se excessivo. 

Mas sempre perdoei ao Kovac esta sua falta de sincronização temperaturamental optando por ir tirando o sobretudo, o casaco, a blusa de gola à barco e chegando a casa da Arminda em camisa com gravata já desabotoada.

Ora - e fazendo contas simples - o J. Kovac tinha a seu cargo vários gatos, e talvez uma ou mesmo duas mortes em média anual e embora possa parecer pouco humano da minha parte referir isto seria de exigir, na minha opinião, que ele tivesse já algum calo em relação à morte natural dos seus felinos. 

Calo esse que se poderia e deveria repercutir-se sobre esta última morte mesmo sendo inopinada. Coisa que assim dita pode parecer absurda porque as mortes, salvo raras excepções, são todas inopinadas.

Mas e conforme vimos acima, e se foi verdadeira a nossa ilação de que eu tinha visto este agora falecido gato preto na última vez em que lá tinha estado (em casa da Arminda) e tendo em atenção que eu não frequentava os seus aposentos senão uma vez por semana, teremos de tirar duas conclusões que interessam ao desenrolar da história.

O gato preto tinha falecido (coitado) provavelmente no dia em que eu estivera em casa da Arminda pela última vez antes daquela, quer dizer, havia oito dias arredondados e se as coisas se tinham passado como a Arminda aventava e se a fatalidade foi detectada nesse mesmo dia (oito arredondados atrás) isso queria dizer que o Kovac estava naquele estado havia sete, oito dias, sensivelmente.

Ora isso era muito tempo de luto e alheamento social mesmo que houvesse como fundamento o caso de um gato especialmente querido. Aliás a literatura médica não trata desta questão com detalhe bastante , mas será de estipular razoavelmente para o Kovac e tendo em atenção a sua envolvência com felinos, cerca de dois, três dias no máximo de luto sentido por cada gato.

Assim sendo e fazendo uma análise apressada e muito sumária e sabido que a questão do luto do Kovac já ultrapassava as marcas da razoabilidade e atingia patamares até ali difíceis de conceber propus eu à Arminda que tratasse de se inteirar mesmo indirectamente que fosse junto dele quanto tempo mais tinha o Kovac em previsão manter aquele estado lutuoso, tendo em vista - embora possa parecer cínico da minha parte - escalar telefonicamente nova visita à Arminda numa data posterior à sua libertação depressiva.

Eu utilizava os serviços da senhora, já entradota como é normal nestas coisas, o pessoal jovem já não faz destas coisas, só querem empregos de escritório e sobretudo empregos e não trabalhos. Ora a Arminda trabalhava e meu Deus como ela trabalhava: aquilo era uma máquina autêntica, salvo seja, porque no seu métier explorava o serviço personalizado, razão pela qual eu lá ia também desde havia cerca de dois anos já.

Estávamos neste bate papo sem termos entrado ainda em quaisquer preliminares sobre aquilo que ali me levava quando ouvimos um urro, um verdadeiro urro. Era do Kovac, só podia ser ele quem estava na origem do berro seco e grosso e eu, com mais um suspiro contrariado de imediato tirei a mão do cinto das calças que ia começar a desapertar.

Estava feita a tarde, nada mais se poderia acrescentar ali na casa da Arminda, tínhamos os planos semanais furados, já abalados antes pelo meu cansaço e suprimidos agora pela necessidade de dar atenção ao rompante grito. 

Mas a coisa era grave, mesmo, tenho de reconhecer agora: alguém, por artes sádicas que só aos inumanos são atribuídas após a exemplar e irada lição de Moisés aos adoradores dos bois e outras imagens alegadamente sagradas, alguém, repito, tinha tomado a iniciativa de deixar um envelope com uma folha e letras de jornal coladas ao Kovac afirmando que ele (o anónimo) lhe tinha lançado um bruxedo por causa do gato «para ele saber que ofertas daquelas feitas por quem foram» teriam para ele Kovac, sempre, resultados funestos. 

Ciúme, certamente, ciciei eu para a atónita Arminda enquanto esta temerosa se benzia, acrescentando que ainda hoje me parece impossível que haja pessoas que, por ciúmes, se esqueçam da existência da sua própria alma.

Ressalvando a morte do pobre do animal que me ficou a roer na consciência durante bastante tempo (meses, mesmo) afastei-me por isso da minha costureira de arranjos Arminda, e por carambola do Kovac nunca mais vindo a saber nada desse pessoal. 

De facto, o meu limite, o final da minha trilha, a beira do meu precipício mental, lá onde estaco o meu cavalo é quando chego ao ponto em que um oportuno lampejo memorial revolucionário me faz ficar instantaneamente convencido de um meu absurdo comportamental. 

Para este caso e neste caso, durante dois anos fui estúpido pois que nada justifica andar a subir e a descer dez andares para ter botões cozidos ou bainhas de calças levantadas.

Daniel Teixeira



segunda-feira, 10 de novembro de 2014

O cavalo que morria devagar - Conto de Daniel Teixeira

O cavalo que morria devagar - Conto de Daniel Teixeira

Havia um cavalo pastando e um velho sentado numa pedra olhando o cavalo.

Havia também os dois netos do velho e um pequeno prado murado e com muitas pedras soltas musgadas. Parecia um prado tão velho quanto o velho. Ou talvez mais. Eu sempre o conheci assim, aquele prado e aqueles muros meio derrocados.

Poderia ter perguntado ao velho quanto velho era aquele prado e aquela cerca que o cercava quase por completo. Porque havia uma parte do muro que arrendava dois finos troncos cruzados que o velho certamente levantava e baixava para fazer entrar de manhã cedo e fazer sair à tarde, já quase noite, o cavalo.

Podia ter perguntado a idade daquelas pedras ali assim colocadas e talvez ele me soubesse responder. Mas o velho estava absorto, pensava naquelas coisas que os velhos pensam e cofiava o bigode e remexia o solo com o seu grosso cajado.

Não sei no que os velhos pensam quando estão assim absortos mas achei melhor não lhe perguntar nada e deixei que ele continuasse a pensar no que pensava.

Os dois netos dele, esses não tiveram o meu cuidado, eram crianças e as crianças nem sempre resguardam os tempos de pensamento de cada um e eu sei isso porque já fui criança, já tive filhos que foram pequenos e um dia, se calhar terei também netos como os dois netos do velho.

Os miúdos tagarelaram um pouco entre si e eu percebi que eles iam fazer uma pergunta ao velho: esticaram o pescoço como se quisessem ficar mais próximos do velho e disseram: «Avô!! É hoje que o cavalo vai morrer?»

O velhote voltou-se então para eles, como se fosse surpreendido pela sua presença ali, ou pela pergunta, não fiquei a saber, mas ele pareceu acordar de um mundo que era o dos seus pensamentos e ficar desperto num outro que demorou um pouco a parecer perceber.

Depois respondeu aos seus netos: «Não me parece que seja hoje, o cavalo está a comer bem e quando se come bem não se está a morrer.» Não percebi logo se a última parte da frase era também um subtil conselho aos netos mas acho que é verdade que quando se come bem não se está a morrer.

Os netos abriram os olhos com um misto de entusiasmo e de alegria, disseram mais algumas coisas entre eles e partiram em direcção à meia dúzia de casas que ficavam logo ali. Iam brincar, certamente: talvez tivessem os amigos por ali. Poucos, certamente, deviam ser poucos os seus amigos porque a aldeia estava quase deserta de vida e isso eu tinha visto logo que cheguei.

Reparou então em mim o velho e reconheceu-me. A mim, eu que já havia tantos anos que ali não ia e isso mesmo também foi o que ele disse logo. Sem se levantar da pedra onde estava sentado fez-me um aceno como se fosse um cumprimento e eu entrei então na cerca e no prado para o cumprimentar.

Já há mais de vinte anos, disse-lhe eu, há mais de vinte anos que aqui não venho. «Pois está tudo na mesma, como vês, quase nada mudou. O pessoal foi-se indo embora para as cidades, outros morreram, mas o resto ficou tudo na mesma.»

E para ele estava tudo na mesma, ou quase tudo estava na mesma porque quem fica não vê as coisas da mesma maneira dos que estão ausentes muito tempo. Vinte anos, repeti eu, e em vinte anos muita coisa mudara mesmo que o senhor Afonso achasse que estava tudo na mesma.

Ele não fumava, eu também não e ali ficamos um bocado olhando o cavalo que pastava. Já não era novo, não e era certo aquilo que os netos do senhor Afonso temiam: que o cavalo morresse e eu disse-lhe isso. Não quis criticá-lo por ter dito isso de o cavalo estar a morrer aos netos, longe de mim tal ideia mas ele deve ter percebido aquilo que eu respeitosamente não lhe disse.

«Tenho cá os meus netos e eles adoram o cavalo, sabes (?). Não quero que eles se afeiçoem muito a ele para não terem um desgosto muito grande quando ele morrer. Mas ele está morrendo devagar, muito devagar. Parece que sabe que eu não quero que os meus netos tenham esse desgosto e espera que eles voltem para a escola, para a cidade.»

Olhando a aldeia deserta, as hortas sem verdura, pensando nos meus que tinham ali morrido pensei sem lhe dizer: afinal tudo e todos nós morremos um pouco devagarinho a cada dia que passa e o senhor Afonso pensa que o seu cavalo morre todos os dias um pouco mais devagar. 

Talvez, talvez não seja assim mas é bom que ele o continue a pensar.

Daniel Teixeira


Reflexão - Texto/Conto de Daniel Teixeira


Reflexão - Texto/Conto de Daniel Teixeira

O terreno à minha frente está escuro, acinzentado. Parece que por ele passou labareda. E passou mesmo, digo-o a mim enquanto olho para aquele espaço tristemente defunto. Passou o fogo dos dias tórridos de um estio que não sei bem se destrói ou se purifica a terra. Ou faz as duas coisas, destrói e purifica, deve ser assim que as coisas se passam, penso eu agora.

Deve ser por isso que os traços do tractor revolveram as raízes do que quer que lá havia, e um tractor não risca os solos sem ter uma razão, uma lógica, um princípio. São assim os homens e os tractores, pensam de igual modo, pensam sempre o mesmo uns e outros.

O homem e o tractor arrancaram ao que quer que ali havia o alimento que lhes vinha da terra e deixaram os caules de raízes expostas à sorte que se calhar todos os anos lhes é destinada. Eu não conheço os terrenos, não sei como as coisas se passam nas terras nem o que se passa dentro delas: apenas posso reflectir e é isso e só isso que faço.

Se calhar estrumarão a terra, pode dizer-se, farão isso, entranhando-se mortos na terra e renascendo-se aos poucos aqui e ali quando as chuvas começarem a cair no composto. O solo matizar-se-à então naquele cinzento escuro com verde dos rebentos, primeiro, depois ficará tudo verde e não haverá mais cinzento queimado até ao ano seguinte.

Mas ainda não, não há verde que desponte no solo. Apenas há três ou quatro canas encostadas ao declive que se transforma num estreito ribeiro no Inverno. Erectas e muito verdes entre as outras amareladas que se deitaram, são o verde que por aquele lado há.

O homem passeia o cão ou o cão passeia o homem do cajado. Tem um boné que lhe tapa os olhos mas parece-me ser já velho, certamente que é, vejo pelo andar dele, um pouco arrastado.

Tem uma trela na mão mas a trela não conduz o cão. Este corre com a liberdade que os chamamentos do velho lhe permitem. Logo ali à frente há a estrada por onde corre veloz um trânsito que leva muita gente e mercadorias.

Um carro foi deixado ali, no terreno, um pouco à direita, um carro que já foi azul e que agora tem a cor da sucata azul. Ninguém o mexe e ele já não vai mexer-se por si mesmo. Está ali plantado no bordo das laranjeiras pequenas que não cresceram mais. A nora está tão morta como o solo escurecido e já não rega nada.

Foi uma horta verdejante, isto que eu vejo e agora já não é. Vai para construção, certamente, é o que acontece a todas as hortas verdejantes por estes lados. Aqui, donde eu vejo o que hoje vejo dentro de anos não haverá mais ervas que renascem, nem laranjeiras, nem carro morto.

Só o velho de cajado continuará a passear o cão ou o cão a passeá-lo a ele, espero.

Daniel Teixeira

A Marta - Conto de Daniel Teixeira

A Marta - Conto de Daniel Teixeira

Pensava muito eu, dizia-me ela, «Pensas e pensas, mas não é só da reflexão interior que as coisas saem. Se eu não tivesse tanto que fazer levava-te pela noite fora pelos bares até de madrugada…depois, bem, depois levavas-me a casa e talvez eu te convidasse a subir e tomar mais uma bebida…talvez, talvez…!» e depois ria-se naquele jeito sugestivo que eu tão bem lhe conhecia, acariciava-me as mãos, revolvia-me o cabelo e acabava por vezes com um beijo na testa.

Nunca daria em nada, em nada de especial, pensava eu, o sexo estava quase naturalmente afastado da nossa relação naquela altura e eu sabia bem, tinha aprendido isso tudo sem ter feito qualquer tentativa e aprendera também que era bem melhor nem sequer o tentar.

O receio de quebrar a estátua com algum grau de sacralidade que para mim era a Marta fazia-me conter, escolher caminhos de diversão e repetir constantemente para mim mesmo que o risco de tentar era demasiado elevado por maiores e mais sugestivas que fossem as acções e as palavras dela.

Talvez tenha esperado de mais, não sei, ou talvez tenha esperado justamente o tempo necessário. Eu não sei e acho que essas coisas nunca se sabem antes de terem o seu lugar. É sempre melhor guardar esta incerteza, esta indefinição…é sempre melhor não se ficar com a sensação que se perdeu alguma coisa, ou que se perdeu muito.

O meu problema, a minha falta de entendimento desta realidade derivava do facto de durante bastante tempo ter tomado os seus jogos sensuais como prova de uma ligação entre mulher e negócio, o que ela fazia, de facto, mas tendo sempre presente, de forma pouca clara ao observador, que este tipo de sensualidade era antes um instrumento e nunca uma forma profunda de sentir.

Não representava propriamente dois papéis nem ela mesma tinha dentro de si duas faces, a de mulher e a de editora, mas conseguia muito bem uma coisa que era manter esses dois campos convivendo dentro dela e projectá-los para uma exteriorização bem nítida que só ela sabia desenhar.

Eu limitei-me a conhecer a existência dela, dessa demarcação, desse traço que separava a sensualidade instrumento da sensualidade expressão de sentimento. A partir de uma dada altura aceitei bem o princípio que me parecia consequente de que nenhum destes dois campos competia ou prejudicava ou anulava o outro porque viviam mesmo em campos diferentes embora a sua forma de expressão fosse a mesma. E daí talvez não fossem as mesmas, talvez fosse eu, o observador, que unificava.

E fora então, depois de me dizer do engraçado da terriola para onde me mandava para acabar o romance que tinha em mãos que a Marta cruzara as pernas, como ela costumava fazer, a saia subia-lhe e expunha as coxas, como ela fazia muitas vezes, fazendo-me desviar os olhos.

Era difícil dar uma idade bem definida à Marta, tinha um corpo forte, pernas fortes e bem elegantes e era bonita, tinha uma cara bonita, bem bonita mesmo. E tinha umas coxas extraordinariamente belas e sugestivas e ela não só sabia disso como sabia tirar partido disso.

Ela conhecia-me bem e conhecia bem o que os homens pensavam que as mulheres pensavam deles ou podiam pensar e sabia que eu reagiria assim, que eu ficaria embaraçado por pensar que ela pensava que eu estava a olhar-lhe para as coxas e depois eu saí do seu gabinete com o papel rabiscado com as indicações do local que ela achou que eram suficientes.

Quanto à sensualidade demovente, como eu lhe chamava, a Marta era assim mesmo, nunca tinha tido a coragem de lhe dizer que sabia o que ela fazia com aquela coisa de mostrar as coxas, ou mesmo os seios quando estava inclinada à minha frente, ou à frente de outros homens, mas eu sabia que era uma forma que ela tinha de se desembaraçar de momentos ou perguntas que lhe não convinham.

Eu via-a a fazer isso mesmo em festas, ou recepções, ou nas sessões de autógrafos e ficar depois a rir-se para si mesma com o embaraço dos outros e eu sentia mais que via o seu sorriso interior. Pessoas que a respeitavam muito, como eu, e que não pensariam nunca que aquelas posições e aqueles gestos tinham outra causa senão o descuido. E era uma sensação que ela explorava muito bem, porque era uma mulher muito inteligente a Marta.

Quando me retirava dos embrulhos das conversas de grupo que me aborreciam ela agarrava-me pela mão, puxava-me para um canto ou contra uma parede e afagava-me o cabelo carinhosamente. Por vezes encostava o ventre dela ao meu e nem ela sabia a sensação de embaraço e não só que isso me dava. «Vamos provocar um bocado estes gajos» – segredava-me. E sobretudo as gajas – não dizia mas eu entendia – fazendo-me ali e daquela forma virtualmente seu, exclusivamente seu.

Havia assim já bastante tempo que a Marta me dava sinais do seu  interesse por mim só que eu não os interpretava dessa forma, achava que aquilo que ela fazia não devia ser só comigo, quer dizer, ela representava vários escritores, tinha duas poetizas, três romancistas incluindo eu e um ensaísta, fora os ocasionais que iam e vinham mas era a maneira dela e nunca pensei que fosse mais que isso, nunca pensei mesmo que ela só fizesse aquilo comigo daquela forma e com sentimento mas agora era agradável pensar assim, sentir-me especial, sentir ter sido diferente aos olhos da Marta.

Nunca se casara, segundo se sabia e ela mesma dizia e eu não sabia qual era a sua vida para além da sua função de editora, nem eu nem ninguém, ao que penso. Sempre achei que a Marta não se interessava mesmo por relações duradouras ou não: tinha a sua carreira que geria com sucesso, com escritores e poetas de sucesso, que acarinhava. Eu talvez fosse a sua mais recente «aquisição» e já havia dois anos que trabalhava com ela quando tudo aconteceu.

Aconteceu daquela forma que qualquer pessoa julga que é possível acontecer dado o que disse atrás: foi ela que avançou, foi ela que quebrou o gelo da cautela que me envolvia, foi ela em quase tudo e só depois fui eu.

Ainda hoje, que já passou algum tempo, penso, por vezes, qual terá sido o momento exacto em que ela, a Marta, saiu do campo do seu faz de conta erótico para entrar no campo da nossa realidade amorosa e penso que talvez desde sempre as coisas entre nós se passassem neste nosso campo agora aqui definido.

Talvez ela estivesse também receosa, não sei, tal como eu estava.

Enfim...há muita coisa que é possível mas não há nada que eu possa afirmar como certo.
Mas as coisas depois não se passaram como nos contos de fadas: fomos muito felizes, sim, essa parte existiu, mas não tivemos nem muitos meninos nem felicidade para sempre e tudo acabou percorrendo o caminho inverso daquele como tudo tinha começado.

E eu também não sei qual o momento exacto ou a razão exacta, se é que nestas coisas há razões, para que tudo tenha acabado. Posso supor mas não há nada que eu possa dizer com certeza.

E hoje, sentado nesta esplanada à frente da qual tantas mulheres e tantos homens passam e estando eu pensando em mim e na Marta, penso que eles, aqueles que por aqui passam, todos eles, sabem os momentos exactos em que as coisas começam e sabem os momentos e as razões, quando as há, para que as coisas acabem. E eu acho que talvez nunca o saiba.

Daniel Teixeira


O café suspenso - Conto de Daniel Teixeira

O café suspenso - Conto de Daniel Teixeira

O homem espreitou pela porta entreaberta e perguntou ao senhor do balcão se havia algum café suspenso que ele pudesse tomar e este respondeu-lhe que não havia nenhum café suspenso mas que ele podia arranjar. Ele que entrasse, disse-lhe.

A pastelaria estava vazia e o senhor que estava atrás do balcão e que limpava copos com um pano branco perguntou então ao homem que tinha já entrado se ele não queria outra coisa, talvez uma sandes e um galão, disse.

Ele disse que sim, o homem, disse que agradecia. Não lhe disse, nem iria dizer a ninguém que não fosse um mendigo como ele e se isso calhasse em conversa, que era já o quarto café que pedia nos estabelecimentos da zona e que até ali não tinha encontrado nenhum café suspenso.

Agora tinha ali a sorte de lhe sair uma oferta de uma sandes e um galão em vez de um só café, como buscava, o que era bem melhor, conforme também tinha dito o senhor que estava atrás do balcão. E era verdade, certo que era verdade.

O facto de ser aquele o quarto estabelecimento onde perguntava por um café suspenso, era coisa para ele pensar para si mesmo ou para falar com outros amigos mendigos se calhasse a jeito porque estas e outras coisas menos boas os mendigos não dizem a ninguém que não seja mendigo.

E não dizem a mais ninguém senão a mendigos, explicava-se ele a si mesmo enquanto ia entrando na pastelaria, porque se o dizem ninguém os ouve e se os ouvem fazem como se não ouvissem. 

Nada deve ser mais insignificante para aqueles que não são mendigos do que as palavras de um mendigo, porque só os mendigos entendem os mendigos. Ele sabia bem isso quase desde sempre. Os outros, os que não são mendigos, têm muita coisa em que pensar e se jogam uma moeda para o boné que ele mete no chão fazem-no quase mecanicamente, sem consumirem uma nesga do seu pensamento.

No fundo devem ter pensado um dia, há muito tempo já e isso ficou-lhes gravado na memória reflexa para sempre, que um ser que arrasta a sua miséria pelas ruas tem não um dom mas o defeito de ser pouco visível, de não contar mesmo como gente.

Por vezes, pensava ele, que se retirasse o boné do chão à sua frente ninguém notaria que ele estava onde estava. Gostava de pensar assim estas coisas, que seria, sem o boné no chão, um obstáculo a contornar assim como se contorna um cesto de papéis ou uma caixa de cartão abandonada no solo.

No último café onde tinha assomado o homem do balcão até o tinha insultado, e esse tinha mesmo reparado nele ao contrário dos outros dois anteriores que responderam com um curto «não» à sua pergunta por um café suspenso. Tinha esse homem corrido em direcção a ele vindo lá do fundo contornando as mesas mas a presença dos dentes afiados do seu lobo, como ele lhe chamava, levou-o a recuar vociferando. «Deixa, Lobo, não vale a pena...» disse então ele ao cão afagando-lhe a cabeça e puxando-o pela trela.

Ali, onde agora estava sabia que era bem melhor, o galão, é claro: era cedo, para aí sete horas e pouco da manhã e desde o jantar na Misericórdia às sete da véspera ainda não tinham comido nada nem ele nem o lobo que aguardava obedientemente na rua, perto da porta e à volta dos sacos.

Tinha passado a noite no local do costume, entre as escadas e o vento frio que enregela os ossos e tinha dormido aos poucos uma hora agora, meia hora depois, respondendo por vezes aos rosnares do lobo, que dormia e fazia a guarda dos poucos haveres de ambos.

Fazia-lhe uma festa na cabeça logo que se apercebia que era falso alarme, mas noutros dias nem sempre era falso alarme. Mas os dentes do lobo e o seu corpanzil metiam respeito mesmo.

Havia bêbados e meninos mimados que se aproximavam por vezes e até mesmo outros mendigos recém chegados à cidade ou de outras zonas daquela que frequentava e que não respeitavam nada nem ninguém.

Os bêbados, os meninos mimados e os mendigos estranhos eram quase iguais para ele, tinham quase o mesmo valor que para ele era nada. Mas eram um nada diferente daquele que ele era, como mendigo, porque há várias formas de se ser nada.

Era assim, grande e sempre vigilante o seu lobo, como lhe chamava. Já havia anos que o tinha encontrado, magro e sujo e cheio de fome e frio numa ruela escura catando o lixo de um contendor e fora amizade à primeira vista, como costumava dizer para si mesmo. Ele e o lobo naquela noite estavam ambos sozinhos neste mundo e cada um deles precisava do outro. Foi assim que isso começou.

Cuidara dele como pudera, aos poucos foi tratando da papelada, das vacinas e hoje estava tão legal como ele se é que ele estava mesmo legal o que nem sempre sabia porque nestas coisas um mendigo tem um estatuto à parte, bem mais exigente do que aquele do comum dos cidadãos.

Tinha estudado e lembrava-se bem que havia um autor que tinha dito que havia seres humanos que eram mais iguais que outros, mas sempre que pensava nele, como agora estava a pensar, dizia para si mesmo que ele se esquecera, esse autor, que para além desta desigualdade entre iguais havia ainda mais desigualdades. Na verdade há desiguais que são mais desiguais ainda que outros desiguais e ele reaprendia isso todos os dias.

O senhor fez então a sandes e o galão e disse-lhe para ele se sentar ali mesmo, ao balcão. Sempre estava melhor, acrescentou enquanto olhava para a montra e via o cão espreitando cuidadoso. Perguntou então se o cão era dele e ele disse que sim acrescentando que ele não ia entrar na pastelaria, que estava bem ensinado.

Mas não era isso que o senhor da pastelaria queria saber e acabou por lhe perguntar se o cão não teria fome também e o sem abrigo, que era ele, respondeu que lhe ia dar a metade da sandes que tinha posto de parte no prato.

Pode comer a sandes toda , disse o senhor do balcão que devia ser o dono do café, que eu arranjo-lhe qualquer coisa para o cão. E abriu uma porta que estava por detrás do balcão e começou então a juntar numa embalagem de alumínio alguns rissóis arrendados e pastéis de carne, daqueles compridos cobertos de pão ralado.

Eram da véspera acrescentou o dono do estabelecimento - só podia ser o dono, pensou - mas estavam bons, ele mesmo os comia durante o dia porque a clientela só quer coisas frescas e a brilhar. E ele, o mendigo, não gostava de falar muito com pessoas assim, que não fossem tão desiguais como ele, mas balbuciou então que sim, que estavam mesmo com bom aspecto, os rissóis e os croquetes.

Acabou de beber o galão e de comer a sandes e encaminhava-se já para a porta com a os pastéis que dariam para ele e para o cão ao mesmo tempo que ia agradecendo - isso dizia sempre - quando o homem saiu de trás do balcão e lhe disse para esperar um pouco ao mesmo tempo que metia a mão num bolso das calças e dizia «Tome lá dez euros, não é muito mas é o que posso dar a esta hora, ainda não fiz nada de caixa.»

O mendigo pensou se devia ou não devia aceitar mas não podia recusar também, ficava mal e ainda disse que era muito, mas o homem meteu-lhe mesmo os dez euros na mão e regressou para trás do balcão.

Chegado à rua tratou de dar logo dois pastéis ao lobo e já a meio da rua, enquanto arrastava os sapatos na calçada, disse ao lobo no tom peremptório que ele entendia bem:

«Não vamos voltar aqui, lobo, nunca mais. Nunca mais, ouviste!?» e como se ele, o lobo, ainda lambendo a boca e olhando para ele lhe tivesse perguntado porquê respondeu-lhe: «As pessoas que dão muito mais do que aquilo que se lhes pede, não são aquilo que parecem e nem são boa gente. Têm, sim, muito contrabando na alma que querem que lhes seja perdoado!»

Daniel Teixeira

quinta-feira, 3 de julho de 2014

O cavalo preto - Conto de Daniel Teixeira

 
O cavalo preto - Conto de Daniel Teixeira
 
Ali, à minha frente, havia um cavalo preto que rodava. Depois veio um pequeno cão que ladrou correndo desde o portão todo verde escuro da casa amarela. E ali ficou ladrando, perto do cavalo preto. Indiferente, na sua majestade, pensei eu, ficou o cavalo. E eu pensando o que o cavalo não poderia pensar: o que representará para um cavalo um cão pequeno que ladra?
 
Nada, um pequeno cão ladrando a um cavalo não deve representar nada porque não há nada para ele lhe poder representar: o que interessa ao cavalo é a sua quase mecânica do pastar e aquele resfolgar reflexo que afasta o cão poucos metros cada vez que ele irrompe.
 
Era lustroso o pescoço do cavalo. O pescoço e o dorso e o cavalo todo brilhavam sob o sol já fraco do entardecer. E as suas crinas eram lindas. Pareciam ondas brilhando no claro escuro do vento derramando-se sobre o seu pescoço e a sua testa. Era um belo cavalo, sim senhor, era mesmo um belo cavalo.
 
Era ainda cedo para o cavalo, sei que era cedo, porque os cavalos que pastam recolhem-se ao por do sol e aquele era sempre recolhido ao por do sol. A rapariga vinha, punha um cabresto de corda no cavalo, arrancava a estaca, enrolava a corda à volta da estaca e saltava para o dorso do animal.
 
Mas era cedo para ela vir e talvez já não fosse assim tão cedo para mim. Quase todos os dias a via, calças azuis, botas de feltro, quadris bem modulados e uma blusa ligeira que me fazia adivinhar-lhe os bicos dos seios. De andar resoluto, compenetrada, nunca olhava para cima, para mim. E eu tanto olhava para ela.
 
Ali, atrás de mim e em nossa casa, a Cynthia esforçava-se para se despachar e o telemóvel não parava de ir tocando: uma, duas, três, cinco, dez vezes, talvez, ou mesmo mais. Íamos a um jantar de amigos, e cada um deles ou delas marcava o ponto telefonicamente. Acho que o faziam várias vezes, cada uma delas ou cada um deles.
 
Eu só ouvia a voz da Cynthia, por vezes abafada, por vezes nítida e o bater dos seus sapatos no soalho.
 
Tínhamos combinado, talvez juntássemos meia dúzia de casais, era o que estava previsto, mas há sempre quem falte e quem traga mais gente e por isso nunca se sabe. Depois haveria uma volta pelos bares, uma discoteca, talvez. Haveria como sempre quem bebesse muito, isso era certo. Acontecia sempre.
 
Cada vez que eu perguntava quanto tempo demorava ainda a Cynthia respondia que estava quase, mesmo quase, mas nunca estava quase. Havia eu a perguntar e o telemóvel a tocar, e o vestido a acertar, e a maquilhagem a compor e os sapatos a escolher. Mas de todas as vezes que eu lhe perguntei ela respondeu sempre que estava quase.
 
E o cavalo que estava preso por uma corda ao pescoço parecia estar desinteressado do cão, do cão pequeno e do seu ladrar e o objectivo dele, como sempre que eu o via, era ir além do círculo de pasto que a corda lhe permitia. A estaca no solo fazia o centro da sua circunferência permitida mas ele queria ir além, para além desse circulo permitido.
 
O cão também tinha um espaço limitado, ficava a cinco seis metros do cavalo. Mesmo que lhe ladrasse respeitava-o. Cada um cumpria a sua função: o cavalo pastava, o cão latia e a moça viria sempre buscar o cavalo ao por do sol. Eu também tinha a minha função: olhava simplesmente e não fazia nada... Esperava pela moça que vinha buscar o cavalo e pela Cynthia.
 
E o cavalo sempre a forçar a corda, a querer sair do círculo. Não vais sair daí, não, dir-lhe-ia se ele me entendesse. Mas talvez não lhe dissesse. Ele almejava o outro pasto que era igual ao que ele tinha no interior do circulo, tinha esse desejo. Porque iria eu dizer-lhe uma coisa que ele não iria entender mesmo que entendesse as minhas palavras?
 
A Cynthia saiu então para a varanda: estava pronta, íamos embora, íamos jantar com os amigos. Pelo caminho falaríamos de coisas que por vezes interessam e outras vezes não interessam.
 
E ao longe lá vinha a moça que cavalgava o cavalo preto. Era perto que ela morava. Ela e o cavalo. A blusa ligeira colava-se-lhe ao corpo com a brisa ligeira da tarde quase noite e ela sacudia a cabeça para ajeitar o cabelo.
 
Despachou-se demasiado cedo, a Cynthia.
 
 

segunda-feira, 21 de abril de 2014

O sorriso - Conto de Daniel Teixeira

O sorriso

Aquele sorriso, naquele dia e naquele lugar não foi igual aos outros sorrisos que ela me sorria. As coisas estavam diferentes naquele momento, certo, mas nunca esperei que ela sorrisse, naquela altura.

Não pensei também que ao fazê-lo, o sorriso, o fizesse daquela maneira, duma maneira que eu tenho dificuldade em descrever de forma a ser percebido pelos outros, que são vocês.

Mas foi um sorriso tão bonito quanto todos os outros que ela me deitava quando eu passava e a encontrava à janela, isso posso assegurar. Encontrava-a sempre à janela quando chegava e quando partia em direcção ao barco. Porque havia um barco que me trazia e me levava todos os dias e eu então passava sempre na rua onde ela estava à janela e onde ela me sorria.

Naquele dia e naquele local, que era diferente da sua janela, foi um sorriso diferente, um sorriso daqueles que se fazem quando acreditamos que o outro a quem sorrimos está a brincar connosco, com ela, neste caso, um sorriso que responde a uma brincadeira, a uma frase que se acredita ser dita e não valer, não ter conteúdo.

E eu disse-lhe que tinha de lhe ver a mala, a sua mala de mão e ela riu-se, com aquele sorriso, assim, e nada mais, sem parar o seu andar, sem uma palavra, só aquele sorriso, lindo como todos os outros sorrisos que ela sorria na sua janela, mas diferente, havia uma diferença e eu reparei bem nisso.

Para mim foi melhor que as coisas se tivessem passado assim. Eu não tinha vontade nenhuma de lhe vasculhar a mala de mão. Acho, sempre achei, que não se olha para dentro das malas das senhoras, que contêm por vezes coisas que são íntimas, que fazem parte da intimidade, mas estávamos ali para isso, para ver o que toda a gente levava em sacos e em malas.

Era estúpido, pensava eu, mas fazia parte do protocolo, foi o que disse o capitão naquele dia. Estávamos em estado de emergência, o estado de emergência tinha sido declarado e nós tínhamos de revistar toda a gente que se deslocava - podiam levar armas - disse o capitão. Continuei a achar estúpido mesmo depois de ele ter dito isso e foi com alívio que a vi sorrir daquela maneira e continuar pela passadeira em direcção ao barco.

Tinha um corpo lindo, ou pelo menos eu achava que era lindo e havia já entre nós aquele pouco mais que quase nos levava a uma cumplicidade. Quantas vezes eu a cumprimentei enquanto passava e quantas vezes a vi responder-me sorrindo enquanto eu ia prometendo a mim mesmo que no dia seguinte, o tal dia seguinte que nunca acontece no dia seguinte, que nesse dia seguinte iria falar um pouco com ela. E ela era linda.

Se eu tivesse insistido para lhe ver a mala de mão, certamente esse dia seguinte em que eu iria falar com ela e que nunca tinha acontecido nunca aconteceria, mesmo, acho eu. Não sei mas penso que ver a mala de mão dela não era nada bom para uma relação que eu e ela, se calhar, almejávamos.

Poderia nunca acontecer e eu nunca falaria com ela, nunca começaria aquela relação que eu ia imaginando ser possível. Como era possível admitir sequer que a senhora levasse uma arma? Era uma senhora mesmo, tinha porte de senhora, talvez com trinta anos, não sei.

Provavelmente viúva, pensei eu sempre, talvez viúva de um colega meu que tivesse caído no Ultramar, pensei, imaginei, não podia ser outra coisa, ela era certamente viúva de um militar que tinha falecido de armas na mão combatendo não se sabe bem o quê nem porquê.

E isso era respeitável, mais respeitável ainda, achava eu, temos sempre muito respeito pelos nossos falecidos que são assim como que maiores que nós que estamos vivos.

E eu tinha querido ver-lhe a mala de mão para procurar uma arma, uma pistola, uma coisa que tinha de ser pequena para caber na sua pequena mala de mão. Felizmente ela sorriu e continuou o seu caminho, foi bom para mim, muito bom mesmo, fiquei com a minha consciência tranquila.

Mas havia o protocolo que era preciso seguir, foi o que disse o capitão, havia o protocolo e estávamos em estado de emergência, tínhamos de ver tudo o que as pessoas levavam e já tínhamos confiscado uma espingarda de caça a um caçador já velhote.

Ele bem protestou, coitado, mostrou a carta de caçador e tudo, a licença da arma, e até o farnel para a manhã seguinte, ia para a zona de Coruche, foi o que ele disse mas era assim mesmo, estávamos em estado de emergência e ele podia ir levantar a arma ao quartel passados uns dias.

Por isso, porque estávamos em estado de emergência, fiz sinal a um soldado que estava lá mais à frente na passadeira e apontei para a minha platónica namorada dos sorrisos à janela e ele abriu-lhe a mala e não foi nada simpático não.

Acho que ela nem soube que fui eu que fiz o sinal ao soldado, penso sempre isso, tenho de pensar, porque ela continuou nos dias seguintes a sorrir-me à janela, com aquele sorriso lindo. Mas para mim deixou de existir aquele dia seguinte que nunca acontecia em que eu lhe iria falar à janela.

Daniel Teixeira

quarta-feira, 2 de abril de 2014

A estranheza - Conto de Daniel Teixeira

 
A estranheza
 
O Vasconcelos vivia numa habitação toda em madeira – tinha-me dito o homem já com ar de reformado que andava por ali e tinha uma enxada – e era em madeira polida, vi eu depois, era em madeira polida e brilhante, onde o sol batia naquela hora em que lá fui e onde quase se via a nossa imagem na parede.
 
Era uma casa que parecia não ser uma casa ali posta para que pessoas vivessem nela e se sentissem bem embora tudo estivesse bem, tudo estava certo e a casa era perfeita mesmo, bonita, mas mesmo assim dava aquela sensação de ser provisória. Não parecia um lar, não era um lar mas quem ali vivia talvez visse nela um lar, não sei, nunca soube.
 
Depois, quando o vi a ele, Vasconcelos, quando o vi tal como ele era fisicamente, a sua casa acabou por se tornar também tão esquisita quanto ele, coisa que eu talvez nem reparasse ou não pensasse muito nisso se ele tivesse uma figura normal.
 
Talvez por ser em madeira, por estar implantada sobre estacas, por se verem as suas fundações logo ali, por elas darem aquela sensação de nudez estrutural, aquela sensação de vazio, aquela sensação de ser, não sendo, uma casa.
 
Aquela casa não parecia uma casa onde pudesse viver outra pessoa senão ele mesmo, o Vasconcelos e ele, com a sua quase nudez, talvez ele a considerasse um lar. Mas nunca lhe perguntei e nunca fiquei com a sensação de que ele pensava isso. Acho que não, que não pensava isso.
 
A estrutura de uma casa como a estrutura de uma pessoa devem ficar escondidas pelos tecidos, pelos acabamentos, ficando assim tudo o que é das suas fundações coberto e de forma a que se veja aquilo que faz de uma casa uma casa e de uma pessoa uma pessoa. Uma casa e uma pessoa devem mostrar a sua forma, não os seus ossos.
 
Ele não tinha culpa, era assim mesmo, era um resto de homem ou aquilo que resta num homem com uma doença grave, daquelas doenças que transformam as pessoas numa parte reduzida do que elas já foram. Ele nada podia fazer contra isso, era certo, mas ficava com aquele ar de nudez interior e de fragilidade, expondo os seus ossos cobertos apenas por uma pele finíssima com as veias muito vermelhas.
 
Nele, Vasconcelos, estava tudo logo ali, era uma coisa que eu preferiria não ver mas estava tudo mesmo ali, era impossível ver o Vasconcelos, olhar para ele sem ver isso. Tal como a sua casa ele também mostrava a sua estrutura e só a estrutura. Embora pudesse dar-me pena isso não evitava que eu o achasse esquisito, exposto, permeável.
 
Havia, na casa dele, uns blocos rasteiros que pareciam ser de cimento, cuidadosamente pintados de branco como que a dizer que «aquilo» era um acabamento. Nele, Vasconcelos, não consegui ver nada que me dissesse o mesmo, nem nos seus olhos que eram mortiços, nem nos seus gestos que eram todos lentos, muito lentos.
 
Não era propriamente o esperado, não era aquilo que eu esperava, não era suficiente, os blocos de cimento muito brancos deviam saber isso, mas estavam acabados, lustrosos, geometricamente perfeitos e serviam de suporte às estacas. O Vasconcelos dava a sensação de finitude, de deperecimento. Os blocos brancos da casa queriam, pelo menos queriam, ser um acabamento, algo que se acrescenta, queriam ser o «a mais» do que já está feito.
 
Talvez tivessem razão para se sentirem orgulhosos, aqueles pequenos blocos de cimento: tinham uma função nobre, suportavam a casa e o branco muito branco da sua pintura queria dizer que ela, essa sua pintura, tinha sido o retoque final. Depois dela nada mais fora acrescentado àquela casa. Só o Vasconcelos.
 
Não teria mais de dois ou três anos a casa do Vasconcelos e sobre os blocos brancos de sustentação, havia um emaranhado de troncos cruzados que conseguia ser harmonioso, é um facto, tudo muito direitinho, mas mesmo isso não lhe dava aquele ar de estabilidade e durabilidade que havia nas outras casas que eu conhecia. Era mesmo uma casa só para ele, pensei de novo.
 
E é este o problema quando se mostram as estruturas, as nossas estruturas e na casa dele as estruturas da sua habitação. Nunca se devem mostrar as estruturas, nunca se deve dar mais essa margem ao observador. Talvez por pensar assim eu seja ficcionista e não historiador, por exemplo, ou cientista de alguma coisa que tenha de dissecar o real.
 
Opinamos sobre a beleza e sobre a solidez e isso não deve ser facultado ao observador, deve ser tapado, escondido, não se pode dar ao outro a possibilidade de ter muitos motivos para emitir opinião e sobretudo sobre estruturas porque é aí que ele vai seguramente colocar defeitos, porque as estruturas suportam as coisas mas não são as coisas. São o mais frágil que existe antes que uma coisa seja uma coisa.
 
E a casa tal como os ossos do Vasconcelos eram seguramente frágeis, sabia-se isso logo que se olhava para uma e outro porque nos mostravam desde logo a sua fragilidade.
 
As pessoas divagam quando são chamadas ou quando têm a oportunidade de opinar sobre o real e aqui a estrutura representava o real da casa do Vasconcelos, mas ele não representava o real dele mesmo, era uma parte do que já fora e nele não se podia sequer imaginar como tinha sido.
 
Para mim ele vivia numa estrutura de uma casa com uma casa em cima, pois era isso que a casa do Vasconcelos era. Ele não, ele era uma pessoa cuja fundação interior se dava a conhecer, que se expunha, expondo uma parte que era agora o seu todo. Nada mais havia nele além disso.
 
E ele tinha razões suficientes para estar ali, todas as razões, assenti para mim mesmo. Podia muito bem ser aquilo que queria ser: o escritor que se afasta do público, que prefere viver como um eremita social. Era a capa que lhe servia para esconder mais, ao fim e ao cabo servia para esconder tudo aquilo que ele queria esconder.
 
«Este é o meu refúgio – foi o que me disse o Vasconcelos – um dos poucos lugares onde me sinto bem, onde não sou olhado como alguém estranho.
 
Acho que as pessoas aqui nem sabem ou não querem saber o que é estranho ou acham que tudo é estranho, acho que deve ser mais isso… para eles tudo é estranho e acaba por deixar de o ser.
 
Para eles, para quem aqui está, nesta aldeia, o que seria verdadeiramente estranho seria verem as coisas de uma forma normal. Já pensei muito nisto, nesta indiferença das pessoas entre si por aqui … acho que este pessoal foi plantado aqui como o são as árvores: não são de cá, são espécies exóticas e nem querem ser de cá. Todos estão por aqui a fazer passar o tempo para se irem embora mesmo que isso lhes leve a vida toda… em certo sentido estão aqui e não estão. Por isso nada lhes interessa…»
 
E ele, o Vasconcelos, tinha toda a razão, achei eu nessa altura. Eu tinha perguntado sempre a várias pessoas naquela aldeia por uma pessoa magra e doente e todos me responderam de forma natural, como se fosse natural ser-se assim tão magro e tão doente.
 
Não vi nem senti nenhum sinal ou entoação que se contivesse em cada resposta seca que recebi. Era tudo linear, rememorei. Apenas o homem da enxada, aquele que eu já disse que tinha ar de reformado me olhou com mais estranheza que os outros todos como se todos dissessem a si mesmos que era muito estranho eu andar por ali.
 
Daniel Teixeira
 

domingo, 15 de dezembro de 2013

Explicação sobre a Elsa e eu - Conto de Daniel Teixeira

 
Explicação sobre a Elsa e eu - Conto de Daniel Teixeira
 
Depois de um muito longo período em que nada tenho escrito, em que não tenho escrito de facto, como estou a fazer aqui e como se costuma entender o que é escrever, hoje resolvi escrever-vos.

E hoje posso fazê-lo desta forma assim porque a Elsa vai estar fora uns dias. Ou talvez vá estar ausente para sempre. Na verdade eu nem sei para onde ela foi. Acho que ela me disse onde ia mas eu não me lembro bem.
 
Certo é que ela vai ficar fora pelo menos uns dias, a Elsa, isso eu sei porque ela arrumou as suas coisas numa mala e num saco e isso só se faz quando se está fora uns dias, pelo menos uns dias ou quando as pessoas se vão embora para sempre.

Talvez a Elsa tenha partido mesmo para sempre, mas como já disse isso eu não sei, e é para mim agora uma possibilidade como outra qualquer: ela ter partido por uns dias ou por semanas ou para sempre. Neste momento isso não é muito importante ou é pouco importante.

Talvez tenha ido ver a mãe ou tenha ido para casa da mãe, ela falou-me nisso há tempos, disse-me que talvez precisasse de um tempo para pensar sem eu estar por perto e que a casa da mãe dela era boa para isso, para ela pensar sem que eu estivesse perto.
 
Mas francamente não me lembro ao certo daquilo que ela me disse esta manhã logo cedo. Era mesmo muito cedo e talvez por ser muito cedo eu não tenha entendido porque estou acordado até muito tarde, escrevendo e não escrevendo, conforme vou explicar em seguida.
 
Escrevo não mostrando as letras e as palavras e não como agora estou a escrever escrevendo. E isto, o que estou agora a escrever e como estou a escrever a Elsa não vai nunca ler porque vou rasgar esta folha em mil bocados logo que acabe de vos dizer isto que estou a escrever agora. Vou-vos dar um tempo curto, talvez uma hora, talvez duas, não mais.
 
Talvez a Elsa não volte mesmo mas esta folha será na mesma rasgada em mil bocados porque eu já não me revejo nesta forma de escrita, mas dizer isto neste momento talvez não seja assim tão importante. O importante, o mais importante é aquilo que vos estou a dizer e que quero que leiam no tempo que vos dou.
 
Desde que a Elsa me disse aquilo deixei de escrever como sei que todas as outras pessoas escrevem. Mas sempre tenho escrito, quer dizer, tenho escrito não escrevendo no papel. E hoje resolvi ver desenhadas estas letras nesta pequena folha que vos mostro por ser esta a maneira, a única maneira que existe através da qual me podem ler.

Ora este texto é assim escrito por razões que não são fáceis de explicar e por razões que talvez eu mesmo não saiba ao certo. Talvez este texto exista assim porque eu sinta necessidade que me leiam ou talvez porque eu sinta necessidade de explicar às pessoas porque deixei de escrever de forma que elas pudessem ver e ler.

Isto mesmo que essas pessoas não se interessem por isso, não se interessem em saber estas minhas razões. Mas eu interesso-me, quer dizer, eu interesso-me em dizer isto que aqui vai escrito e que não sei se vai ser lido ou não. De qualquer forma fixo em duas horas o tempo de vida deste escrito.
 
Houve um tempo em que eu escrevia mesmo, e quando digo aqui «escrever» falo não só da forma como o estou a fazer agora mas também falo naquele sentido que eu considerava real, verdadeiro, genuíno, grande.
 
Para mim sempre foi grande, mesmo, lembro-me bem disso. Satisfazia-me, o que eu escrevia no papel, deixava-me satisfeito, muito contente, feliz. Era uma forma de escrever que sentia só ser conseguida se fosse mesmo escrita porque para mim não havia antes uma outra forma de escrever.
 
Agora há para mim uma outra forma de escrever que é escrever não escrevendo, uma forma que é diferente, uma forma em que o meu cérebro, a minha memória, guarda em si folhas preenchidas com letras que eu sinto mas não vejo.
 
Escrevo na minha cabeça, na minha mente e sinto-me agora e desde há um tempo sempre muito feliz também, quase como me sentia antes, quando escrevia escrevendo, mesmo não podendo agora ver exactamente aquilo que escrevo. Sinto-me, nessas alturas quase tão feliz como antes, foi o que eu disse, quase, e é verdade, mas não tanto como me sentia antes, há longo tempo.

Foi um tempo, esse, em que havia em mim quase que uma febre de escrever. Quando escrevia no papel, havia um aumento da minha tensão e agarrava o papel e o lápis e eu sorria muito, lembro-me bem, sorria e quase podia ver a minha cara toda ela sorrindo como se estivesse frente a um espelho.
 
E era, sim, um sorriso largo, era uma satisfação imensa, uma sensação de descoberta constante, permanente. A cada palavra eu descobria um fio de palavras e elas apareciam escritas como se nem fosse preciso eu pensar. Era uma coisa que agora não consigo explicar bem e que talvez não tenha mesmo forma de ser explicada nem escrevendo e não escrevendo nem desta forma que vos estou a mostrar agora.
 
Também desenhava, é verdade, eu também desenhava, não posso esquecer de dizer isso e sentia as palavras ou os traços escorrerem e construirem conteúdos e formas em que eu me revia revendo aquilo que fazia.

Hoje não sei se me revejo o tempo que julgaria necessário e suficiente naquilo que escrevo e naquilo que desenho. Acho mesmo que não, acho que o tempo em que mantenho na minha mente o escrito não escrito é curto, mas tudo isto é muito relativo também, tenho de convir, tenho de aceitar, porque escrever escrevendo também nem sempre permanece muito tempo.
 
Quer dizer as coisas escritas têm aquela perenidade material, ficam ali, estão como se costuma dizer impressas no papel para sempre só que de uma forma geral elas estão apenas ali e não são lidas, raramente eram lidas por mim de novo ou uma só vez que fosse por outras pessoas.
 
Por isso e em certo sentido estarem escritas ou não estarem escritas, desenhadas, acaba por ser a mesma coisa. E têm duas horas para me ler agora, não esqueçam.
 
Só que aí, neste caso e nos casos como este que eu escrevia, a gente sente o escrito como sendo duradouro, quase com o tempo de vida de um metal mesmo que saibamos que isso não é verdade. Nada que seja escrito dura assim tanto tempo e mesmo que durasse não serviria de nada porque ninguém lê. É mesmo  isso, um escrito é como uma rocha numa encosta, só existe enquanto olhamos para ela.
 
Nos meus escritos não escritos, antes de começar a escrever não escrevendo, não é como estou a fazer agora que estou a escrever encrevendo, sei desde logo que quase tudo aquilo que escrevo não escrevendo e aquilo que desenho não desenhando ficará depois perdido, e sei desde logo que tudo se vai perder por vezes aos poucos nas folhas da minha memória.
 
Mas sei isso desde logo porque sou eu e só eu quem intervém no processo, quer dizer, é o meu cérebro, é a minha memória, é a minha vontade que actuam. Faço o que quero e porque o quero.
 
Cheguei ao fim de longo tempo à conclusão que não vale a pena estar a escrever ou a desenhar, assim, dessa forma pensada ou mesmo desta forma em que as coisas ficam impressas, realmente desenhadas.
 
Contudo não consigo não o fazer, quer dizer, não consigo deixar de pensar que deito para fora de mim mesmo aquilo que penso, aquilo que idealizo, mesmo sabendo que tudo isso fique só para mim. E como já disse mesmo que eu o faça de uma forma ou outra vem tudo a resultar no mesmo, o escrito escrito e o escrito pensado.

Numa forma porque eu, com a minha vontade, os apago e noutra forma porque só eu os leio. E é isso, escrever de uma forma ou de outra acabam por ser iguais, acabam por ter o mesmo resultado. Um porque eu quero e o outro porque ninguém além de mim lê o que escrevo.
 
Acho que é melhor pensar assim, pensar que as coisas, essas coisas, essas palavras e essas imagens desaparecem para sempre. Por vezes também digo para mim mesmo que essas coisas nem sequer existiram, de facto.
 
Mas este escrito vai durar duas horas assim escrito, não mais como já disse, e tal como os escritos não escritos que eu apago este também depende da minha vontade. Vou deixá-lo existir por duas horas.
 
Lembro sempre, a cada dia, a cada minuto daquilo que a Elsa me disse. Ela disse-me que aquilo que eu escrevia só me ocupava o tempo e que aquilo que eu escrevia não tinha qualquer valor, era uma pura perda de tempo. E a Elsa disse-me também que eu devia deixar de escrever, para sempre, ela disse mesmo para sempre.
 
E eu disse-lhe que sim, lembro-me disso, disse-lhe sim das duas vezes em que ela me disse isso.
 
Eu gosto muito da Elsa e nunca quis perdê-la e ela dizia-me que assim a ia perder, quer dizer, que eu se não deixasse de escrever que eu a ia perder, que eu perderia a Elsa e por isso eu disse-lhe que sim, que podia deixar de escrever muito bem, com grande facilidade.

Por isso eu tenho escrito não escrevendo, quer dizer, escrevo na minha mente, na minha alma e tenho a Elsa comigo. Menos hoje, e talvez mais dias e talvez para sempre, não sei, mas certo é que vou continuar a escrever não escrevendo porque não posso deixar de o fazer.

Daniel Teixeira